ABISMO NEGRO (Partes I a IV)

AUTOR: JUNIÃO

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O ABISMO NEGRO

JUNIÃO


(Parte I) – OS TREZE CORPOS

Sábado, 18 de outubro de 1879, um pequeno grupo de escravos é descarregado em uma propriedade cafeeira no centro do interior paulista, onde poucos anos mais tarde seria fundada a cidade de Dourado. Cidade que jamais se esqueceria da história desses inocentes... Eram treze ao todo. Dois casais de adultos, oito adolescentes e uma criança de aproximadamente cinco anos. Estavam todos imundos, famintos, debilitados, doentes, infestados por parasitas e, principalmente, assustadíssimos. Sem maiores explicações haviam sido brutalmente arrancados de sua tribo no continente africano e amontoados como animais num navio negreiro, para uma desumana viagem de meses rumo a um destino certamente terrível, pela forma como se desenrolara até ali a triste jornada.

O visual geral do grupo era tão degradante, humilhante e assustador, que só foi possível a identificação do sexo de cada um após livrá-los dos poucos farrapos que cobriam parte dos seus corpos cadavéricos. Eles foram recebidos na próspera fazenda pelo todo poderoso Coronel proprietário e seus leais capatazes, na recém preparada senzala. Lugar esse que seria o lar daqueles infelizes até o dia dos seus últimos suspiros. Dando assim continuidade à condição subumana da viagem até ali e concretizando seus temores quanto ao destino... O fazendeiro havia sido convencido por outros produtores a aderir àquele tipo de mão de obra "barata”. Coisas da época: prosperidade eminente, futuro promissor, o preço do progresso, adequação à realidade de mercado entre outras. Por isso tudo resolveu experimentar, mesmo ciente da força que os movimentos abolicionistas ganhavam em todo o país.

Entretanto, ao deparar-se com tão nojento grupo de futuros trabalhadores, a decepção total estampou-se nítida e imediatamente nos avermelhados olhos do severo Coronel. O arrependimento somado a ruim sensação de engano tomou conta do enérgico homem, que precisava resolver o impasse ali mesmo, a qualquer custo. Certamente aquelas escórias dariam, entre outros tantos problemas, prejuízos com alimentação e medicamentos antes mesmo de trabalharem para conquistar tais "benefícios”, e isso não poderia acontecer. Mas só havia uma solução barata para o equívoco... A natureza presenteara aquele pedaço de chão com irretocável beleza. A casa do chefe dos capatazes situava-se à beira de um imenso vale, o que lhe proporcionava indescritíveis visuais de pôr-do-sol entre os verdes morros.

Algumas paineiras centenárias também davam seu toque especial à paisagem, assim como muitas outras árvores frutíferas. A senzala ficava um pouco mais ao fundo do lindo plano, coincidentemente ao lado de um igualmente maravilhoso, porém perigosíssimo abismo. Uma formação vertical de pedras, levemente encoberta por grandes arbustos e com mais de cem metros de queda livre. Diante da facilidade das circunstâncias locais o dono de tudo e de todos não hesitou, ordenou que seus colaboradores jogassem o "lixo" recém chegado precipício abaixo... E assim foi feito um a um os pobres diabos nus foram atirados para a morte, apesar dos confusos gritos de clemência.

Sem um julgamento justo , sem chance de defesa ou argumentação e sem ao menos entenderem o que estava acontecendo , foram todos condenados pela decisão momentânea de um único inquisidor, simplesmente arrependido por um negócio comercial mal feito.

Os fatos ali eram simples: sua autoridade no momento era absoluta e incontestável, alguns anônimos subnutridos não fariam faltos a ninguém e os corpos no fundo do abismo seriam rapidamente devorados por animais. Portanto não havia com o que se preocupar! A própria Igreja pregou por anos que negros não possuíam sequer "alma”... Então ele, fervoroso falso beato de atitudes contraditórias às bonitas palavras mencionadas nas missas, estaria em paz até mesmo com Deus. E apegou-se inclusive a isso para decidir com frieza os destinos dos treze imprestáveis. A criança foi à última a ser jogada. E exatamente ela nunca mais sairia das mentes de todos os ali presentes, coniventes com a barbárie. Os outros, por terem os corpos mais pesados, desceram arrebentando os galhos dos arbustos nascidos na íngreme encosta, terminando a queda com uma morte rápida. Trágica, induzida e inexplicada; mas rápida. Porém ela, a raquítica criança, enroscou-se no meio da dolorosa viagem... Seu corpinho leve ficou preso nas pontas dos mesmos galhos recém quebrados. Seguiu somente um trecho da trilha de sangue deixada pelos seus familiares.

