Senhores,
ouvi-me!
Peço a vossa
permissão para conduzir os vossos olhos a um antro aterrador. E, desde
já, imploro vosso perdão pelas cenas infames que, fatalmente, haverão
de suceder.
Não, senhores,
não vos assusteis inutilmente. O lugar para onde vos
guio é sobremodo respeitável. Eu vos levo ao salão principal
do castelo de Bran, outrora famoso pelas atrocidades cometidas pelo
Conde Vlad, mas que hoje se notabiliza pela corrupção
de suas estruturas e pela inevitável decadência de suas
paredes, tão trôpegas e mesquinhas quanto as almas arruinadas
dos que se esgueiram por suas sombras; almas que mal suportam
a angústia e a aflição interiores, mas que se regozijam
bem protegidas do furor do verão e das inclemências do
inverno. Como a poeira sorrateira, o decesso e a decadência
se instauram e se acumulam como se tivessem vida e
evoluções próprias. E, espraiando-se em todas as direções,
agem sem que sejam notados, até que os tetos se rendam
a toda sorte de infiltrações, e das paredes emanem um suor viscoso,
uma gosma fétida que juramos exsudar do âmago das
pedras e dos tijolos. As poderosas vigas apodrecem como
cadáveres. E e os lustres, que decaem como teia de aranha
das clarabóias esfaceladas, assumem, quando o dia entenebrece,
a aparência sinistra de enforcados.
Hoje, amigos
meus, ocorreu um espetáculo aterrador. Agora, o grande
salão está vazio. Mas nada me custa recuar alguns momentos no passado.
Há poucas
horas, estava o jovem príncipe – belo e terrível –
a anunciar o que parecia ser uma maravilhosa diversão.
Ao seu lado, a bela Ioana, que partilhava do mesmo sangue principesco,
ardia em deleite e excitação. Mas Elisabeta, amante do suserano,
aguardava o espetáculo com o coração constrito. Porque
a ira do jovem príncipe era famosa. Eram implacáveis os seus
desígnios e irreversíveis as suas decisões. Não foram poucos
os bobos, saltimbancos e menestréis que feneceram por não
terem caído no agrado do príncipe cruel e encantador.
Foi nesta noite
que subiu a uma espécie de palco – que para muitos
poderia ser o patíbulo –, armado para a especial ocasião, algo nunca
dantes visto. Era a mais grotesca das grotescas criaturas.
Dói-me descrevê-la. Por isso, senhores, eu vos pouparei das características
mais hediondas deste ente pavoroso, desta coisa horrenda, abundante
em pêlos, meio homem, meio animal, que, com as suas pernas arqueadas
e trôpegas, ensaiou um bailado excêntrico. E eram tão ridículas,
tão burlescas e monstruosas as suas evoluções
que a pequena platéia – nobres e comensais da corte do
príncipe valáquio – sucumbiu a uma espécie de frenesi incontrolável.
Agitaram-se pois, os convivas. Riram e macaquearam. Enfiaram-se
numa espécie de excitação e de contentamento sórdidos.
Gargalharam e motejaram com a fúria de possessos. Ainda
posso sentir, a queimar as minhas retinas, as toscas imitações
que, no nobre salão, se faziam do pobre homem. Arremedos
grosseiros, que acentuavam e excediam
as deformidades do pobre anão e ainda
mais evidenciavam e expunham a descortesia jocosa
de seus aleijões.
Quando o bobo
terminou o seu infame bailado, recolhendo os aplausos com os braços
abertos e a cabeça humildemente inclinada, consultou os olhos
de seu suserano. Então gelou. Pois constatou que, embora
a miúda platéia se contorcesse em risos e mofas ruidosamente
alegres, tão joviais quanto nefandas, o príncipe permanecia
impassível. Ao seu lado, Elisabeta estremecia de aflição. Ioana,
satisfeita, ainda bailava e ainda sorria.
A uma única
palma de alerta, desferida pelo suserano, toda a platéia emudeceu.
Um silêncio mortal caiu sobre a corcova do anão e reverberou no grande
salão. E o silêncio inexpugnável permitiu a Elisabeta
escutar, com horror, o descompasso que provinha do
coração do pequeno homem. Ioana, porém, quase não continha
o riso, e, embora lamentasse a brevidade do espetáculo,
já antecipava o deleite grotesco, o espetáculo maravilhoso e invulgar
que seria o enfocamento de um anão aleijado.
O jovem príncipe
se ergueu. Empunhou, com empáfia, a cimitarra, furtada
aos otomanos, que lhe que lhe ia à cintura. E, com passos
altivos, dirigiu-se ao pequeno homem.
- Vejo que
agradaste, com teu corpo desconjuntado e teu bailado ridículo, aos
fidalgos desta casa. Mas juro que nada do que vi foi do
meu agrado. Antes me causou extrema repulsa e descontentamento.
Ao ouvir tão
rudes palavras, pronunciadas com a inflexão de uma sentença de morte,
o anão foi ao chão e se pôs a chorar convulsivamente.
A platéia
delirou de contentamento. Elisabeta abaixou desoladamente a cabeça.
Ioana exultou.
O suserano
ergueu a espada. O anão fechou os olhos e, num reflexo,
levou as pequenas mãos ao pescoço, aguardando o golpe.
- Mas vejo
que, pior ainda, foi a reação de minha platéia. Se o espetáculo
do anão foi desagradável, muitíssimo mais torpes e hediondas
foram as evoluções caricatas que dele fizeram os
meus cortesãos.
Dizendo isto,
o príncipe ordenou ao anão que se erguesse e, surpreendentemente,
fê-lo segurar a espada.
- Escolhe,
dentre os meus, quem irás matar. Diz, dentre todos que
aqui estão, quem fez de ti o pior arremedo.
- Sim, senhor!
Bem observei quem me imitou com maior ênfase no ridículo. Mas,
poupa-me desta sina, porque sou apenas um bobo e não gosto de
matar.
- Escolhe,
ou não verás a luz do dia.
O anão
apontou. E creio que somente eu, que a tudo assistia atentamente,
notei uma brevíssima e profunda contração na fisionomia
do jovem príncipe. Porque era para Ioana, sua bela irmã, que o anão
enristava o indicador.
O suserano
arrastou a princesa pelos longos cabelos negros e a depôs
aos pés do aleijado.
- Cumpre
o teu dever, anão!
Embora pequeno,
o homem tinha uma grande força. Porque, com as mãos unidas
ao cabo da espada, fez vibrar um único golpe.
Os gritos de Ioana cessaram imediatamente. A cabeça da princesa,
segregada do corpo, sequer chegou a rolar. Permaneceu onde estava
e, em sua imobilidade, conservou o mesmo olhar de pavor
que dirigia ao irmão inclemente.
- Eis o teu
prêmio e pagamento – disse secamente o príncipe, depositando a cabeça
decepada no colo do anão. - Leva-o contigo. E jamais ... nunca
mais ponhas os teus pés deformados no castelo de Bran.