Navegação
  .: Contos novos
  .: Contos recentes
  .: Contos antigos
  Matérias grotescas
  .: Mestres do Terror
  .: Links
  .: Entrevistas
  .: NOVAS NOTÍCIAS
  .: E-books
  Áudios

  Vídeos

  .: NOVIDADES

  .: Página principal

Interação
  .: Entre em contato
  .: Envie seu conto
  .: Quem somos
  .: Nossa proposta

ANGELUS NIGER

Autor:PAULO SORIANO.

260"

PAULO SORIANO

    ANGELUS NIGER

    (NOVELA DE HORROR)

    Esta novela vai para Quequê,

    minha serelepe e dedicada esposa,

    a quem amo e admiro imensamente,

    e que bem merecia algo mais belo e afetuosos.

    E menos tenebroso, também.

    PRÓLOGO

    O projétil .22 havia sido disparado de uma distância considerável. Mesmo assim, penetrara facilmente no crânio do homem, ágil como um dedo de uma criança que mergulha num bolo quente e tenro, para alojar-se justamente num local em que se não permitia intervenção cirúrgica. O médico de plantão, naquele mísero hospital de periferia, após o exame da chapa de raio-X, ainda tentou alguma coisa. Mas, depois, com um assentimento douto e conformado, limitou-se a aguardar o livre curso da falência do corpo, que tendia ao absoluto. Se tentou a reanimação, por duas ou três vezes, com o auxílio de dois paramédicos sonolentos, foi por puro dever de ofício. Estaria com a consciência perfeitamente tranqüila se tivesse cruzado os braços e esperado que a natureza seguisse o seu curso. O homem morreu. Isto era tudo. O médico e os assistentes saíram, por um instante, para procurar, em toda aquela bagunça de um hospital decrépito, um formulário de óbito.

    Era o tempo necessário que o Anjo Negro, que convivia com as sombras, dispunha para operar mais um prodígio. Entrou sorrateiramente. Ensaiou o ritual que os Antigos lhe ensinaram. E saiu tão despercebido quanto entrara.

    O médico voltou, e já se punha a preencher o formulário de óbito, quando algo de incomum aconteceu.

    O cadáver, estendido de costas, pôs-se a debater, como se reanimado por uma força enigmática. Como se sucumbisse a um inesperado ataque epiléptico. Uma convulsão demorada tomou conta do homem morto, o que deixou o experiente médico atônito, sem saber o que fazer. Depois, o corpo descreveu um arco, apoiado na musculatura dos ombros e na base dos calcanhares, perfeitamente estático, como se o tempo o prendesse no ar. Assim permaneceu o cadáver, por longos e eternos segundos, agora surpreendentemente imóvel, como um ginasta que pára e respira, aguardando uma nova e mirabolante evolução. Então caiu. E voltou a arquear-se, após um rápido estertor.

    As mãos e os lábios do defunto abriram-se coesos, num átimo. Uma perfeita sincronia post mortem.

    Como que traspassado por uma corrente elétrica de alta voltagem, que outrora era aplicável aos lunáticos em seus momentos de justa euforia, o corpo envergava, arqueava-se para cima, sugado a partir de um ventre túrgido. Tomava, para o desespero do médico experiente, a forma de uma ponte recurva, um arco quase gótico, elaborado pelo pulso de uma força Ancestral. E, depois, rompido o laço que o prendia ao absurdo, tombava pesadamente sobre a maca, mas sem barulho ou comoção alguma.

    Esta operação – que, na opinião do médico parecia uma invasão – se repetiu por várias vezes. Não sabia o médico dizer quantas vezes os músculos cadavéricos proporcionaram o cruel deleite dessas singulares evoluções. Porém, finalmente, a coisa aquietou. Graças a Deus aquietou. Somente aí o médico ousou uma aproximação. Uma aproximação cautelosa, como quem experimenta a eficácia de uma ratoeira. A um primeiro e tímido exame, o médico constatou, com a convicção de um residente, que a lividez havia sumido: tons vermelhos inundavam a face do homem que supusera definitivamente morto. O sangue, em colapso, voltara a inundar as artérias adormecidas ao redor do buraco chamuscado. Estrelas cintilantes naquele lívido céu de morte. Então as artérias puseram-se a pulsar com especial frenesi, com uma cadência tão maravilhosa que ousaram despertar veias obstruídas, absurda e definitivamente adormecidas.

    E então o homem inspirou profundamente. Seguiu-se uma respiração regular, calma e ritmada.

    O médico gritou, presa inerme de uma surpresa impossível.

    Vieram os paramédicos, inscientes do absurdo que teriam que enfrentar.

    Mas o pavor final ainda estava por vir. Algo de inacreditável desafiou a sanidade do Dr. Diniz. O seco e frio André Diniz, quem diria! Que hoje está enfurnado numa camisa-de-força e que se urina à mera menção da palavra morte.

    Do orifício onde o projétil havia penetrado, o sangue passou a fluir, em pequenos e regulares esguichos. Depois, a bala saltou da fronte do homem, como se produto de uma cusparada. Aos olhos do Dr. Diniz foi isso que aconteceu: o cérebro do homem cuspiu a bala. E então o homem prostrado na maca, que antes de morrer se chamava Esteves, abriu os olhos, que se moveram ágeis como bolas de gude, rolando lubricamente de um lado para o outro, astutos e curiosos, assim como os de quem experimenta enxergar pela primeira vez. O homem, após uma quase eternidade, retornara da morte. Mas agora renascera com uns olhos infinitamente espertos e um sorriso nos lábios que o Dr. Diniz reputou animalesco e sardônico. Definitivamente desumano. Diniz desmaiou ali mesmo. Talvez algum dia acorde de seu sonho de pesadelos.

    Lá fora, o Anjo Negro, que operava milagres, aguardava a saída do paciente com uma bolsa de veludo, onde pequenas estatuetas aladas cintilavam.

    CAPITULO I

    O PADRE E O MAGISTRADO

    É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.

    1

    UM HOMEM DECRÉPITO

    Pedro Gomes, que nunca fora de demonstrar os sentimentos – se é que os tinha –, ficou surpreendido ao descobrir-se espantado.

    Jonas Costa quase cambaleou, deu um passo para trás, mas se aprumou.

    Aquele homem volumoso e afável, de respiração felina e modos pachorrentos, definhara a ponto de se tornar um quase ancião em questão de dias. Mas a doença fizera, a seu modo, certos milagres. O homem perdera em volume, mas ganhara em altura e agilidade. Quem o encarava agora, numa noite fria de um agosto cinzento e taciturno, via, admirado, o ondular das faces ressecadas, ora mergulhadas na confortável penumbra de uma sala de apart-hotel, ora alumiadas pela débil claridade que rebentava frouxa da janela. Sob a aura de um vai-e-vem vagaroso, e ao suave jugo do oscilar de uma cadeira de balanço, sombras e luzes perpassavam fugidias aquelas faces cavernosas, aqui atirando os olhos num fosso de escuridão, ali elevando a angulosidade de um maxilar saliente, quase a romper a pele retesada, amarela como um velho pergaminho.

    Mas o mais admirável era vê-lo empunhar vigorosamente os braços da cadeira, e erguer-se com a agilidade de um rato, a sombra crescendo na parede, o corpo tomando uma dimensão inimaginável. Quando se levantou, um controle remoto, com o qual abria e fechava a porta do apartamento, caiu no chão. Ninguém ousou segurá-lo e entregá-lo ao recém-ancião.

    Pedro Gomes, que nunca fora de revelar – quando os tinha – os sentimentos, também nunca foi de dissimulá-los. Perguntou ao homem, sem rodeios, se a evolução da doença afetara-lhe também os intentos, até então inabalados.

    De pé, o homem esguio contornou a cadeira, mergulhou as unhas no espaldar e recolheu-se a uma sombra confortável, próxima à janela, de onde podia evitar a contemplação de algo que um dia chamara mundo – algo muito natural onde tudo funciona às mil maravilhas –, e lá ficou. Sentiu uma vontade enorme de fumar. Mas resistiu.

    Jonas Costa sentiu um alívio profundo quando o homem galgou as sombras. Pressentia algo de sobrenatural naquela mudança. Que o homem estivesse ali, mas que não visse o homem. A visão do homem decrépito, daquele corpo esquálido e longilíneo, quase sem respiração, atormentava-o tanto quanto o atormentavam os monstros que percorriam as paredes de sua infância, e se alojavam justamente debaixo de sua cama, prestes arrebatar-lhe a mão quando o punho tombasse para fora do leito e da consciência, ao simples adormecer.

    (Santo Deus! – Pensou Jonas Costa. – Preciso sair daqui. Preciso sair daqui antes que esta coisa crie garras e avance sobre mim.)

    Mas o homem recolhido na sombra salvadora conservava, sim, os seus desígnios. Agora mais do que nunca. Foi o que disse, em alto e bom som. O homem definhava, mas a voz, enigmaticamente, crescera em firmeza e intensidade, na mesma proporção em que o corpo adquirira tamanho e desenvoltura.

    Apenas tinha pressa, não mais que pressa. E todo ódio do mundo.

    Foi o que tornou a dizer, numa voz incrivelmente clara, que parecia vir de longe, adquirindo estranhamente volume e profundidade (individualidade?) à medida que se afastava de seu emissor. Parecia uma voz em si mesma, sem dono e sem direção.

    (E diria muito mais, se fora o caso. Diria ao caça-níqueis do Jonas Costa um pouco do que é a decência. Do que é ser honesto uma vida inteira, uma vida dedicada aos estudos e à retidão de caráter. Diria o que é ser um bom juiz, pôr a lei acima de tudo, e, ao mesmo tempo, ir contra ela, dando-lhe um sentido peculiar, ainda não experimentado pela frieza de seu texto, quando a eqüidade e o dever de humanidade gritassem mais alto. Puxaria o policial corrupto e sanguinário pelo colarinho, faria-o sentir qual é o peso real de um magistrado, e falaria, bem perto, quase a tocar-lhe o ouvido – aquele filtro por onde boas idéias não passavam, antes viravam cerume – o que é ser um homem. Porque ser um homem é mais importante do que ser humano. Quem quiser que duvide. Tivera os arroubos da carne e produzira um germe, mas um germe a quem amava com a amargura dos que são obrigados a fazê-lo. Um germe que já nascera ilícito, filho que tivera de uma putinha faceira de periferia. Como um homem pode nascer ilícito – Era o que se perguntava, ante o absurdo da norma ignóbil, que aplicava a contragosto, quando simples juiz, mas não como homem. E depois soube, na própria carne, como um homem pode ser ilícito. Soube na condição de pai, e pai de um filho adulterino. “Meu filho é um inocente... Eu é que sou adulterino”, foi o que disse, há muito tempo, ao colega, excepcional promotor, e antigo confidente. E a criança cresceu e adolesceu [e deixou de ser espúria por conta da ‘Carta de 88’] num bairro pobre, com o dinheiro que o juiz obtinha e o pai parcamente mandava, quase sempre longe do homem-que-é-o-pai, e sempre perto do inferno. Mas não há segredo que dure para sempre. A essência do segredo está na susceptibilidade de não conter-se em si próprio. No segredo, a possibilidade do extravasar é pura e necessária inerência. Eis a lógica e a obviedade das coisas. Mas, enquanto o segredo continha-se em si mesmo, e inchava como uma bola de soprar, Dona Margateth Melo e Silva de Holanda Bulhões, que nunca engravidara, para não macular a beleza imaginária, procurou o fiel ginecologista, que a mandou a outro e mais outro médico, até que Rebeca rebentasse de seu útero quase senil, como se a criança bem-nascida fosse a guardiã de toda legitimidade. Pois Rebeca nasceu muito branca – como convinha a uma filha de um magistrado –, e tinha os cabelos louros da mãe, e a inteligência do juiz. E viveu assim, bela e única, inteligente e vaidosa, até que foi estuprada [ e depois morrera] por três marginais, aos quinze anos de idade.)