Presa a um paredão em meio ao nada, ferida, bruscamente separada dos únicos a quem tinha na vida, com medo, com frio por também estar nua, faminta e desesperada, usou sua única opção: gritos de pavor! Gritos quase tão fracos quanto seu estado geral. Inúteis gritos de alguém que tão pouco ainda sabia sobre o mundo onde tanto sofria. Os homens responsáveis por tal indescritível sofrimento até se compadeceram ao assistir a cena da beira do precipício, mas nada mais podia ser feito por aquela indefesa criaturinha que, mesmo sem saber falar direito, implorava por socorro. O local era de dificílimo acesso e ninguém arriscaria a própria vida por "tão pouco”. Só restava aguardar que Deus aliviasse logo aquele terrível martírio. Como se ele a tivesse colocado naquela situação extrema. O que todos fizeram por ordem do patrão foi seguir normalmente com os trabalhos da fazenda, ignorando por completo os sons de terror vindos da encosta. Em algum próximo minuto aquele pesadelo terminaria, era só aguardar. Mas... os minutos foram se acumulando e o real pesadelo que todos viviam acordados não acabava. Diz a lenda que por três dias e três noites seguidas a pobre criançinha chorou compulsivamente e gritou pela mãe, logicamente sem obter resposta, tampouco auxílio. E nesse infinito período a sua lamúria ecoou por todo o imenso vale, tornando insones conscientes todos os trabalhadores e moradores locais.

As lacrimejantes palavras infantis, que tanto diziam apesar de desconectas, roubaram o sono até mesmo do "inocente" Coronel. Apesar da distância que ficava do fatídico local, nem a glamorosa casa grande foi poupada dos tais ecos que rasgavam o lindo vale. Os ecos que anunciavam a breve morte e que lembravam seus incompreensíveis motivos. E eis que em uma ensolarada manhã ,assim como tantas outras , tudo se quietou. Um frio silêncio tomou conta do lugar. Até mesmo os incontáveis pássaros, sempre tão estridentes, guardaram seus cantos de forma estranha. Como se não houvesse mais alegria a emanar. Pareciam saber... E ele, o poderoso Coronel, certo de ter se livrado totalmente dos empecidos vindos de outro continente, ordenou que todos esquecessem os acontecimentos e que seguissem a vida naturalmente. Porém, seguir a vida naturalmente era algo que nunca mais ninguém conseguiria por ali... Assim como não se consegue até os dias atuais.

O lindo lugar, até então abençoado, nunca mais seria o mesmo. Assim como não é até hoje... Negras sombras o cobriram. E ele, o Coronel de ferro, além de iniciar naquela linda manhã de silêncio ensurdecedor sua total decadência financeira e pessoal, também logo descobriria que a Igreja estava errada com relação a simples negros não terem "alma”. O passar dos dias e, principalmente, das "noites" lhe mostraria isso de forma tão cruel e assustadora quanto seu próprio julgamento. Pois almas arrancadas assim tão violentamente, e jogadas ao mundo dos mortos antes dos devidos momentos, podem se tornar irremediável e terrivelmente vingativas. Principalmente quando condenadas pela arbitrariedade prepotente de um simples vivo.

Desde esses horríveis momentos , em outubro de 1879 , até os dias atuais, a beleza natural da paisagem pouco se alterou. Porém as tais sombras que passaram a habitar o lugar não mais deram trégua a quem ali pisou. O forte Coronel, num momento de total desrespeito para com a vida de semelhantes, fez com que nem mesmo os raios de cada novo sol no lindo vale voltassem a iluminar o abismo. Tornando-o negro por gerações e gerações. Até mesmo para as presentes...

(Parte II) - O RECADO DA BENZEDEIRA

Apesar do cheiro de sangue no ar, os dias na grande fazenda se seguiram aparentemente calmos. Mesmo com os ecos dos gritos da desesperada criança ainda fortes nos subconscientes e da sensação de culpa generalizada que pairava, todos continuaram a viver normalmente. Como se isso fosse ser realmente possível... Porém, em um remoto canto da propriedade, escondido entre frondosas árvores, havia um casebre. Uma pequena construção de barro e bambus, coberta com sapé. Um verdadeiro retrato de simplicidade real. O fogão à lenha sempre aceso, visível de fora através da fumaça que saia da chaminézinha, dava o toque final e especial à aquele linda paisagem de paz. Mesmo sendo o piso de terra batida, entre outras sub-condições, o asseio e a organização prevaleciam. Nele morava uma senhora de baixa estatura e idade desconhecida. Vivia sozinha ali há muito tempo e muitas eram as lendas a seu respeito. Alguns diziam que ela falava até mesmo com os animais, esses que realmente que nenhum mal lhe faziam.

