ANGELUS NIGER
Autor:PAULO SORIANO.
PAULO SORIANO
Esta novela vai para
Quequê,
minha serelepe e dedicada
esposa,
a quem amo e admiro
imensamente,
E menos tenebroso,
também.
O projétil .22 havia
sido disparado de uma distância considerável. Mesmo
assim, penetrara facilmente no crânio do homem, ágil
como um dedo de uma criança que mergulha num bolo quente e tenro,
para alojar-se justamente num local em que se não permitia
intervenção cirúrgica. O médico de plantão, naquele
mísero hospital de periferia, após o exame da chapa
de raio-X, ainda tentou alguma coisa. Mas, depois, com um
assentimento douto e conformado, limitou-se a
aguardar o livre curso da falência do corpo, que tendia ao
absoluto. Se tentou a reanimação, por duas ou três vezes,
com o auxílio de dois paramédicos sonolentos, foi por puro dever de
ofício. Estaria com a consciência perfeitamente tranqüila se
tivesse cruzado os braços e esperado que a natureza seguisse
o seu curso. O homem morreu. Isto era tudo. O médico e
os assistentes saíram, por um instante, para procurar, em toda
aquela bagunça de um hospital decrépito, um formulário
de óbito.
Era o tempo necessário
que o Anjo Negro, que convivia com as sombras, dispunha para operar
mais um prodígio. Entrou sorrateiramente. Ensaiou o ritual que os Antigos
lhe ensinaram. E saiu tão despercebido quanto entrara.
O médico voltou,
e já se punha a preencher o formulário de óbito, quando
algo de incomum aconteceu.
O cadáver,
estendido de costas, pôs-se a debater, como
se reanimado por uma força enigmática. Como se sucumbisse a
um inesperado ataque epiléptico. Uma convulsão demorada tomou conta
do homem morto, o que deixou o experiente médico atônito, sem saber
o que fazer. Depois, o corpo descreveu um arco, apoiado na musculatura
dos ombros e na base dos calcanhares, perfeitamente estático,
como se o tempo o prendesse no ar. Assim permaneceu o cadáver, por
longos e eternos segundos, agora surpreendentemente
imóvel, como um ginasta que pára e respira, aguardando uma nova
e mirabolante evolução. Então caiu. E voltou a arquear-se,
após um rápido estertor.
As mãos e
os lábios do defunto abriram-se coesos, num átimo. Uma perfeita sincronia
post mortem.
Como que
traspassado por uma corrente elétrica de alta voltagem, que outrora
era aplicável aos lunáticos em seus momentos de justa euforia, o corpo
envergava, arqueava-se para cima, sugado a partir de um
ventre túrgido. Tomava, para o desespero do médico experiente,
a forma de uma ponte recurva, um arco quase gótico, elaborado
pelo pulso de uma força Ancestral. E, depois, rompido o
laço que o prendia ao absurdo, tombava pesadamente sobre a maca,
mas sem barulho ou comoção alguma.
Esta operação –
que, na opinião do médico parecia uma invasão
– se repetiu por várias vezes. Não sabia o médico dizer
quantas vezes os músculos cadavéricos proporcionaram o cruel
deleite dessas singulares evoluções. Porém, finalmente, a coisa
aquietou. Graças a Deus aquietou. Somente aí o médico
ousou uma aproximação. Uma aproximação cautelosa, como quem experimenta
a eficácia de uma ratoeira. A um primeiro e tímido exame, o
médico constatou, com a convicção de um residente, que a lividez
havia sumido: tons vermelhos inundavam a face do homem que
supusera definitivamente
morto. O sangue, em colapso, voltara a inundar as
artérias adormecidas ao redor do buraco chamuscado. Estrelas cintilantes
naquele lívido céu de morte. Então as artérias puseram-se
a pulsar com especial frenesi, com uma cadência
tão maravilhosa que ousaram despertar veias obstruídas,
absurda e definitivamente adormecidas.
E então o
homem inspirou profundamente. Seguiu-se uma respiração
regular, calma e ritmada.
O médico gritou,
presa inerme de uma surpresa impossível.
Vieram os paramédicos,
inscientes do absurdo que teriam que enfrentar.
Mas o pavor
final ainda estava por vir. Algo de inacreditável desafiou a sanidade
do Dr. Diniz. O seco e frio André Diniz, quem diria! Que
hoje está enfurnado numa camisa-de-força e que se urina
à mera menção da palavra morte.
Do orifício onde
o projétil havia penetrado, o sangue passou a fluir, em pequenos
e regulares esguichos. Depois, a bala saltou da fronte do
homem, como se produto de uma cusparada. Aos olhos do Dr. Diniz
foi isso que aconteceu: o cérebro do homem cuspiu a bala. E então
o homem prostrado na maca, que antes de morrer se chamava Esteves,
abriu os olhos, que se moveram ágeis como bolas de gude, rolando lubricamente
de um lado para o outro, astutos e curiosos, assim como
os de quem experimenta enxergar pela primeira vez. O homem,
após uma quase eternidade, retornara da morte. Mas agora renascera
com uns olhos infinitamente espertos e um sorriso nos lábios que o
Dr. Diniz reputou animalesco e sardônico. Definitivamente desumano.
Diniz desmaiou ali mesmo. Talvez algum dia acorde de seu sonho de pesadelos.
Lá fora, o Anjo
Negro, que operava milagres, aguardava a saída do paciente
com uma bolsa de veludo, onde pequenas estatuetas aladas
cintilavam.
Pedro Gomes, que
nunca fora de demonstrar os sentimentos –
se é que os tinha –, ficou surpreendido ao
descobrir-se espantado.
Jonas Costa
quase cambaleou, deu um passo para trás, mas se aprumou.
Aquele homem volumoso
e afável, de respiração felina e modos pachorrentos,
definhara a ponto de se tornar um quase ancião em questão de dias.
Mas a doença fizera, a seu modo, certos milagres.
O homem perdera em volume, mas ganhara em altura e agilidade.
Quem o encarava agora, numa noite fria de um agosto cinzento e
taciturno, via, admirado, o ondular
das faces ressecadas, ora mergulhadas na confortável penumbra
de uma sala de apart-hotel, ora alumiadas pela débil claridade
que rebentava frouxa da janela. Sob a aura de
um vai-e-vem vagaroso, e ao suave jugo do oscilar
de uma cadeira de balanço, sombras e luzes perpassavam fugidias aquelas
faces cavernosas, aqui atirando os olhos num fosso de escuridão,
ali elevando a angulosidade de um maxilar saliente, quase a romper
a pele retesada, amarela como um velho pergaminho.
Mas o mais admirável
era vê-lo empunhar vigorosamente os braços da cadeira,
e erguer-se com a agilidade de um rato, a sombra crescendo na parede,
o corpo tomando uma dimensão inimaginável. Quando se levantou, um
controle remoto, com o qual abria e fechava a porta do apartamento,
caiu no chão. Ninguém ousou segurá-lo e entregá-lo ao recém-ancião.
Pedro Gomes, que
nunca fora de revelar – quando os tinha – os sentimentos, também
nunca foi de dissimulá-los. Perguntou ao homem, sem rodeios,
se a evolução da doença afetara-lhe também os intentos, até
então inabalados.
De pé, o homem
esguio contornou a cadeira, mergulhou as unhas no espaldar e recolheu-se
a uma sombra confortável, próxima à janela, de onde podia evitar
a contemplação de algo que um dia chamara mundo – algo muito
natural onde tudo funciona às mil maravilhas –, e lá ficou.
Sentiu uma vontade enorme de fumar. Mas resistiu.
Jonas Costa sentiu
um alívio profundo quando o homem galgou as sombras. Pressentia
algo de sobrenatural naquela mudança. Que o homem estivesse ali,
mas que não visse o homem. A visão do homem decrépito, daquele
corpo esquálido e longilíneo, quase sem respiração, atormentava-o
tanto quanto o atormentavam os monstros que percorriam
as paredes de sua infância, e se alojavam justamente debaixo
de sua cama, prestes arrebatar-lhe a mão quando o punho tombasse
para fora do leito e da consciência, ao simples adormecer.
(Santo Deus!
– Pensou Jonas Costa. – Preciso sair daqui. Preciso
sair daqui antes que esta coisa crie garras e avance sobre mim.)
Mas o homem recolhido
na sombra salvadora conservava, sim, os seus desígnios. Agora
mais do que nunca. Foi o que disse, em alto e bom som. O homem
definhava, mas a voz, enigmaticamente, crescera em firmeza e intensidade,
na mesma proporção em que o corpo adquirira tamanho e desenvoltura.
Apenas tinha pressa,
não mais que pressa. E todo ódio do mundo.
Foi o que tornou
a dizer, numa voz incrivelmente clara, que parecia vir de longe,
adquirindo estranhamente volume e profundidade (individualidade?)
à medida que se afastava de seu emissor. Parecia uma voz em si mesma,
sem dono e sem direção.
(E diria muito
mais, se fora o caso. Diria ao caça-níqueis do Jonas Costa
um pouco do que é a decência. Do que é ser honesto uma
vida inteira, uma vida dedicada aos estudos e à retidão de caráter.
Diria o que é ser um bom juiz, pôr a lei acima de tudo, e,
ao mesmo tempo, ir contra ela, dando-lhe um sentido peculiar, ainda
não experimentado pela frieza de seu texto, quando
a eqüidade e o dever de humanidade gritassem mais alto. Puxaria
o policial corrupto e sanguinário pelo colarinho, faria-o
sentir qual é o peso real de um magistrado, e falaria,
bem perto, quase a tocar-lhe o ouvido
– aquele filtro por onde boas idéias não passavam, antes
viravam cerume – o que é ser um homem. Porque ser um
homem é mais importante do que ser humano. Quem quiser
que duvide. Tivera os arroubos da carne e produzira um germe,
mas um germe a quem amava com a amargura dos que são obrigados
a fazê-lo. Um germe que já nascera ilícito, filho que
tivera de uma putinha faceira de periferia. Como um homem
pode nascer ilícito – Era o que se perguntava, ante o absurdo da
norma ignóbil, que aplicava a contragosto,
quando simples juiz, mas não como homem. E depois soube, na própria
carne, como um homem pode ser ilícito. Soube na condição
de pai, e pai de um filho adulterino.
“Meu filho é um inocente... Eu é que sou adulterino”,
foi o que disse, há muito tempo, ao colega, excepcional
promotor, e antigo confidente. E a criança cresceu e adolesceu
[e deixou de ser espúria por conta da
‘Carta de 88’] num bairro pobre, com o dinheiro que o juiz
obtinha e o pai parcamente mandava, quase sempre longe do homem-que-é-o-pai,
e sempre perto do inferno. Mas não há segredo que dure para sempre.