    Dr. Holanda de Bulhões – se é que aquela coisa longilínea era verdadeiramente o Dr. Holanda de Bulhões – agitou, nas covas emolduradas por ásperos supercílios, uns olhos escuros e medonhos. E não mais falou – para a tranqüilidade reservada e paciente do Delegado de Polícia Pedro Gomes e da sincera alegria do cruel do agente Jonas Costa.

    - Nada do terceiro homem. O assassino de sua filha escafedeu, sumiu – mentiu em parte Pedro Gomes, estendendo um envelope de papel madeira (com timbre do Estado), para o Doutor, enquanto que, com a cabeça, fazia menção de acender a luz.

    Jonas Costa recuou, levando, por puro reflexo, a mão à coronha do trinta-e-oito de cano curto, como a se defender da luz e da figura monstruosa que ela extrairia da escuridão. A dor no olho esquerdo ressurgiu violenta, mas de dentro para fora, como o inverso do murro que levara, há poucos dias, de Pedro Gomes, que era o seu Delegado de Polícia. A pele parecia que espichava para além do corpo, mas a dor estava muito à vontade dentro de casa, dentro de casa mesmo. Latejava para escapar, mas não saía e nem queria sair. Doía muito. Jonas quase caiu. Mas sentiu outro grande alívio (meu Deus, preciso sair daqui!) quando o Doutor agitou impacientemente as garras, que eram mãos:

    - A luz é extremamente dolorosa às minhas pupilas. É uma das seqüelas de minha enfermidade. Deixe o envelope sobre a mesa. Do que se trata?

    - É melhor que o senhor mesmo leia.

    - Escafedeu, então. Pedro Gomes, eu não tenho um segundo a perder. A minha morte é certa. Questão de poucos meses. Ou dias. Você sabe melhor do que eu! Eu quero os assassinos de minha filha.

    O que havia na voz (autônoma) daquele homem? Irritação, impaciência, irresignação, medo? Talvez todas as emoções possíveis e possivelmente nenhuma emoção. Talvez todas as emoções se fundissem e o resultado fosse a mais pura e enigmática neutralidade.

    - É, não tem – concordou Pedro Gomes. – Mas vamos continuar procurando o último dos assassinos de sua filha. Nem que seja na China, vamos pegar o homem. De todo modo, veja o envelope, eu acho.

    - O senhor me perdoe – interveio Jonas Costa. Mas não era mais Jonas Costa – o cruel Agente de Polícia – quem falava. Falava por ele uma voz macia. Absolutamente macia. Parecia, mesmo, que, detrás daquela voz, havia mesmo um ser humano. Quem o ouviu sentiu o veludo de voz de um homem bom e humilde, mas...

    (...mas não foi nada fácil caçar os camaradas, estupradores e assassinos. Ninguém convida ninguém para testemunhar um homicídio e um estupro que resultaria em morte. Ou convida? O primeiro homem não foi capturado. Já estava. Foi preso por um assalto à mão armada, levou uma boa prensa e confessou até o que já havia esquecido. Depois, conforme consta dos arquivos da polícia, morreu enforcado com a própria cueca, dentro da cela infecta da 44ª DP, embora a Polícia Técnica haja intuído que a morte chegou quando avançado um “incidental processo de envenenamento”. Mas o Dr. Holanda não precisava saber destes pequenos detalhes. O importante é que os colegas da 44a. DP, sem que soubessem, fizeram o servicinho sujo por ele. E o velho não precisava tomar conhecimento disso. O dinheiro viria, do mesmo modo. Jonas Costa soubera da confissão depois da morte do elemento, ficara mais que aborrecido porque poderia ter arrancado alguma coisa a mais, mas não disse nada. De certa forma, tivera sorte. O indivíduo enforcado na própria cueca apontara o segundo homem, que tombou dois dias depois. Foi tarefa fácil, mas Jonas errara na pontaria. Alvejou o ombro; contudo, atingiu em cheio no peito. O marginal espumou sangue, mas não teve tempo de delatar o terceiro homem. Se bem que tentou, mas não pôde. Por isso Jonas ganhou de Pedro Gomes uma “luneta roxa postiça” no olho esquerdo e um corte profundo no supercílio. Agora concluir a missão, em tão pouco tempo, era uma tarefa quase impossível. Teriam de partir do zero. Mas...)

    - ...mas...

    - Evidentemente. Entendo perfeitamente – disse o novo velho, dando a entrevista por encerrada. – Amanhã a remuneração estará disponível.

    Jonas agradeceu e escorregou para a porta, sem olhar para trás. Precisava de uma cerveja gelada urgentemente.

    - Agradeça a seu Deus, de todas as dores e de todas as enfermidades – amargou a coisa que um dia fora magistrado, como que olhando para ambos, mas sem verdadeiramente fitar qualquer um dos dois.

    Os agentes se retiram e o homem recolheu-se na penumbra oscilante e acolhedora para contorcer-se de dor. Um dia – muito em breve – estaria tudo acabado. Poderia acabar de morrer em paz. Mas, até lá, teria que ganir e uivar como um lobo ferido numa armadilha.

    2

    UM JOVEM PADRE E SUAS VISÕES NOTURNAS

    O Padre Del Vecchio estava debruçado sobre a mesa, com a cabeça loura enfiada entre os braços. Suava abundantemente e parecia ter calafrios. Uma extremidade do terço, pendente da mão esquerda, fazia a imagem de Cristo oscilar lentamente no vazio noturno. Mantinha bem apertados os olhos azuis, mas eles miravam firmes para dentro, e, garanto, estavam terrivelmente assustados com o que viam.

    (Aos burros exaustos custava vencer a terra tenra, pegajosa. Uma tênue elevação significava um esforço desalmado para aqueles dorsos vaporosos. E, quanto a mim [serei mesmo eu?], representava um pouco mais de desafio para a paciência. Meu amigo tinha pouco tempo a perder, e eu o via com o seu olhar sério, filosófico. Enquanto eu olhava com desinteresse a ondulação pacífica dos canaviais [meu Deus, como eu sei que são canaviais?] e admirava a resignação dos burros a trotar, ele contraía as mãos e me olhava com raiva, como se eu fosse o culpado.

    As ondulações de cana verde eram suaves, belas e livres. Inclinavam-se ao sopro da noite e se deixavam vergar ao máximo. Depois reagiam num átimo e jogavam furiosamente o vento para bem longe. A noite estava fria naquele início de agosto e havia uma lua cheia no céu. O vento seco batia firme contra o meu rosto, enfunando o meu sobretudo cor-de-terra e atirando os meus longos cabelos para trás, como se dispusesse de inúmeras mãos frias e invisíveis.

    Medo era pouco.

    O que eram aquelas vozes, trazidas pelo vento, a exclamar palavras

    (Gy-Yagin! Alyah, alyah!)

    indizíveis?

    Meu amigo me disse, tomando-me as rédeas e olhando inquieto para mim:

    - Vai chover.

    Chicoteou as mulas sem qualquer piedade. Um susto violento e uma onda de terror perpassaram as bestas, que franziram as orelhas e esticaram o pescoço. E as mulas avançaram, passaram do trote ao galope, num esforço supremo, deixando para trás, sob o luar, o tênue vapor luminescente emanante de seus dorsos suados. A estrada se estreitava quase a ponto de converter-se numa senda, como uma enorme serpente castanha, banhada de lua, que se aninhava e se enroscava nas fraldas das suaves colinas. Logo mais avistaríamos a cúpula da capela e, em seqüência, as pequenas cruzes brancas que subiam desordenadamente um suave aclive.

    - Sei que vai chover . Mas não muito. O céu está quase limpo.

    E pus-me a cantar, para aconchegar os nervos, a esta altura esticados como as cordas de um alaúde que eu imaginava ouvir:

    “Menina dos olhos verdes

    por que me não vedes...”

    Meu amigo, o fidalgo Dom Fernando Gonsalves, era um homem de vasto saber. Havia lido Dante e desdenhado de Boccaccio. Chegou mesmo, dizem alguns, a trovar com Luís Vaz, em pessoa, mas meu amigo nunca confirmou. Era um homem circunspecto, que falava pouco e que admirava um certo Leonardo, sábio florentino. Dizia-se que pensava em latim e que sonhava em grego. Que herdara segredos herméticos de Flamel e de um certo Von Hohenheim, dito Paracelso. Esse era o meu amigo, gentil-homem de Vila Nova de Gaia, em plena marcha para o cemitério agrícola de Igaraçu, onde um cadáver de mulher o esperava para furtivamente ser desenterrado e espoliado.)

    3

    UMA CRIANCINHA CORRE CÉLERE PARA A MORTE

    O pátio era todo ruído. Em meio à algazarra infernal e aos gritinhos animados, a jovem professora procurava uma menininha de rosto redondo e cabelos anelados, com uma fitinha vermelha no cocoruto. Encontrou-a no bebedouro. Quando viu a professora, a menina enxugou os lábios com as abas da saia plissada, deu um gritinho de prazer, e correu ao encontro de Tia Marta.

    A professora abraçou a criança. Estava emocionada. Olhou nos olhos da menina, dizendo:

    - Meu anjinho!

    Depositou uma estatueta de anjo – de 2,5 cm de um mármore cintilante – nas mãos da criança e sussurrou-lhe num ouvido:

    - É para você, minha linda. Para te proteger.

    A criança olhou para o anjinho de marfim e sorriu, dois dos dentes da frente faltando. Depois, meteu a estatueta no bolso da camisinha branca e saiu correndo, feliz, para o pátio e para a morte.

    4

    UNAUSSPRECHLICHEN KULTEN

    A penumbra dominava e parecia mesmo ignorar as línguas ígneas que subiam dos círios cor de ossos, incrustados em castiçais de ouro. A sombra que se projetava num nicho obscuro da parede, onde tremulava um ícone que as trevas não deixavam distinguir, segurava um punhal e uma cruz, os braços erguidos tremendo conforme os estertores das chamas dos círios. A cruz trêmula quase não se mexia. Mas o punhal deslizava célere sobre as paredes, ensaiando uma coreografia que se perdia no fosso de todos os tempos.

    Projetada na parede, ao lado da réstia delgada de um homem a empunhar uma cruz e uma adaga, a sombra de pequenos objetos alados contemplava o estranho ritual.

    CAPÍTULO II

    EM BUSCA DE MILAGRES

    É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.


