ABISMO NEGRO (Partes V a IX)

AUTOR: JUNIÃO

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O ABISMO NEGRO

JUNIÃO


(Parte V) – PERSEGUIDOS PELO MAL

Em meio ao pânico generalizado daquele amanhecer, evidenciado nos olhos de cada morador da propriedade, mais uma vez a reação do Coronel foi a esperada: ele escondeu a sua “negra” experiência pessoal e tentou coibir todas as outras com duras palavras e até ameaças. Porém, nem mesmo as suas duras palavras tinham mais a convicção tradicional. Sua boca vociferava, mas seu olhar contradizia as frases. Ao andar pela propriedade durante o período de trabalho, como sempre fazia ao lombo do imponente garanhão, ele também já demonstrava perceptivelmente certa “preocupação” com o que ouvia ao passar por todas as casas, nas lavouras e demais cantos da imensa fazenda. O dia seguiu-se turbulento e com gosto de medo, e o que as pessoas temiam não demorou a chegar: mais uma vez o sol se pôs no horizonte... Porém, a noite subseqüente foi diferente. Igualmente assustadora e inexplicável, mas diferente.

O que destruiu a paz do sono de cada um foram os fortes sons de tambores e clarões parecidos com relâmpagos, provenientes do fundo do abismo. Como algum tipo de comemoração ou algo parecido. “Comemoração” que se estendeu por toda a madrugada, findando somente diante do primeiro raio de luz matinal. E mais uma vez o amanhecer foi palco de apavoradas e desconectas conversas. Todos queriam alguma explicação, mas ninguém a tinha. Nem mesmo para acalmar a si mesmo, quanto mais aos alheios. “Tambores ritmados” não eram comuns na região. Em termos musicais o humilde povo local pouco mais conhecia além de sanfonas e violas. Festas eram raridades na época e uma “festa” naquele local era de total improbabilidade devido ao acesso quase impossível e a, até então, suposta falta de habitantes. Até mesmo os clarões vistos pelos assustados colonos, através das janelas entre abertas e dos buracos nos tetos sem forro, não tinham a devida razão, já que as incontáveis estrelas da noite limpa descartavam a possibilidade de raios naturais. E várias noites assim se seguiram. “Treze” para maior exatidão...

Entretanto, em meio a esse suposto pacto noturno de tranqüilidade, novos temores reais entraram em jogo. A propriedade começou a ser invadida por uma quantidade assustadora de cobras venenosas de diversas espécies. Diversidade incomum e jamais vista em outro lugar. Dia após dia mais e mais surgiam. Além de aranhas e escorpiões donos de venenos igualmente letais. Uma desconhecida praga também instalou-se sem prévios avisos e rapidamente dizimou a plantação de café – a cultura carro chefe e base financeira do até ali ainda poderoso homem mau. Muitos bois adoeceram de forma irreversível por motivos desconhecidos e outros tantos morreram sem a menor chance de socorro. As vacas seguiram o mesmo caminho e, com isso, a produção diária de leite foi seriamente comprometida. Produção que servia principalmente para consumo local. As crianças da condenada fazenda foram as primeiras a sentir no estômago o peso dos erros do patrão, impostos também aos seus manipulados pais. Mais uma vez o vento levou para longe os boatos e rumores.

Essa sucessão de fatos aterrorizantes ecoou por todos os lados e a fama da “maldição” ultrapassou muitos horizontes. Não era mais possível reverter a situação e o declínio iniciado “do dia para a noite” também não mais seria contido. Diante de tal quadro de horror, mais horror era a única certeza explícita que pairava no ar. O pavor máximo dominara por completo o lugar e viver ali passou a ser um cruel martírio. As horas do dia se arrastavam carregadas por incidentes cada vez mais comuns e a partida do sol trazia consigo a incerteza do que a escuridão proporcionaria de mal aos que não sabiam mais como se defender do que pouco compreendiam. A essas alturas dos fatos a história dos negros atirados para a morte jamais fora tão falada e temida. Diante de tantas “coincidências” era praticamente impossível não mais associar os sobrenaturais acontecimentos à tragédia escrava. Somente o Todo Poderoso ainda resistia e blasfemava por onde passava, em tentativas nitidamente desesperadas de manter o controle que sabia já ter perdido.