A essência do segredo está na susceptibilidade de não conter-se
em si próprio. No segredo, a possibilidade
do extravasar é pura e necessária inerência. Eis a lógica
e a obviedade das coisas. Mas, enquanto o segredo continha-se
em si mesmo, e inchava como uma bola de soprar, Dona Margateth
Melo e Silva de Holanda Bulhões, que nunca engravidara,
para não macular a beleza imaginária, procurou o fiel
ginecologista, que a mandou a outro e mais outro médico, até
que Rebeca rebentasse de seu útero quase senil, como se a criança
bem-nascida fosse a guardiã de toda legitimidade. Pois Rebeca
nasceu muito branca – como convinha a uma filha de um magistrado
–, e tinha os cabelos louros da mãe, e a inteligência do juiz.
E viveu assim, bela e única, inteligente e vaidosa, até que
foi estuprada [ e depois morrera] por três marginais,
aos quinze anos de idade.)
Dr. Holanda de Bulhões
– se é que aquela coisa longilínea era verdadeiramente o Dr.
Holanda de Bulhões – agitou, nas covas emolduradas por ásperos
supercílios, uns olhos escuros e medonhos. E
não mais falou – para a tranqüilidade reservada
e paciente do Delegado de Polícia Pedro Gomes e da sincera
alegria do cruel do agente Jonas Costa.
- Nada do terceiro
homem. O assassino de sua filha escafedeu, sumiu – mentiu em
parte Pedro Gomes, estendendo um envelope de papel madeira
(com timbre do Estado), para o Doutor, enquanto que, com a cabeça,
fazia menção de acender a luz.
Jonas Costa recuou,
levando, por puro reflexo, a mão à coronha do trinta-e-oito
de cano curto, como a se defender da luz e da figura monstruosa que
ela extrairia da escuridão. A dor no olho esquerdo ressurgiu
violenta, mas de dentro para fora, como o inverso do murro
que levara, há poucos dias, de Pedro Gomes, que era o seu
Delegado de Polícia. A pele parecia que espichava para além do corpo,
mas a dor estava muito à vontade dentro de casa, dentro de casa mesmo.
Latejava para escapar, mas não saía e nem queria sair. Doía
muito. Jonas quase caiu. Mas sentiu outro grande alívio
(meu Deus, preciso sair daqui!) quando o Doutor agitou impacientemente
as garras, que eram mãos:
- A luz é extremamente
dolorosa às minhas pupilas. É uma das seqüelas de minha enfermidade.
Deixe o envelope sobre a mesa. Do que se trata?
- Escafedeu, então.
Pedro Gomes, eu não tenho um segundo a perder. A minha morte é certa.
Questão de poucos meses. Ou dias. Você sabe melhor do que eu! Eu quero
os assassinos de minha filha.
O que havia na voz
(autônoma) daquele homem? Irritação, impaciência, irresignação,
medo? Talvez todas as emoções possíveis e possivelmente nenhuma
emoção. Talvez todas as emoções se fundissem e o resultado fosse
a mais pura e enigmática neutralidade.
- É, não
tem – concordou Pedro Gomes. – Mas vamos continuar procurando o
último dos assassinos de sua filha. Nem que seja na China,
vamos pegar o homem. De todo modo, veja o envelope, eu acho.
- O senhor
me perdoe – interveio Jonas Costa. Mas não era mais Jonas Costa –
o cruel Agente de Polícia – quem falava. Falava por ele uma voz macia.
Absolutamente macia. Parecia, mesmo, que, detrás daquela voz,
havia mesmo um ser humano. Quem o ouviu sentiu o veludo de
voz de um homem bom e humilde, mas...
(...mas não foi
nada fácil caçar os camaradas, estupradores e assassinos. Ninguém
convida ninguém para testemunhar um homicídio e um estupro que resultaria
em morte. Ou convida? O primeiro homem não foi capturado. Já estava.
Foi preso por um assalto à mão armada, levou uma boa prensa e confessou
até o que já havia esquecido. Depois, conforme consta dos arquivos
da polícia, morreu enforcado com a própria cueca, dentro da
cela infecta da 44ª DP, embora a Polícia
Técnica haja intuído que a morte chegou quando avançado um
“incidental processo de envenenamento”. Mas o Dr. Holanda
não precisava saber destes pequenos detalhes. O importante é que os
colegas da 44a. DP, sem que soubessem,
fizeram o servicinho sujo por ele. E o velho não precisava tomar
conhecimento disso. O dinheiro viria, do mesmo modo. Jonas Costa
soubera da confissão depois da morte do elemento, ficara
mais que aborrecido porque poderia ter arrancado alguma coisa a mais,
mas não disse nada. De certa forma, tivera sorte. O indivíduo enforcado
na própria cueca apontara o segundo homem, que tombou dois dias
depois. Foi tarefa fácil, mas Jonas errara na pontaria. Alvejou o ombro;
contudo, atingiu em cheio no peito. O marginal espumou
sangue, mas não teve tempo de delatar o terceiro homem. Se bem
que tentou, mas não pôde. Por isso Jonas ganhou de Pedro Gomes uma
“luneta roxa postiça” no olho esquerdo e um corte profundo
no supercílio. Agora concluir a missão, em tão pouco tempo, era uma
tarefa quase impossível. Teriam de partir do zero. Mas...)
- Evidentemente.
Entendo perfeitamente – disse o novo velho, dando a entrevista por
encerrada. – Amanhã a remuneração estará disponível.
Jonas agradeceu e
escorregou para a porta, sem olhar para trás. Precisava
de uma cerveja gelada urgentemente.
- Agradeça a seu
Deus, de todas as dores e de todas as enfermidades – amargou
a coisa que um dia fora magistrado, como que olhando para ambos, mas
sem verdadeiramente fitar qualquer um dos dois.
Os agentes se retiram
e o homem recolheu-se na penumbra oscilante e acolhedora para contorcer-se
de dor. Um dia – muito em breve – estaria tudo acabado. Poderia
acabar de morrer em paz. Mas, até lá, teria que ganir e uivar
como um lobo ferido numa armadilha.
O Padre Del Vecchio
estava debruçado sobre a mesa, com a cabeça loura enfiada entre
os braços. Suava abundantemente e parecia ter calafrios. Uma
extremidade do terço, pendente da mão esquerda, fazia a imagem
de Cristo oscilar lentamente no vazio noturno. Mantinha bem apertados
os olhos azuis, mas eles miravam firmes para dentro,
e, garanto, estavam terrivelmente assustados com o que viam.
(Aos burros exaustos
custava vencer a terra tenra, pegajosa. Uma tênue elevação significava
um esforço desalmado para aqueles dorsos vaporosos. E, quanto
a mim [serei mesmo eu?], representava um pouco mais de
desafio para a paciência. Meu amigo tinha pouco tempo a perder,
e eu o via com o seu olhar sério, filosófico. Enquanto eu olhava com
desinteresse a ondulação pacífica dos canaviais [meu Deus,
como eu sei que são canaviais?] e admirava a resignação
dos burros a trotar, ele contraía as mãos e me olhava com raiva, como
se eu fosse o culpado.
As ondulações
de cana verde eram suaves, belas e livres. Inclinavam-se ao sopro
da noite e se deixavam vergar ao máximo. Depois reagiam
num átimo e jogavam furiosamente o vento para bem
longe. A noite estava fria naquele início de agosto e havia uma lua
cheia no céu. O vento seco batia firme contra o meu rosto, enfunando
o meu sobretudo cor-de-terra e atirando os meus longos cabelos
para trás, como se dispusesse de inúmeras mãos frias e invisíveis.
O que eram aquelas
vozes, trazidas pelo vento, a exclamar palavras
(Gy-Yagin! Alyah,
alyah!)
Meu amigo me disse,
tomando-me as rédeas e olhando inquieto para mim:
Chicoteou as mulas
sem qualquer piedade. Um susto violento e uma onda de terror perpassaram
as bestas, que franziram as orelhas e esticaram o pescoço. E
as mulas avançaram, passaram do trote ao galope,
num esforço supremo, deixando para trás, sob o luar, o tênue
vapor luminescente emanante de seus dorsos suados. A estrada se
estreitava quase a ponto de converter-se numa senda, como uma enorme
serpente castanha, banhada de lua, que se aninhava e se
enroscava nas fraldas das suaves colinas. Logo mais avistaríamos
a cúpula da capela e, em seqüência, as pequenas cruzes brancas
que subiam desordenadamente um suave aclive.
E pus-me a cantar,
para aconchegar os nervos, a esta altura esticados como as cordas
de um alaúde que eu imaginava ouvir:
Meu amigo, o fidalgo
Dom Fernando Gonsalves, era um homem de vasto saber. Havia lido
Dante e desdenhado de Boccaccio. Chegou mesmo, dizem alguns,
a trovar com Luís Vaz, em pessoa, mas meu amigo nunca
confirmou. Era um homem circunspecto, que falava
pouco e que admirava um certo Leonardo, sábio florentino. Dizia-se
que pensava em latim e que sonhava em grego. Que herdara segredos herméticos
de Flamel e de um certo Von Hohenheim, dito Paracelso. Esse
era o meu amigo, gentil-homem de Vila Nova de Gaia, em plena marcha
para o cemitério agrícola de Igaraçu, onde um cadáver
de mulher o esperava para furtivamente ser desenterrado e espoliado.)
O pátio era todo
ruído. Em meio à algazarra infernal e aos gritinhos animados,
a jovem professora procurava uma menininha de
rosto redondo e cabelos anelados, com uma fitinha vermelha no cocoruto.
Encontrou-a no bebedouro. Quando viu a professora, a menina enxugou
os lábios com as abas da saia plissada, deu um gritinho
de prazer, e correu ao encontro de Tia Marta.
A professora abraçou
a criança. Estava emocionada. Olhou nos olhos da menina, dizendo:
Depositou uma estatueta
de anjo – de 2,5 cm de um mármore cintilante – nas mãos da criança
e sussurrou-lhe num ouvido:
- É para você,
minha linda. Para te proteger.
A criança olhou
para o anjinho de marfim e sorriu, dois dos dentes da frente faltando.
Depois, meteu a estatueta no bolso da camisinha branca e saiu correndo,
feliz, para o pátio e para a morte.
A penumbra dominava
e parecia mesmo ignorar as línguas ígneas que subiam dos círios
cor de ossos, incrustados em castiçais de ouro. A
sombra que se projetava num nicho obscuro da parede, onde
tremulava um ícone que as trevas não deixavam distinguir, segurava
um punhal e uma cruz, os braços erguidos tremendo conforme os estertores
das chamas dos círios. A cruz trêmula quase não
se mexia. Mas o punhal deslizava célere sobre as paredes, ensaiando
uma coreografia que se perdia no fosso de todos os tempos.