    1

    A MISSÃO DO JOVEM PADRE

    (A torre da capela era uma agulha negra que o luar escavava da escuridão. Em torno dela, havia uma plantação de cruzes, semeadas ao acaso. Naquele ambiente, tão desolado, o vento se espraiava com maior velocidade e a luz vaporosa da lua adquiria uma consistência de sonho. Aos poucos a paisagem se tornava mais definida, e agora já era possível vislumbrar o cercado tosco do cemitério, um campo de morte arrancado do canavial. As cruzes subiam lentas e tristes, até se perderem no silêncio da mata rude e misteriosa.

    - Sei o que vossa mercê está a cogitar – disse o meu amigo. Mas temos um corpo de mulher para exumar....)

    A mata, o canavial, as cruzes se fundiram num pano de fundo absolutamente escuro. Tudo agora estava silencioso e calmo. Nenhum sobressalto trouxe o padre Del Vecchio de volta à consciência. Veio conduzido por mãos suaves. Respirava normalmente, embora suasse abundantemente naquela noite fria de agosto. O terço havia tombado de sua mão e a Bíblia ainda estava aberta sobre a mesa.

    (E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te por Deus que não me atormentes. [Porque lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo.] E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é meu nome, porque somos muitos.)

    Olhou para o relógio de pulso e resolveu se apressar. O padre Riccio, sempre pontual, cruzaria os umbrais em mais ou menos quinze minutos, certo? Mergulhou no chuveiro. Sentia-se cansado.

    “O velho sonho, sim, tão velho quanto eu.”

    Conhecia bem a história toda e, a cada sonho (sonho?), mais alguma coisa era acrescentada, evoluía para um desfecho certo e inexorável, que ele desconhecia, mas que no fundo sabia e queria de alguma forma dominar e esquecer. Dominar, saber e esquecer. Era como se tivesse assistindo a um filme. Um bom e velho filme de (terror?) pessoas insanas, mais nada. Aquilo era verdadeiramente um sonho? Aquilo era mesmo um sonho? Onde estava a substância etérea, a substância etérea de todos os sonhos?

    O Padre Ricardo Del Veccio S.J. havia sido retirado de sua pequena paróquia, uma adorável paróquia piemontina, para uma missão especial. Estava ansioso, quase assustado – sentia-se um marinheiro prestes a ser engolido pela gigantesca onda de Hokusai , enquanto era conduzido, ladeado por dois padres jovens, por um amplo corredor, ao gabinete do bispo auxiliar. Parecia um rebelde subjugado, um prisioneiro de guerra sendo escoltado até a sala do diretor do campo de concentração. Ia a passos largos e silenciosos pelo chão de pedra de cantaria, muito dura e desgastada, cujo leito afundava numa vala côncava, um registro de que os passos humanos, por séculos e séculos, também provocam erosão. À sua esquerda, arcos fortes e revelhos, de pedra cinzenta, sem reboco, abriam-se para um pátio cheio de luz. Contemplou o belo jardim de ciprestes e abetos com olhos vazios, desviando a vista da sala que se aproximava, onde decerto a expectativa cederia lugar a uma realidade dura e forte, em seguida a um baque no coração, potente como um murro no estômago. Um dos padres jovens bateu à porta duas vezes, antes de girar a maçaneta e acenar, com a cabeça, para que Ricardo entrasse na ante-sala. Criminoso ou prisioneiro de guerra? Ricardo obedeceu à ordem de sentar-se, que vinha de um padre gordo e sonolento, debruçado sobre um birô de carvalho. Cumpria a honrosa missão de secretário do bispo auxiliar. Os dois padres jovens trocaram algumas palavras entre si e depois se retiraram, batendo a porta violentamente. Padres ou carrascos nazi-fascistas? Após uns quinze minutos de espera, o interfone tocou e veio do padre secretário a autorização para que entrasse na sala do bispo auxiliar. Ricardo não sabia por que estava ali. Mas sabia que não seria por coisa boa. Quando entrava, ainda vasculhava a memória. Qual a regra que teria infringido? Qual seria a punição desta vez? Mas a entrevista foi rápida e pouco esclarecedora: havia a pena, mas não o crime. Melhor assim. Del Vecchio adorava infringir, mas não gostava nem um pouco de admoestações.

    O bispo auxiliar era muito mais jovem do que Ricardo esperava. Tinha um quê de impaciência e os olhos eram duas céleres bolinhas de gude, negras, astutas e ambiciosas:

    - Sente-se, padre – disse o bispo auxiliar. – Temos algo a conversar.

    O Padre Del Vecchio deve ter tremido, porque o bispo se levantou e desligou o ar-condicionado.

    - Gosta do calor padre?

    - Não muito – respondeu Ricardo, com sinceridade.

    - Pois é bom que se vá acostumando com o calor – acresceu o jovem bispo auxiliar, enquanto voltava e se sentava por trás de sua carteira de ambicioso padre burocrata.

    Antes que Ricardo abrisse a boca para perguntar se iam mandá-lo para a Líbia, o bispo continuou, com uma inflexão de voz monótona e desinteressada, e um gesto impaciente de quem quer concluir prontamente uma tarefa pequena e inoportuna:

    - Umberto Riccio é um padre veneziano que, no momento, encontra-se numa missão especial na América do Sul. É um homem idoso e dedicado. E culto também. Estudou em Lisboa e fala bem o português. Agora se encontra no Brasil investigando certos fenômenos aos quais a população ignorante chama de milagres. Sua missão, padre Del Vecchio, consiste em auxiliá-lo, mas por pouco tempo. A tarefa de Riccio está quase concluída, mas exige alguns esforços que transcendem às forças de um ancião. Sabe alguma coisa sobre milagres, padre?

    - Muito pouco, eminência. – Del Vecchio percebeu que a interrogação, carregada de ironia, do bispo auxiliar era pouco menos que um desdém. Coisa de um superior, tão jovem quanto, porém bem mais qualificado que subalterno, justamente porque dotado de um intelecto superior e ocupado com coisas bem mais importantes que rezar missas todos os domingos para uma malta de camponeses rudes e entediados.

    - Eu diria quase nada. Pouco sabemos de milagres, não é certo? Mas você fala o português – sem sotaque, pelo que soube , num país em que quase ninguém se interessa em saber qual é a língua falada no Brasil. E não poucos que supõem saber, pensam que é o espanhol. Eu mesmo assim pensava. Você irá para o Brasil e os detalhes da missão você saberá diretamente do Padre Riccio.

    Só em solo brasileiro – a terra de sua mãe Padre Del Vecchio soube que a sua atividade não seria, efetivamente, a de auxiliar o velho padre veneziano. E nem ficaria por pouco tempo. Iria, mesmo, substituí-lo. Hoje conversaria mais um pouco com o velho e bom Padre Riccio. Dentro de um mês, ou mesmo três semanas, o bastão seria seu. Só seu.

    Mal vestira uma bermuda, metera-se numa camisa de malha frouxa e calçara os chinelos, o interfone tocou. Mais alguns minutos e a prazerosa imagem de um padre velho, alto e curvo, molhado de chuva, preenchia, como uma bênção, as pupilas azuis de Ricardo Del Vecchio.

    O Padre Riccio tinha um sorriso suave e melódico como uma canção de Cole Porter:

    - As investigações me conduziram de início a Bom Jesus da Lapa – começou Padre Riccio, após instalar-se confortavelmente numa poltrona e extrair a fumaça doce de seu cachimbo de fumo holandês. Houve pelo menos sete milagres entre abril e dezembro de 19..., todos numa mesma região. Depois houve outros, em outros lugares. E, não posso negar, todos tendem a uma confirmação. Você terá a oportunidade de ler o relatório de cada um deles, mas o mais importante (o mais interessante, corrijo-me) foi um relacionado a uma professora primária.

    O velho padre fez uma pausa para bater a cinza do cachimbo. Respirou profundamente antes de continuar. O sorriso melodioso se lhe havia escapado dos lábios e uma aura pesada, circunspecta, o envolveu como uma sombra fria e invernosa:

    - Houve um assalto ao banco do Estado e a moça foi levada como refém. Os assaltantes meteram uma bala na cabeça da moça que foi jogada da ponte ao Rio São Francisco. É um rio largo e caudaloso – o velho padre abriu os braços como se medisse a largura do São Francisco a bordo de um barco navegando na linha mediana do rio. Teria se afogado na hora, acaso um barco de passeio turístico não estivesse passando sob a ponte naquela hora. Resgataram imediatamente a moça, puseram-na no barco e, quando o barco ancorou, a moça saltou ilesa, já andando. As testemunhas foram unânimes em afirmar que a moça estava quase morta quando foi resgatada a bordo. Ao que soube, ela ainda guarda a bala que saltou – isto mesmo, saltou, como um furúnculo espremido de sua cabeça, quando o curandeiro lhe aplicou a mão. Em cinco minutos, a moça moribunda estava perfeitamente bem. Só não sabia ao certo o que lhe tinha acontecido. Não tive a oportunidade de falar com a moça. Está em Itabuna agora. Mas o mais surpreendente de tudo é que os milagres não partiam de uma mesma fonte. Havia duas pessoas curando gente naquela cidade. Um dos curandeiros está sob a custódia do arcebispado. Quanto ao outro, não sei onde anda. Mas é um tipo estranho. Parece que não é católico e há rumores que é metido com bruxaria. Você me traz um copo d’água?

    O Padre jovem se levantou e, no caminho para a minúscula cozinha, olhou pela janela do terraço. E não gostou nada do que viu.

    2

    A BREVE HISTÓRIA DO HOMEM MORIBUNDO

    Ao correr as cortinas, para colher a frescura da noite, o Dr. Holanda de Bulhões viu, a distância, homem que sabia ser um padre – já o vira antes, pela mesma janela, de batina passar rente à janela do terraço do apartamento frontal ao seu. Seus olhos se encontraram, mas Dr. Holanda de Bulhões não percebeu o calafrio que ia na alma de Del Vecchio. “Vou precisar de você muito em breve”, pensou amargamente o magistrado. “Muito breve, para uma confissão. Ou quem sabe uma extrema-unção? Mas pensemos nisso depois.” E riu alto, como um alucinado. Depois foi à mesa, onde abriu, com um canivete afiado, um envelope creme com o timbre oficial do Estado. De volta, como uma dentada na alma, veio a vontade de fumar. Mas o homem a reprimiu com o esgar. A dor partiu de um ponto indefinido de seu corpo e o homem gemeu, após um estertor.

    Havia coisas realmente interessantes naquele envelope, exposto à débil luz do abajur. E surpreendentes também.