O dinheiro é pai do poder, e o poder normalmente faz com as pessoas percam os limites de até onde são realmente poderosas. E o maior erro que um desses inadvertidos pode cometer é acreditar que o “amanhã” jamais chegará. Não se barganha com a eternidade tampouco com o desconhecido, lá os valores são outros. A eternidade é justa e... realmente poderosa!

(Parte VI) – OS VERDADEIROS ESCRAVOS

Treze dias de agonia com cada novo desaparecer do sol no horizonte e treze noites de sono despedaçado pelo incessante som dos tambores vindo do fundo do abismo. E nesse período mais acontecimentos ladrões da paz e destruidores de sorrisos... Um a um, cada um ao seu modo, foi sendo “acorrentado” ao lugar. Todos os colonos, inclusive suas famílias, foram encontrando suas punições. Muitos inocentemente, mas a “ira” não reconhece tal termo... Com a invasão das criaturas venenosas, as picadas letais multiplicaram-se. Aconteceram com os homens nas lavouras e plantações, com as crianças desavisadas que brincavam descalças pelo campo como sempre fizeram, com as mulheres ao catar lenha para seus fogões, entre demais casos. Como a medicina da época era “artigo de luxo” e os recursos limitados, muitos foram atirados à cama sem o devido atendimento. Com isso assistiram inertes pedaços dos seus corpos – os locais das picadas – literalmente apodrecerem gradativamente diante dos seus olhos apavorados.

Vários outros terríveis acidentes de trabalho também roubaram a saúde motora e as condições para a lida de diversos colonos e colonas. Com isso as famílias se desestruturaram por completo. As coisas eram “simples” na vida do campo: os homens usavam seus braços o dia todo e sem folgas para o sustento do lar, invariavelmente deixando seus minguados salários nos armazéns pré-acertados. Enquanto as mulheres se arrebentavam nos igualmente sacrificantes trabalhos domésticos, além de cuidarem dos filhos. Tudo funcionava como uma absurda, porém necessária e conhecida engrenagem. Em resumo: qualquer um da família fora de condições para contribuir plenamente com suas devidas responsabilidades, complicava todo o contexto geral e, com isso, as portas se fechavam para novas oportunidades.

Os chefes do lar não poderiam partir sozinhos abandonando suas esposas doentes, mesmo porque o Coronel não assumiria tal pesado, eterno e inútil fardo que não lhe pertencia. Mulheres “solteiras” com suas trabalhosas crias e sem a imprescindível presença braçal dos seus maridos jamais seriam aceitas em alguma outra propriedade, numa época ridiculamente machista. Casais aptos, mas portadores do infortúnio em possuir um filho problematicamente doente também eram descartados, e assim por diante. Algumas famílias da fazenda maldita deram a “sorte” de não ter nenhum ente acamado e partiram. Porém, só encontraram portas fechadas por onde andaram. Como dito, a história já havia ultrapassado vários horizontes e nenhum outro coronel se arriscaria a aceitá-los em suas terras, com medo de “contaminá-las com a maldição” através dos “porta-vozes do Demônio”... Todos os que partiram foram sem um só tostão nos bolsos, já que a situação financeira do Poderoso Coronel também já dava sinais claros de apodrecimento a olhos vistos, por isso rodaram pouco e voltaram rápido. Voltaram esfomeados e desesperados para o único lugar que os aguardava.

Apesar do pavor, voltaram... Ninguém partia sem logo voltar e, pior, ninguém novo chegava. Com todos os irreversivelmente acamados e os que iam diariamente para a mesma situação, o duro trabalho da roça foi se acumulando pela falta dos braços incansáveis e degradando a propriedade diante do pânico silencioso do seu dono, impotente para resolver os gravíssimos impasses. O Homem Forte até andou pelas vilas da redondeza na tentativa de recrutar pessoal, mas na maioria dos locais não foi sequer recebido. Ele... Bem ele, o poderoso... O medo da “herança maldita” que poderia vir junto ao emprego, afastou a todos. Nem mesmo no já fundada e promissora cidade de Brotas, onde a mão de obra vinda de fora era abundante, ele conseguiu novos servos. A “fama” o precedia. A fama que o vento havia levado para muito longe. A fama que não mais se apagaria e que o destruía lentamente, como um veneno que mata devagar, deixando a vítima doloridamente agonizante por um período que parece não ter fim.

