A CASA

AUTOR: MÁRCIO ARAÚJO

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A Casa

Por Márcio Araújo

8 de Outubro de 2003

O único objetivo das palavras que agora escrevo é a manutenção da lucidez que ainda me resta. Não sou ingênuo a ponto de pensar que algum ser humano venha a lê-las. Não depois do terrível fardo que o cosmos me destinou. Relembrando a orígem de meu infortúnio, vejo como fui tolo, como cedi à curiosidade, isca das iscas.

Na tentativa de manter uma linha de raciocínio, tentarei relacionar os fatos de forma que a lógica não seja influenciada pelos débeis temores de alguém que não tem mais esperança nem tão pouco salvação.

Sempre tentei ser o mais racional possível em minhas ações, porém a curiosidade, ao me conduzir por caminhos tortuosos, seduziu-me como uma amante voluptuosa, submetendo-me a horrores indescritíveis.

A sensação inicial de deslumbre mascarou o destino inominável a que nenhuma criatura deveria ser submetida. E agora me vejo só, aguardando a hora em que irei me defrontar com o pior de meus temores.

Ao vislumbrar as cenas funestas do alto de minha prisão penso em abraçar a gélida dama e colocar um fim em todo o martírio. Sim, isso seria bom. Infelizmente sou um covarde e me rendo à trama tecida pelo destino.

Penso em Elizabeth e amaldiçôo a hora em que deixei-me levar pela cobiça, insensível aos seus apelos e suas carícias. Não fosse isso, eu contaria com a alegria eterna de tê-la ao meu lado. Minha doce Elizabeth.

Não me deixarei levar por pensamentos e divagações sem serventia, descumprindo, assim, aquilo a que me propus. Relatarei os fatos pois o papel e a caneta são os meus únicos companheiros.


Chamo-me Emmanuel Laville e nasci no ano de 1871 no condado de York, onde residia. Meu pai foi um bem sucedido mercador francês e, ao conhecer minha mãe, natural de York, para lá se mudou, constituindo família. De sua união, nascemos eu e mais cinco irmãos. Éramos muito unidos e tínhamos tudo o que desejávamos, todo o conforto que uma família merece.

De todos os filhos eu era o mais apegado a meu pai, que vira em mim um espelho de sua juventude. Aproveitei ao máximo o seu convívio e acabei tomando o gosto pelos negócios, encorajado pela prosperidade da ocasião.

Aos quinze anos eu já trabalhava nos negócios da família uma vez que meu pai dispensara seu braço direito anterior devido ao meu tino natural para os negócios. Se por um lado isso ajudou a tornar-me o homem de negócios que outrora fui, por outro impediu-me de desfrutar as alegrias da infância e adolescência.

Aos vinte e cinco anos, com a morte de meus pais em um acidente, tomei a frente da importadora de vinhos. Meus irmãos seguiram seus caminhos e se não fosse por mim a importadora teria acabado.

Aos trinta e quatro anos conheci Elizabeth. Sua imagem inspirava ternura e era impossível sentir-se triste à sua presença. Aquele anjo era um presente dos céus a uma alma tão solitária como a minha. Não digo que nos apaixonamos à primeira vista. Encontramo-nos casualmente e o nosso amor brotou de uma sólida base de amizade. Como desenlace natural, apaixonamo-nos e marcamos casamento. A data que seria a mais feliz de minha vida seria três de agosto de 1908.

Meu infortúnio começou há três semanas. Tomei ciência que uma importante feira de negócios iria acontecer em Arkengarthdale e imediatamente iniciei os preparativos para a viagem pois aquela seria uma excelente oportunidade para expandir o negócio e rever velhos amigos. A estrada era conhecida e todo o trajeto de ida e volta poderia ser feito em duas semanas.


Na véspera de minha partida, Elizabeth contou-me sobre o estranho sonho que a aterrorizava há alguns dias. Delírios oníricos que a apavoravam e comprometiam o seu julgamento. Como nunca fui dado à superstições, não dei ouvidos às suas súplicas e hoje pago o terrível preço de minha presunção. Despedi-me calorosamente e segui viagem chegando ao meu destino na data esperada.

Como eu previra, a feira foi um sucesso total. Consegui firmar diversos acordos e tudo transcorreu na mais perfeita calma. No terceiro dia de minha estada em Arkengarthdale uma forte tempestade assolou a cidade e o céu brilhou com a força de mil raios, proporcionando um espetáculo de proporções épicas. Agradeci aos deuses por não ter que partir naquela noite. Dois dias depois, parti.

