Eu bebo. E bebo deveras. Só estando
suficientemente ébria para aguardar o que me espera sem enlouquecer.
E motivos eu tenho para isso. Quando lhes contar o que me aconteceu
e o que me aguarda no final do caminho, entenderão o porquê do meu
vício e do meu medo.
Eu tinha acabado de me mudar para uma
cidadezinha, no interior. Cidade pacata, silenciosa, podia-se ouvir
o galo cantando. Era tudo de que eu precisava naquele momento. Um pouco
de paz para um coração atribulado. Consegui um emprego no hospital
da cidade, turno da noite. Tudo ia bem. Finalmente as coisas estavam
saindo como eu queria. Todas as noites eu voltava do trabalho, ia para
casa, comia alguma coisa, tomava um banho revigorante e ia para cama
dormir o sono dos justos. Mas, foi numa dessas noites que meu calvário
começou.
Eu estava voltando para casa e passei
em frente ao cemitério da cidade. Do lado dele havia uma sala onde
funcionava o velório municipal. Já tinha passado por ele diversas
noites seguidas, mas justamente naquela senti uma vontade violenta de
entrar. Parecia que algo chamava-me. Entrei na sala onde acontecia um
velório. Ninguém parecia ter notado a minha presença. Sentei na última
cadeira, perto da porta, esperando por algo que não fazia idéia do
que seria. Alguns minutos se passaram. Ouvir os lamentos, choros e gemidos
das pessoas estava começando a me afetar. Tomei a decisão de sair
de lá, mas, neste momento, notei que alguém me olhava. Era um homem.
Olhava-me insistentemente. Senti um arrepio. Um medo terrível invadiu-me.
Aquele olhar...
Saí o mais depressa possível, quase
caindo dos degraus. Dei uma última olhada para trás. Ele estava na
calçada. Continuava a olhar para mim, com um fato novo: agora apontava-me
o dedo.
Acordei no dia seguinte tentando lembrar
do que aconteceu na noite passada. Estava tudo um tanto nebuloso na
minha cabeça. Não lembrava do que tinha se passado desde a minha saída
do hospital. Achei bastante estranho o fato. Durante todo o dia tentei
lembrar-me do ocorrido, o que acabou causando em mim um sentimento de
raiva e inquietação. Sentir-me vulnerável era a pior coisa do mundo.
Infelizmente eu iria descobrir que existem coisas piores, infernos
infinitamente cruéis.
Decidi sair à tarde. Dar umas voltas
pelas redondezas. Passei em frente ao cemitério, e então comecei a
me lembrar. Eu tinha estado ontem lá, disso eu tinha certeza. Certeza
absoluta. Mas por que estar ali me incomodava? O que teria havido na
noite passada ? Por que esta sensação de angústia, de querer
sair de lá correndo?
Por pura curiosidade, talvez um tanto
mórbida, decidi entrar. Ia acontecer um enterro naquele momento. Decidi
seguir a multidão. As pessoas choravam desconsoladamente. Era o enterro
de uma criança. Senti pena por eles. Há algo que entristece o coração
quando se vê crianças mortas. Acaba-se perdendo um pouco das poucas
esperanças que ainda restam.
Fiquei até o fim. Não sei o porquê,
mas era como uma obrigação. As pessoas se distanciavam, com seus corações
partidos, e eu continuava lá, de pé, olhos focados na coroa de flores.
Aquele cheiro estava começando a me incomodar, então, decidi ir embora.
Andava devagar até a saída, olhando as outras lápides, quando percebi
um vulto a minha direita. Era ele! Agora eu lembrava claramente da noite
passada. Lembrava com muita nitidez.
Ele começou a vir em minha direção.
Parecia que ele levitava, tal a leveza de seus passos. Apesar do meu
medo, fiquei e o esperei. Aquilo deveria terminar ali. Ele chegou. Ficou
a poucos metros de distância. Apontou-me o dedo e disse:
- Em breve.
E foi embora, tão leve quanto veio.
E eu fiquei ali, parada, pensando nas suas palavras. O que ele queria
dizer com aquilo? E por que o meu sentimento de medo tornou-se pavor?
Corri o mais rápido possível. Devo ter parecido alguém que tivesse
perdido a cabeça, correndo assim. Mas, naquele momento, a opinião
alheia era o que menos importava. Sabia instintivamente que a situação
nada tinha de normal. Tinha sido pega por uma teia misteriosa, estava
presa num emaranhado de fios, onde facilmente iria me enforcar.
Era uma noite fria, apesar do céu
estrelado. Noite de quinta-feira. Ontem não fui trabalhar. Não ousava
passar perto do cemitério, inclusive à noite. Não disse a ninguém
o que aconteceu. Decerto falariam que tudo ia dar certo e me internariam
no hospício mais próximo. Teria que encarar sozinha.
Escutei um barulho. Estava no quarto.
O barulho vinha da sala, provavelmente da janela. Alguém tentando entrar.
Forçando o trinco. Não sei da onde tirei coragem, que, diga-se de
passagem, nunca foi meu forte, mas caminhei até lá, tremendo da cabeça
aos pés. Era a merda do vento. Abri a janela e olhei o céu, as estrelas
deram lugar à nuvens carregadas. Teríamos chuva.
Voltei ao quarto e a porta estava fechada.
Meus pés viraram cimento. Todo o pavor voltou com força total. Incrivelmente,
a vontade de sair correndo era menor do que minha curiosidade. Talvez
fosse o vento pregando uma peça. Abri a porta, tudo estava em ordem.
Ia me preparar para respirar aliviada quando dou de cara com a silhueta
de alguém atrás da cortina. Não podia ver seus olhos, mas tinha certeza
que estavam vidrados em mim. Sentei-me na cama. Era tudo que meu corpo
permitia no momento. Ele não saiu de lá, mas começou a falar, e sua
maneira de falar faria qualquer um borrar as calças:
- A humanidade
com certeza não caminha em uma direção melhor. É engraçado como
as pessoas afundam em lodaçais criados por elas. Engraçado e patético
ao mesmo tempo. Será que não entendem que tudo é em vão? A foice
ceifaria mais rápido se não houvesse objeções. Jovens são apetitosos.
E eu estou com fome. Mas sou paciente. Por mais que a espera me enerve.
Tenho todo tempo do mundo. Até lá, posso me contentar com o seu medo.
Em breve...
Sumiu.
Entenderam agora? O meu tempo está
acabando, o meu fim é breve. À vezes, quando o vento sopra, sou capaz
de vê-lo. Do lado de fora da casa, apontando seu dedo, olhando para
mim. Então eu fico apavorada. E bebo. Não quero estar sóbria quando
ele voltar para me buscar. Porque ele vai voltar, como o sol todas as
manhãs. Pois a morte está à espreita.