O ABISMO NEGRO
JUNIÃO
(Parte V)
– PERSEGUIDOS PELO MAL
Em
meio ao pânico generalizado daquele amanhecer, evidenciado nos olhos
de cada morador da propriedade, mais uma vez a reação do Coronel foi
a esperada: ele escondeu a sua “negra” experiência pessoal e tentou
coibir todas as outras com duras palavras e até ameaças. Porém, nem
mesmo as suas duras palavras tinham mais a convicção tradicional.
Sua boca vociferava, mas seu olhar contradizia as frases. Ao andar pela
propriedade durante o período de trabalho, como sempre fazia ao lombo
do imponente garanhão, ele também já demonstrava perceptivelmente
certa “preocupação” com o que ouvia ao passar por todas as casas,
nas lavouras e demais cantos da imensa fazenda. O dia seguiu-se turbulento
e com gosto de medo, e o que as pessoas temiam não demorou a chegar:
mais uma vez o sol se pôs no horizonte... Porém, a noite subseqüente
foi diferente. Igualmente assustadora e inexplicável, mas diferente.
O
que destruiu a paz do sono de cada um foram os fortes sons de tambores
e clarões parecidos com relâmpagos, provenientes do fundo do abismo.
Como algum tipo de comemoração ou algo parecido. “Comemoração”
que se estendeu por toda a madrugada, findando somente diante do primeiro
raio de luz matinal. E mais uma vez o amanhecer foi palco de apavoradas
e desconectas conversas. Todos queriam alguma explicação, mas ninguém
a tinha. Nem mesmo para acalmar a si mesmo, quanto mais aos alheios.
“Tambores ritmados” não eram comuns na região. Em termos musicais
o humilde povo local pouco mais conhecia além de sanfonas e violas.
Festas eram raridades na época e uma “festa” naquele local era
de total improbabilidade devido ao acesso quase impossível e a, até
então, suposta falta de habitantes. Até mesmo os clarões vistos pelos
assustados colonos, através das janelas entre abertas e dos buracos
nos tetos sem forro, não tinham a devida razão, já que as incontáveis
estrelas da noite limpa descartavam a possibilidade de raios naturais.
E várias noites assim se seguiram. “Treze” para maior exatidão...
Entretanto,
em meio a esse suposto pacto noturno de tranqüilidade, novos temores
reais entraram em jogo. A propriedade começou a ser invadida por uma
quantidade assustadora de cobras venenosas de diversas espécies. Diversidade
incomum e jamais vista em outro lugar. Dia após dia mais e mais surgiam.
Além de aranhas e escorpiões donos de venenos igualmente letais. Uma
desconhecida praga também instalou-se sem prévios avisos e rapidamente
dizimou a plantação de café – a cultura carro chefe e base financeira
do até ali ainda poderoso homem mau. Muitos bois adoeceram de forma
irreversível por motivos desconhecidos e outros tantos morreram sem
a menor chance de socorro. As vacas seguiram o mesmo caminho e, com
isso, a produção diária de leite foi seriamente comprometida. Produção
que servia principalmente para consumo local. As crianças da condenada
fazenda foram as primeiras a sentir no estômago o peso dos erros do
patrão, impostos também aos seus manipulados pais. Mais uma vez o
vento levou para longe os boatos e rumores.
Essa
sucessão de fatos aterrorizantes ecoou por todos os lados e a fama
da “maldição” ultrapassou muitos horizontes. Não era mais possível
reverter a situação e o declínio iniciado “do dia para a noite”
também não mais seria contido. Diante de tal quadro de horror, mais
horror era a única certeza explícita que pairava no ar. O pavor máximo
dominara por completo o lugar e viver ali passou a ser um cruel martírio.
As horas do dia se arrastavam carregadas por incidentes cada vez mais
comuns e a partida do sol trazia consigo a incerteza do que a escuridão
proporcionaria de mal aos que não sabiam mais como se defender do que
pouco compreendiam. A essas alturas dos fatos a história dos negros
atirados para a morte jamais fora tão falada e temida. Diante de tantas
“coincidências” era praticamente impossível não mais associar
os sobrenaturais acontecimentos à tragédia escrava. Somente o Todo
Poderoso ainda resistia e blasfemava por onde passava, em tentativas
nitidamente desesperadas de manter o controle que sabia já ter perdido.