Projetada na parede,
ao lado da réstia delgada de um homem a empunhar uma cruz e uma
adaga, a sombra de pequenos objetos alados contemplava
o estranho ritual.
(A torre da capela
era uma agulha negra que o luar escavava da escuridão. Em torno dela,
havia uma plantação de cruzes, semeadas ao acaso. Naquele
ambiente, tão desolado, o vento se espraiava com maior
velocidade e a luz vaporosa da lua adquiria uma consistência
de sonho. Aos poucos a paisagem se tornava mais definida, e agora
já era possível vislumbrar o cercado tosco do cemitério, um
campo de morte arrancado do canavial. As cruzes subiam lentas
e tristes, até se perderem no silêncio da mata rude e misteriosa.
- Sei o que vossa
mercê está a cogitar – disse o meu amigo. Mas temos um corpo
de mulher para exumar....)
A mata, o canavial,
as cruzes se fundiram num pano de fundo absolutamente escuro.
Tudo agora estava silencioso e calmo. Nenhum sobressalto trouxe
o padre Del Vecchio de volta à consciência. Veio conduzido por
mãos suaves. Respirava normalmente, embora suasse abundantemente naquela
noite fria de agosto. O terço havia tombado de sua mão e a Bíblia
ainda estava aberta sobre a mesa.
(E, clamando com
grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, filho do Deus Altíssimo?
Conjuro-te por Deus que não me atormentes. [Porque lhe dizia: Sai deste
homem, espírito imundo.] E perguntou-lhe: Qual é o teu nome?
E lhe respondeu, dizendo: Legião é meu nome, porque somos muitos.)
Olhou para o relógio
de pulso e resolveu se apressar. O padre Riccio, sempre
pontual, cruzaria os umbrais em mais ou menos quinze minutos, certo?
Mergulhou no chuveiro. Sentia-se cansado.
“O velho sonho,
sim, tão velho quanto eu.”
Conhecia bem a história
toda e, a cada sonho (sonho?), mais alguma coisa era
acrescentada, evoluía para um desfecho certo e inexorável, que
ele desconhecia, mas que no fundo sabia e queria de alguma forma
dominar e esquecer. Dominar, saber e esquecer. Era como
se tivesse assistindo a um filme. Um bom e velho filme de (terror?)
pessoas insanas, mais nada. Aquilo era verdadeiramente um sonho? Aquilo
era mesmo um sonho? Onde estava a substância etérea, a substância
etérea de todos os sonhos?
O Padre Ricardo Del
Veccio S.J. havia sido retirado de sua pequena paróquia, uma
adorável paróquia piemontina, para uma missão especial. Estava ansioso,
quase assustado – sentia-se um marinheiro prestes a ser engolido pela
gigantesca onda de Hokusai – , enquanto era conduzido,
ladeado por dois padres jovens, por um amplo corredor, ao gabinete
do bispo auxiliar. Parecia um rebelde subjugado, um prisioneiro
de guerra sendo escoltado até a sala do diretor do campo
de concentração. Ia a passos largos e silenciosos pelo
chão de pedra de cantaria, muito dura e desgastada, cujo leito
afundava numa vala côncava, um registro de que os passos humanos, por
séculos e séculos, também provocam erosão. À sua esquerda,
arcos fortes e revelhos, de pedra cinzenta, sem reboco,
abriam-se para um pátio cheio de luz. Contemplou o belo jardim de ciprestes
e abetos com olhos vazios, desviando a vista da sala que
se aproximava, onde decerto a expectativa cederia lugar a uma realidade
dura e forte, em seguida a um baque no coração, potente como
um murro no estômago. Um dos padres jovens bateu à
porta duas vezes, antes de girar a maçaneta e acenar, com a cabeça,
para que Ricardo entrasse na ante-sala. Criminoso ou prisioneiro de
guerra? Ricardo obedeceu à ordem de sentar-se, que vinha
de um padre gordo e sonolento, debruçado sobre um birô
de carvalho. Cumpria a honrosa missão de secretário do bispo auxiliar.
Os dois padres jovens trocaram algumas palavras entre si e depois se
retiraram, batendo a porta violentamente. Padres ou carrascos nazi-fascistas?
Após uns quinze minutos de espera, o interfone tocou e
veio do padre secretário a autorização para que entrasse na
sala do bispo auxiliar. Ricardo não sabia por que estava ali.
Mas sabia que não seria por coisa boa. Quando entrava, ainda
vasculhava a memória. Qual a regra que teria infringido?
Qual seria a punição desta vez? Mas a entrevista foi rápida e pouco
esclarecedora: havia a pena, mas não o crime. Melhor assim. Del Vecchio
adorava infringir, mas não gostava nem um pouco de admoestações.
O bispo auxiliar
era muito mais jovem do que Ricardo esperava. Tinha um quê
de impaciência e os olhos eram duas céleres bolinhas de
gude, negras, astutas e ambiciosas:
- Sente-se,
padre – disse o bispo auxiliar. – Temos algo a conversar.
O Padre Del Vecchio
deve ter tremido, porque o bispo se levantou e desligou o ar-condicionado.
- Não muito –
respondeu Ricardo, com sinceridade.
- Pois é bom que
se vá acostumando com o calor – acresceu o jovem bispo
auxiliar, enquanto voltava e se sentava por trás de sua carteira
de ambicioso padre burocrata.
Antes que Ricardo
abrisse a boca para perguntar se iam mandá-lo para a Líbia, o bispo
continuou, com uma inflexão de voz monótona e desinteressada, e um
gesto impaciente de quem quer concluir prontamente uma tarefa pequena
e inoportuna:
- Umberto Riccio
é um padre veneziano que, no momento, encontra-se numa missão especial
na América do Sul. É um homem idoso e dedicado. E culto
também. Estudou em Lisboa e fala bem o português. Agora
se encontra no Brasil investigando certos fenômenos aos quais a população
ignorante chama de milagres. Sua missão, padre Del Vecchio,
consiste em auxiliá-lo, mas por pouco tempo. A tarefa de Riccio
está quase concluída, mas exige alguns esforços que transcendem
às forças de um ancião. Sabe alguma coisa sobre milagres,
padre?
- Muito pouco,
eminência. – Del Vecchio percebeu que a interrogação, carregada
de ironia, do bispo auxiliar era pouco menos que um desdém.
Coisa de um superior, tão jovem quanto, porém bem mais qualificado
que subalterno, justamente porque dotado de um intelecto
superior e ocupado com coisas bem mais importantes que rezar missas
todos os domingos para uma malta de camponeses rudes e entediados.
- Eu diria
quase nada. Pouco sabemos de milagres, não é certo? Mas
você fala o português – sem sotaque, pelo que soube –,
num país em que quase ninguém se interessa em saber qual
é a língua falada no Brasil. E não poucos que supõem
saber, pensam que é o espanhol. Eu mesmo assim pensava. Você
irá para o Brasil e os detalhes da missão você saberá diretamente
do Padre Riccio.
Só em solo brasileiro
– a terra de sua mãe – Padre Del Vecchio soube
que a sua atividade não seria, efetivamente, a de auxiliar o
velho padre veneziano. E nem ficaria por pouco tempo.
Iria, mesmo, substituí-lo. Hoje conversaria mais um pouco
com o velho e bom Padre Riccio. Dentro de um mês, ou mesmo três
semanas, o bastão seria seu. Só seu.
Mal vestira uma bermuda,
metera-se numa camisa de malha frouxa e calçara os chinelos,
o interfone tocou. Mais alguns minutos e a prazerosa imagem de um padre
velho, alto e curvo, molhado de chuva, preenchia, como uma bênção,
as pupilas azuis de Ricardo Del Vecchio.
- As investigações
me conduziram de início a Bom Jesus da Lapa – começou Padre Riccio,
após instalar-se confortavelmente numa poltrona e extrair a fumaça
doce de seu cachimbo de fumo holandês. – Houve pelo
menos sete milagres entre abril e dezembro de 19..., todos
numa mesma região. Depois houve outros, em outros lugares.
E, não posso negar, todos tendem a uma confirmação. Você terá
a oportunidade de ler o relatório de cada um deles, mas o mais importante
(o mais interessante, corrijo-me) foi um relacionado a uma professora
primária.
O velho padre fez
uma pausa para bater a cinza do cachimbo. Respirou profundamente
antes de continuar. O sorriso melodioso se lhe havia escapado dos lábios
e uma aura pesada, circunspecta, o envolveu como uma sombra fria e invernosa:
- Houve um assalto
ao banco do Estado e a moça foi levada como refém. Os assaltantes
meteram uma bala na cabeça da moça que foi jogada da ponte ao
Rio São Francisco. É um rio largo e caudaloso – o velho padre abriu
os braços como se medisse a largura do São Francisco a bordo de um
barco navegando na linha mediana do rio. – Teria
se afogado na hora, acaso um barco de passeio turístico não
estivesse passando sob a ponte naquela hora. Resgataram imediatamente
a moça, puseram-na no barco e, quando o barco ancorou, a moça
saltou ilesa, já andando. As testemunhas foram unânimes
em afirmar que a moça estava quase morta quando foi resgatada
a bordo. Ao que soube, ela ainda guarda a bala que saltou –
isto mesmo, saltou, como um furúnculo espremido –
de sua cabeça, quando o curandeiro lhe aplicou a mão. Em cinco
minutos, a moça moribunda estava perfeitamente bem. Só não
sabia ao certo o que lhe tinha acontecido. Não tive a oportunidade
de falar com a moça. Está em Itabuna agora. Mas o mais surpreendente
de tudo é que os milagres não partiam de uma mesma fonte. Havia
duas pessoas curando gente naquela cidade. Um dos curandeiros
está sob a custódia do arcebispado. Quanto ao outro, não sei
onde anda. Mas é um tipo estranho. Parece que não é católico
e há rumores que é metido com bruxaria. Você me traz um copo d’água?
O Padre jovem se
levantou e, no caminho para a minúscula cozinha, olhou pela janela
do terraço. E não gostou nada do que viu.
Ao correr as cortinas,
para colher a frescura da noite, o Dr. Holanda de Bulhões viu,
a distância, homem que sabia ser um padre – já o vira
antes, pela mesma janela, de batina – passar rente
à janela do terraço do apartamento frontal ao seu. Seus olhos se encontraram,
mas Dr. Holanda de Bulhões não percebeu o calafrio que ia na
alma de Del Vecchio. “Vou precisar de você muito em breve”,
pensou amargamente o magistrado. “Muito breve, para uma confissão.
Ou quem sabe uma extrema-unção? Mas pensemos nisso depois.”
