ANTES DE VIR

AUTOR: R. CORDEIRO

380

“Antes de vir”

(R. Cordeiro)

Abri a porta, estava escuro. Tateei a parede em busca do interruptor. Fazia frio. Tirei meu paletó e o apoiei nas costas da cadeira, deixei a maleta no chão e afrouxei a gravata que me sufocava o dia inteiro. Caminhei até a estante, desvirei o único copo que estava sobre a bandeja branca e coloquei mais ou menos três dedos de whisky. Dei a primeira golada, desceu queimando na garganta, mas isso não me impediu de dar o segundo gole.

Coloquei a garrafa sobre a mesa redonda que ficava no centro da sala. Tinha uma luminária que descia do teto ate quase encostar na mesa. Usava essa mesa para jogar poker, adoro poker! Mas com algum adversário é melhor. Acendi um cigarro, fumei em quatro tragadas. Dei mais uma golada no whisky e acendi outro cigarro.

A sala ainda estava escura. A única luz acesa era a que iluminava diretamente a mesa em que eu estava sentado. Fiquei observando os movimentos que a fumaça do cigarro fazia sendo rebatido com a luz, era como um balet.

Já era a segunda noite consecutiva que eu fazia à mesma coisa. Levantei fui ate cozinha, abri o armário que ficava em cima da pia e peguei uma caixa que estava atrás do pacote de macarrão e a coloquei em cima da mesa, ao lado da garrafa de whisky. Abri a caixa e peguei o revolver calibre 38 que lá dentro estava. Tinha conseguido essa arma há dois anos na feira da rua de baixo. Verifiquei se ainda estava com as balas lá dentro. Claro! Eu não tinha ninguém nem pra mexer no meu revolver.

Abri o tambor da arma, e derrubei todas as balas dentro da caixa. Analisei uma por uma meticulosamente, eram quase todas idênticas, exceto uma que estava com um leve descascado na ponta.

Vai ser essa! – pensei.

Coloquei a bala de volta no tambor, girei-o com força e o fechei bruscamente contando com a sorte pra saber aonde a bala pararia.

Repousei a arma na mesa. Dei mais um gole na bebida, enchi o copo, e acendi outro cigarro.

Onde foi que eu errei? – disse franzindo o cenho e com a mão na testa.

– Isso vai nos levar a noite inteira!

Uma voz que eu não sabia de onde vinha respondeu ao meu pensamento!

Peguei a arma rapidamente e apontei para todos os lados. Abri o tambor e coloquei a única bala que nele estava na agulha. O meu desespero me permitiu que essa fosse a única atitude que eu pudesse tomar.

– Quem esta aí? – gritei apontando a arma para a escuridão. – Responda se não vou atirar!

– Não perca seu tempo. – respondeu a voz com precisão e um tom desconcertante. – Você não vai desperdiçar a bala que escolheu com tanto carinho pra acabar com a sua miserável vida.

– Quem esta aí? Dá pra falar?

O medo me consumia cada vez mais, não sabia como reagir, tinha uma arma com uma bala apenas, e a escuridão que não estava ao meu favor.

– Acalme-se e sente-se, garoto, te garanto que essa é a decisão mais sensata que você vai tomar. – disse a voz.

Não sabia o que fazer. Pela minha indecisão resolvi obedecer ao que estava sendo-me imposto, mas não perdi a postura, continuei apontando a arma pra onde quer que fosse.

– Abaixe essa arma, não vou lhe fazer mal, aliás, pior você não pode ficar. Coloque-a na mesa pra conversarmos é só o que eu quero.

Coloquei a arma sobre a mesa com muita calma. a voz estava certa.

– Tudo bem, fiz o que você pediu... Agora apareça! – exigi.

Alguém foi surgindo na minha frente, se retirando da escuridão, passo a passo. Usava um terno preto riscado de cinza, e uma camisa vermelha por baixo, difícil confessar, mas era muito elegante. Tinha um charuto em sua mão esquerda. Sentou à minha frente, cruzou as pernas e jogou a ponta de cinza em cima da toalha verde que cobria a mesa.

– Tá mais calminho? – perguntou o que deixara de ser uma voz.

– Calmo? Como você quer que eu esteja calmo? Você entra na minha casa não sei como, me ameaça, e quer que eu esteja calmo?

– Sim, é isso que eu quero! E é isso que você vai fazer.