O
dinheiro é pai do poder, e o poder normalmente faz com as pessoas percam
os limites de até onde são realmente poderosas. E o maior erro que
um desses inadvertidos pode cometer é acreditar que o “amanhã”
jamais chegará. Não se barganha com a eternidade tampouco com o desconhecido,
lá os valores são outros. A eternidade é justa e... realmente poderosa!
(Parte VI)
– OS VERDADEIROS ESCRAVOS
Treze
dias de agonia com cada novo desaparecer do sol no horizonte e treze
noites de sono despedaçado pelo incessante som dos tambores vindo do
fundo do abismo. E nesse período mais acontecimentos ladrões da paz
e destruidores de sorrisos... Um a um, cada um ao seu modo, foi sendo
“acorrentado” ao lugar. Todos os colonos, inclusive suas famílias,
foram encontrando suas punições. Muitos inocentemente, mas a “ira”
não reconhece tal termo... Com a invasão das criaturas venenosas,
as picadas letais multiplicaram-se. Aconteceram com os homens nas lavouras
e plantações, com as crianças desavisadas que brincavam descalças
pelo campo como sempre fizeram, com as mulheres ao catar lenha para
seus fogões, entre demais casos. Como a medicina da época era “artigo
de luxo” e os recursos limitados, muitos foram atirados à cama sem
o devido atendimento. Com isso assistiram inertes pedaços dos seus
corpos – os locais das picadas – literalmente apodrecerem gradativamente
diante dos seus olhos apavorados.
Vários
outros terríveis acidentes de trabalho também roubaram a saúde motora
e as condições para a lida de diversos colonos e colonas. Com isso
as famílias se desestruturaram por completo. As coisas eram “simples”
na vida do campo: os homens usavam seus braços o dia todo e sem folgas
para o sustento do lar, invariavelmente deixando seus minguados salários
nos armazéns pré-acertados. Enquanto as mulheres se arrebentavam nos
igualmente sacrificantes trabalhos domésticos, além de cuidarem dos
filhos. Tudo funcionava como uma absurda, porém necessária e conhecida
engrenagem. Em resumo: qualquer um da família fora de condições para
contribuir plenamente com suas devidas responsabilidades, complicava
todo o contexto geral e, com isso, as portas se fechavam para novas
oportunidades.
Os
chefes do lar não poderiam partir sozinhos abandonando suas esposas
doentes, mesmo porque o Coronel não assumiria tal pesado, eterno e
inútil fardo que não lhe pertencia. Mulheres “solteiras” com suas
trabalhosas crias e sem a imprescindível presença braçal dos seus
maridos jamais seriam aceitas em alguma outra propriedade, numa época
ridiculamente machista. Casais aptos, mas portadores do infortúnio
em possuir um filho problematicamente doente também eram descartados,
e assim por diante. Algumas famílias da fazenda maldita deram a “sorte”
de não ter nenhum ente acamado e partiram. Porém, só encontraram
portas fechadas por onde andaram. Como dito, a história já havia ultrapassado
vários horizontes e nenhum outro coronel se arriscaria a aceitá-los
em suas terras, com medo de “contaminá-las com a maldição” através
dos “porta-vozes do Demônio”... Todos os que partiram foram sem
um só tostão nos bolsos, já que a situação financeira do Poderoso
Coronel também já dava sinais claros de apodrecimento a olhos vistos,
por isso rodaram pouco e voltaram rápido. Voltaram esfomeados e desesperados
para o único lugar que os aguardava.
Apesar
do pavor, voltaram... Ninguém partia sem logo voltar e, pior, ninguém
novo chegava. Com todos os irreversivelmente acamados e os que iam diariamente
para a mesma situação, o duro trabalho da roça foi se acumulando
pela falta dos braços incansáveis e degradando a propriedade diante
do pânico silencioso do seu dono, impotente para resolver os gravíssimos
impasses. O Homem Forte até andou pelas vilas da redondeza na tentativa
de recrutar pessoal, mas na maioria dos locais não foi sequer recebido.
Ele... Bem ele, o poderoso... O medo da “herança maldita” que poderia
vir junto ao emprego, afastou a todos. Nem mesmo no já fundada e promissora
cidade de Brotas, onde a mão de obra vinda de fora era abundante, ele
conseguiu novos servos. A “fama” o precedia. A fama que o vento
havia levado para muito longe. A fama que não mais se apagaria e que
o destruía lentamente, como um veneno que mata devagar, deixando a
vítima doloridamente agonizante por um período que parece não ter
fim.