Ele, O Senhor de Todos, também já não mais conseguia vender os poucos magros bois restantes, nem as míseras sacas de café que as pragas também devoravam por falta de cuidados, nem... nada. Tudo referente a “ele” cheirava a sangue seguido por tragédia breve. Entre um gole de pinga e outro, numa venda do vilarejo da futura cidade de Dourado onde sempre entrou imponente e olhando a todos de cima para baixo, cogitou até mesmo em desfazer-se de um pedaço da propriedade para sanar alguns “pequeninos contratempos” – segundo ele mesmo, ainda nadando em orgulho -, mas nenhuma oferta de compra foi feita... Nenhuma! Ninguém da tal fazenda ainda havia percebido, mas estavam eles, “todos eles” verdadeira e irreversivelmente “acorrentados para sempre” àquele maldito pedaço de chão.

(Parte VII) – A DÉCIMA QUARTA VÍTIMA

O tempo não é o mesmo e a velocidade dos acontecimentos segue regras diferentes quando o inexplicável entra em cena. Na décima quarta noite tudo se “acalmou”. Mais uma vez um silêncio ensurdecedor envolveu o imenso vale, causando em todos uma horrível sensação de “o que acontecerá agora”.

Alguns vultos rápidos continuaram a ser vistos em diversos pontos e outros pequenos fatos estranhos se desenrolaram, mas nada mais tão explícito. Essa passou a ser a vida para todos naquele lugar: o que acontecia a olhos vistos causava pavor direto e dor, e o que não acontecia tornava o sofrimento por antecipação um fato também real e tão horrível quanto. O período das pragas, pestes e acidentes até que foi curto, mas o suficiente para transformar a propriedade num cenário épico de tragédia Bíblica. Os poucos animais restantes davam sinais claros de fim breve. Bois, vacas, porcos e galinhas, todos rastejando sem rumo e praticamente implorando pela morte. E, por tal situação, impróprios para o abate e consumo. O serviço não feito pelas incontáveis baixas no quadro de trabalho resultaram, entre demais nocivos resultados do abandono, no fim da vasta horta, também fonte de alimento do povo e até do próprio Coronel.

O mato começou a tomar conta por completo do lugar, dominando o espaço antes da lavouras. Com isso o quantidade de insetos proliferou-se assustadoramente, inclusive pela ausência total do controle natural : os pássaros. Pessoas, muitas pessoas acamadas na colônia, com suas lamúrias que soavam como uma horrível música geral de clemência e, certamente também desejo de morte... Os habitantes das outras fazendas da redondeza e do vilarejo próximo, antes sempre tão presentes nas dominicais visitas de “compadre”, não mais apareceram. Todos temiam partilhar da “maldição” por qualquer detalhe, inclusive pelo auxílio direto. Com isso a propriedade foi sendo isolada do mundo e a fome também rapidamente instalou-se ali, em virtude da seqüência dos fatos descritos. Os poucos homens e mulheres ainda em condições de trabalho estavam desnorteados e não davam conta de mais nada, e as ordens do Coronel se tornavam cada vez mais contraditórias. Ele era, obviamente, o mais sem rumo de todos. Até mesmo na vila Dourado o já não mais tão imponente não sabia o que dizer, tampouco o que fazer. Seu antes prestígio estava agonizante e, pior, seu crédito morto...

Enquanto isso “eles” continuavam quietos. Mais quietos que nunca. Como quem semeia um campo e fica pacientemente aguardando os “frutos”. O campo semeado com ódio e irrigado com lágrimas na fazenda isolada pela invisível cerca feita com sangue. Apesar de tudo, o Senhor do lugar ainda mantinha seus tradicionais hábitos. E em uma noite, não se sabe quantas após o início do frio silêncio das sombras, lá estava ele sozinho na grande sala da grande casa, com seu cachimbo e copo de licor caro; somente os pensamentos eram bem diferentes. Ali no momento não era mais questão de como ampliar os lucros e patrimônio, e sim de como não perder o pouco que ainda restava... Quando de repente a voz macabra mais uma vez rasgou a escuridão após outro repentino e inexplicável apagar dos lampiões: “O que há de errado, Rei dos Reis, já percebeu o quanto seu império está irreversivelmente podre?” “Cale-se, maldita, quem é você e o que mais quer de mim?”, gritou desesperado o homem. “Há...Há...Há...”, continuou a voz com ironia afiada e frieza máxima. “Vocês poderosos são realmente medíocres... Especulam, destroem, matam e articulam em benefício somente próprio, como se fossem mesmo donos do mundo... E, cegos pela ganância doentia esquecem-se que não como escapar dos ecos dos próprios atos... Esquecem-se que não existe dívida que não se pague... Cegos pela ilusão das riquezas não enxergam que nada mais são que lixo e que as tais imponentes riquezas não duram mais que um simples piscar de olhos nesse mundo... Mas as suas perdas apenas começaram... Hoje mesmo sentirá um pouco do que eu senti!”