Retornei por uma antiga estrada e, como já havia vendido todas as mercadorias, decidi aproveitar a beleza da região de Yorkshire Dales, famosa por seus recantos bucólicos e sua vasta rede de paredes de pedra delimitando antigas divisas campestres onde a paisagem imemorial é composta por inúmeras cavernas e riachos. O tapete de musgos e líquens que recobria aleatoriamente o solo era uma visão inesquecível.

No terceiro dias após minha partida um fatídico acidente iria marcar minha vida. Tudo corria bem até que por algum motivo o motor de meu automóvel parou, à entrada do bosque de Evergreen. Como nada podia fazer (já que mecânica não era o meu forte) e sabendo que adiante havia uma pequena comunidade, optei por terminar a viagem à pé e encarar tudo como uma aventura.

Fechei o automóvel e peguei apenas uma maleta que continha alguns objetos pessoais, companheiros inseparáveis dos homens de negócios. Calculei que, se apertasse o passo e caminhasse por toda a noite, chegaria àquela comunidade no meio do dia seguinte. Apesar de ser uma boa caminhada eu estava confiante.


Segui a pequena estrada e por horas caminhei. A escuridão noturna era quebrada apenas pela luz da Lua, que brilhava cheia, Senhora dos céus. Sua presença era um alívio e iluminava o caminho que eu tinha à minha frente.

Não nego que em alguns momentos fiquei apreensivo, afinal eu era um homem criado na cidade. Toda aquela escuridão aliada ao barulho das criaturas que ali habitavam trouxeram-me à mente as lembranças de um livro que eu lera há alguns anos; Drácula, de Bram Stoker. Confesso que tais memórias misturadas a uma imaginação fértil mexeram com os meus nervos. Pensei no que faria se as “crianças da noite” aparecessem por ali. Optei, então, por pensar em algo mais animador.

O frescor da noite fez-me pensar como abandonáramos nossas raízes e conseguíamos viver em cidades. Tudo era tão diferente. A atmosfera era densa e os sons mais vívidos. Eu me sentia bem naquele retiro verde. Passei horas meditando sobre o sentido da vida e, quando dei por mim, percebi algo estranho.

Todos os estímulos que haviam despertado os meus sentidos haviam cessado. Eu não ouvia mais os insetos noturnos e o barulho das folhas agitadas pelo vento. Para falar a verdade, não havia mais vento. O cheiro de terra molhada que me acompanhara desde o início da jornada também não mais existia. Tudo estava sinistramente silencioso.

Andei por mais alguns quilômetros e quando o Sol começou a surgir no horizonte, vi algo que não me recordava. Em um determinado ponto da estrada, uma pequena trilha conduzia a uma colina e lá havia uma casa. Eu não me lembrava de existir uma casa ali. Pelo menos eu tinha certeza de que da última vez que por lá passei, há seis meses, não existia nenhuma construção.

Foi nesse momento que decretei o meu fim. Cansado e curioso, resolvi pedir ajuda aos habitantes do local. Minha curiosidade ofuscou os meus sentidos e não percebi que todo o local parecia estar morto. Nenhum som ou movimento podia ser sentido ali.

Andei por uns seiscentos metros até chegar à casa. A construção era bem peculiar e a única coisa de normal era o fato de possuir dois andares. Todo o local fôra construído no meio da vegetação, parecendo brotar do chão. Uma coisa que chamou a minha atenção foi o fato de não haver paredes, consistindo em um conjunto de portas e janelas de um vidro escuro formando um verdadeiro abrigo de cristal. Achei que aquela deveria ser mais uma propriedade de campo de um excêntrico modernista de Londres.

Não havia sinos e como fiquei com medo de bater à porta para anunciar minha chegada, resolvi chamar pelos donos. Ninguém apareceu e, quando me preparei para deixar o local, ouvi o barulho da porta se abrindo. Virei-me a fim de saudar meu anfitrião mas não havia ninguém lá.

Segui em direção à porta e adentrei o local. Não encontro palavras para descrever o que vi. Foi tudo muito estranho. Por um segundo o salão parecia estar vazio para em seguida encontrar-se completamente mobiliado. Estranhamente, aquela era a sala que eu tanto desejara para minha nova residência após o casamento. Cada pequeno detalhe estava ali representado. Cor, textura, iluminação, cheiro. Fiquei extasiado e não sei quanto tempo perdi experimentando o local.