Ele,
O Senhor de Todos, também já não mais conseguia vender os poucos
magros bois restantes, nem as míseras sacas de café que as pragas
também devoravam por falta de cuidados, nem... nada. Tudo referente
a “ele” cheirava a sangue seguido por tragédia breve. Entre um
gole de pinga e outro, numa venda do vilarejo da futura cidade de Dourado
onde sempre entrou imponente e olhando a todos de cima para baixo, cogitou
até mesmo em desfazer-se de um pedaço da propriedade para sanar alguns
“pequeninos contratempos” – segundo ele mesmo, ainda nadando em
orgulho -, mas nenhuma oferta de compra foi feita... Nenhuma! Ninguém
da tal fazenda ainda havia percebido, mas estavam eles, “todos eles”
verdadeira e irreversivelmente “acorrentados para sempre” àquele
maldito pedaço de chão.
(Parte VII)
– A DÉCIMA QUARTA VÍTIMA
O
tempo não é o mesmo e a velocidade dos acontecimentos segue regras
diferentes quando o inexplicável entra em cena. Na décima quarta noite
tudo se “acalmou”. Mais uma vez um silêncio ensurdecedor envolveu
o imenso vale, causando em todos uma horrível sensação de “o que
acontecerá agora”.
Alguns
vultos rápidos continuaram a ser vistos em diversos pontos e outros
pequenos fatos estranhos se desenrolaram, mas nada mais tão explícito.
Essa passou a ser a vida para todos naquele lugar: o que acontecia a
olhos vistos causava pavor direto e dor, e o que não acontecia tornava
o sofrimento por antecipação um fato também real e tão horrível
quanto. O período das pragas, pestes e acidentes até que foi curto,
mas o suficiente para transformar a propriedade num cenário épico
de tragédia Bíblica. Os poucos animais restantes davam sinais claros
de fim breve. Bois, vacas, porcos e galinhas, todos rastejando sem rumo
e praticamente implorando pela morte. E, por tal situação, impróprios
para o abate e consumo. O serviço não feito pelas incontáveis baixas
no quadro de trabalho resultaram, entre demais nocivos resultados do
abandono, no fim da vasta horta, também fonte de alimento do povo e
até do próprio Coronel.
O
mato começou a tomar conta por completo do lugar, dominando o espaço
antes da lavouras. Com isso o quantidade de insetos proliferou-se assustadoramente,
inclusive pela ausência total do controle natural : os pássaros. Pessoas,
muitas pessoas acamadas na colônia, com suas lamúrias que soavam como
uma horrível música geral de clemência e, certamente também desejo
de morte... Os habitantes das outras fazendas da redondeza e do vilarejo
próximo, antes sempre tão presentes nas dominicais visitas de “compadre”,
não mais apareceram. Todos temiam partilhar da “maldição” por
qualquer detalhe, inclusive pelo auxílio direto. Com isso a propriedade
foi sendo isolada do mundo e a fome também rapidamente instalou-se
ali, em virtude da seqüência dos fatos descritos. Os poucos homens
e mulheres ainda em condições de trabalho estavam desnorteados e não
davam conta de mais nada, e as ordens do Coronel se tornavam cada vez
mais contraditórias. Ele era, obviamente, o mais sem rumo de todos.
Até mesmo na vila Dourado o já não mais tão imponente não sabia
o que dizer, tampouco o que fazer. Seu antes prestígio estava agonizante
e, pior, seu crédito morto...
Enquanto
isso “eles” continuavam quietos. Mais quietos que nunca. Como quem
semeia um campo e fica pacientemente aguardando os “frutos”. O campo
semeado com ódio e irrigado com lágrimas na fazenda isolada pela invisível
cerca feita com sangue. Apesar de tudo, o Senhor do lugar ainda mantinha
seus tradicionais hábitos. E em uma noite, não se sabe quantas após
o início do frio silêncio das sombras, lá estava ele sozinho na grande
sala da grande casa, com seu cachimbo e copo de licor caro; somente
os pensamentos eram bem diferentes. Ali no momento não era mais questão
de como ampliar os lucros e patrimônio, e sim de como não perder o
pouco que ainda restava... Quando de repente a voz macabra mais uma
vez rasgou a escuridão após outro repentino e inexplicável apagar
dos lampiões: “O que há de errado, Rei dos Reis, já percebeu o
quanto seu império está irreversivelmente podre?” “Cale-se, maldita,
quem é você e o que mais quer de mim?”, gritou desesperado o homem.