Ao fim do assombroso discurso, a misteriosa voz calou-se. No instante seguinte o grito desesperado da esposa fez com que o Coronel saltasse ligeiro da poltrona para atendê-la. E lá estava a senhora, na porta do quarto do filho, diante de uma cama vazia... A criança tossira muito durante o dia e a preocupada mãe fora conferir o estado febril. Mas ele havia sumido. Imediatamente os dois muniram-se de lamparinas e armas e saíram gritando o nome da criança, rumo ao nada, em meio ao breu quase total. Porém nada mais encontraram adiante além do leal capataz, o que residia ao lado da senzala. O homem estava pálido, de joelhos e mal conseguia falar. Estava indo ao encontro dos patrões quando foi interceptado pelos mesmos. “O que foi, criatura? Diga-me logo !”, ordenou o Chefe. E ele, com o rosto banhado por lágrimas mostradas pelo pouco de luz que as lamparinas proporcionavam, titubeou aterrorizado, soluçando e gaguejando muito: “Seu filho, Coronel... Não sei como lhe dizer isso, mas ele foi arrastado por alguém e jogado no precipício.” Ao ouvir tal frase a Senhora mãe desmaiou. E ele, o Senhor pai, querendo não acreditar, irritou-se com a explicação do subalterno. “Mas o que você está dizendo, homem... Como pode falar uma besteira dessas !” E ele insistiu : “Eu vi com os meus próprios olhos, Coronel... Parecia ser uma mulher, negra, muito magra e maltrapilha... Eu os vi pois passaram ao lado da janela do meu quarto... Acordei com o som dos próprios gemidos ofegantes dos dois... Eu me vesti rápido e corri em direção, mas não cheguei a tempo... Eu a vi jogar a criança e sumir na noite como um... Como um... Fantasma!” O barulho acordara alguns outros colonos que, mesmo dominados pelo medo que a noite trazia consigo para ali, ajudaram na inútil busca até o amanhecer.

E mais uma vez o amanhecer local foi palco de dor. Mas dessa vez uma insuportável dor. Principalmente para a mãe... As marcas de arrasto no chão em direção ao abismo, alguns arbustos recém quebrados e restos das roupas do menino à beira do precipício mostraram claramente que a versão dada pelo capataz era... real, e não somente mais um pesadelo geral. As buscas até continuaram por todo o dia, mas os poucos colaboradores ainda saudáveis sabiam da triste e indisfarçável realidade. Aquela foi a gota d’água, ou melhor, gota de sangue para todos. Realmente não havia mais esperança para ninguém. “Eles” não descansariam enquanto cada um do maldito lugar não pagasse suas devidas dívidas. Dívidas estipuladas pela... “ira”. Aliás, talvez “eles” não descansassem nunca mais...

(Parte VIII) - O AMONTOADO DE OSSOS

O silêncio torturante continuava e envolver a propriedade como nunca. Porém isso não mais importava. A morte óbvia do filho do Coronel fora demais para todos. Principalmente em virtude de como acontecera... Esse fato foi o golpe fatal e final no pouco de bom senso que ainda restava nos poucos que ainda restavam em pé. Daí em diante o tempo foi se encarregando do resto, auxiliado pela própria morte, que se instalara ali de vez para cumprir seu triste e inevitável papel. Foi como se “os portões” tivessem sido abertos, num êxodo de almas. Cada uma para o seu devido destino imagina-se... Os muitos acamados foram fechando os olhos para sempre, cedendo seus leitos finais para outros que seguiram rápido a mesma trilha. Os animas deitaram-se para não mais levantar. As plantas boas secaram e sumiram vencidas pela fúria das ervas daninhas e assim sucessivamente.