    A história recente do Dr. Holanda de Bulhões era curta e trágica. A filha extemporânea, a única filha mulher – o filho homem era fruto de um adultério inconseqüente – fora deixada na porta do colégio e nunca mais voltou. Encontram-na violentada e quase morta numa praia afastada, na companhia do namorado, já morto. Ambos estavam nus e as roupas do casal foram localizadas dentro do carro do rapaz, um fusca verde-abacate caindo aos pedaços e recendendo a uísque nacional e maconha barata. Um e um são dois. A mocinha era uma putinha descarada, que, ao invés de estar no colégio para aprender boas maneiras, ficava fodendo no banco de trás. Isso enquanto o pai se entretinha com austeras sentenças e a puta-mãe com roupas novas e cabeleireiros afetados. Muito simples. Aí vieram os caras, viram a cena escrotinha de volúpia e quiseram participar da orgia, também. Rebeca ainda sobreviveu um pouco para contar que o rapaz foi morto, a facadas, na hora, por três homens. Três homens desumanos que brincaram a valer com ela, depois. E, como brinde, ficaram-lhe duas facadas no abdome. A moça conheceu, tão jovem, a UTI e foi para o quarto, graças a Deus. Depois veio a infecção e adeus meu anjinho querido. História curta e trágica. História que não termina por aqui. Pouco depois, o doutor começou a definhar. Morte certa e em pouco tempo. A única coisa boa, nisso tudo, é que a puta-mãe, dona Margareth Melo e Silva Holanda de Bulhões, caiu com um avião quando voltava, alegre e serelepe, de um desfile de modas em São Paulo, embora fingisse uma tristeza teatral pela morte da filhinha, ao telefone. Caiu mesmo, a puta-mãe. Caiu e pegou fogo.

    O sorriso do Dr. Holanda de Bulhões era um esgar, um esgar medonho, repleto de pavor e de ódio. Mas o esgar morreu aos poucos – como aquelas luzes de teatro, que morrem em resistência e os olhos negros se iluminaram ante as fotografias – algumas do Departamento de Polícia Técnica – retiradas do envelope de papel castanho timbrado.

    Numa primeira foto, um homem negro, forte como um touro, estava pendurado numa das graves da janela, junto ao catre de concreto, pela própria cueca. A língua túrgida estava para fora, como a cabeça de uma cobra roxa saindo de uma toca de árvore, e o pênis muito ereto.

    Havia uma outra foto, do mesmo homem, tirada de outro local, quase em close. A cabeça tombava para um lado, num ângulo esquisito, e os olhos vítreos pareciam os de um animal empalhado. Morte boa para um estuprador assassino.

    Outra foto exibia um homem mulato, sem camisa e calça jeans. Estava caído de costas com a bala atravessada no coração. O sangue espumava em sua boca como um afogado o faria se o mar fosse rubro. Era a única foto do segundo indivíduo.

    Depois vinha um relatório curto e grosso, limpo e bem escrito, do Delegado Pedro Gomes. Relatava o sucesso da operação. As fotos do primeiro homem foram ilicitamente obtidas através de negativos acostados aos autos de uma sindicância instaurada pela própria polícia. A do segundo homem fora tirada, pelo Agente Jonas, na hora da morte do facínora.

    O terceiro documento é que era surpreendente. O juiz não sabia se ria ou se chorava. Terminou rindo e bem alto, para sufocar a voz que vinha lá do fundo, pedindo um pouquinho de nicotina.

    3

    O ANJINHO DE TIA MARTA

    O Anjinho de Tia Marta não fora para a escola no dia seguinte. Sangrava copiosamente pelo nariz e pelos ouvidos. E sentia “um fuio na cabeça que doía muito”.



    4

    O CONTRATO DE MORTE

    O trato fora o seguinte: cem mil por cada homem abatido cinqüenta antes e cinqüenta contra-entrega mais trezentos mil ao final. Pedro Gomes tinha de agir rapidamente, porque a galinha dos ovos de ouro definhava a olhos vistos. Agir rapidamente, nada mais. E quase socava o outro olho de Jonas Costa, quando o agente propusera, sem qualquer escrúpulo, apagar qualquer marginal que estivesse dando bobeira e passar gato por lebre. Mas existe um limite ético em tudo, até mesmo nas mais torpes atividades. Pedro Gomes sabia disso, por isso pôs-se a investigar. A polícia sempre acha quando quer. Jonas Costa que se fiasse naquela proposta ridícula, posta no envelope, que lhes daria todo o tempo do mundo. Uma promessa de cura milagrosa. O doutor certamente iria rir até estourar os ossos. E, quanto a isso, não estava enganado.

    5

    MENINA DOS OLHOS VERDES

    Quando o Padre Del Vecchio voltava com o copo de água na mão, descobriu-se cantarolando, sem mais nem por quê:

    “Menina dos olhos verdes

    Por que me não vedes?

    Eles verdes são,
    e têm por usança
    na cor, esperança
    e nas obras, não.
    Vossa condição
    não é d'olhos verdes,
    porque me não vedes.”

    O velho padre abriu o sorriso melodioso, exibindo dentes brancos que ainda eram seus:

    - Onde aprendeu essa cantiga? Já esteve em Portugal?

    Só então Ricardo se deu conta de que cantava a melodia do sonho que parecia um filme. E lhe subiram aos ouvidos os acordes suaves e secos de um distante alaúde:

    - Não sei onde aprendi – respondeu com a mão queixo e o cenho muito franzido. Sonhei com ela.

    - Interessante sorriu em si bemol o padre veneziano. - É uma velha cantiga portuguesa, composta sobre uma redondilha de Camões.

    O jovem padre sentiu o chão recuar sob os pés.

    (Meu Deus! Meu Deus dos olhos verdes! E se tudo aconteceu de verdade? Por que me não vedes?)

    CAPÍTULO III

    MORTE E MILAGRES

    É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.

    1

    UMA NOTÍCIA DE JORNAL

    O último documento reunia cópias xerográficas, uma delas reduzida, de três reportagens de um jornal em linotipo, “O Regional”, editado em Bom Jesus da Lapa. A primeira reportagem ocupava três quartos da primeira página. A manchete, que encimava uma fotografia doméstica, de corpo inteiro, de uma jovem mulher sorridente, dizia:

    PROFESSORA SOBREVIVE MILAGROSAMENTE A ASSALTO

    Ladeando o flanco esquerdo da fotografia, e continuando abaixo dela, havia o seguinte texto:

    “Três homens e uma mulher, armados com revólveres e escopetas de grosso calibre, assaltaram, ontem à tarde, a agência do Banco do Estado, nesta cidade, levando cerca de trinta mil reais, destinados ao pagamento de funcionários da Prefeitura. Segundo testemunhas, os assaltantes renderam um vigilante e mataram um policial militar que reagiu ao assalto. A professora primária Marta Maria de Alencar, 26 anos, funcionária da Secretaria de Educação do Estado em Itabuna, que se encontrava no local, foi lavada como refém. Durante a fuga, os assaltantes estacionaram o Santana na ponte sobre o Rio São Francisco e dispararam um tiro de revolver na cabeça da professora, jogando-a em seguida no rio. Depois saíram em disparada na direção de Correntina. A professora foi recolhida a bordo de um barco da empresa Lapinha Turismo, que estava nas imediações. Passageiros e tripulantes, que acudiram a professora, disseram que a moça trazia uma perfuração de bala na testa e sangrava muito. Um turista, médico da Capital, prestava os primeiros socorros quando um homem, conhecido por Anjo, tocou a fronte da professora, curando-a imediatamente. O fato foi presenciado por inúmeras testemunhas e deixou atônita a população do Município. A professora deu entrevista. Mais notícias na página 03.”

    Outra reportagem, mais antiga, abordava uma senhora que se dizia curada de um tumor maligno no pulmão, graças à intervenção do Anjo. O médico que a acompanhava dizia que não sabia como a senhora havia recuperado a saúde, já que a doente se encontrava em estado terminal.

    A última, mais antiga ainda, dizia respeito a um paciente de AIDS que, milagrosamente, ficara curado após uma única seção ritual com o curandeiro chamado Anjo. A repórter dizia que tivera acesso a laudos médicos, anteriores e posteriores à cura. Mas havia uma polêmica em torno de um caso outro, anterior. Uma mulher de idade, vítima de um derrame cerebral, que a confinara numa cadeira de rodas, e que se encontrava à beira da morte, por conta de problemas respiratórios, havia sido curada. Voltara a andar, perfeitamente, com os pulmões cheios de ar, como se nada tivesse acontecido. Seis meses depois, teve uma recaída e retornou à cadeira de rodas, em estado agravado; morreu rapidamente. Mas a mulher não culpava o Anjo. Culpava a si própria, por não haver seguido as instruções que recebera do curandeiro: não repassara para outra pessoa o último dos anjinhos de mármore que ganhara do curandeiro, com a obrigação de ofertá-la a uma das pessoas que mais amava ou a quem devesse um agradecimento inestimável.

    Na base da última folha xerocopiada havia um garrancho de Jonas Costa, dizendo simplesmente que sabia onde o ‘Anjo’ estava. Jonas havia escrito: sei aonde o Anjo estar.

    O magistrado correu ao telefone e discou um número, com um sorriso maroto nos lábios roxos, cobertos por uma malha de finas ranhuras esbranquiçadas. Se fumasse, certamente os lábios também doeriam.

    2

    A MORTE DO ANJINHO DA PROFESSORA MARTA

    Quando a garotinha finalmente parou de respirar, a mãozinha afrouxou, revelando uma estatueta de anjo, uma pequena obra-prima talhada em mármore, com esmero e habilidade. A mãe tinha certeza que o mármore era de um branco resplandecente. Mas agora estava negro. Negro e iridescente.

    A grande surpresa, porém, veio com a autópsia.

    3

    O TRANSE DO PADRE DEL VECCHIO

    (Aos poucos, a paisagem se tornava mais definida, e agora já era possível vislumbrar o cercado tosco do cemitério, um campo de morte escavado no agitado canavial. As cruzes subiam, lentas e tristes, até se perderem no silêncio da mata rude e misteriosa.

    - Sei o que vossa mercê está a cogitar – disse o meu amigo. – Mas não é hora de pensar. É hora de agir. Temos um túmulo a espoliar.

    Paramos. Meu amigo saltou e se acocorou por um instante. Depois seguiu em frente, empunhando, com o braço esticado, uma lanterna que acabara de acender. Dei uma meia volta em torno da carroça e, parando atrás, puxei o cabo de uma pá. A picareta, mais pesada, eu a conduzi no ombro esquerdo.

    Os túmulos mais antigos se erguiam envolta da capela, que a tudo dominava, com ar de triunfo. O triunfo da morte, certamente. O lugar era de uma desolação opressora, mas havia um quê de poético em tudo aquilo. O vento recrudesceu e chuva começou a cair, furiosamente.

    Meu amigo não dava atenção aos túmulos pelos quais passava. Interessava-lhe apenas seguir por um caminho seguro. Mais adiante, porém, mas sem parar, passou a examinar os túmulos mais recentes, que margeavam uma a senda nova, em aclive.

    - Por aqui, estamos perto... don’t let me down, you have found her, now go and get her. Remeber to let her into you heart...)

    4

    À PROCURA DO ANJO

    Quando o telefone tocou, Pedro Gomes estava a fazer aquilo que mais gostava e que não perdia por (quase) nada nessa merda de vida. Empunhava uma lata de cerveja gelada e tinha os olhos fixos na televisão. Seu time perdia, mas ainda havia tempo, se bem que muito pouco tempo para as circunstâncias. Levantou-se irritado e rosnou um alô no telefone. A voz no outro lado da linha era como um jato de água gelada. Odiava aquela voz. O que seria agora?