Ele apontou para mim com a mão direita e como se uma força invisível me obrigasse a encostar na cadeira, algo sobrenatural. Fiquei absurdamente apavorado e estático.

Não conseguia definir bem o seu rosto, minha vista estava meio turva, talvez fosse a fumaça que nos cercara, mas naquele momento não queria achar muitas explicações cientificas para o fato.

– Quem é você e o quê você quer? – perguntei.

– Acho que você faz perguntas demais. Nem espera a resposta de uma e já me prepara outra, que complexo! – ironizou.

Peguei a arma. Aproveitei que agora estava vendo o alvo e apontei para ele, não perdendo tempo. Mas quando me dei conta, ele não estava mais ali. Quando pensei em me levantar, senti uma mão em meus ombros me levando de volta a cadeira.

– Bom... Vou responder, mas não porque estou me sentindo ameaçado, quero deixar isso bem claro, e sim porque lhe propus uma conversa. Não importa quem eu sou, mas porque estou aqui. Isso é o suficiente que precisa saber.

Ele estava sussurrando no meu ouvido, não sabia nem se tinha forças para reagir. A voz dele me hipnotizava de uma forma brusca e inexplicável.

– Tudo bem! Mas o que você faz aqui?

– Vim por sua causa!

– O quê?

– Você faz muitas perguntas, por que não faz logo o que estava pretendendo fazer? – disse ele impaciente.

– Eu? Mas não estava pretendendo fazer nada.

– Claro que estava. Está querendo me fazer de bobo?

– Olha só! – disse sem paciência. – Não sei nem quem é você, e esta querendo decidir por mim o que eu ia ou não fazer?

– Decidir? Não. Acompanhar as suas decisões. Só resolvi vir aqui pra ver de perto. – Deu mais uma tragada no charuto.

– Posso tomar um gole do seu whisky? – disse ele já pegando a garrafa e levando o gargalo em direção à boca.

– Acho que não tenho alternativa, né?

Tomou meia garrafa do meu último whisky em quase uma golada só.

– Agora sim! Voltando ao assunto, tenho muitos nomes. – disse enxugando a gota que escorria de seus lábios escuros e rachados. – Lúcifer, satanás... Mas prefiro que me chame de... Pai. Assim me sinto mais completo.

– Você deve estar brincando! Não quer que eu acredite nisso? – disse perturbado.

– Não. Sinceramente eu não entendo vocês humanos: acreditam em coisas que nunca viram, e quando vêem dizem que não podem acreditar. Eu é que estou desacreditado com a crença de vocês.

Disse isso olhando em meus olhos, não sei o que me deu, mas me arrepiei por inteiro, a certeza do que estava dizendo estava quase me fazendo acreditar como se fosse por algum tipo de mágica.

– Se você é a morte, ou o lúcifer, ou quem quer que seja, tudo bem... Mas o que você quer comigo?

Ele deu mais uma tragada no charuto, jogou novamente as cinzas em cima da mesa e soltou a fumaça que saía preta da sua boca. Respirou fundo, e apoiou os cotovelos na mesa.

– Vim desabafar! Pronto falei. – deu outra tragada no charuto com a mão visivelmente trêmula.

Eu só podia estar sonhando... não tenho amigos, nem namorada. As pessoas me olham de rabo de olho. Não recebo visitas, e quando recebo... É o diabo querendo desabafar! Ah, não é possível! Esse whisky deve estar com algum alucinógeno.

– É possível sim, na verdade vim aqui porque não agüento mais, a minha “morte”, ela está um saco, não agüento mais fazer a mesma coisa, e percebi que estamos em situações parecidas, então resolvi vir aqui antes que formalizássemos a nossa condição de “senhor” e “escravo” por toda eternidade – disse encostando-se na cadeira.

– Ta bom! Vou entrar na onda, mas... Sr.....

– Pode me chamar de Lu. – disse interrompendo-me.

– Lu... Definitivamente, em que eu posso ajudá-lo?

– Em quase nada! Cansei da condição obrigatória de ter que aceitar em minha casa todos que querem sair da vida que o seu pai deu pra vocês. E mesmo assim nós acolhemos todos de uma forma muito receptiva. Pra você ter noção, nos até arrumamos algum tipo de trabalho para todos que chegam lá em casa! Tenho que concordar que não é o trabalho dos sonhos de ninguém, mas como não são nem são nem meus filhos, estou fazendo ate demais. Sinto-me responsável por uma organização de reabilitação, só que eles nunca são reabilitados.