Diziam também ser filha de um poderoso curandeiro, que tinha livre acesso ao mundo dos mortos. Mas, independente das conversas, a verdade é que se tratava de alguém muito querida e respeitada por todos. Seus benzimentos e rezas curavam males que a medicina da época sequer conhecia. Filas enormes se formavam aos domingos em frente a sua casinha. Pessoas vinham de distantes lugares, muitas vezes enfrentando exaustivas jornadas em lombos de cavalos, em busca de seu auxílio. Auxílio jamais negado, nunca diferenciado e tampouco cobrado... Ela também era um retrato vivo da humildade ilimitada e do socorro imediato aos próximos necessitados.

Apesar da rigidez e avareza do poderoso Coronel, ele jamais se importou com aquela presença em seus domínios. Mesmo não rendendo ela as devidas cifras e lucros que deveria e que ele tanto amava, assim como todos os seus empregados locais, o fato era herança do pai já falecido e, portanto, deveria ser respeitado. Aliás, o senhor total do lugar tinha na verdade até uma dívida impagável de gratidão com a bondosa senhora... Ela havia milagrosamente salvo seu filho e esposa, em um parto repleto de complicações que por pouco não vitima ambos. Entretanto, o duro ser de pedra nem ao menos agradecera tal intervenção.

E eis que um dia estava o Coronel, sentado em sua cadeira na grande área da grande casa, fumando seu imponente cachimbo, quando ela surgiu em sua frente. Pés surrados e descalços, vestido velho e desbotado, tradicional lenço no cabelo e uma pequena trouxinha nas costas onde estavam seus pouquíssimos pertences. E com seu invariável suave tom de voz, que emanava a paz através de palavras, dirigiu-lhe: "estou me indo embora, sinhô doutô coroné, vim mi dipidi e desajá muita luz pá sua vida". O homem de ferro, espantado com a decisão repentina após tantos anos ali, retrucou seco e direto: "por que"? E ela, com calma e ponderação, foi ainda mais direta: "purquê as coisa vão ficá muitu ruim daqui uns tempo... O coroné num divia tê feito aquilo com aquela gente... Era tudu gente boa e humirde... Eles só pricisava de umas lasca de pão duro pá pará com a roncadeira das barriga e dum pedaçinhu di chão pá discansá os corpu cansadu... O sinhô doutô num divia tê feito aquela mardade... Agora eles num qué iscutá nem eu, eles tão com muito ódio nus coração e num qué imbora pá casa... O doutô num tem idéia du que a mãe daquela criançinha sofreu... A coitada tava tudu quebrada, mas mesmu assim tentô agarrá nus gaio pá subi e socorrê a cria que gritava nu arto du paredão di pedra... Morreu sofrendu e chorandu de tudu os jeito... Quis Deus que o sinhô num sintisse a dor qui é perdê um fio, mas feis os outro sinti isso... Ela, principarmente, tá muito nervosa... Pur isso, doutô coroné, vô mi embora... Já sarvei seu fio uma veiz, mas num vô consegui sarvá a segunda... Nem seu fio, e nem mais ninguém... Num tenhu mais o que fazê por aqui... O sinhô doutô coroné apagô tudas luz qui tinha nesse pedaçu di mundu"...

E o poderoso, espantado pelo fato da mulher conhecer a negra história obrigatoriamente tão bem ocultada dos que não estavam presentes no momento, foi ainda mais seco que nunca: "se quer ir embora , que vá... Mas vá calada, maldita inútil... Guarde essa sua ladainha para os tolos que te buscam!" Foi exatamente o que a benzedeira fez após o recado. Virou-se calada e partiu com algumas lágrimas insistindo em rolar. Lágrimas que pareciam dizer mais que todas as palavras do mundo juntas. Lágrimas que pareciam prever o breve futuro de trevas para todos os daquele lugar. E antes de sumir de vez entre as árvores e a poeira, fez mais alguns sinais da cruz . Mas já era tarde demais para isso...