    - Pedro, procure o homem – ordenou a voz do outro lado da linha.

    Puta que o pariu, o sacana não lhe dava uma trégua?

    - Estamos procurando, o senhor sabe – Pedro respondeu, sem esconder a irritação.

    - Estou falando do Anjo. Procure o Anjo e traga-o aqui.

    O homem do outro lado do telefone bateu o telefone antes que Pedro pudesse dizer “certo”.

    O narrador esgoelou outro gol e Pedro Gomes esperou, atento, antes de discar novamente. Tocou a musiquinha do time adversário, do Sul, e o locutor foi ao delírio. Jogo perdido, Pedro soltou um “porra!” e ligou para Jonas Costa, esquecendo completamente a partida de futebol.

    5

    DEL VECCHIO MEDITA SOBRE O TRANSE

    Ricardo Del Vecchio estava agora convencido de que nada daquilo era um sonho.

    O Padre Riccio acabara de sair (deixara sobre a mesa uma velha pasta castanha de couro, carcomida nas extremidades, contendo cópia dos relatórios) e Del Vecchio ainda segurava a maçaneta da porta, que acabara de fechar, quando tudo aconteceu. Paul McCartney começara a cantar, com o CD player na tecla de repetição, pouco antes.

    Primeiro veio um zumbido ensurdecedor nos ouvidos

    (...don’t make it bad, take a sed song ... Yog-Sothoth! Verminis! Gyyagin!... and make it better...).

    Depois um choque elétrico, fulminante como um raio (Gyyagin!) . E tudo ficou escuro. Escuro como a morte? Não. Deus Existe. Não há escuridão, nem há morte (Verminis!). E eis que surgiu, então (é assim se que fala na Bíblia), do vórtice da escuridão intranqüila, uma centelha de cores e formas, a princípio inseguras e cambiantes, como a visão de um caleidoscópio esfumado. Depois as cores absorveram-se nas formas cambiantes e estas se reuniram em corpos sólidos e perfeitamente visíveis. Vieram, pois, as imagens, cada vez mais claras e conformes, ao final nítidas, cheias de substâncias coloridas, mais diáfanas e exatas que uma tela de tevê de alta resolução, dessas expostas nos shoppings. Quando voltou a si, o padre Del Vecchio ainda estava no mesmo lugar. A mão ainda segurava a maçaneta. Mas se lembrava perfeitamente de que acabara de avançar por entre as cruzes de um cemitério encravado num canavial agitado, um campo de cruzes açoitado pelo vento e pela chuva furiosa e espumante, coisas absurdas e palpáveis que vinham do fosso dos séculos, séculos belos e idos. Mais uma vez, suava abundantemente. As imagens foram poucas desta vez, vieram e se foram de repente. Mas, ao consultar o relógio, o padre viu que a madrugada grassava célere, embora a música estivesse no mesmo lugar. Quanto tempo em pé, parado em frente à porta, rígido como uma estátua grega, a segurar uma maçaneta, enquanto os olhos, revirados para trás, assistiam, impassíveis, a uma história que os tempos não quiseram apagar?

    Foi para cama, sem sono algum. Deixara, sim, o CD player na tecla de repetição – e isso o enganou um pouco, a saída e a entrada na realidade se deram na mesma música – e Paul McCathney continuaria gritando ( e não se esgoelando... assim seria se fosse John que cantasse

    (She’s so heavy!)

    pela eternidade. Tinha certeza que não dormira – pois apenas as bestas dormem em pé –, que mergulhara acordado no secular canavial, e o fizera de chofre, em pleno estado de vigília. E lhe veio um pensamento absurdo, mas que lhe parecia perfeitamente possível: ele havia saído do século XX e retornado ao passado; não apenas na mente, mas no corpo inteiro. Fora ao cemitério onde um amigo ríspido e louco buscava um cadáver de mulher, mas retornara para o mesmo lugar, através de uma dessas curvas malucas de tempo-espaço de que falam os físicos alucinados. Mas o mais razoável, embora improvável, era que precisava visitar um médico. Um psiquiatra ou um neurologista, talvez precisasse mesmo de um outro padre, mais velho e sábio. Talvez o Padre Riccio. As mãos tremiam quando abriu a Bíblia ao acaso, pousando os olhos também ao acaso. O trecho era esse:

        ‘E, clamando com grande voz, disse: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? conjuro-te por Deus que não me atormentes. (Porque lhe dizia: Sai deste homem, espírito imundo.) E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? ( who playt cool by is word a little colder... da da da da da) E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos.”

    CAPÍTULO IV

    O PADRE E O MAGISTRADO SE ENCONTRAM

    É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.


    1

    UM DIÁLOGO

    - Alô! Jonas, por favor.

    - Pedro?

    - Ele mesmo.

    - E aí, está gostando da surra?

    - Não me interessa o jogo. Você é mesmo um irresponsável.

    - O que foi dessa vez?

    - O doutor pirou de vez. Agora quer o Anjo. Você sabe o que fez? Vamos ter que dividir, em vez de concentrar os trabalhos de investigação no que realmente interessa.

    - Confio em você. No seu faro. Quando vou a Itabuna?

    - O quanto antes. Amanhã, no mais tardar. Se possível hoje mesmo. Agora.

    - Quanto vai custar o serviço?

    - Ainda não acertei.

    - Cuide disso.

    - Certo. Está bem. Não demore muito para trazer o farsante.

    - Não é um farsante. O negócio funciona mesmo.

    - Seja o que for, não demore.

    - Dois dias no máximo.

    - Ok. Até a próxima. E não apronte mais, certo? Senão lhe aplico outra luneta. Acerto o olho direito desta vez. Você vai ficar uma belezura de óculos roxos.

    - Não vou aprontar. Até. E nada de lunetas.

    - Até.

    2

    DOIS MÉDICOS CONVERSAM

    As noites de agosto, em Itabuna, são frias. Um bafio frio e úmido cinge a cidade, despertando os tentáculos de névoa fina que evola do Rio Cachoeira. A névoa tateia as margens, contorna as esquinas, e se expande preguiçosamente pelos vales e colinas, cintilando ao luar.

    Um homem negro, vestido de branco, examinava, com as pontas dos dedos, as bordas de um copo de uísque, que acabara de pousar sobre a mesa, após um gole longo e reconfortante. Enquanto falava, mantinha um ar preocupado e poucas vezes consultava os olhos do interlocutor. O outro homem, também de branco, prestava uma atenção absoluta.

    Uma menininha de seis anos morrera subitamente. Hemorragia cerebral, constatara o legista, que não era outro senão ele mesmo. O crânio intacto, sem qualquer perfuração, mas o cérebro estava dilacerado, como se um projétil de arma de fogo, calibre .32, tivesse escavado, a partir da fronte, um túnel na massa encefálica e se alojado próxima ao osso. Mas não havia projétil algum no crânio daquela criança. Havia uma lesão típica de arma de fogo, mas não havia projétil e isto era tudo. Determinara o encaminhamento do cérebro da menininha à sede o IML, em Salvador, para um exame mais acurado. Nunca tinha visto nada daquilo antes. Nunca.

    - Eu já vi – disse o interlocutor. – Vi no meu último plantão, antes de tirar férias. No mês passado, eu acho. Era um homem idoso de Buerarema. Tinha uma única filha, uma professora. Marta ou Márcia. Meio lunática, creio eu. Eu também não acreditei no que via. É algo realmente inusitado e sem explicação. O pior é que, agora, temo que a coisa não seja algo isolado. Será que estamos lidando com uma doença nova, ainda não descrita? Será?

    - Não sei. Só sei que estou assustado – confessou o médico, enquanto deslizava o dedo sobre a circunferência do copo de uísque com gelo. – Estou completamente assustado.

    3

    DR. BULHÕES ENVIA UM RECADO

    Aquele velho lhe metia medo, por isso a camareira hesitou antes de tocar a campainha. De longe, em sua cadeira de balanço, cercado de trevas por todos os lados, o Dr. Holanda de Bulhões, a Ilha de Morte, o homem que definhava a olhos vistos, que ia sendo chupado para dentro, como se os ossos fossem dotados de uma poderosa e infernal máquina de sucção, enfiou os dedos nodosos num controle remoto e a porta se abriu sozinha, como na história de Ali Babá.

    Quando a moça de uniforme entrou, tão à vontade quanto um homem lúcido que se aventura numa jaula de leões de circo, o homem disse que não precisava se aproximar. Só queria um favor.

    A moça, obedecendo a um pedido, foi à mesa e voltou para a porta com um envelope na mão e um alívio profundo no coração. Disparou pelo corredor, sem olhar para trás, e, naquele momento, só queria o quanto antes se livrar daquele envelope. Segurá-lo era como empunhar uma cobra escorregadia pela cabeça. Decerto que o conseguiu, porque, menos de dois minutos depois, estava tocando à porta do apartamento de um padre italiano. Livrou-se da carta, mas não da imagem daquele ancião. A sua noite foi povoada de pesadelos.

    (Meus nome não é mais Fernanda e nem habito mais este corpo. Chamo-me Pernelle e Flamel é meu marido. Ele está na Holanda, fugitivo do Santo Ofício. Difíceis esses tempos. Em minha mocidade, há mais duzentos anos, não era assim. E agora eu estou morta, sepultada num cemitério desolado dessa terra selvagem a quem chamam Brasil. Mas quando desci à cova, ainda estava viva.

    Flamel me confiou a guarda de um livro terrível. Lembro-me que, ao toca-lo, em Roterdam, antes de embarcar para este fim-de-mundo, senti que ímãs invisíveis me grudaram àquela capa medonha, e uma sensação quase física de pavor se espraiou por todo o meu corpo. Senti correntes magnéticas, frias e dolorosas, avançarem pelas pontas de meus dedos. Elas ondulavam nos meus braços, subindo e descendo continuamente, provocando uma gastura que beirava a agonia. De Vermis Mysteriis, era o livro. Um exemplar que Flamel logrou copiar, a duras pena, a partir dos originais de Ludvig Prinn.

    Dom Fernando Gonsalves, aquele demônio disfarçado de anjo, me enganou como quem furta um doce de uma criança. Como pude confiar num homem de olhos negros e astutos? Como pude ser nesciamente induzida a um surto cataléptico e a ser enterrada viva? Como pude aceitar o convite de conhecer o seu laboratório? Juro que fiquei inebriada ao reviver as emoções exóticas de uma oficina alquímica. Como me excitava aquela atmosfera sulfurosa, aquela suave penumbra impregnada de olores e fragrâncias que exalavam dos segredos milenares. Quantos cadinhos, quantas pipetas rebrilhavam à magnífica luz da fornalha, de cuja boca saíam fagulhas que afagavam e beijavam os nossos rostos!

    Dom Fernando convidou-me para uma experiência singular. Fez-me relaxar num catre forrado e induziu-me a acompanhar, fixamente, as oscilações de um pequeno pêndulo (que do nada extraiu, em uma surpreendente demonstração de prestidigitação). Caí prontamente em um estado letárgico, profundo e denso e, quando despertei, não poderia supor que lhe havia participado inconfessáveis segredos! Oh, bruxo ignóbil! Oh, Anglus Niger!