“Há...Há...Há...”, continuou a voz com ironia afiada e frieza
máxima. “Vocês poderosos são realmente medíocres... Especulam,
destroem, matam e articulam em benefício somente próprio, como se
fossem mesmo donos do mundo... E, cegos pela ganância doentia esquecem-se
que não como escapar dos ecos dos próprios atos... Esquecem-se que
não existe dívida que não se pague... Cegos pela ilusão das riquezas
não enxergam que nada mais são que lixo e que as tais imponentes riquezas
não duram mais que um simples piscar de olhos nesse mundo... Mas as
suas perdas apenas começaram... Hoje mesmo sentirá um pouco do que
eu senti!”
Ao
fim do assombroso discurso, a misteriosa voz calou-se. No instante seguinte
o grito desesperado da esposa fez com que o Coronel saltasse ligeiro
da poltrona para atendê-la. E lá estava a senhora, na porta do quarto
do filho, diante de uma cama vazia... A criança tossira muito durante
o dia e a preocupada mãe fora conferir o estado febril. Mas ele havia
sumido. Imediatamente os dois muniram-se de lamparinas e armas e saíram
gritando o nome da criança, rumo ao nada, em meio ao breu quase total.
Porém nada mais encontraram adiante além do leal capataz, o que residia
ao lado da senzala. O homem estava pálido, de joelhos e mal conseguia
falar. Estava indo ao encontro dos patrões quando foi interceptado
pelos mesmos. “O que foi, criatura? Diga-me logo !”, ordenou o Chefe.
E ele, com o rosto banhado por lágrimas mostradas pelo pouco de luz
que as lamparinas proporcionavam, titubeou aterrorizado, soluçando
e gaguejando muito: “Seu filho, Coronel... Não sei como lhe dizer
isso, mas ele foi arrastado por alguém e jogado no precipício.”
Ao ouvir tal frase a Senhora mãe desmaiou. E ele, o Senhor pai, querendo
não acreditar, irritou-se com a explicação do subalterno. “Mas
o que você está dizendo, homem... Como pode falar uma besteira dessas
!” E ele insistiu : “Eu vi com os meus próprios olhos, Coronel...
Parecia ser uma mulher, negra, muito magra e maltrapilha... Eu os vi
pois passaram ao lado da janela do meu quarto... Acordei com o som dos
próprios gemidos ofegantes dos dois... Eu me vesti rápido e corri
em direção, mas não cheguei a tempo... Eu a vi jogar a criança e
sumir na noite como um... Como um... Fantasma!” O barulho acordara
alguns outros colonos que, mesmo dominados pelo medo que a noite trazia
consigo para ali, ajudaram na inútil busca até o amanhecer.
E
mais uma vez o amanhecer local foi palco de dor. Mas dessa vez uma insuportável
dor. Principalmente para a mãe... As marcas de arrasto no chão em
direção ao abismo, alguns arbustos recém quebrados e restos das roupas
do menino à beira do precipício mostraram claramente que a versão
dada pelo capataz era... real, e não somente mais um pesadelo geral.
As buscas até continuaram por todo o dia, mas os poucos colaboradores
ainda saudáveis sabiam da triste e indisfarçável realidade. Aquela
foi a gota d’água, ou melhor, gota de sangue para todos. Realmente
não havia mais esperança para ninguém. “Eles” não descansariam
enquanto cada um do maldito lugar não pagasse suas devidas dívidas.
Dívidas estipuladas pela... “ira”. Aliás, talvez “eles” não
descansassem nunca mais...
(Parte VIII) - O AMONTOADO
DE OSSOS
O
silêncio torturante continuava e envolver a propriedade como nunca.
Porém isso não mais importava. A morte óbvia do filho do Coronel
fora demais para todos. Principalmente em virtude de como acontecera...
Esse fato foi o golpe fatal e final no pouco de bom senso que ainda
restava nos poucos que ainda restavam em pé. Daí em diante o tempo
foi se encarregando do resto, auxiliado pela própria morte, que se
instalara ali de vez para cumprir seu triste e inevitável papel. Foi
como se “os portões” tivessem sido abertos, num êxodo de almas.