(Parte III) - A IRA DOS MORTOS

Muitos são os conhecimentos que ainda não temos por ser inapropriado o momento. O tempo em outros planos vai bem além do demarcado pelos nossos simples ponteiros e medíocres calendários... E esse foi mais um dos graves erros cometidos pelo cético imponente Coronel. Certo de que o mundo girava mesmo à sua volta e convicto do seu poder supremo para decidir tudo ao seu próprio modo, por dois longos anos ele, fortalecido pela impunidade “divina”, zombou em todos os cantos das palavras proferidas pela velha bondosa senhora. As humildes palavras de preocupada advertência, deixadas antes da partida rumo ao horizonte empoeirado. Como a aterrorizante história havia se propagado de forma irreversível, após um tempo o impiedoso homem deixou de ocultá-la, fazendo desse cruel feito uma vistosa propagando da sua imagem de rigidez máxima nas decisões. Rigidez que imaginou ser futuramente benéfica em novas transações comerciais e em problemas com supostos outros empregados desregrados...

E por dois longos anos após o “recado” de fato nada de grave aconteceu na imensa propriedade, fazendo com que todos os moradores locais se rendessem por completo e temessem ainda mais o real poder supremo do seu intocável Senhor, que até a tal “curandeira” enfrentou sem receio algum dos ecos dos seus atos. Por essa afronta a pobre benzedeira chegou até mesmo a ser desacreditada e igualmente zombada por pessoas quem há não muito havia auxiliado com sua fé ilimitada. O caminho do bem é um eterno teste aos bons, pois muito tem que ser suportado. Principalmente a ingratidão... “Ninguém pode com o Coroné”, era o que ecoava por toda a região. Porém, em uma noite de forte tempestade e raios que rasgavam o céu como navalhas brilhantes no negro cetim, algo de muito ruim deu seus primeiros sinais de existência.

Foi como se “eles” tivessem saído de um pesadelo para entrar em outro. Para iniciar um outro, carregando consigo mais personagens dessa vez. Foi como, de alguma forma e em algum lugar, “eles” tivessem se conscientizado do sofrimento máximo lhes proporcionado e, apesar das intervenções devidas dos devidos interventores, não superaram o ódio mortal que vertia de seus sofridos corações. A “ira” lhes dominara. Optaram então por extinguir totalmente a luz e condenar ao eterno escuro não somente as suas existências espirituais, mas também a de todos os seus inquisidores ainda mortais, habitantes próximos ao abismo dos gritos. Local que um dia fora... belo. Na noite da assustadora tempestade, que não amenizava nem com as fervorosas preces e inúmeras velas acesas pelas devotas domésticas senhoras, em um momento todos os cachorros da fazenda começaram a uivar ao mesmo tempo. Sofridos e altos uivos de dor, como se todos estivessem sendo espancados simultaneamente. Aterrorizados com a própria tempestade e com os horríveis sons, nenhum dos devidos donos foi ao socorro dos mesmos. Na manhã seguinte o quadro inexplicável: vários dos animais estavam esquartejados. Alguns ainda viviam, mas agonizavam entre suas próprias entranhas e outros, de sorte maior, haviam desaparecido sem deixar rastro. O clima de terror somou-se as inúmeras lágrimas, principalmente por parte das crianças - companheiras diárias de alegre e única diversão que a vida pobre da roça lhes proporcionava.

“Deus misericordioso, o que terá acontecido?”, ecoou por todos os lados com a mesma intensidade imediata dos outros tristes fatos. Com exceção do há tempos esquecido e já desapercebido sumiço generalizado dos pássaros, no mesmo dia da brutal condenação dos inocentes escravos, esse estranho acontecimento fora o único motivo para a sangrenta história ser desenterrada das mentes dos locais, trazendo de volta as lembranças que ainda feriam como fogo. Quando se deve, se teme. E quando o inexplicável entra em cena, o medo do que se fez faz com que o próprio medo se torne o único e verdadeiro senhor em qualquer situação... E, apesar do “comprovado e indiscutível” poder do Coronel, naquele mesmo dia alguns apavorados roceiros e suas tementes precavidas famílias seguiram os mesmos passos da quase esquecida benzedeira, desaparecendo no horizonte sem nem despedidas. Sorte dos que se foram, pois os que ficaram não imaginavam tudo que ainda veriam e o que sofreriam. Mal sabiam que poucos viveriam para contar tudo o que ninguém jamais acreditaria...

(Parte IV) – CEDO OU TARDE OS MORTOS NOS ENCONTRAM

A reação do poderoso Coronel diante do massacre dos animais foi óbvia: fria. “Bobagem. Coisa de algum outro animal. Cada um enterre o seu bicho e não se fala mais nisso”, disse ele convicto para os muitos não tão convictos assim moradores da fazenda. A imagem conquistada de inabalável e não temente a nada não deveria ser arranhada por coisa pouca. Porém, mais uma noite se aproximava rápido... Com o sumiço do sol no horizonte veio à escuridão, mais sombria que nunca e atípica pela ausência da lua em um período em que ela costumava dar seu show particular pelo esplendor nas aparições. Ela não apareceu, mas algo não tão bela quanto veio em seu lugar...