    Decerto que, após a experiência, Dom Fernando deu-me algo para beber. Sim, algo de terrível, algo de monstruoso me aconteceu.

    No dia seguinte, eu descia vagarosamente ao túmulo, mas ainda estva viva! Alguma substância alquímica, sub-repriciamente ministrada pelo Anjo Negro, produzira-me uma prostração invencível. Em pouco tempo, eu tinha os músculos enrijecidos e a respiração represada no peito. No meu colo não se percebia a mínima ondulação. E a minha face estava lívida e fria. Deram-me por morta. Dom Fernando, que era o médico paroquial, confirmou a minha morte. E o notário ordenou que lessem as minhas declarações de última vontade.

    Desci ao túmulo levando comigo um pequeno e tenebroso espólio, conforme determinava o testamento.Um livro profano e um saco repleto de pequenos e malditos querubins. Era uma cautela acertada com Flamel. Em caso de minha morte, Flamel saberia como recuperar tão odioso legado.

    Mas naquela mesma noite D. Fernando, acompanhado de um valete, retirou-me da sepultura e me roubou as fúnebres pertenças.)

    4

    JONAS COSTA VIAJA

    Enquanto dois médicos legistas faziam seu happy hour em um barzinho à beira do Rio Cachoeira, especulando como pode um cérebro apresentar lesões de projétil sem ter sido atingido por projétil algum, Jonas Costa descia de um táxi, que apanhara no aeroporto de Ilhéus, e adentrava o saguão do Lord Hotel, resmungando do frio e repassando tudo que deveria fazer. Primeiro ligaria para Barata, um policial corrupto e muito gente fina. Depois de acertar um acordo – Barata ficaria pelo menos uma semana sem receber a propina do curandeiro , estudaria a abordagem, que faria ainda esta noite. A viagem de volta – duas passagens estava marcada para 17:55h do dia seguinte.

    Jonas Costa assinou o cartão de hospedagem, recebeu uma chave e subiu para o quarto. Fez uma ligação para Salvador. Depois ligou para Barata. Disse ao cara, um camarada que era gente muito fina, que precisava de seu curandeiro por uns dias. Acertou tudo por duzentos reais. Barata faria o favor de levá-lo ao Anjo, logo mais. O Anjo dormiria no xadrez de uma especializada sem movimento. Mas aquele serviço extraordinário custaria mais cinqüenta contos. Tudo bem, tudo acertado, nos conformes.

    Jonas desceu ao saguão e esperou pela chegada de uma viatura policial.

    5

    O PADRE DEL VECCHIO RECEBE UM CHAMADO

    O padre do sorriso melódico era, sem dúvida, um homem muito metódico e perspicaz. Os fatos tidos por milagrosos estavam classificados em razão do autor, mas cada feito era registrado em uma pasta de cor própria. Os milagres atribuídos a João de Deus, um pobre agricultor que conseguira emprego em uma fazenda a trinta quilômetros de Bom Jesus da Lapa, estavam em três pastas de cores frias. A pasta azul cuidava da cura de uma criança que já nascera cega. Feito de difícil comprovação, porque, filha de pais muito pobres, não havia registro médico. A prova era toda testemunhal, vinda de pessoas pobres e sem instrução. Na pasta verde estava acostado o registro da recuperação de um doido de rua – endemoninhado, segundo João de Deus, em sua singeleza de camponês –, chamado de Bode Cheiroso pelo populacho. Caso sem provas médicas, mas notório. Confirmação possível, embora difícil. A última pasta era púrpura e continha o relatório sobre a cura de uma criancinha leucêmica. Farta documentação médica. Milagre com todas as probabilidades de ser confirmado. João de Deus era um camponês muito pobre, solteiro, de vinte e cinco anos (embora aparentasse ser dez ou quinze anos mais velho), quase analfabeto, católico não praticante e cheio de crendices. Um homem singelo, ignorante e sem outras ambições senão a de obter o pão para o dia seguinte.

    O Padre Del Vecchio estava prestes a passar às pastas de cores quentes – as que continham as informações acerca de um outro curandeiro, chamado “Anjo”, – quando a campainha tocou. Acorreu à porta, com certa preocupação, pensando no Padre Riccio. Mas era apenas a camareira, uma moça de uniforme azul e branco, com uma touca ridícula na cabeça, e uns olhos verdes (por que me não vedes?) muito assustados. Trazia uma carta do morador do ap. 102, do bloco contíguo.

    O Padre leu a carta e enfiou-a no bolso. Tinha uma confissão a ouvir. Permaneceu com a mão no bolso, para retirar uma gorjeta, certo que a moça o aguardava. Mas quando levantou os olhos percebeu que a garota pálida e assustadiça havia desaparecido.

    6

    VERMINIS!

    Projetada na parede, sobrepondo-se à sombra delgada de um homem encapuzado, a sombra de três estatuetas de anjo, miraculosamente talhadas no mármore resplandecente, contemplava o velhíssimo ritual.

    O homem, numa espécie de púlpito profano, de braços e pernas abertos, empunhava uma cruz invertida, que segurava com a mão esquerda pela trave menor. Na outra mão, fazia dançar uma flutuante adaga de prata. A face voltava-se para cima, deixando à mostra o pescoço recurvo, onde as veias pulsavam e se contorciam como pequenas serpentes verdes, a rastejar sob a pele. Os olhos, duas brasas vermelhas queimando a escuridão, deliravam. De Vermis Mysteriis era o livro que se abria à sua frente:

    -Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah!

    Mas as vozes ancestrais e suas múltiplas inflexões – que partiam de uma única boca como se fossem várias, algumas vozes guturais e profundas, outras terrivelmente agudas e profanas – não eram humanas.

    De súbito, a chama dos círios se apagaram e as páginas da bíblia profana farfalharam quais asas de morcegos em revoada, como se agitadas por uma corrente de ar fantasma.

    - Gy-Yagin! Alyah, alyah! Verminis!

    O homem, o Anjo Negro da Noite Eterna, depositou a cruz e a adaga sobre o púlpito.

    - Yog-Sothoth!

    As brasas de seus olhos foram se extinguindo lentamente, os olhos passando do vermelho incandescente a um rosa claro e daí a um negro profundo. As pequenas serpentes sob a pele se acalmaram e pararam de se contorcer.

    Os sentidos do homem estavam em alerta.

    Abriu um velhíssimo saco de veludo vermelho-púrpura, onde enfiou as três estatuetas aladas.

    - Eles vêm vindo, crianças. Está na hora de recomeçar a brincadeira – disse o homem para seus anjinhos, furtados a uma defunta em um cemitério em Igaraçu, há quatrocentos anos. Agora era só uma voz, de sotaque indefinido, mas uma única voz e perfeitamente humana.

    7

    O DR. BULHÕES RECEBE UMA VISITA

    A vontade de fumar atingira níveis insuportáveis e o Dr. Holanda de Bulhões andava de um lado para o outro como uma pantera enjaulada. A dor cedera um pouco, mas a impaciência crescia a cada minuto. Quando a campainha tocou, o homem correu para a porta, esquecendo-se completamente da dor e do controle remoto. O padre Del Vecchio entrou para ministrar uma extrema-unção.

    CAPÍTULO V

    O ANJO NEGRO

    É possível que seu navegador não suporte a exibição desta imagem.


    1

    O ANJO SE DEIXA CAPTURAR

    A captura do Anjo fora muito mais fácil do que Jonas poderia imaginar. A verdade é que o homem parecia que já o esperava. O homem morava quase escondido em um sítio, que margeava a rodovia, na direção de Itajuípe. Estava sentada no terraço da casa, aparando as unhas (umas unhas enormes em dedos enormes e finos como víboras agilíssimas) com um canivete afiado. Mas não ofereceu resistência alguma. Barata fora na frente, dizendo:

    - Tenho um amiguinho aqui que quer te conhecer.

    O homem entregou o canivete a Barata, limitando-se a dizer que estava pronto para ir. Isso mesmo: estava pronto para ir.

    E Jonas não teve que exibir o Taurus calibre .38, nem mesmo esfregar na cara do elemento o mandado (falsificado) de prisão por crime de curandeirismo e charlatanismo. Depois do editor de texto, ficara muito mais fácil, seguro e barato recorrer a esses expedientes. Prejuízo para os donos de gráfica.

    A prisão foi fácil, mas Jonas não estava nem um pouco satisfeito. Estava decepcionado. Uma de suas diversões prediletas era ver o medo nos olhos do prisioneiro. Quando alguém mijava nas calças, implorando para viver, Jonas ia ao delírio. Um êxtase melhor que um orgasmo, sem dúvida. Mas o homem não apresentou receio algum. Limitou-se a acenar com a cabeça, em sinal de concordância e subserviência. Pronto para ir. Pediu apenas para levar alguma roupa e alguns objetos (Yog-Sothoth!) de uso pessoal consigo. Nada mais. Mas, quando levantou os olhos para Jonas, o policial sentiu que era a presa, não o caçador. Isto mesmo: a presa e não o caçador. Isso não é engraçado? Isso não é... terrível?

    Mas havia outra coisa que o agente Jonas sentiu, relutou, e não admitiu. Jonas sentiu medo do homem, um medo tolo, sem sentido, mas profundo como as águas de um oceano lodoso e sombrio. Jonas não estava decepcionado. Estava humilhado, apesar do sucesso da Operação Pega-bruxo. Apesar da fortuna que isso lhe iria valer.

    - O homem está custodiado? – indagou Pedro Gomes, do outro lado da linha.

    - Hoje dorme no xadrez.

    - Não tem perigo? A operação é ilegal.

    - Nenhum. Tudo acertado.

    - Que horas retornam?

    - Seis e meia da noite.

    - E quando chegar, como vai ser?

    - O homem é um curandeiro, não um malandro. Acerte com o Doutor.

    - Falo com ele agora.

    - Já acertou os honorários?

    - Acerto agora.

    - Pense em cinqüenta mil agora, só pra levar o homem. Se o homem ficar curado, que tal seiscentos? Trezentos mil para cada um?

    - Ele não vai se curar.

    - É o que veremos.

    De toda sorte, Pedro estava feliz. Jonas ainda não sabia e nem tinha por que saber. O terceiro homem fora capturado. Ocasionalmente, e bem a contento, o facínora portava o documento do mesmo cara assassinado, que fodia com a putinha, com a filhinha escrota do juiz, num banco traseiro de um Fusca. Mas o último dos assassinos teve uma morte muito mais cruel. E muito, muito mais dolosa. Foi decapitado ao fio de uma faca pouco amolada.

    2

    QUEM É O PADRE DEL VECCHIO

    As referências acerca do Padre Del Vecchio não eram das melhores. Em verdade, estavam longe de ser, ao menos, razoáveis. Não tinha em sua ficha um rosário de punição, mas acumulava algumas corrigendas nada desprezíveis. Uma ou outra mesmo bastante incisiva, quase grave. Quarenta anos, filho de Alberto del Vecchio, jornalista, e Maria de Fátima de Castro Del Vecchio, do lar. Nascido em Corumbá, Mato Grosso, Brasil. Seguiu para a Itália aos dois anos e meio de idade. Fez os estudos fundamentais em Gênova, com os Irmãos Maristas. Seminarista da Ordem de Jesus aos 16 anos, recebeu a ordem aos 26. Nenhum elogio. Duas advertências e uma suspensão. As causas, o Padre Riccio não quis saber.