Cada uma para o seu devido destino imagina-se... Os muitos acamados
foram fechando os olhos para sempre, cedendo seus leitos finais para
outros que seguiram rápido a mesma trilha. Os animas deitaram-se para
não mais levantar. As plantas boas secaram e sumiram vencidas pela
fúria das ervas daninhas e assim sucessivamente.
A
penúria era tanta e a dor tão palpável que as pessoas, assim como
o próprio Coronel, vagavam sem sentido pelo lugar, como verdadeiros
zumbis. A pesada cobertura de uma tulha, feita de artesanais telhas
de barro, também desabou inexplicavelmente, vitimando na hora sete
trabalhadores que pegavam suas enxadas ali guardadas. Os pobres homens
desesperados iam sair em busca de algo para alimentar suas famílias
e a si mesmos, como continuaram a fazer constantemente. Alguma abóbora
perdida no mato ou outra bênção qualquer. Os dias ali não mais eram
de vivência, e sim de “sobrevivência dramática”... Porém naquela
manhã encontraram somente a maior de todas as “bênçãos” para
os habitantes daquelas terras amaldiçoadas: a morte! A desgraça havia
se tornado algo tão corriqueiro na propriedade que nem mesmo mais essa
tragédia múltipla chegou a impressionar. A esposa do Grande Homem
também falecera não muito depois do filho. A notícia na cruel noite
fora demais para o coração dela e o desmaio resultado de um infarto.
A pobre também agonizou sem socorro na cama por um tempo, pois o médico
“amigo da família”, antes freqüentador assíduo da grande casa,
nunca mais apareceu, tampouco retornou os recados deixados pelo Coronel
no vilarejo. Assim como o padre local ignorou por completo os fatos
e deixou todas as suas “ovelhas” partirem sem os ritos “necessários”.
Os
dias foram se tornando meses e os meses anos, dessa forma arrastada.
Alguns poucos que conseguiram se foram. Mesmo viúvos, viúvas ou órfãos
se foram após o improviso de um cemitério para os corpos dos entes
e amigos. Deles não mais se teve mais notícia, mas certamente também
encontraram seus tristes fins em algum canto desse mundão injusto,
porém “justo” em certos casos... Eles carregavam a marca da “ira”
e não conseguiriam se esconder em lugar algum. E eis que um dia o “Poderoso”
se deu conta da realidade: estava sozinho! Sozinho num lugar que mais
parecia um campo de batalhas, ao fim da batalha. Sozinho e... derrotado!
Ele nem mais parecia ser a mesma pessoa. Havia se degradado em igual
proporção ao seu império.
Estava
magro em virtude da fome, abatido, com olheiras horríveis e irreversíveis,
barba crescida e desalinhada, roupas sujas e esfarrapadas e demais nojentos
adjetivos que atraiam as moscas para si. Certa manhã, num impulso que
mais pareceu uma ordem da consciência ou de “alguma outra força”,
ele juntou o pouco de sensatez que lhe restava, montou em seu igualmente
debilitado garanhão e partiu rumo a um certo lugar... A sede de compreensão
superou a falta de condição física. Não muito longe da propriedade
existia uma pequena trilha pedregosa, íngreme e muito perigosa. Ali
seria a futura estrada de terra, ligação entre a breve cidade de Dourado
e Brotas. Ele seguiu vários quilômetros por ela, numa grande volta,
e em certo trecho amarrou o animal numa árvore e continuou a pé, iniciando
com as próprias mãos uma nova picada a esquerda no mato fechado. Era
o único caminho para alcançar o fundo do abismo... Muitos galhos quebrados,
suor e ferimentos pelo corpo adiante, deparou-se com a mais tenebrosa
cena vista em toda a sua vida... Ossos humanos por todos os lados numa
espécie de “grande clareira bem cuidada”. Havia também vestígios
de fogueira recente e estranhos apetrechos “religiosos” espalhados
pelo lugar.
Apesar
do pouco conhecimento acadêmico, rapidamente percebeu se tratar de
objetos usados em cultos por povos distantes dali. Os esqueletos estavam
dispostos de forma estranha, pareciam ter rastejado antes da morte,
rastejado para lados opostos e confusos. Como se cada um tivesse tentado
partir para uma inútil, dolorida, agonizante e desesperada busca por
socorro sem rumo definido. No pé da alta parede de pedra, somente a
alguns metros acima do chão, outra caveira. Essa com as mãos ainda
travadas nos galhos baixos da encosta. Parecia ter tentado “subir”
por algum motivo... Não eram necessários conhecimentos médicos para
constatar fraturas múltiplas em vários ossos de todos. Mas a pior
parte do quadro estava mais ao alto, a uns vinte metros de altura antes
do fim da queda. Dois esqueletos menores agarrados um ao outro e presos
ao mesmo pedaço de tronco no paredão... As duas crianças... A negra
e a branca, igualadas pelo mesmo trágico fim... Pareciam ter “pulado”
juntas...
