ANIVERSÁRIO
DUMHA ANTIGA MORTE
Por
José Manuel Nunes Vilar
Aquela
manhã era especialmente fria e embriagada com um intenso
nevoeiro. Na estaçom de comboios sozinho estava eu aguardando
pelo bombim do inglês, quem se retrasava quinze minutos
marcados por aquelas espartanas agulhas do relógio pendurado
ao caminho de ferro. Aguardava, aguardava já quase impaciente,
agarimando coas gemas dos dedos o tambor do meu revólver que
jazia em potência de morte no bolso da gabardina.
Os
jornais só referîrom o crime dous dias, dous dias no que
o pânico e o medo percorriam as belas ruas da cidade de
Augusto. A polícia nunca conheceu a verdade do sucesso. Só
eu sei, e guardo aquile momento cumha envoltura de saudade romântica.
Só eu sei do significado mágico daquela manhã do
1948.
O
ar recendia a fumo de madeira que saía das chaminés das
longas moradas, ou da caldeira da locomotiva que se aproximava
alentada pela força do vapor. Na espera, a minha mente era
nítida e concisa, polindo o plano artístico do duelo
perfeito. Todos os meus sensos jaziam num estado óptimo,
preparados para a honrosa puela na que nom podia haver espaço
pra o erro.
Os
antigos samurais, verbi gratia, espíritos da espada,
sacerdotes da guerra do antigo Japom, fizeram do combate tudo um
ritual sagrado e meticuloso. Só durante o duelo o guerreiro
posse viver ao linde cada segundo e apreciar a vida em todas as suas
formas. Pra o antigo samurai a vida e a morte formam parte dum mesmo
contínuo e assim como a vida, a morte é umha arte. No
meu casso, na minha cultura, nom eram os aceiros das catanas os que
honravam a existência, senom o chumbo e a pólvora, senom
o pulso firme e decidido amante da pistola, da espingarda, do rifle.
A
cultura gângster achou a sua capital em Nova Iorque ou em
Chicago, ou Sicília, ou Nápoles, mas esta cultura, esta
filosofia da vida, é cosmopolitana. Também havia
gangsteres em Lugo, ainda que protagonizávamos as sombras,
pois eramos um grupo incipiente, resguardado e prudente. Se muitos
dos barrios fossem quem de articular diálogos, falariam de
extorsom, chantagem, crime… A nossa lei, o contrato social
face a supremacia do mais forte. Ainda que a sua imagem possa
oferecer umha visom fascista ou de darwinismo social, nom se posse
desvencelhar de certo romanticismo duma época na que ou
saqueavas ou te saqueavam.
O
céu aquarela encetara a deixar cair uma ténue chuva com
pingas que estimulavam a emigraçom do nevoeiro. De súpeto,
o chifre da locomotiva anunciara a sua imediata chegada e o inglês
ainda nom fizera apariçom. O comboio já fecundara a
paragem e os passageiros baixavam quando ile, o saxom, apresentou-se
misturado com a balbúrdia das gentes, procedente dos vidros
que fechavam à urbe. Achei-o com o olhar e com o mesmo
dirigi-o face o remate do passeio, pois amossava-se débil,
temeroso da derrota, da extinçom por braços da tétrica
morte, facto que acrescentava nutriente à minha indiscutível
vitória.
Afastados
os dous ao final do passeio ferroviário, no câmbio de
agulhas, deu início a espera dos chumbos colmada dum gram
silêncio. Procurei que ambos estivéramos numa posiçom
simétrica, pesquisei a perfeiçom naquele instante de
lediça. Sabia bem que o inglês também agachava
umha arma, umha nove milímetros longa. Conhecia-o bem e sabia
da sua atitude temerosa, da sua valentia casadeira da companha, e
lamentava que nom estiver à altura da grandeza daquile curto
intervalo sacro. Agachava a sua mirada baixo o tapa-calvas que
afastava a auga, mas intuía os seus olhos de derrota. Acheguei
mais daquela a onde ile e expressei-lhe os meus respeitos ao jeito
siciliano, fertilizados pela memória da sua pessoa. A
negociaçom nom era possível, pois era assunto de honra
e nom material. Ile, como o pior acorde dissonante, planhiu-me
clemência, então peguei eu no revólver do bolso e
acometi-lhe dous tiros, primeiro um ao coraçom e logo outro à
fronte cumha distância inferior a um segundo.
Hoje
vão cinquenta e nove anos daquilo, daquile honorável
recordo, e ainda o seu corpo sobre o leito de seixos é
visualizado pela minha anciã mente.
FIM
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