E riu alto, como um alucinado. Depois foi à mesa, onde abriu,
com um canivete afiado, um envelope creme com o timbre oficial
do Estado. De volta, como uma dentada na alma, veio a vontade
de fumar. Mas o homem a reprimiu com o esgar. A dor partiu de
um ponto indefinido de seu corpo e o homem gemeu, após um estertor.
Havia coisas realmente
interessantes naquele envelope, exposto à débil luz do abajur.
E surpreendentes também.
A história recente
do Dr. Holanda de Bulhões era curta e trágica. A filha extemporânea,
a única filha mulher – o filho homem era fruto de um adultério inconseqüente
– fora deixada na porta do colégio e nunca mais voltou.
Encontram-na violentada e quase morta numa praia afastada, na companhia
do namorado, já morto. Ambos estavam nus e as roupas do casal
foram localizadas dentro do carro do rapaz, um fusca verde-abacate caindo
aos pedaços e recendendo a uísque nacional e maconha barata.
Um e um são dois. A mocinha era uma putinha descarada,
que, ao invés de estar no colégio para aprender boas maneiras,
ficava fodendo no banco de trás. Isso enquanto o pai se entretinha
com austeras sentenças e a puta-mãe com roupas novas e cabeleireiros
afetados. Muito simples. Aí vieram os caras, viram a cena escrotinha
de volúpia e quiseram participar da orgia, também. Rebeca
ainda sobreviveu um pouco para contar que o rapaz foi morto, a facadas,
na hora, por três homens. Três homens desumanos que brincaram
a valer com ela, depois. E, como brinde, ficaram-lhe
duas facadas no abdome. A moça conheceu, tão jovem, a UTI e foi para
o quarto, graças a Deus. Depois veio a infecção e adeus meu anjinho
querido. História curta e trágica. História que
não termina por aqui. Pouco depois, o doutor começou a definhar.
Morte certa e em pouco tempo. A única coisa boa, nisso tudo,
é que a puta-mãe, dona Margareth Melo e Silva Holanda de Bulhões,
caiu com um avião quando voltava, alegre e serelepe, de
um desfile de modas em São Paulo, embora fingisse uma tristeza
teatral pela morte da filhinha, ao telefone. Caiu mesmo, a puta-mãe.
Caiu e pegou fogo.
O sorriso do Dr.
Holanda de Bulhões era um esgar, um esgar medonho, repleto de
pavor e de ódio. Mas o esgar morreu aos poucos – como aquelas
luzes de teatro, que morrem em resistência –
e os olhos negros se iluminaram ante as fotografias –
algumas do Departamento de Polícia Técnica – retiradas do envelope
de papel castanho timbrado.
Numa primeira foto,
um homem negro, forte como um touro, estava pendurado numa das
graves da janela, junto ao catre de concreto, pela própria cueca.
A língua túrgida estava para fora, como a cabeça de uma cobra
roxa saindo de uma toca de árvore, e o pênis muito ereto.
Havia uma outra foto,
do mesmo homem, tirada de outro local, quase em close. A cabeça
tombava para um lado, num ângulo esquisito, e os olhos vítreos pareciam
os de um animal empalhado. Morte boa para um estuprador assassino.
Outra foto exibia
um homem mulato, sem camisa e calça jeans. Estava caído de
costas com a bala atravessada no coração. O sangue espumava em sua
boca como um afogado o faria se o mar fosse rubro. Era a
única foto do segundo indivíduo.
Depois vinha um relatório
curto e grosso, limpo e bem escrito, do Delegado Pedro Gomes.
Relatava o sucesso da operação. As fotos do primeiro homem foram
ilicitamente obtidas através de negativos acostados aos autos de uma
sindicância instaurada pela própria polícia. A do segundo homem
fora tirada, pelo Agente Jonas, na hora da morte do facínora.
O terceiro documento
é que era surpreendente. O juiz não sabia se ria ou se chorava.
Terminou rindo e bem alto, para sufocar a voz que vinha lá do fundo,
pedindo um pouquinho de nicotina.
O Anjinho de Tia
Marta não fora para a escola no dia seguinte. Sangrava copiosamente
pelo nariz e pelos ouvidos. E sentia “um fuio
na cabeça que doía muito”.
O trato fora o seguinte:
cem mil por cada homem abatido – cinqüenta antes e cinqüenta
contra-entrega – mais trezentos mil ao final. Pedro Gomes
tinha de agir rapidamente, porque a galinha dos ovos de ouro definhava
a olhos vistos. Agir rapidamente, nada mais. E quase socava o
outro olho de Jonas Costa, quando o agente propusera, sem qualquer
escrúpulo, apagar qualquer marginal que estivesse dando bobeira
e passar gato por lebre. Mas existe um limite ético em
tudo, até mesmo nas mais torpes atividades. Pedro Gomes sabia disso,
por isso pôs-se a investigar. A polícia sempre acha quando quer.
Jonas Costa que se fiasse naquela proposta ridícula, posta no envelope,
que lhes daria todo o tempo do mundo. Uma promessa de cura milagrosa.
O doutor certamente iria rir até estourar os ossos. E, quanto a isso,
não estava enganado.
Quando o Padre Del
Vecchio voltava com o copo de água na mão, descobriu-se cantarolando,
sem mais nem por quê:
Eles verdes são,
e têm por usança
na cor, esperança
e nas obras, não.
Vossa condição
não é d'olhos verdes,
porque me não vedes.”
O velho padre abriu
o sorriso melodioso, exibindo dentes brancos que ainda eram seus:
Só então Ricardo
se deu conta de que cantava a melodia do sonho que parecia
um filme. E lhe subiram aos ouvidos os acordes suaves e secos
de um distante alaúde:
- Interessante
– sorriu em si bemol o padre veneziano. - É uma velha cantiga
portuguesa, composta sobre uma redondilha de Camões.
O último documento
reunia cópias xerográficas, uma delas reduzida, de três reportagens
de um jornal em linotipo, “O Regional”, editado em Bom Jesus
da Lapa. A primeira reportagem ocupava três quartos da primeira
página. A manchete, que encimava uma fotografia
doméstica, de corpo inteiro, de uma jovem mulher sorridente,
dizia:
Ladeando o flanco
esquerdo da fotografia, e continuando abaixo dela, havia o seguinte
texto:
“Três
homens e uma mulher, armados com revólveres e escopetas de grosso
calibre, assaltaram, ontem à tarde, a agência do Banco do Estado,
nesta cidade, levando cerca de trinta mil reais, destinados ao pagamento
de funcionários da Prefeitura. Segundo testemunhas, os assaltantes
renderam um vigilante e mataram um policial militar que reagiu ao assalto.
A professora primária Marta Maria de Alencar, 26 anos, funcionária
da Secretaria de Educação do Estado em Itabuna, que se encontrava
no local, foi lavada como refém. Durante a fuga, os assaltantes estacionaram
o Santana na ponte sobre o Rio São Francisco e dispararam um tiro de
revolver na cabeça da professora, jogando-a em seguida no rio. Depois
saíram em disparada na direção de Correntina. A professora
foi recolhida a bordo de um barco da empresa Lapinha Turismo, que estava
nas imediações. Passageiros e tripulantes, que acudiram a professora,
disseram que a moça trazia uma perfuração de bala na
testa e sangrava muito. Um turista, médico da Capital, prestava os
primeiros socorros quando um homem, conhecido por Anjo, tocou a fronte
da professora, curando-a imediatamente. O fato foi presenciado por inúmeras
testemunhas e deixou atônita a população do Município. A professora
deu entrevista. Mais notícias na página 03.”
Outra reportagem,
mais antiga, abordava uma senhora que se dizia curada de um tumor
maligno no pulmão, graças à intervenção do Anjo. O médico que
a acompanhava dizia que não sabia como a senhora havia recuperado a
saúde, já que a doente se encontrava em estado terminal.
A última, mais antiga
ainda, dizia respeito a um paciente de AIDS que, milagrosamente,
ficara curado após uma única seção ritual com o curandeiro
chamado Anjo. A repórter dizia que tivera acesso a laudos médicos,
anteriores e posteriores à cura. Mas havia uma polêmica em torno de
um caso outro, anterior. Uma mulher de idade, vítima de um derrame
cerebral, que a confinara numa cadeira de rodas, e que se encontrava
à beira da morte, por conta de problemas respiratórios, havia
sido curada. Voltara a andar, perfeitamente, com os pulmões cheios
de ar, como se nada tivesse acontecido. Seis meses depois,
teve uma recaída e retornou à cadeira de rodas, em estado agravado;
morreu rapidamente. Mas a mulher não culpava o Anjo. Culpava
a si própria, por não haver seguido as instruções que recebera do
curandeiro: não repassara para outra pessoa
o último dos anjinhos de mármore que ganhara do curandeiro,
com a obrigação de ofertá-la a uma das pessoas que mais amava ou
a quem devesse um agradecimento inestimável.
Na base da última
folha xerocopiada havia um garrancho de Jonas Costa, dizendo
simplesmente que sabia onde o ‘Anjo’ estava. Jonas havia escrito:
sei aonde o Anjo estar.
O magistrado correu
ao telefone e discou um número, com um sorriso maroto nos lábios
roxos, cobertos por uma malha de finas ranhuras esbranquiçadas.
Se fumasse, certamente os lábios também doeriam.
Quando a garotinha
finalmente parou de respirar, a mãozinha afrouxou, revelando uma estatueta
de anjo, uma pequena obra-prima talhada em mármore, com
esmero e habilidade. A mãe tinha certeza que o mármore era de
um branco resplandecente. Mas agora estava negro. Negro
e iridescente.
A grande surpresa,
porém, veio com a autópsia.
(Aos poucos,
a paisagem se tornava mais definida, e agora já era possível vislumbrar
o cercado tosco do cemitério, um campo de morte escavado no agitado
canavial. As cruzes subiam, lentas e tristes, até
se perderem no silêncio da mata rude e misteriosa.
- Sei o que vossa
mercê está a cogitar – disse o meu amigo.
– Mas não é hora de pensar. É hora de agir. Temos um túmulo
a espoliar.
Paramos.
Meu amigo saltou e se acocorou por um instante. Depois seguiu em frente,
empunhando, com o braço esticado, uma lanterna que acabara de
acender. Dei uma meia volta em torno da carroça e, parando atrás,
puxei o cabo de uma pá. A picareta, mais pesada, eu a conduzi
no ombro esquerdo.
Os túmulos mais
antigos se erguiam envolta da capela, que a tudo dominava,
com ar de triunfo. O triunfo da morte, certamente. O lugar era
de uma desolação opressora, mas havia um quê de poético em
tudo aquilo. O vento recrudesceu e chuva começou a cair, furiosamente.