    O Padre Riccio deixara, negligentemente, a ficha de lado – a verdade oficial é a verdade, mas vista sob uma perspectiva pouco inteligente – e buscara o telefone, o lado mais humano e menos “verdadeiro” da coisa. Soube, pelo Padre Angeli, que Del Vecchio nada tinha de dedicado e esteve se tratando porque bebia demais. Sobre ele pesavam algumas acusações embaraçosas, malgrado nunca provadas ou esclarecidas. Algo a ver com a aplicação de subvenções recebidas. Nada de dolo, diziam, mas de completa inaptidão para gerir os recursos próprios ou as inversões financeiras das paróquias por onde passou.

    - Nenhuma qualidade? – indagou o velho padre.

    - Algumas, certamente, mas nada de extraordinário. Um bom companheiro. Diria mais: um companheiro fiel. Com um comportamento às vezes esquisito. Não ouve rádio, porque não tolera escutar outras músicas senão aquelas que gosta. E não gosta de rezar missas – acha tudo muito formal e sem emoção. Mas se encanta ao ouvir as pessoas no confessionário. Não que seja curioso: ele se comove com os homens e mulheres simples, chora pelas pequenas tragédias da vida. E ora a Deus pelas pessoas o dobro das penitências que, sem qualquer convicção, determina. Ama o Evangelho de São João e abomina as Epístolas Paulinas. E adora mais que tudo os Beatles e os Rolling Stones. Eu o diria um homem sem qualquer talento para ser um padre. Mas não o diria um padre sem talento. Dá para entender?

    O Padre Riccio pediu a Deus que Del Vecchio estivesse à altura da missão. A verdade é que simpatizara com ele, mas simpatia não é tudo. Temia que tivesse de descartar o companheiro e conduzir as coisas sozinho. Não tinha mais idade e saúde para se embrenhar nos escaninhos de um vasto país estrangeiro, muitas vezes viajando por longas horas em um ônibus desconfortável, um pesadelo para sua coluna e um torniquete para suas pernas, onde o sangue não fluía ou, quando fluía, o fazia em pequenos esguichos, insuficientes para irrigar as enormes áreas dormentes; descansando em pousadas inóspitas; comendo mal; temendo um assalto a toda hora, ou mesmo coisa pior; a maioria das vezes obtendo informações preciosas graças à simpatia inata, outras vezes arrancando-as a fórceps, como um detetive sábio e experiente, que conduz ao resultado através da esperança da verdade, e não da maiêutica, ou da ameaça.

    O velho padre correu ao telefone e discou um número, mas ninguém atendeu. Discou novamente e esperou. Nenhuma resposta. Del Vecchio, certamente, acabara de sair. Para a farra? Uma recaída? Deus dissesse que não. Mas Deus é silencioso como uma girafa.

    O padre Ricchio teve um pressentimento tão fugaz quanto um pensamento. Mas tão forte e terrível que suas pernas chegaram a dobrar. Algo de nefasto estava prestes a desabar sobre o jovem Del Vecchio.

    3

    MAIS UM ANJINHO CONDENADO À MORTE

    Novamente, o pátio era todo ruído. Em meio à algazarra infernal e aos gritinhos animados, a jovem professora procurava por outra menininha, que lhe trouxesse tanto prazer quanto a primeira.

    Nunca sentira tanto Amor na vida. Não à menininha, nem à gêmea da menininha, a que morrera. Umas gracinhas, sim, sem dúvida, mas ardia de amor pelo... pelo quê? Não a mas pelo. Isso não era engraçado? Pelo clitóris, certamente... Mas o Amor só começava por aí. Depois se irradia e a gente enlouquece.

    Encontrou-a no parquinho, tão linda, tão fofa... Quando viu a professora, a menina deu um gritinho de prazer e correu ao encontro a Tia Marta.

    A professora – aquela que um dia mergulhara nas águas tépidas do São Francisco com o crânio traspassado por um projétil de arma de fogo – abraçou a criança. Estava emocionada.

    E estava à beira de uma sensação (“a Sensação”) que viria, tão próxima e distante quanto o (quase) impossível contato divino de Adão com o Deus de Michelangelo. Estava à beira de um orgasmo elevado à décima potência (na noite passada se masturbara ferozmente com um pequeno e alado objeto de mármore, mas obtivera uma simples exaltação do corpo, não “a Sensação”), tão momentâneo quanto o clímax do craque, porém extraordinariamente profundo e doce quanto uma foda bem dada com a própria heroína....

    Olhou nos olhos da menina, dizendo:

    - Meu anjinho!

    Como da outra vez (é tudo tão igual!) depositou uma estatueta de anjo – de 2,5 cm de um mármore cintilante – nas mãos da criança e sussurrou-lhe num ouvido:

    - É para você, minha linda. Para te proteger.

    A criança olhou para o anjinho de marfim e sorriu, dois dos dentes da frente faltando. Beijou a estátua, que se parecia com uma linda e minúscula bonequinha. Depois enfiou a estatueta no bolso da camisinha branca e saiu correndo, feliz, para o pátio e para a morte. Teria o crânio perfurado por uma bala que jamais existiu.

    Tia Marta andou – em sua mente, correu – para o banheiro feminino, para sentir, pela última vez, a luz que explodia em seus olhos, o calor que lhe irradiava a partir de todos os pontos prazerosos de sua vulva, os aromas que pareciam cores, os poros exalando não se sabe quantas fragrâncias de aromas exóticos, e as músicas que jamais seriam compostas a partir de ouvidos humanos. Na boca havia delícias inimagináveis, e por isso ela mastigava o vazio quando a encontraram, horas depois, sentada sobre o balcão onde se perfilavam as pias do banheiro escolar, a exclamar, ao influxo de todas as sensações (“a Sensação” ) reunidas:

    - Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah!

    4

    DE VERMIS MYSTERIIS


    O padre tomara a confissão do homem quase moribundo e lhe deu a unção extrema. Apiedou-se de seu corpo emagrecido e mais ainda de sua alma vingativa, porque aquela voz, destituída de qualquer inflexão, ainda mais acentuava a completa ausência de arrependimento. O homem que ouvira fora, um dia, um honesto magistrado. Mas o destino lhe roubara o bem mais precioso. Uma filha estuprada e morta. Uma vingança atroz que rumava ao terceiro homicídio. E o amargo arrependimento – agora sim, arrependimento – de haver abandonado à própria sorte um filho espúrio, que quase não via e de quem se envergonhava intimamente.

    Assim que retornou ao quarto de orações, para cumprir, cristãmente, a penitência sub-rogada à do homem que há pouco confessara, sentiu que já não mais estava ali. Emergiam, traspassando a neblina de uma noite perdida nos escaninhos do tempo, as cruzes de um cemitério engolfado por canaviais.

    Desta vez o sonho (transe?) foi mais longe.

    (Eles finalmente haviam exumado o corpo da mulher, que, embrulhado numa espécie de sudário, agora jazia junto à cova recém-escavada. Eu havia removido uma parte do pano, deixando à mostra a face e o colo da defunta. Dom Fernando Gonsalves aproximou a candeia do rosto do cadáver e percorreu o lume por todo o corpo. Descerrando os panos que envolviam os pés, encontrou, com satisfação, uma bolsa de veludo que, quando aberta, revelou a existência de muitíssimas pequenas estatuetas aladas. Dom Fernando disse-me que pareciam anjos, mas eram em verdade demônios.

    - O livro deve estar onde ela repousava a cabeça. Verifique vossa mercê.

    Obedeci prontamente, agora com a candeia na mão. O livro de fato estava lá.

    - De Vermis Mysteriis! – Exclamou Dom Fernando, arrebatando o livro de minha mão. – Aqui está o segredo da imortalidade. Vossa mercê verá o meu triunfo? Poderá transpor os séculos vindouros, como eu farei? Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah!

    De repente, o cemitério diluiu-se numa névoa sulfurosa. Encontrava-me agora num ambiente entenebrecido, vaporoso, onde uma profusão de cadinhos, pipetas e alambiques disputava fagulhas luminosas com antigos alfarrábios e pergaminhos, espalhados pelas prateleiras e esparramados pelo chão. Mas, nesta noite, o meu mestre não se ocupara dos foles ou das fornalhas. Junto ao pilão e ao almofariz, Dom Fernando meditava sobre o raríssimo exemplar, transcrito na caligrafia de Flamel, do terrível De Vermis Mysteriis.

    - Pacta sunt servanda! O meu pacto está feito e ele será eterno como a luz fúnebre da Lua! – Bradou Dom Fernando, enquanto pequenas víboras pareciam passear sob a pele de seu pescoço esguio. – Veja, veja vossa mercê estas estatuetas que furtamos ao cadáver daquela feiticeira. Elas me legarão a eternidade. Com ela farei prodígios! Curarei, ressuscitarei! Aquele que gozar de meus benefícios ganhará algumas estatuetas. Mas a cura estará condicionada ao repasse de meus pequenos demônios às pessoas a quem mais amam, ou às que de alguma forma são extremamente gratas. Para estas será transferida a mesma enfermidade que as conduzirá à morte. E cada um dos fluxos vitais migrará para as estatuetas, as quais terei de recuperar para drenar toda seiva da vida nelas contida. Cada morte me renderá uma vida! Isto me garantirá a existência per omnia secula seculorum. Este era o segredo de Ludvig Prin, que Flamel conhecia, mas agora só a mim e aos Antigos pertence! Alyah!)

    5

    UM MILGRE SE REALIZA

    O doutor balançava-se suavemente na penumbra quando entraram os policias, trazendo consigo o taumaturgo. Jazia o homem numa sombra fria e melancólica. Já não mais possuía a agilidade de poucos dias atrás e as suas mãos agora eram garras que tremiam e afundavam na madeira dura da cadeira de balanço a cada acesso de dor cruciante, insuportável.

    O curandeiro se aproximou do homem enfermo e começou um ritual. Com um pequeno punhal, fez um breve corte no punho direito, que começou a sangrar. Extraiu de uma pequena bolsa três serafins minúsculos e os embebeu do sangue que fluía. Os policias viram-no ganir palavras impronunciáveis enquanto fazia, com o próprio sangue, uma cruz invertida na testa do paciente.

    - Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah! – Bradou o taumaturgo. – Verminis!

    Ao serem articuladas as palavras hediondas, o quase-ancião caiu numa convulsão medonha. De seus músculos vieram estertores arrítmicos e confusos. Os ossos gemeram e estalaram. A pele inflou-se de sangue. E o juiz se debatia brusca e involuntariamente, como se perpassado por uma corrente elétrica de grande intensidade. Então os olhos, que até então afundavam cada vez mais no poço escuro das órbitas, voltaram à superfície. As pálpebras ressurgiram. Um vigor flutuava sobre pele que se regenerava em sua coloração normal. E sob ela a carne adquiria tônus e substância. Quando o frêmito cedeu, os policiais viram um outro homem. O velho Dr. Bulhões de outrora. Aquele homem volumoso e afável, de respiração felina e modos pachorrentos.