A penúria era tanta e a dor tão palpável que as pessoas, assim como o próprio Coronel, vagavam sem sentido pelo lugar, como verdadeiros zumbis. A pesada cobertura de uma tulha, feita de artesanais telhas de barro, também desabou inexplicavelmente, vitimando na hora sete trabalhadores que pegavam suas enxadas ali guardadas. Os pobres homens desesperados iam sair em busca de algo para alimentar suas famílias e a si mesmos, como continuaram a fazer constantemente. Alguma abóbora perdida no mato ou outra bênção qualquer. Os dias ali não mais eram de vivência, e sim de “sobrevivência dramática”... Porém naquela manhã encontraram somente a maior de todas as “bênçãos” para os habitantes daquelas terras amaldiçoadas: a morte! A desgraça havia se tornado algo tão corriqueiro na propriedade que nem mesmo mais essa tragédia múltipla chegou a impressionar. A esposa do Grande Homem também falecera não muito depois do filho. A notícia na cruel noite fora demais para o coração dela e o desmaio resultado de um infarto. A pobre também agonizou sem socorro na cama por um tempo, pois o médico “amigo da família”, antes freqüentador assíduo da grande casa, nunca mais apareceu, tampouco retornou os recados deixados pelo Coronel no vilarejo. Assim como o padre local ignorou por completo os fatos e deixou todas as suas “ovelhas” partirem sem os ritos “necessários”.

Os dias foram se tornando meses e os meses anos, dessa forma arrastada. Alguns poucos que conseguiram se foram. Mesmo viúvos, viúvas ou órfãos se foram após o improviso de um cemitério para os corpos dos entes e amigos. Deles não mais se teve mais notícia, mas certamente também encontraram seus tristes fins em algum canto desse mundão injusto, porém “justo” em certos casos... Eles carregavam a marca da “ira” e não conseguiriam se esconder em lugar algum. E eis que um dia o “Poderoso” se deu conta da realidade: estava sozinho! Sozinho num lugar que mais parecia um campo de batalhas, ao fim da batalha. Sozinho e... derrotado! Ele nem mais parecia ser a mesma pessoa. Havia se degradado em igual proporção ao seu império.

Estava magro em virtude da fome, abatido, com olheiras horríveis e irreversíveis, barba crescida e desalinhada, roupas sujas e esfarrapadas e demais nojentos adjetivos que atraiam as moscas para si. Certa manhã, num impulso que mais pareceu uma ordem da consciência ou de “alguma outra força”, ele juntou o pouco de sensatez que lhe restava, montou em seu igualmente debilitado garanhão e partiu rumo a um certo lugar... A sede de compreensão superou a falta de condição física. Não muito longe da propriedade existia uma pequena trilha pedregosa, íngreme e muito perigosa. Ali seria a futura estrada de terra, ligação entre a breve cidade de Dourado e Brotas. Ele seguiu vários quilômetros por ela, numa grande volta, e em certo trecho amarrou o animal numa árvore e continuou a pé, iniciando com as próprias mãos uma nova picada a esquerda no mato fechado. Era o único caminho para alcançar o fundo do abismo... Muitos galhos quebrados, suor e ferimentos pelo corpo adiante, deparou-se com a mais tenebrosa cena vista em toda a sua vida... Ossos humanos por todos os lados numa espécie de “grande clareira bem cuidada”. Havia também vestígios de fogueira recente e estranhos apetrechos “religiosos” espalhados pelo lugar.

Apesar do pouco conhecimento acadêmico, rapidamente percebeu se tratar de objetos usados em cultos por povos distantes dali. Os esqueletos estavam dispostos de forma estranha, pareciam ter rastejado antes da morte, rastejado para lados opostos e confusos. Como se cada um tivesse tentado partir para uma inútil, dolorida, agonizante e desesperada busca por socorro sem rumo definido. No pé da alta parede de pedra, somente a alguns metros acima do chão, outra caveira. Essa com as mãos ainda travadas nos galhos baixos da encosta. Parecia ter tentado “subir” por algum motivo... Não eram necessários conhecimentos médicos para constatar fraturas múltiplas em vários ossos de todos. Mas a pior parte do quadro estava mais ao alto, a uns vinte metros de altura antes do fim da queda. Dois esqueletos menores agarrados um ao outro e presos ao mesmo pedaço de tronco no paredão... As duas crianças... A negra e a branca, igualadas pelo mesmo trágico fim... Pareciam ter “pulado” juntas...