Meu amigo não
dava atenção aos túmulos pelos quais passava. Interessava-lhe apenas
seguir por um caminho seguro. Mais adiante, porém, mas sem parar,
passou a examinar os túmulos mais recentes, que margeavam uma
a senda nova, em aclive.
- Por aqui, estamos
perto... don’t let me down, you have found her, now go and get
her. Remeber to let her into you heart...)
Quando o telefone
tocou, Pedro Gomes estava a fazer aquilo que mais gostava e que não
perdia por (quase) nada nessa merda de vida. Empunhava uma lata
de cerveja gelada e tinha os olhos fixos na televisão. Seu time
perdia, mas ainda havia tempo, se bem que muito pouco tempo para as
circunstâncias. Levantou-se irritado e rosnou um alô no telefone.
A voz no outro lado da linha era como um jato de água gelada. Odiava
aquela voz. O que seria agora?
- Pedro, procure
o homem – ordenou a voz do outro lado da linha.
Puta que o pariu,
o sacana não lhe dava uma trégua?
- Estamos procurando, o senhor sabe
– Pedro respondeu, sem esconder a irritação.
O narrador esgoelou
outro gol e Pedro Gomes esperou, atento, antes de discar novamente.
Tocou a musiquinha do time adversário, do Sul, e o locutor foi
ao delírio. Jogo perdido, Pedro soltou um “porra!” e ligou para
Jonas Costa, esquecendo completamente a partida de futebol.
O Padre Riccio acabara
de sair (deixara sobre a mesa uma velha pasta castanha de
couro, carcomida nas extremidades, contendo cópia dos relatórios)
e Del Vecchio ainda segurava a maçaneta da porta, que acabara de fechar,
quando tudo aconteceu. Paul McCartney começara a cantar, com o
CD player na tecla de repetição, pouco antes.
(...don’t make
it bad, take a sed song ... Yog-Sothoth! Verminis! Gyyagin!...
and make it better...).
Depois um choque
elétrico, fulminante como um raio (Gyyagin!) . E tudo
ficou escuro. Escuro como a morte? Não. Deus Existe. Não há escuridão,
nem há morte (Verminis!). E eis que surgiu, então (é assim
se que fala na Bíblia), do vórtice da escuridão
intranqüila, uma centelha de cores e formas, a princípio inseguras
e cambiantes, como a visão de um caleidoscópio esfumado. Depois
as cores absorveram-se nas formas cambiantes e estas se reuniram em
corpos sólidos e perfeitamente visíveis. Vieram, pois, as imagens,
cada vez mais claras e conformes, ao final nítidas, cheias de
substâncias coloridas, mais diáfanas e exatas que uma
tela de tevê de alta resolução, dessas expostas nos shoppings.
Quando voltou a si, o padre Del Vecchio ainda estava no mesmo lugar.
A mão ainda segurava a maçaneta. Mas se lembrava perfeitamente
de que acabara de avançar por entre as cruzes de um cemitério encravado
num canavial agitado, um campo de cruzes açoitado pelo vento
e pela chuva furiosa e espumante, coisas absurdas e palpáveis que
vinham do fosso dos séculos, séculos belos e idos. Mais uma
vez, suava abundantemente. As imagens foram poucas desta vez,
vieram e se foram de repente. Mas, ao consultar o relógio, o padre
viu que a madrugada grassava célere, embora a música estivesse no
mesmo lugar. Quanto tempo em pé, parado em frente à porta,
rígido como uma estátua grega, a segurar uma maçaneta, enquanto
os olhos, revirados para trás, assistiam, impassíveis, a uma história
que os tempos não quiseram apagar?
Foi para cama, sem
sono algum. Deixara, sim, o CD player
na tecla de repetição – e isso o enganou um pouco, a saída e a
entrada na realidade se deram na mesma música – e Paul McCathney
continuaria gritando ( e não se esgoelando... assim seria se
fosse John que cantasse
pela eternidade.
Tinha certeza que não dormira – pois apenas as bestas dormem em pé
–, que mergulhara acordado no secular canavial,
e o fizera de chofre, em pleno estado de vigília. E lhe
veio um pensamento absurdo, mas que lhe parecia perfeitamente possível:
ele havia saído do século XX e retornado ao passado; não apenas
na mente, mas no corpo inteiro. Fora ao cemitério onde um amigo
ríspido e louco buscava um cadáver de mulher, mas retornara
para o mesmo lugar, através de uma dessas curvas malucas de tempo-espaço
de que falam os físicos alucinados. Mas o mais razoável, embora
improvável, era que precisava visitar um médico. Um psiquiatra
ou um neurologista, talvez precisasse mesmo de um outro padre,
mais velho e sábio. Talvez o Padre Riccio. As mãos tremiam quando
abriu a Bíblia ao acaso, pousando os olhos também ao acaso.
O trecho era esse:
‘E, clamando
com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo?
conjuro-te por Deus que não me atormentes. (Porque lhe dizia: Sai deste
homem, espírito imundo.) E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? (
who playt cool by is word a little colder... da da
da da da) E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome,
porque somos muitos.”
- E aí, está gostando
da surra?
- O doutor
pirou de vez. Agora quer o Anjo. Você sabe o que fez? Vamos
ter que dividir, em vez de concentrar os trabalhos de investigação
no que realmente interessa.
- O quanto antes.
Amanhã, no mais tardar. Se possível hoje mesmo. Agora.
- Seja o que for,
não demore.
- Ok. Até
a próxima. E não apronte mais, certo? Senão lhe aplico outra luneta.
Acerto o olho direito desta vez. Você vai ficar uma belezura
de óculos roxos.
As noites de agosto,
em Itabuna, são frias. Um bafio frio e úmido cinge a cidade,
despertando os tentáculos de névoa fina que evola do Rio Cachoeira.
A névoa tateia as margens, contorna as esquinas, e se expande
preguiçosamente pelos vales e colinas, cintilando ao luar.
Um homem negro, vestido
de branco, examinava, com as pontas dos dedos, as bordas de um copo
de uísque, que acabara de pousar sobre a mesa, após um gole longo
e reconfortante. Enquanto falava, mantinha um ar preocupado e poucas
vezes consultava os olhos do interlocutor. O outro homem,
também de branco, prestava uma atenção absoluta.
Uma menininha de
seis anos morrera subitamente. Hemorragia cerebral, constatara
o legista, que não era outro senão ele mesmo. O crânio intacto,
sem qualquer perfuração, mas o cérebro estava dilacerado, como
se um projétil de arma de fogo, calibre .32, tivesse escavado,
a partir da fronte, um túnel na massa encefálica e se
alojado próxima ao osso. Mas não havia projétil algum no crânio
daquela criança. Havia uma lesão típica de arma de fogo,
mas não havia projétil e isto era tudo. Determinara o
encaminhamento do cérebro da menininha à sede o IML, em Salvador,
para um exame mais acurado. Nunca tinha visto nada daquilo antes.
Nunca.
- Eu já vi – disse
o interlocutor. – Vi no meu último plantão, antes de tirar férias.
No mês passado, eu acho. Era um homem idoso de Buerarema. Tinha uma
única filha, uma professora. Marta ou Márcia. Meio lunática, creio
eu. Eu também não acreditei no que via. É algo
realmente inusitado e sem explicação. O pior é que, agora, temo que
a coisa não seja algo isolado. Será que estamos lidando com
uma doença nova, ainda não descrita? Será?
- Não sei.
Só sei que estou assustado – confessou o médico, enquanto deslizava
o dedo sobre a circunferência do copo de uísque com gelo. –
Estou completamente assustado.
Aquele velho lhe
metia medo, por isso a camareira hesitou antes de tocar a campainha.
De longe, em sua cadeira de balanço, cercado de trevas por todos os
lados, o Dr. Holanda de Bulhões, a Ilha de Morte, o homem que definhava
a olhos vistos, que ia sendo chupado para dentro, como se os ossos fossem
dotados de uma poderosa e infernal máquina de sucção,
enfiou os dedos nodosos num controle remoto e a porta se abriu sozinha,
como na história de Ali Babá.
Quando a moça de
uniforme entrou, tão à vontade quanto um homem lúcido que se aventura
numa jaula de leões de circo, o homem disse que não precisava se aproximar.
Só queria um favor.
A moça, obedecendo
a um pedido, foi à mesa e voltou para a porta com um envelope na mão
e um alívio profundo no coração. Disparou pelo corredor, sem olhar
para trás, e, naquele momento, só queria o quanto antes se livrar
daquele envelope. Segurá-lo era como empunhar uma cobra escorregadia
pela cabeça. Decerto que o conseguiu, porque, menos
de dois minutos depois, estava tocando à porta do apartamento de um
padre italiano. Livrou-se da carta, mas não da imagem daquele
ancião. A sua noite foi povoada de pesadelos.
(Meus nome não
é mais Fernanda e nem habito mais este corpo. Chamo-me Pernelle
e Flamel é meu marido. Ele está na Holanda, fugitivo do Santo Ofício.
Difíceis esses tempos. Em minha mocidade, há mais
duzentos anos, não era assim. E agora eu estou morta, sepultada
num cemitério desolado dessa terra selvagem a quem chamam Brasil. Mas
quando desci à cova, ainda estava viva.
Flamel me confiou
a guarda de um livro terrível. Lembro-me que, ao toca-lo, em
Roterdam, antes de embarcar para este fim-de-mundo, senti que ímãs
invisíveis me grudaram àquela capa medonha, e uma sensação quase
física de pavor se espraiou por todo o meu corpo. Senti correntes magnéticas,
frias e dolorosas, avançarem pelas pontas de meus dedos.
Elas ondulavam nos meus braços, subindo e descendo continuamente,
provocando uma gastura que beirava a agonia. De Vermis
Mysteriis, era o livro. Um exemplar que Flamel logrou
copiar, a duras pena, a partir dos originais de Ludvig Prinn.
Dom Fernando Gonsalves,
aquele demônio disfarçado de anjo, me enganou como quem furta um doce
de uma criança. Como pude confiar num homem de olhos negros
e astutos? Como pude ser nesciamente induzida a um surto
cataléptico e a ser enterrada viva? Como pude aceitar o convite
de conhecer o seu laboratório? Juro que fiquei inebriada
ao reviver as emoções exóticas de uma oficina alquímica. Como me
excitava aquela atmosfera sulfurosa, aquela suave penumbra impregnada
de olores e fragrâncias que exalavam
dos segredos milenares. Quantos cadinhos, quantas pipetas rebrilhavam
à magnífica luz da fornalha, de cuja boca saíam fagulhas que
afagavam e beijavam os nossos rostos!