A rotina do Senhor local era sempre a mesma: após o jantar ordenava que as servas se retirassem e que sua esposa e filho fossem para a cama. Enquanto isso saboreava sozinho um caro licor acompanhado por seu inseparável cachimbo. Sozinho na imensa sala da grande casa, decorada por móveis de madeira nobre e livros que jamais leu, ficava até altas horas pensando em como ampliar seus lucros, independentemente da crueldade dos caminhos para tal. De repente uma forte e barulhenta corrente de vento de estranha origem varreu o local, imediatamente apagando todos os lampiões e lamparinas e envolvendo tudo num breu indescritível. Sem que o cruel homem pudesse esboçar reação uma voz macabra e assustadora ecoou pelo escuro: “encontrei você, maldito”... “Quem está aí? Ordeno que se apresente já!”, retrucou ele com a típica arrogância de sempre. “Não se lembra de mim, maldito?” “O fato de não poder me enxergar em nada muda as coisas. Eu posso vê-lo perfeitamente, maldito. Eu posso vê-lo, pois as sobras são agora o meu lar... E foi você quem me presenteou com tal destino!”, prosseguiu a anônima aparição. Alguns segundos de silêncio se seguiram. O Coronel, em virtude da total falta de visão, continuou sentado em sua poltrona trono sem saber o que fazer. Tampouco o que... pensar.

A única sensação de que tinha certeza era a de que alguém o circulava em posição de superioridade, como se aguardasse o momento ideal para um golpe fatal que viria do desconhecido. “Mas não tenha ainda tanto medo, maldito. Não vou matá-lo já. Demorei demais para encontrá-lo e não quero acabar com a sua dor tão rapidamente. Você nos mandou para um lugar distante e lá algumas pessoas tentaram impedir que nós te achássemos. Por um tempo até conseguiram ocultar seu rastro. Mas, para a minha alegria em especial, você é demasiadamente odiado em todos os cantos. E foi exatamente essa inocultável trilha por você mesmo deixada nessa vida que me trouxe aqui”, continuou a explicativa inexplicável voz. “Pare já com isso! Eu ordeno!”, insistiu o poderoso na inútil tentativa de assumir o controle da situação. “Grite maldito! Grite mais alto! Grite assim como nós fizemos suplicando clemência pelo que não sabíamos! Grite, mas suas ordens satânicas de nada mais servirão e não mais serão obedecidas em lugar algum!”, prosseguiu o eco. “Você deveria ter poupado pelo menos a minha pequenina cria, a mais inocente de todos os ali presentes no seu julgamento. Agora inocentes pagarão nos dois mundos, inclusive essa que aí vem, assim como a cria dela”... Nesse mesmo minuto outra corrente de vento varreu novamente o local derrubando coisas e acompanhada por um fortíssimo grito que acordou o Senhor do Engenho. E ela, assustada com o terrível barulho, empunhou a velha lamparina que estava ao lado da cama e foi ligeira ao quarto do filho. Pegou-o no colo e correu para a sala. Lá a fraca luz do apetrecho pouco venceu o breu, mas o que iluminou mostrou o Patriarca da família com o semblante mais aterrorizado da sua vida e lavado por suor. Nenhum dos três disse somente uma palavra, mas os olhos diziam muito...

Ao nascer do sol as histórias contadas entre lágrimas e de formas altas e desconectas se entrelaçavam no ar. Todos queriam sobrepor seus pavores. A propriedade lembrava uma nova Torre de Babel dos medos... Cada uma das várias casas dos colonos havia sido palco de algo sobrenatural. Gritos e gemidos perturbadores, louças ao chão, barulho de correntes se arrastando, janelas e portas que se abriram e fecharam sozinhas e coisas piores. E, entre todas essas histórias, somente uma coincidência era geral: as vozes de procedência desconhecida carregavam consigo palavras com acentuado sotaque da língua portuguesa original. O português falado em diversos países “Africanos”, colonizados por Portugal. Essa foi a única pista deixada por aqueles que surgiram da noite, para tornar um pesadelo cada uma das muitas outras noites por serem enfrentadas pelos “amaldiçoados homens do Coronel”. Entre eles, o próprio Senhor de Ferro com sua carga de culpa...

CONTINUA...

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