Diante do horror particular que os olhos mostravam ele, o homem responsável direto por tanta dor, caiu de joelhos. Um pouco por fraqueza, um pouco pelo peso da culpa nos ombros, mas muito mais pelas respostas encontradas. As tão desejadas respostas... Nenhuma lágrima desceu em seu pálido e judiado rosto. Seria até absurdo se acontecesse. Ele apenas colocou de volta na cabeça o surrado chapéu, deu as costas para o “vingativo amontoado de ossos” e partiu. Nem ao menos rezou ou desculpou-se. De volta à trilha onde havia deixado o cavalo mais uma triste surpresa: o animal estava morto. Sem único pertence ainda restante e último ser vivo companheiro na fazenda. Certamente também não suportara o exaustivo trecho pela debilidade. Ou morrera por algum outro motivo. Dizem que os animais são extremamente “sensíveis” ao que os olhos humanos não enxergam...

O Coronel fez o percurso de volta a pé e chegou na abandonada propriedade se arrastando, dois dias depois, também já praticamente sem vida. Usou seus últimos suspiros de existência para a única alternativa “inteligente” restante aos majestosos que perdem o trono, mas não aceitam entregar a coroa: enforcou-se! Enforcou-se em uma das centenárias paineiras que ajudavam a embelezar o lugar que fora, um dia, “belo”. Por “coincidência” esse fato final decorreu-se no dia 13 de Maio de 1888...

(Parte IX – Final) – AS CORRENTES ETERNAS

Naquela mais nova manhã de trágico luto na propriedade amaldiçoada, uma carroça puxada por um animal de passos lentos surgiu em meio ao denso nevoeiro que envolvia todo o abandonado lugar. Era “ela” de volta, a velha benzedeira... Estava acompanhada por um senhor de aparência indígena e de fisionomia que transpassava tanta paz quanto o possível ser imaginado. Os dois pareciam saber da tarefa que lhes aguardava, tanto que chegaram no exato momento, mesmo tantos anos após o recado da bondosa mulher. Retiraram o corpo do Coronel da paineira, acondicionaram carinhosamente no humilde meio de transporte e novamente desapareceram no horizonte. Para sempre dessa vez. Nunca mais se teve notícia nenhuma deles. Ficaram no ar apenas as frases com a deliciosa simplicidade passada pelo sotaque da roça: “tanta desgraceira por tão pouco, sinhô doutô... O cêis parte e as moeda fica... Tem que aprendê in tempo o que vale a pena di verdade nessa vida de meu Deus... Mais agora o sinhô doutô vai encontrá seu rumo... Já pagô bem caro os erro”.

O poderoso homem já não tinha mais parentes vivos, tampouco amigos verdadeiros. Todos eram somente contatos comerciais, assim como ele mesmo era isso para os que o rodeavam. Esse é mais um dos tristes preços que muitos endinheirados pagam nos seus fins... Por isso ninguém ficou ao menos sabendo do “simples detalhe” da sua morte induzida. Muito menos do corpo carregado em meio ao forte nevoeiro. Há muito ele, falido, já não significava mais nada para “ninguém”... 13 de Maio de 1888, a data da libertação dos negros escravos em todo o Brasil. Um festivo e importante dia na vida dos que tanto sofreram. Dificuldades incontáveis haveriam ainda por ser enfrentadas. A fome, a humilhação, o desrespeito, a falta de oportunidades dignas, a discriminação e a inexistência de destino certo. Porém, mesmo diante das tantas breves adversidades, os escravos livres das correntes poderiam pelo menos escolher por “si mesmos” como morrer... 13 de Maio de 1888, a data da libertação! Mas, infelizmente, não para “todos os negros”... Consertar erros com erros ainda maiores é o pior de todos os erros. E foi exatamente isso que “nós” fizemos... O Coronel condenou-se em vida por um gesto sombrio e absurdo, carregando consigo muitos outros, até os inocentes. E “nós”, com a ira cega e ilimitada, com a vingativa e incontrolável fúria que consumiu a luz do perdão, fizemos o mesmo a “nós mesmos” no outro lado... Nos condenamos por decisão própria a viver para sempre acorrentados àquele lugar. Nos condenamos para sempre à escuridão pela qual optamos. Pela qual optamos de forma tão errada e precipitada quanto o nosso próprio inquisidor no dia 18 de Outubro de 1879. Não existe dívida que um dia não se pague, e os nossos atos na época endividaram nossas almas por épocas e épocas seguintes, e sem a esperança de um fim real. O tempo foi cumprindo seu insubstituível papel: foi passando. E esse passar até hoje é o nosso martírio. As frágeis casas de barro da colônia, assim como outras edificações, sem os necessários reparos constantes foram uma a uma deixando a paisagem. Pacientemente consumidas pela chuva e pelo sol que não dão trégua, desaparecendo lenta e completamente no solo voraz. Do barro ao barro... Apoiada em alicerces mais fortes a casa grande resistiu por um período maior, mas também sucumbiu sem deixar vestígios.