Dom Fernando convidou-me
para uma experiência singular. Fez-me relaxar num catre forrado e induziu-me
a acompanhar, fixamente, as oscilações de um pequeno
pêndulo (que do nada extraiu, em uma surpreendente demonstração de
prestidigitação). Caí prontamente em um estado letárgico,
profundo e denso e, quando despertei, não poderia supor que lhe havia
participado inconfessáveis segredos! Oh, bruxo ignóbil!
Oh, Anglus Niger!
Decerto que, após
a experiência, Dom Fernando deu-me algo para beber. Sim, algo de terrível,
algo de monstruoso me aconteceu.
No dia seguinte,
eu descia vagarosamente ao túmulo, mas ainda estva viva! Alguma substância
alquímica, sub-repriciamente ministrada pelo Anjo Negro, produzira-me
uma prostração invencível. Em pouco tempo, eu tinha os músculos
enrijecidos e a respiração represada no peito. No meu colo não se
percebia a mínima ondulação. E a minha face estava lívida
e fria. Deram-me por morta. Dom Fernando, que era o médico paroquial,
confirmou a minha morte. E o notário ordenou que lessem
as minhas declarações de última vontade.
Desci ao
túmulo levando comigo um pequeno e tenebroso espólio, conforme determinava
o testamento.Um livro profano e um saco repleto de pequenos e
malditos querubins. Era uma cautela acertada com Flamel. Em caso
de minha morte, Flamel saberia como recuperar tão odioso legado.
Mas naquela
mesma noite D. Fernando, acompanhado de um valete, retirou-me
da sepultura e me roubou as fúnebres pertenças.)
Enquanto dois médicos
legistas faziam seu happy hour em um barzinho
à beira do Rio Cachoeira, especulando como pode um cérebro apresentar
lesões de projétil sem ter sido atingido por projétil algum,
Jonas Costa descia de um táxi, que apanhara no aeroporto de Ilhéus,
e adentrava o saguão do Lord Hotel, resmungando do frio e repassando
tudo que deveria fazer. Primeiro ligaria para Barata, um policial
corrupto e muito gente fina. Depois de acertar um acordo
– Barata ficaria pelo menos uma semana sem receber a propina
do curandeiro –, estudaria a abordagem, que faria ainda esta
noite. A viagem de volta – duas passagens – estava
marcada para 17:55h do dia seguinte.
Jonas Costa assinou
o cartão de hospedagem, recebeu uma chave e subiu para o quarto.
Fez uma ligação para Salvador. Depois ligou para Barata. Disse ao
cara, um camarada que era gente muito fina, que precisava de seu curandeiro
por uns dias. Acertou tudo por duzentos reais. Barata faria o favor
de levá-lo ao Anjo, logo mais. O Anjo dormiria no xadrez de uma especializada
sem movimento. Mas aquele serviço extraordinário custaria mais cinqüenta
contos. Tudo bem, tudo acertado, nos conformes.
O padre do sorriso
melódico era, sem dúvida, um homem muito metódico e perspicaz.
Os fatos tidos por milagrosos estavam classificados em razão do autor,
mas cada feito era registrado em uma pasta de cor própria. Os
milagres atribuídos a João de Deus, um pobre agricultor que conseguira
emprego em uma fazenda a trinta quilômetros de Bom Jesus da Lapa,
estavam em três pastas de cores frias. A pasta azul cuidava da cura
de uma criança que já nascera cega. Feito de difícil comprovação,
porque, filha de pais muito pobres, não havia registro
médico. A prova era toda testemunhal, vinda de pessoas
pobres e sem instrução. Na pasta verde estava acostado o registro
da recuperação de um doido de rua – endemoninhado, segundo
João de Deus, em sua singeleza de camponês –, chamado de Bode Cheiroso
pelo populacho. Caso sem provas médicas, mas notório. Confirmação
possível, embora difícil. A última pasta era púrpura e continha
o relatório sobre a cura de uma criancinha leucêmica. Farta
documentação médica. Milagre com todas as probabilidades de ser confirmado.
João de Deus era um camponês muito pobre, solteiro, de vinte
e cinco anos (embora aparentasse ser dez ou quinze anos mais velho),
quase analfabeto, católico não praticante e cheio de crendices.
Um homem singelo, ignorante e sem outras ambições senão a de obter
o pão para o dia seguinte.
O Padre Del Vecchio
estava prestes a passar às pastas de cores quentes – as que continham
as informações acerca de um outro curandeiro, chamado “Anjo”,
– quando a campainha tocou. Acorreu à porta, com certa preocupação,
pensando no Padre Riccio. Mas era apenas a camareira, uma moça
de uniforme azul e branco, com uma touca ridícula na cabeça,
e uns olhos verdes (por que me não vedes?) muito assustados.
Trazia uma carta do morador do ap. 102, do bloco contíguo.
O Padre leu a carta
e enfiou-a no bolso. Tinha uma confissão a ouvir. Permaneceu com a
mão no bolso, para retirar uma gorjeta, certo que a moça o aguardava.
Mas quando levantou os olhos percebeu que a garota pálida e assustadiça
havia desaparecido.
Projetada na parede,
sobrepondo-se à sombra delgada de um homem encapuzado, a sombra
de três estatuetas de anjo, miraculosamente talhadas no mármore resplandecente,
contemplava o velhíssimo ritual.
O homem, numa espécie
de púlpito profano, de braços e pernas abertos, empunhava uma
cruz invertida, que segurava com a mão esquerda pela trave menor. Na
outra mão, fazia dançar uma flutuante adaga de prata.
A face voltava-se para cima, deixando à mostra o pescoço recurvo,
onde as veias pulsavam e se contorciam como pequenas serpentes
verdes, a rastejar sob a pele. Os olhos, duas brasas vermelhas queimando
a escuridão, deliravam. De Vermis Mysteriis era o livro que
se abria à sua frente:
-Yog-Sothoth!
Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah!
Mas as vozes
ancestrais e suas múltiplas inflexões – que partiam
de uma única boca como se fossem várias, algumas vozes guturais e
profundas, outras terrivelmente agudas e profanas – não
eram humanas.
De súbito,
a chama dos círios se apagaram e as páginas da bíblia profana farfalharam
quais asas de morcegos em revoada, como se agitadas por
uma corrente de ar fantasma.
-
Gy-Yagin! Alyah, alyah! Verminis!
O homem, o Anjo Negro
da Noite Eterna, depositou a cruz e a adaga sobre o púlpito.
As brasas de seus
olhos foram se extinguindo lentamente, os olhos passando do vermelho
incandescente a um rosa claro e daí a um negro profundo. As pequenas
serpentes sob a pele se acalmaram e pararam de se contorcer.
Abriu um velhíssimo
saco de veludo vermelho-púrpura, onde enfiou as três estatuetas
aladas.
- Eles vêm vindo,
crianças. Está na hora de recomeçar a brincadeira – disse
o homem para seus anjinhos, furtados a uma defunta em um cemitério
em Igaraçu, há quatrocentos anos. Agora era só uma voz, de
sotaque indefinido, mas uma única voz e perfeitamente humana.
A vontade de fumar
atingira níveis insuportáveis e o Dr. Holanda de Bulhões andava de
um lado para o outro como uma pantera enjaulada. A dor cedera um pouco,
mas a impaciência crescia a cada minuto. Quando a campainha
tocou, o homem correu para a porta, esquecendo-se completamente da dor
e do controle remoto. O padre Del Vecchio entrou para ministrar
uma extrema-unção.
A captura do Anjo
fora muito mais fácil do que Jonas poderia imaginar. A verdade
é que o homem parecia que já o esperava. O homem morava quase escondido
em um sítio, que margeava a rodovia, na direção de Itajuípe. Estava
sentada no terraço da casa, aparando as unhas (umas unhas enormes em
dedos enormes e finos como víboras agilíssimas) com um canivete afiado.
Mas não ofereceu resistência alguma. Barata fora na frente,
dizendo:
O homem entregou
o canivete a Barata, limitando-se a dizer que estava pronto para
ir. Isso mesmo: estava pronto para ir.
E Jonas não teve
que exibir o Taurus calibre .38, nem mesmo esfregar na cara do
elemento o mandado (falsificado) de prisão por crime de curandeirismo
e charlatanismo. Depois do editor de texto, ficara muito mais
fácil, seguro e barato recorrer a esses expedientes. Prejuízo
para os donos de gráfica.
A prisão foi fácil,
mas Jonas não estava nem um pouco satisfeito. Estava decepcionado.
Uma de suas diversões prediletas era ver o medo nos olhos do prisioneiro.
Quando alguém mijava nas calças, implorando para viver, Jonas
ia ao delírio. Um êxtase melhor que um orgasmo, sem dúvida.
Mas o homem não apresentou receio algum. Limitou-se a acenar com a
cabeça, em sinal de concordância e subserviência. Pronto para
ir. Pediu apenas para levar alguma roupa e alguns objetos
(Yog-Sothoth!) de uso pessoal consigo. Nada mais. Mas, quando
levantou os olhos para Jonas, o policial sentiu que era a presa, não
o caçador. Isto mesmo: a presa e não o caçador. Isso
não é engraçado? Isso não é... terrível?
Mas havia outra coisa
que o agente Jonas sentiu, relutou, e não admitiu. Jonas sentiu medo
do homem, um medo tolo, sem sentido, mas profundo como as águas
de um oceano lodoso e sombrio. Jonas não estava decepcionado. Estava
humilhado, apesar do sucesso da Operação Pega-bruxo. Apesar da fortuna
que isso lhe iria valer.
- O homem está
custodiado? – indagou Pedro Gomes, do outro lado da linha.
- E quando
chegar, como vai ser?
- O homem é
um curandeiro, não um malandro. Acerte com o Doutor.
- Pense em cinqüenta
mil agora, só pra levar o homem. Se o homem ficar curado, que
tal seiscentos? Trezentos mil para cada um?
De toda sorte,
Pedro estava feliz. Jonas ainda não sabia e nem tinha por que
saber. O terceiro homem fora capturado. Ocasionalmente, e bem
a contento, o facínora portava o documento do mesmo cara
assassinado, que fodia com a putinha, com a filhinha escrota do juiz,
num banco traseiro de um Fusca. Mas o último dos assassinos
teve uma morte muito mais cruel. E muito, muito mais dolosa. Foi decapitado
ao fio de uma faca pouco amolada.
As referências acerca
do Padre Del Vecchio não eram das melhores. Em verdade, estavam longe
de ser, ao menos, razoáveis. Não tinha em sua ficha
um rosário de punição, mas acumulava algumas corrigendas nada desprezíveis.
Uma ou outra mesmo bastante incisiva, quase grave. Quarenta anos,
filho de Alberto del Vecchio, jornalista, e Maria de Fátima de
Castro Del Vecchio, do lar. Nascido em Corumbá, Mato Grosso, Brasil.