A cada novo cômodo que eu visitava eu tinha a mesma impressão. Ao entrar, por uma fração de segundos eu poderia jurar que o local estava vazio até que eu me deparava com a cena a qual eu já estava familiarizado mentalmente. A representação da casa perfeita. A casa que eu daria à minha amada Elizabeth.

Inútil dizer que perdi mais tempo que deveria no local e não me dei conta de que, lá fora, o Sol já se punha. Por todo o tempo que lá estive não vi viva alma e, quando dei por mim, senti uma fome avassaladora. Fui à cozinha e banqueteei com há muito não fazia. A comida era muito saborosa e estranhamente leve. Por mais que eu comesse, não sentia o peso dos alimentos.


Cansado, decidi pernoitar ali, na esperança de conhecer os donos daquele paraíso. Fui até um dos quartos e deitei-me, caindo em sono profundo. Quando acordei, experimentei novamente a estranha sensação: o breve vazio seguido do lugar familiar.

Desapontado por não ver ninguém, resolvi partir. Peguei minha pequena maleta e dirigi-me à porta. Girei normalmente a maçaneta mas a porta não abriu. Lembro-me de ter deixado a porta aberta. Tentei forçar a porta. Tudo em vão. Procurei outras saídas e não achei. Não tinha outra alternativa; ou arrombava a porta ou quebrava um vidro.

Decidi então, muito à contragosto, quebrar uma das janelas. Deixaria, em algum lugar, quantia suficiente para consertá-las. Peguei uma cadeira e atirei-a de encontro a uma das vidraças. Nada aconteceu. Repeti o ato insano por diversas vezes e a cada nova tentativa minha visão parecia tremer. Era algo muito tênue, como se tudo saísse do foco para rapidamente voltar ao normal.

A tensão se apoderou de mim. Eu precisava fazer algo para sair daquele lugar. Mais e mais eu colocava toda a minha força, até que a armadilha se revelou.

Todas as minhas ações eram inúteis. Por mais força que eu fizesse nada acontecia. Reuni todas as minhas energias para uma última investida, afinal era simplesmente vidro, certo? Errado. Arremessei a pesada cadeira e ela foi engolida pelo vidro. Nesse Instante, um forte clarão ofuscou-me e quando recobrei a visão, estava em um ambiente com paredes metálicas e minúsculas luzes brilhavam por todo o lugar.

Nunca havia visto nada igual. A geometria do local era reta e não existia porta ou janela. Eu estava preso em um cubículo de aproximadamente nove metros quadrados.


Não sei por quanto tempo gritei. Só parei quando senti o chão vibrar lentamente, sendo acompanhado por um breve zumbido. Nesse momento, uma luz circular se acendeu em cima de mim e começou a girar. À medida que girava, aumentava a velocidade e decompunha-se em outras cores. Fiquei apavorado e quando tentei fugir percebi que estava paralisado.

O círculo de luz descia lentamente e atravessou meu corpo até desaparecer no chão. Quando sumiu, desabei, caindo de joelhos enquanto uma estreita porta deslizava para cima em uma das paredes. Refiz-me e caminhei até ela.

Segui por algo que parecia um túnel. Era todo branco e a luz parecia emanar de todo o lugar. Chão, teto e paredes fundiam-se perfeitamente formando um gigantesco cano.

Caminhei por alguns metros até ver, mais à frente, uma sala iluminada. Quando lá entrei, a porta atrás de mim se fechou.

A sala possuía diversas máquinas luminosas que acendiam e apagavam sem barulho algum. O silêncio imperava. Algo atraiu minha atenção para o chão do local.

Foi nesse momento que o horror se revelou. De alguma maneira, a base daquela sala era transparente e pude ver que estava flutuando acima dos bosques. Flutuando e subindo.

Atônito, vislumbrei aquele espetáculo. Conforme subia, pude identificar Arkengarthdale, Yorkshire Dales e depois comecei a ver o mar. Não sei quantos segundos se passaram, mas abaixo de mim, a visão que se revelou foi muito mais impressionante. Eu estava vendo a própria Terra. Não demorou muito para que a Lua passasse por mim, diminuindo, diminuindo, até se tornar um diminuto ponto brilhante, sumindo, tragada pela imensidão do espaço.


Não sinto mais vontade de escrever. Depois disso, nada de novo aconteceu. Três dias se passaram e arrisco dizer que acabei me acostumando com o terror. O que o futuro me reserva eu não sei dizer. Talvez eu continue a escrever a fim de manter a sanidade. Talvez não. Quem se importa. Penso somente em ti, Elizabeth. Minha doce Elizabeth.

FIM

Fim

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