Diante
do horror particular que os olhos mostravam ele, o homem responsável
direto por tanta dor, caiu de joelhos. Um pouco por fraqueza, um pouco
pelo peso da culpa nos ombros, mas muito mais pelas respostas encontradas.
As tão desejadas respostas... Nenhuma lágrima desceu em seu pálido
e judiado rosto. Seria até absurdo se acontecesse. Ele apenas colocou
de volta na cabeça o surrado chapéu, deu as costas para o “vingativo
amontoado de ossos” e partiu. Nem ao menos rezou ou desculpou-se.
De volta à trilha onde havia deixado o cavalo mais uma triste surpresa:
o animal estava morto. Sem único pertence ainda restante e último
ser vivo companheiro na fazenda. Certamente também não suportara o
exaustivo trecho pela debilidade. Ou morrera por algum outro motivo.
Dizem que os animais são extremamente “sensíveis” ao que os olhos
humanos não enxergam...
O
Coronel fez o percurso de volta a pé e chegou na abandonada propriedade
se arrastando, dois dias depois, também já praticamente sem vida.
Usou seus últimos suspiros de existência para a única alternativa
“inteligente” restante aos majestosos que perdem o trono, mas não
aceitam entregar a coroa: enforcou-se! Enforcou-se em uma das centenárias
paineiras que ajudavam a embelezar o lugar que fora, um dia, “belo”.
Por “coincidência” esse fato final decorreu-se no dia 13 de Maio
de 1888...
(Parte IX
– Final) – AS CORRENTES ETERNAS
Naquela
mais nova manhã de trágico luto na propriedade amaldiçoada, uma carroça
puxada por um animal de passos lentos surgiu em meio ao denso nevoeiro
que envolvia todo o abandonado lugar. Era “ela” de volta, a velha
benzedeira... Estava acompanhada por um senhor de aparência indígena
e de fisionomia que transpassava tanta paz quanto o possível ser imaginado.
Os dois pareciam saber da tarefa que lhes aguardava, tanto que chegaram
no exato momento, mesmo tantos anos após o recado da bondosa mulher.
Retiraram o corpo do Coronel da paineira, acondicionaram carinhosamente
no humilde meio de transporte e novamente desapareceram no horizonte.
Para sempre dessa vez. Nunca mais se teve notícia nenhuma deles. Ficaram
no ar apenas as frases com a deliciosa simplicidade passada pelo sotaque
da roça: “tanta desgraceira por tão pouco, sinhô doutô... O cêis
parte e as moeda fica... Tem que aprendê in tempo o que vale a pena
di verdade nessa vida de meu Deus... Mais agora o sinhô doutô vai
encontrá seu rumo... Já pagô bem caro os erro”.
O
poderoso homem já não tinha mais parentes vivos, tampouco amigos verdadeiros.
Todos eram somente contatos comerciais, assim como ele mesmo era isso
para os que o rodeavam. Esse é mais um dos tristes preços que muitos
endinheirados pagam nos seus fins... Por isso ninguém ficou ao menos
sabendo do “simples detalhe” da sua morte induzida. Muito menos
do corpo carregado em meio ao forte nevoeiro. Há muito ele, falido,
já não significava mais nada para “ninguém”... 13 de Maio de
1888, a data da libertação dos negros escravos em todo o Brasil. Um
festivo e importante dia na vida dos que tanto sofreram. Dificuldades
incontáveis haveriam ainda por ser enfrentadas. A fome, a humilhação,
o desrespeito, a falta de oportunidades dignas, a discriminação e
a inexistência de destino certo. Porém, mesmo diante das tantas breves
adversidades, os escravos livres das correntes poderiam pelo menos escolher
por “si mesmos” como morrer... 13 de Maio de 1888, a data da libertação!
Mas, infelizmente, não para “todos os negros”... Consertar erros
com erros ainda maiores é o pior de todos os erros. E foi exatamente
isso que “nós” fizemos... O Coronel condenou-se em vida por um
gesto sombrio e absurdo, carregando consigo muitos outros, até os inocentes.