Seguiu para a Itália aos dois anos e meio de idade. Fez os estudos
fundamentais em Gênova, com os Irmãos Maristas. Seminarista
da Ordem de Jesus aos 16 anos, recebeu a ordem aos 26. Nenhum elogio.
Duas advertências e uma suspensão. As causas, o Padre Riccio não
quis saber.
O Padre Riccio deixara,
negligentemente, a ficha de lado – a verdade oficial é a verdade,
mas vista sob uma perspectiva pouco inteligente – e buscara
o telefone, o lado mais humano e menos “verdadeiro” da coisa.
Soube, pelo Padre Angeli, que Del Vecchio nada tinha de dedicado e esteve
se tratando porque bebia demais. Sobre ele pesavam algumas acusações
embaraçosas, malgrado nunca provadas ou esclarecidas. Algo a ver com
a aplicação de subvenções recebidas. Nada de dolo, diziam, mas de
completa inaptidão para gerir os recursos próprios ou as inversões
financeiras das paróquias por onde passou.
- Algumas, certamente,
mas nada de extraordinário. Um bom companheiro. Diria mais: um
companheiro fiel. Com um comportamento às vezes esquisito. Não
ouve rádio, porque não tolera escutar outras músicas senão aquelas
que gosta. E não gosta de rezar missas – acha tudo muito formal e
sem emoção. Mas se encanta ao ouvir as pessoas no confessionário.
Não que seja curioso: ele se comove com os homens e mulheres
simples, chora pelas pequenas tragédias da vida. E ora a Deus
pelas pessoas o dobro das penitências que, sem qualquer convicção,
determina. Ama o Evangelho de São João e abomina as Epístolas Paulinas.
E adora mais que tudo os Beatles e os Rolling Stones. Eu o diria
um homem sem qualquer talento para ser um padre. Mas não o diria
um padre sem talento. Dá para entender?
O Padre Riccio pediu
a Deus que Del Vecchio estivesse à altura da missão. A verdade é
que simpatizara com ele, mas simpatia não é tudo. Temia que
tivesse de descartar o companheiro e conduzir as coisas sozinho.
Não tinha mais idade e saúde para se embrenhar nos escaninhos de um
vasto país estrangeiro, muitas vezes viajando por longas horas em um
ônibus desconfortável, um pesadelo para sua coluna e um torniquete
para suas pernas, onde o sangue não fluía ou, quando fluía,
o fazia em pequenos esguichos, insuficientes para irrigar
as enormes áreas dormentes; descansando em pousadas
inóspitas; comendo mal; temendo um assalto a toda hora,
ou mesmo coisa pior; a maioria das vezes obtendo informações
preciosas graças à simpatia inata, outras vezes arrancando-as
a fórceps, como um detetive sábio e experiente, que conduz
ao resultado através da esperança da verdade, e não da
maiêutica, ou da ameaça.
O velho padre correu
ao telefone e discou um número, mas ninguém atendeu. Discou
novamente e esperou. Nenhuma resposta. Del Vecchio, certamente,
acabara de sair. Para a farra? Uma recaída? Deus dissesse que não.
Mas Deus é silencioso como uma girafa.
O padre Ricchio teve
um pressentimento tão fugaz quanto um pensamento. Mas tão forte e
terrível que suas pernas chegaram a dobrar. Algo de nefasto estava
prestes a desabar sobre o jovem Del Vecchio.
Novamente, o pátio
era todo ruído. Em meio à algazarra infernal e aos gritinhos
animados, a jovem professora procurava por outra menininha, que
lhe trouxesse tanto prazer quanto a primeira.
Nunca sentira tanto
Amor na vida. Não à menininha, nem à gêmea da menininha,
a que morrera. Umas gracinhas, sim, sem dúvida, mas ardia de
amor pelo... pelo quê? Não a mas pelo. Isso não
era engraçado? Pelo clitóris, certamente... Mas o Amor só começava
por aí. Depois se irradia e a gente enlouquece.
Encontrou-a no parquinho,
tão linda, tão fofa... Quando viu a professora, a menina deu
um gritinho de prazer e correu ao encontro a Tia Marta.
A professora –
aquela que um dia mergulhara nas águas tépidas do São Francisco com
o crânio traspassado por um projétil de arma de fogo – abraçou
a criança. Estava emocionada.
E estava à beira
de uma sensação (“a Sensação”) que viria, tão próxima
e distante quanto o (quase) impossível contato divino
de Adão com o Deus de Michelangelo. Estava à beira
de um orgasmo elevado à décima potência (na noite passada se
masturbara ferozmente com um pequeno e alado objeto de mármore,
mas obtivera uma simples exaltação do corpo, não “a Sensação”),
tão momentâneo quanto o clímax do craque, porém extraordinariamente
profundo e doce quanto uma foda bem dada com a própria heroína....
Olhou nos olhos
da menina, dizendo:
Como da outra vez
(é tudo tão igual!) depositou uma estatueta de anjo – de 2,5
cm de um mármore cintilante – nas mãos da criança e sussurrou-lhe
num ouvido:
- É para você,
minha linda. Para te proteger.
A criança olhou
para o anjinho de marfim e sorriu, dois dos dentes da frente faltando.
Beijou a estátua, que se parecia com uma linda e minúscula bonequinha.
Depois enfiou a estatueta no bolso da camisinha branca e saiu
correndo, feliz, para o pátio e para a morte. Teria o
crânio perfurado por uma bala que jamais existiu.
Tia Marta andou –
em sua mente, correu – para o banheiro feminino,
para sentir, pela última vez, a luz que explodia em seus olhos, o calor
que lhe irradiava a partir de todos os pontos prazerosos de sua vulva,
os aromas que pareciam cores, os poros exalando não se sabe
quantas fragrâncias de aromas exóticos, e as músicas que jamais
seriam compostas a partir de ouvidos humanos. Na boca havia delícias
inimagináveis, e por isso ela mastigava o vazio quando a encontraram,
horas depois, sentada sobre o balcão onde se perfilavam
as pias do banheiro escolar, a exclamar, ao influxo de todas as sensações
(“a Sensação” ) reunidas:
- Yog-Sothoth!
Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah!
O padre tomara a
confissão do homem quase moribundo e lhe deu a unção extrema. Apiedou-se
de seu corpo emagrecido e mais ainda de sua alma vingativa, porque
aquela voz, destituída de qualquer inflexão, ainda mais acentuava
a completa ausência de arrependimento. O homem que ouvira
fora, um dia, um honesto magistrado. Mas o destino lhe roubara
o bem mais precioso. Uma filha estuprada e morta. Uma vingança
atroz que rumava ao terceiro homicídio. E o amargo arrependimento
– agora sim, arrependimento – de haver abandonado à própria sorte
um filho espúrio, que quase não via e de quem se envergonhava intimamente.
Assim que retornou
ao quarto de orações, para cumprir, cristãmente, a penitência
sub-rogada à do homem que há pouco confessara, sentiu que já
não mais estava ali. Emergiam, traspassando a neblina
de uma noite perdida nos escaninhos do tempo, as cruzes de um
cemitério engolfado por canaviais.
(Eles finalmente
haviam exumado o corpo da mulher, que, embrulhado numa espécie
de sudário, agora jazia junto à cova recém-escavada. Eu
havia removido uma parte do pano, deixando à mostra
a face e o colo da defunta. Dom Fernando Gonsalves
aproximou a candeia do rosto do cadáver e percorreu o lume por
todo o corpo. Descerrando os panos que envolviam os pés, encontrou,
com satisfação, uma bolsa de veludo que, quando
aberta, revelou a existência de muitíssimas pequenas estatuetas aladas.
Dom Fernando disse-me que pareciam anjos, mas eram em verdade demônios.
Obedeci prontamente,
agora com a candeia na mão. O livro de fato estava lá.
- De Vermis Mysteriis!
– Exclamou Dom Fernando, arrebatando o livro de minha mão.
– Aqui está o segredo da imortalidade. Vossa mercê verá o
meu triunfo? Poderá transpor os séculos vindouros, como eu
farei? Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah!
De repente, o
cemitério diluiu-se numa névoa sulfurosa. Encontrava-me agora
num ambiente entenebrecido, vaporoso, onde uma profusão de cadinhos,
pipetas e alambiques disputava fagulhas luminosas com
antigos alfarrábios e pergaminhos, espalhados pelas prateleiras e esparramados
pelo chão. Mas, nesta noite, o meu mestre não se
ocupara dos foles ou das fornalhas. Junto ao pilão e ao almofariz,
Dom Fernando meditava sobre o raríssimo exemplar, transcrito
na caligrafia de Flamel, do terrível
De Vermis Mysteriis.
-
Pacta sunt servanda! O meu pacto está feito e ele será eterno
como a luz fúnebre da Lua! – Bradou Dom Fernando, enquanto pequenas
víboras pareciam passear sob a pele de seu pescoço esguio.
– Veja, veja vossa mercê estas estatuetas que furtamos ao cadáver
daquela feiticeira. Elas me legarão a eternidade. Com ela farei prodígios!
Curarei, ressuscitarei! Aquele que gozar de meus benefícios ganhará
algumas estatuetas. Mas a cura estará condicionada ao repasse de meus
pequenos demônios às pessoas a quem mais amam, ou às que
de alguma forma são extremamente gratas. Para estas será transferida
a mesma enfermidade que as conduzirá à morte. E
cada um dos fluxos vitais migrará para as estatuetas, as quais terei
de recuperar para drenar toda seiva da vida nelas contida. Cada
morte me renderá uma vida! Isto me garantirá a existência
per omnia secula seculorum. Este era o segredo de Ludvig
Prin, que Flamel conhecia, mas agora só a mim e aos Antigos pertence!
Alyah!)
O doutor balançava-se
suavemente na penumbra quando entraram os policias, trazendo consigo
o taumaturgo. Jazia o homem numa sombra fria e melancólica.
Já não mais possuía a agilidade de poucos dias atrás e as suas mãos
agora eram garras que tremiam e afundavam na madeira dura da cadeira
de balanço a cada acesso de dor cruciante, insuportável.
O curandeiro se aproximou
do homem enfermo e começou um ritual. Com um pequeno punhal,
fez um breve corte no punho direito, que começou a sangrar. Extraiu
de uma pequena bolsa três serafins minúsculos e os embebeu do sangue
que fluía. Os policias viram-no ganir palavras impronunciáveis
enquanto fazia, com o próprio sangue, uma cruz invertida na testa do
paciente.
- Yog-Sothoth!
Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah! – Bradou o taumaturgo. –
Verminis!
Ao serem articuladas
as palavras hediondas, o quase-ancião caiu numa convulsão medonha.