    A cura fora instantânea. Para o completo ensadecimento de Pedro Gomes, a cura fora completa e imediata. O juiz ainda não sabia disso, mas Jonas Costa sentiu, de repente, que o medo insano que sentia pelo velho homem o abandonara. Então o Anjo pediu aos policiais que se retirassem, porque tinha assuntos sigilosos a tratar.

    - Doutor, o nosso pacto está feito. Eu lhe devolvi a vida, mas, agora, cabe ao senhor seguir as minhas instruções. Se não segui-las à risca, o mal voltará recrudescido. Primeira condição: nunca, nunca mais, pise em solo sagrado; a segunda: distribua estas três estatuetas às três pessoas a quem mais ama, ou àquelas a quem deve um grande favor.

    O taumaturgo fez uma mesura anacrônica, quase medieva, e saiu; os policiais, que não mais tinham tempo a perder com o curandeiro, deixaram-no seguir sem qualquer resistência. Então Pedro Gomes, que voltara ao apartamento, disse ao homem que um dia fora um juiz:

    - Creio que merecemos, eu e Jonas, um pagamento à altura dos nossos favores.

    - Como estou? – indagou o ex-moribundo.

    - Melhor do que eu. A vitalidade voltou. A saúde retornou.

    - Então ganhei tempo. Verei o assassino de minha filha – o ultimo que restou – morto um dia.

    - Verá muito em breve.

    - Quando?

    - Deixo-lhe um envelope. Abra-o agora, se quiser.

    O Juiz disse que não. Sacou um talão de cheques e assinou duas vias de igual valor.

    Os policiais sorriram entre si, extremamente satisfeitos. Iam se retirando, quando o homem os chamou de volta.

    - Tenho algo mais para vocês – disse, entregando uma estatueta de anjo a cada um dos policiais. – Guardem isso consigo. É um presente a quem me fez um bem. Agora, deixem-me sozinho.

    Os policiais não entenderam o por quê daquela dádiva. Quando bateram a porta atrás de si, não podiam imaginar que o sofrimento e a morte estavam nos seus calcanhares, como uma sombra sinistra e hostil. A mesma morte a que o Dr. Bulhões estava, até agora, condenado a padecer.

    Somente quando se encontrava sozinho, foi que um êxtase absurdo, repentino como um clarão de um raio, tomou conta do homem de meia-idade. Gy-Yagin! Alyah, alyah! Verminis! Yog-Sothoth! Verminis! Gy-Yagin! Alyah, alyah! Correu ao banheiro, acionou o chuveiro e masturbou-se com a fúria de um adolescente, o anjo entre a palma das mão e o pênis mais ereto e latejante do que nunca. Quando terminou, já não mais podia esperar a hora de experimentar novamente aquela sensação. Olhou para o anjinho e lembrou-se do padre a quem se confessara. E viu que a vontade de fumar era apenas uma gota d’água num oceano de prazeres indizíveis. Nada se comparava àquela “Sensação”.

    6

    PACTA SUNT SERVANDA


    O Anjo Negro tinha ainda uma missão a cumprir. Mais uma dentre uma miríade de missões que lhe foram reservadas. Disseminar a morte cruel. Cambiar uma cura ágil por várias mortes certas. Mesmo que o ente curado viesse a descobrir o preço de sua cura, ainda assim seria tarde. Ou quase sempre seria. Aquele troço viciava. Aqueles pequenos demônios em trajes de anjos eram piores que a heroína. Heroína elevada à heroína. Então o taumaturgo, dito o Anjo, saiu na avenida que flanqueava a praia e rumou de volta para o apart-hotel.

    Pacta sunt servanda. Este era o preço de sua longevidade.

    7

    RECORDAÇÕES DE PERNELLE FLAMEL

    O Dr. Holanda de Bulhões – seria mesmo aquele o Dr. Holanda de Bulhões que a jovem conhecera? – entregou à camareira de olhos verdes um pacotinho embrulhado em papel de presente, com a recomendação de que o entregasse ao padre Del Vecchio. Foi aí que o mundo girou. Pelos olhos da camareira perpassaram, num átimo, miríades de imagens. Ela estava enterrada. Sim, enterrada bem fundo. Estava morta, mas levara para o túmulo um terrível segredo. Sua cabeça, envolta no sudário, repousava sobre um livro profano, conforme constava de seu testamento. E sob seus pés havia uma bolsa repleta de estatuetas sacrílegas. Ó, Flamel, meu doce marido, onde estás? Por que não fugistes juntamente comigo? Por que, por não estares aqui, deixaste-me enganar pelo bruxo lusitano? Por que...

    A menina dos olhos verdes deixou cair o presentinho no chão. Mas se recompôs, apanhou-o de volta, e foi cumprir o que o homem esquisito determinara. Seu emprego dependia disso. Mas, desde já, a sua alma ardia de arrependimento e de remorso.

    9

    UMA SÚPLICA

    A moça assustadiça, que o padre imaginava vagamente reconhecer de outro lugar, retornou numa manhã de pouco frio. Mas, ao invés de trazer um novo bilhete, enviado por um moribundo pedindo a unção extrema, vinha com um presente nas mãos: uma caixinha embrulhada em papel colorido, com um cartão de dedicatória preso por uma fita de náilon. Assinava um bilhete de agradecimento o Dr. João Henriques de Melo e Silva de Holanda Bulhões.

    - Padre, não receba este presente – suplicou a moça que agora parecia ver nos olhos do padre a expressão de alguém de outras eras. Há algo de ruim nisso aqui. Há algo de muito mau nisso tudo!

    9

    TIA MARTA PERDE A RAZÃO

    À Santa Casa de Misericórdia recolheu-se uma professora completamente alienada. Pedia, insistentemente, por mais uns anjinhos. Dizia que queria ter a “Sensação” novamente. Que daria tudo por isso. Rasgava continuamente as roupas. E tinha as mãos atadas nas costas, para que não se masturbasse contínua e alucinadamente. E gania palavras incompreensíveis:

    - Gy-Yagin! Alyah, alyah! Verminis! Yog-Sothoth!

    10

    USQUE AD SIDERA ET AD INFEROS


    Quando o clérigo desembrulhou e abriu a caixinha, viu que ganhara uma estatueta de anjo. O padre a arrebatou de chofre, sem saber ao certo o que fazia. E segurou forte o querubim com a mão direita. Então desabou no chão, como se toda a sua ossatura ruísse a um abalo que vinha das profundezas da alma. Era a mesma estatueta dos seus transes. Uma daquelas estatuetas macabras que foram sepultadas juntamente com a mulher de Igaraçu.

    “Menina dos olhos verdes

    por que me não vedes...”

    Então o Padre Del Vecchio sonhou. Sonhou que Dom Fernando o erguia e o fazia despertar. Mas agora o gentil homem estava um pouco mais velho. Tinha cabelos curtos e usava trajes modernos. Del Vecchio olhou no fundo dos olhos de Dom Fernando, agora mais malévolos do que nunca, e perguntou:

    - Aquele, nos canaviais, no cemitério, era eu?

    - Ah! – disse Dom Fernando Gonsalves – isso é um segredinho que só os céus – ou os infernos – podem esclarecer! Esta resposta se estende usque ad sidera et ad inferos. Não adianta procurar.

    - Vade retro, angelus niger, in abbissum infernum, trollu satani in stagnum iminis, in nomine patri et fili et spiritus… - Balbuciou o Padre Del Vecchio, antes de mergulhar na inconsciência.

    O Anjo Negro sorriu malignamente, retirando-se pela mesma janela pela qual não se sabe como entrou.

    Não é preciso dizer que, desde aquele instante, o corpo do jovem padre começou a definhar, torturado por sonhos macabros e dores insuportáveis. E, depois que morreu – e morreu num quarto escuro, porque já não mais suportava um mínimo fiasco de luz –, um homem estranho, que se dizia velho amigo do defunto, reclamou para si, dentre os parcos bens do espólio de Del Vecchio, uma estatueta de anjo negra como ébano. Ninguém fez qualquer objeção.

    9

    IN FINIS


    Ele suava em profusão, assustadoramente, porque era premente, urgente, satisfazer ao novo vício. A cura repentina pouco significava para o magistrado. Importar-se-ia com ela no seu devido tempo. Porque o seu corpo e sua alma não clamavam por vida. Clamavam por aquele ópio diabólico, aquela substância imaterial e narcótica. O retorno ao prazer absoluto era a única premência. O Alfa e o Ômega. A Razão de todas as razões. Yog-Sothoth.

    E, após despachar o presente pela camareira, que não o reconheceu, o Dr. Holanda de Bulhões abriu o enelope timbrado com as mãos trêmulas.

    Então o frenesi passou como por encanto. A agonia do vício, a ânsia da abstinência, diluíram-se no ar como que por encanto. Não havia mais sorriso no olhar do Dr. Holanda de Bulhões. Não havia mais esgar. Havia uma incredulidade impossível. Havia uma consternação silenciosa e medonha, repleta de pavor, e uma sensação de neutralidade absoluta. A sensação inerte de ausência, de não-ser, que quase sempre acompanha um choque inassimilável.

    Foi ao armário de seu quarto e retirou um revolver de uma prateleira. Sentou-se na poltrona e sorriu amargamente. Depois, catatônico, apontou o cano da arma para o ouvido e disparou.

    Respingos de sangue e fragmentos de miolos aspergiram a superfície da foto que exibia a cabeça decepada do terceiro homem, do facínora que estuprara e matara a sua menina. E minúsculas lascas de ossos, engolfadas de fluidos orgânicos, tornavam ainda mais hediondo o retrato em que se formara a imagem repulsiva do próprio filho adulterino.

EPÍLOGO


    O Anjo se afastava quando ouviu, ao longe, o estampido da arma de fogo, que fazia, em seu eco, flutuar os miolos de um homem carcomido pelo destino impiedoso.

    Dom Fernando Gonsalves desfilou pela Avenida Oceânica com passos elegantes e altivos, vez por outras acariciando a velhíssima bolsa onde estavam as suas pequenas estatuetas tenebrosas. Sorria de prazer e satisfação.

    Mais tarde, na periferia da cidade, postou-se à frente de um hospital decadente, onde um certo Dr. Diniz, ainda em juízo perfeito, tentava reanimar um cadáver de um homem cujo cérebro fora transposto por um projétil de calibre 22.

    -Vamos, minhas coisinhas – disse Dom Fernando, com uma brandura quase infantil, enquanto afagava seus anjinhos. – Vamos, queridos. A brincadeira vai recomeçar.

FIM

Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.

veja nosso livro de visitas assine nosso livro de visitas

VISITEM O RECANTO DAS SOMBRAS: CONTOS E POEMAS DE TERROR

Todos os direitos reservados. Contos de terror, horror e fantasia escritos por Paulo Soriano e colaboradores.

Buscar na Web por:
Powered by Google
Visitem também: :
Entenda melhor a nossa língua galego-portuguesa: :
"Site" para escritores:
Layout pronto por:
CONTOS GROTESCOS - www.contosdeterror.com.br - Desenvolvido e mantido por PAULO SORIANO