É impressionante ver no que “impérios” são transformados pelos “anos”... Realmente não existem castelos eternos. Grandes credores foram conseguindo na justiça a fragmentação das terras para o ressarcimento de dívidas deixadas, sem mais se importar com a tal “maldição”. Principalmente os banqueiros, que na época já iniciavam sua trajetória financeira predatória, nojenta e indiferente a crendices populares. Mais uma cruel ação do tal tempo: cedo ou tarde joga todos e tudo no anonimato, até mesmo algumas “lendas” supostamente eternas... Esse rápido esquecimento proposital deu-se também em virtude do progresso acelerado trazido pela ferrovia à região. A famosa ferrovia Douradense. O progresso anda de mãos dadas a ganância, que por sua vez ofusca receios e limites. “Tudo” ruiu e foi engolido pelo chão, muitos morreram, a propriedade despedaçou-se e nem mesmo o nome se manteve em pé, o tal Coronel nunca mais foi mencionado e esse deveria ter sido o fim de tudo. Deveria, mas não foi... Por mais que o progresso desrespeite tradições e ignore tudo que não for material, um pequeno pedaço da vasta propriedade foi mantido intocado. E assim permanece até hoje por devidos motivos. E nele ninguém mais se estabeleceu, e nem deverá fazê-lo. Pois apesar dos mais de cem anos já passados, todos sabem que ele ainda é o “nosso” lar... Quem tentou se arrependeu e quem quiser se arriscar conhecerá de perto o por que... Algumas correntes não podem ser partidas e não se cura facilmente a “ira”, principalmente quando abraçada com tanto desejo... Filhos contaram aos filhos que contaram aos filhos e assim sucessivamente, e o sólido receio coerente persiste até os dia atuais. Esse pequeno pedaço de chão, por “nós” determinado intocável, até mesmo o poderoso tempo limitou-se a respeitar e ordenou que o voraz solo também o fizesse.

“Por algum motivo” a casa do capataz chefe - à beira do abismo - e a senzala continuaram e continuam em pé. Assim como o cemitério improvisado com suas cruzes mal feitas e dizeres pouco explicativos também não desapareceu. E essa é a “nossa” ainda maldição... Sim, infelizmente eu conheço muito bem cada mínimo detalhe dessa trágica e desnecessária história de sangue e ódio que há tanto tempo vem rasgando o próprio tempo. Sim infelizmente eu conheço esse lugar o qual tenho que chamar de... “lar”. Esse lugar que tenho que chamar de lar desde que no dia, sem ao menos saber o porquê, fui atirado para a morte com apenas “cinco anos de idade”... A morte que demorou três dias e três noites para chegar e que em seguida carregou-me para a morte real: a da luz da alma! Algumas correntes não podem ser partidas e o tormento do seu arrastar passa ser o único propósito da existência. O medo é um precioso aliado para os que desejam longa vida, e os que desejam longa vida devem se manter afastados do lugar o qual nem mesmo o sol conseguiu mais iluminar... O lugar o qual não sabemos por quanto tempo ainda teremos de chamar de... “lar”. FIM



Fim

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