De seus músculos vieram estertores arrítmicos e confusos. Os ossos
gemeram e estalaram. A pele inflou-se de sangue. E o juiz
se debatia brusca e involuntariamente, como se perpassado por
uma corrente elétrica de grande intensidade. Então os olhos,
que até então afundavam cada vez mais no poço escuro das órbitas,
voltaram à superfície. As pálpebras ressurgiram. Um vigor flutuava
sobre pele que se regenerava em sua coloração normal. E sob
ela a carne adquiria tônus e substância. Quando o frêmito cedeu,
os policiais viram um outro homem. O velho Dr. Bulhões de outrora.
Aquele homem volumoso e afável, de respiração felina e modos
pachorrentos.
A cura fora instantânea.
Para o completo ensadecimento de Pedro Gomes, a cura fora completa e
imediata. O juiz ainda não sabia disso, mas Jonas Costa sentiu,
de repente, que o medo insano que sentia pelo velho homem o abandonara.
Então o Anjo pediu aos policiais que se retirassem, porque tinha
assuntos sigilosos a tratar.
- Doutor, o nosso
pacto está feito. Eu lhe devolvi a vida, mas, agora, cabe ao
senhor seguir as minhas instruções. Se não segui-las
à risca, o mal voltará recrudescido. Primeira condição: nunca,
nunca mais, pise em solo sagrado; a segunda: distribua estas três
estatuetas às três pessoas a quem mais ama, ou àquelas a quem
deve um grande favor.
O taumaturgo fez
uma mesura anacrônica, quase medieva, e saiu; os policiais, que não
mais tinham tempo a perder com o curandeiro, deixaram-no seguir sem
qualquer resistência. Então Pedro Gomes, que voltara ao apartamento,
disse ao homem que um dia fora um juiz:
- Creio que merecemos,
eu e Jonas, um pagamento à altura dos nossos favores.
- Deixo-lhe um envelope.
Abra-o agora, se quiser.
Os policiais sorriram
entre si, extremamente satisfeitos. Iam se retirando, quando o
homem os chamou de volta.
- Tenho algo mais
para vocês – disse, entregando uma estatueta de anjo a cada um dos
policiais. – Guardem isso consigo. É um presente a quem me
fez um bem. Agora, deixem-me sozinho.
Os policiais não
entenderam o por quê daquela dádiva. Quando bateram a
porta atrás de si, não podiam imaginar que o sofrimento e a morte
estavam nos seus calcanhares, como uma sombra sinistra e hostil.
A mesma morte a que o Dr. Bulhões estava, até agora, condenado
a padecer.
Somente quando se
encontrava sozinho, foi que um êxtase absurdo, repentino
como um clarão de um raio, tomou conta do homem de meia-idade.
Gy-Yagin! Alyah, alyah! Verminis! Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin!
Alyah, alyah! Correu ao banheiro, acionou o chuveiro e masturbou-se
com a fúria de um adolescente, o anjo entre a palma das mão e o pênis
mais ereto e latejante do que nunca. Quando terminou, já não
mais podia esperar a hora de experimentar novamente aquela sensação.
Olhou para o anjinho e lembrou-se do padre a quem se confessara. E viu
que a vontade de fumar era apenas uma gota d’água num oceano de prazeres
indizíveis. Nada se comparava àquela “Sensação”.
O Anjo Negro tinha
ainda uma missão a cumprir. Mais uma dentre uma miríade de missões
que lhe foram reservadas. Disseminar a morte cruel. Cambiar uma
cura ágil por várias mortes certas. Mesmo que o ente curado
viesse a descobrir o preço de sua cura, ainda assim seria tarde. Ou
quase sempre seria. Aquele troço viciava. Aqueles pequenos demônios
em trajes de anjos eram piores que a heroína. Heroína elevada
à heroína. Então o taumaturgo, dito o Anjo, saiu na avenida
que flanqueava a praia e rumou de volta para o apart-hotel.
O Dr. Holanda de
Bulhões – seria mesmo aquele o Dr. Holanda de Bulhões que a jovem
conhecera? – entregou à camareira de olhos verdes um pacotinho
embrulhado em papel de presente, com a recomendação de que o entregasse
ao padre Del Vecchio. Foi aí que o mundo girou. Pelos olhos da camareira
perpassaram, num átimo, miríades de imagens. Ela estava
enterrada. Sim, enterrada bem fundo. Estava morta, mas levara
para o túmulo um terrível segredo. Sua cabeça, envolta
no sudário, repousava sobre um livro profano, conforme constava de
seu testamento. E sob seus pés havia uma bolsa repleta
de estatuetas sacrílegas. Ó, Flamel, meu doce marido, onde estás?
Por que não fugistes juntamente comigo? Por que, por não estares
aqui, deixaste-me enganar pelo bruxo lusitano? Por
que...
A menina dos olhos
verdes deixou cair o presentinho no chão. Mas se recompôs, apanhou-o
de volta, e foi cumprir o que o homem esquisito determinara. Seu
emprego dependia disso. Mas, desde já, a sua alma ardia de arrependimento
e de remorso.
A moça assustadiça,
que o padre imaginava vagamente reconhecer de outro lugar, retornou
numa manhã de pouco frio. Mas, ao invés de trazer um novo bilhete,
enviado por um moribundo pedindo a unção extrema, vinha
com um presente nas mãos: uma caixinha embrulhada em papel colorido,
com um cartão de dedicatória preso por uma fita de náilon. Assinava
um bilhete de agradecimento o Dr. João Henriques de
Melo e Silva de Holanda Bulhões.
- Padre, não
receba este presente – suplicou a moça que agora parecia ver nos
olhos do padre a expressão de alguém de outras eras. Há
algo de ruim nisso aqui. Há algo de muito mau nisso tudo!
À Santa Casa
de Misericórdia recolheu-se uma professora completamente alienada.
Pedia, insistentemente, por mais uns anjinhos. Dizia
que queria ter a “Sensação” novamente. Que daria tudo por
isso. Rasgava continuamente as roupas. E tinha as mãos
atadas nas costas, para que não se masturbasse contínua e alucinadamente.
E gania palavras incompreensíveis:
- Gy-Yagin!
Alyah, alyah! Verminis! Yog-Sothoth!
USQUE AD SIDERA
ET AD INFEROS
Quando o clérigo
desembrulhou e abriu a caixinha, viu que ganhara uma estatueta
de anjo. O padre a arrebatou de chofre, sem saber ao certo
o que fazia. E segurou forte o querubim com a mão direita.
Então desabou no chão, como se toda a sua ossatura ruísse a um abalo
que vinha das profundezas da alma. Era a mesma estatueta dos seus
transes. Uma daquelas estatuetas macabras que foram sepultadas juntamente
com a mulher de Igaraçu.
Então o Padre Del
Vecchio sonhou. Sonhou que Dom Fernando o erguia e o fazia despertar.
Mas agora o gentil homem estava um pouco mais velho. Tinha cabelos
curtos e usava trajes modernos. Del Vecchio olhou no fundo dos
olhos de Dom Fernando, agora mais malévolos do que nunca, e perguntou:
- Aquele, nos canaviais,
no cemitério, era eu?
- Ah! – disse Dom
Fernando Gonsalves – isso é um segredinho que só os
céus – ou os infernos – podem esclarecer! Esta resposta se
estende usque ad sidera et ad inferos. Não adianta
procurar.
- Vade retro,
angelus niger, in abbissum infernum, trollu satani in stagnum iminis,
in nomine patri et fili et spiritus… - Balbuciou o Padre Del Vecchio,
antes de mergulhar na inconsciência.
O Anjo Negro sorriu
malignamente, retirando-se pela mesma janela pela
qual não se sabe como entrou.
Não é preciso dizer
que, desde aquele instante, o corpo do jovem padre começou a definhar,
torturado por sonhos macabros e dores insuportáveis.
E, depois que morreu – e morreu num quarto escuro, porque já não
mais suportava um mínimo fiasco de luz –, um homem estranho,
que se dizia velho amigo do defunto, reclamou para
si, dentre os parcos bens do espólio de Del Vecchio, uma
estatueta de anjo negra como ébano. Ninguém fez qualquer objeção.
Ele suava em profusão,
assustadoramente, porque era premente, urgente, satisfazer
ao novo vício. A cura repentina pouco significava para o magistrado.
Importar-se-ia com ela no seu devido tempo. Porque o seu corpo
e sua alma não clamavam por vida. Clamavam por aquele ópio diabólico,
aquela substância imaterial e narcótica. O retorno ao prazer absoluto
era a única premência. O Alfa e o Ômega. A Razão de
todas as razões. Yog-Sothoth.
E, após despachar
o presente pela camareira, que não o reconheceu, o Dr. Holanda de Bulhões
abriu o enelope timbrado com as mãos trêmulas.
Então o frenesi
passou como por encanto. A agonia do vício, a ânsia da abstinência,
diluíram-se no ar como que por encanto. Não havia mais sorriso no
olhar do Dr. Holanda de Bulhões. Não havia mais esgar. Havia uma incredulidade
impossível. Havia uma consternação silenciosa e medonha, repleta
de pavor, e uma sensação de neutralidade absoluta. A sensação
inerte de ausência, de não-ser, que quase sempre acompanha um choque
inassimilável.
Foi ao armário
de seu quarto e retirou um revolver de uma prateleira. Sentou-se
na poltrona e sorriu amargamente. Depois, catatônico, apontou
o cano da arma para o ouvido e disparou.
Respingos de
sangue e fragmentos de miolos aspergiram a superfície da foto
que exibia a cabeça decepada do terceiro homem, do
facínora que estuprara e matara a sua menina. E minúsculas lascas
de ossos, engolfadas de fluidos orgânicos, tornavam ainda
mais hediondo o retrato em que se formara a imagem repulsiva do
próprio filho adulterino.
EPÍLOGO
O Anjo se afastava
quando ouviu, ao longe, o estampido da arma de fogo, que fazia, em seu
eco, flutuar os miolos de um homem carcomido pelo destino
impiedoso.
Dom Fernando Gonsalves
desfilou pela Avenida Oceânica com passos elegantes e altivos,
vez por outras acariciando a velhíssima bolsa onde estavam as suas
pequenas estatuetas tenebrosas. Sorria de prazer e satisfação.
Mais tarde, na periferia
da cidade, postou-se à frente de um hospital decadente, onde
um certo Dr. Diniz, ainda em juízo perfeito, tentava reanimar
um cadáver de um homem cujo cérebro fora transposto por um projétil
de calibre 22.
-Vamos, minhas coisinhas
– disse Dom Fernando, com uma brandura quase infantil, enquanto
afagava seus anjinhos. – Vamos, queridos. A brincadeira vai
recomeçar.
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