E “nós”, com a ira cega e ilimitada, com a vingativa e incontrolável
fúria que consumiu a luz do perdão, fizemos o mesmo a “nós mesmos”
no outro lado... Nos condenamos por decisão própria a viver para sempre
acorrentados àquele lugar. Nos condenamos para sempre à escuridão
pela qual optamos. Pela qual optamos de forma tão errada e precipitada
quanto o nosso próprio inquisidor no dia 18 de Outubro de 1879. Não
existe dívida que um dia não se pague, e os nossos atos na época
endividaram nossas almas por épocas e épocas seguintes, e sem a esperança
de um fim real. O tempo foi cumprindo seu insubstituível papel: foi
passando. E esse passar até hoje é o nosso martírio. As frágeis
casas de barro da colônia, assim como outras edificações, sem os
necessários reparos constantes foram uma a uma deixando a paisagem.
Pacientemente consumidas pela chuva e pelo sol que não dão trégua,
desaparecendo lenta e completamente no solo voraz. Do barro ao barro...
Apoiada em alicerces mais fortes a casa grande resistiu por um período
maior, mas também sucumbiu sem deixar vestígios.
É
impressionante ver no que “impérios” são transformados pelos “anos”...
Realmente não existem castelos eternos. Grandes credores foram conseguindo
na justiça a fragmentação das terras para o ressarcimento de dívidas
deixadas, sem mais se importar com a tal “maldição”. Principalmente
os banqueiros, que na época já iniciavam sua trajetória financeira
predatória, nojenta e indiferente a crendices populares. Mais uma cruel
ação do tal tempo: cedo ou tarde joga todos e tudo no anonimato, até
mesmo algumas “lendas” supostamente eternas... Esse rápido esquecimento
proposital deu-se também em virtude do progresso acelerado trazido
pela ferrovia à região. A famosa ferrovia Douradense. O progresso
anda de mãos dadas a ganância, que por sua vez ofusca receios e limites.
“Tudo” ruiu e foi engolido pelo chão, muitos morreram, a propriedade
despedaçou-se e nem mesmo o nome se manteve em pé, o tal Coronel nunca
mais foi mencionado e esse deveria ter sido o fim de tudo. Deveria,
mas não foi... Por mais que o progresso desrespeite tradições e ignore
tudo que não for material, um pequeno pedaço da vasta propriedade
foi mantido intocado. E assim permanece até hoje por devidos motivos.
E nele ninguém mais se estabeleceu, e nem deverá fazê-lo. Pois apesar
dos mais de cem anos já passados, todos sabem que ele ainda é o “nosso”
lar... Quem tentou se arrependeu e quem quiser se arriscar conhecerá
de perto o por que... Algumas correntes não podem ser partidas e não
se cura facilmente a “ira”, principalmente quando abraçada com
tanto desejo... Filhos contaram aos filhos que contaram aos filhos e
assim sucessivamente, e o sólido receio coerente persiste até os dia
atuais. Esse pequeno pedaço de chão, por “nós” determinado intocável,
até mesmo o poderoso tempo limitou-se a respeitar e ordenou que o voraz
solo também o fizesse.
“Por
algum motivo” a casa do capataz chefe - à beira do abismo - e a senzala
continuaram e continuam em pé. Assim como o cemitério improvisado
com suas cruzes mal feitas e dizeres pouco explicativos também não
desapareceu. E essa é a “nossa” ainda maldição... Sim, infelizmente
eu conheço muito bem cada mínimo detalhe dessa trágica e desnecessária
história de sangue e ódio que há tanto tempo vem rasgando o próprio
tempo. Sim infelizmente eu conheço esse lugar o qual tenho que chamar
de... “lar”. Esse lugar que tenho que chamar de lar desde que no
dia, sem ao menos saber o porquê, fui atirado para a morte com apenas
“cinco anos de idade”... A morte que demorou três dias e três
noites para chegar e que em seguida carregou-me para a morte real: a
da luz da alma! Algumas correntes não podem ser partidas e o tormento
do seu arrastar passa ser o único propósito da existência. O medo
é um precioso aliado para os que desejam longa vida, e os que desejam
longa vida devem se manter afastados do lugar o qual nem mesmo o sol
conseguiu mais iluminar... O lugar o qual não sabemos por quanto tempo
ainda teremos de chamar de... “lar”. FIM