Não tive reação alguma.

Ele me olhou com um jeito frio, nunca havia visto aquilo antes.

– Ninguém pode me ajudar, nem seu “pai”, até por que ele é o culpado, foi ele que me expulsou de sua casa. Só o que estou tentando fazer é mudar a minha estratégia.

– Estratégia? Mas comigo? – perguntei inseguro.

– Claro! Alguém melhor do que você, alguém que não tem medo de mim, alguém que prefere a mim à seu pai! A morte do que à vida!

Por um momento eu pensei, não sabia o que, mas ele estava certo mais uma vez, – Droga! De onde vinha tanta certeza?

– Da experiência de vida que adquiri depois de tanto viver, ou morrer, como

queira!

Ele respondeu mais uma vez aos meus pensamentos, isso não era possível!

– Olha aqui, garoto! Vou ser objetivo. O que eu quero, é que venha até mim porque deseja, e não por obrigação. Quero que escolha, e não que seja submetido. Já que não está dando valor ao que seu “pai” te deu, então que valorize o que eu vou te dar... Mas que não se arrependa, porque não tem volta! Quero que me chame de pai. Os que morrem de velhice, ou doenças não me interessam... Esses são julgados pela comissão responsável. Só que pessoas como você não têm escolha, são meus e pronto! Mas eu quero que saiba pra onde estão indo, não quero enganar ninguém, quero que venham por gosto. Seu pai que se diz tão “justo”, não está te dando a escolha, viver ou morrer, essa é a escolha? Não! Se fosse, ele não te puniria por ter escolhido morrer. então definitivamente isso não é escolha! Porque se você escolher morrer, ele vai acabar com a tua vida, mesmo depois de morto. As pessoas vivem com medo da morte e se matam por medo da vida.

Apoiei os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos, não sabia mais o que pensar. Ou eu estava louco, sob efeito de alucinógenos, ou o diabo estava ali na minha frente mesmo, e bebendo o meu whisky! Acho que a última opção estava me parecendo mais sensata.

– Garoto, as eleições estão chegando, em breve “ele” vai decidir quem fica e quem sai da sua casa... E depois que ele decidir, sabe o que vai acontecer? Ele vai acabar com a minha casa, sabe por quê? Porque eu não vou ter mais serventia a ele, se o mal não existir ele não vai poder ser bom. E aí? Como ele vai ser adorado? Enquanto ele não vence as eleições, ele precisa de mim. Tomar o lugar dele eu já desisti, a campanha dele é ótima, tem muitas pessoas a seu favor, e eu ainda estou crescendo nas pesquisas. Mas se eu convencer as pessoas a virem comigo e a se matarem mais, tudo fica mais fácil. Lutamos por igual e finalmente conseguirei ser chamado de “pai”, e ser adorado, acho que não é muito que estou pedindo, é?

Levantei, e peguei a bíblia que estava dentro do armário, e coloquei sobre a mesa.

– O que me diz sobre isso?

– Prefiro não comentar. – disse o diabo cruzando os braços.

– Claro que tem que comentar, tem haver com você. – empurrei o livro em direção a ele.

– Já que insiste... Considero isso uma historia de Frank Miller, uma adaptação conturbada da verdade. A única verdade que consta aí, é o que vocês chamam de velho testamento... só deveriam mudar o nome para atualíssimo testamento. Já que é pra adaptar vamos adaptar direito. Toda personalidade descrita aí do “seu pai”, é verídica, e é a mesma até hoje, só não é mostrada pra não perder votos. Realmente ele é um gênio, e vocês, uns tolos.

– Deixe-me ver se entendi, existe uma eleição que vai ser disputada entre você e deus...

– Que vocês conhecem como julgamento final, mas ele colocou com esse nome só pra parecer que vocês não têm escolha, para que vocês pensassem que a decisão depende dele, mas não, depende de vocês...

– Deus precisa de votos, e você também. Só que ele já tem o lugar dele garantido, e você precisa dos votos pra não ser despejado. As pessoas que segundo ele, não prestam, que são os suicidas, ele manda diretamente pra você, pra você reaproveitar de alguma forma. Logo, eu não presto! E Você precisa de carinho...

– Não... respeito! – me interrompe mais uma vez. – E não diria votos, mas súditos. Precisamos de súditos... quem tiver mais, vence. É simples! – completa o diabo.

– Respeito. Isso me leva ate a pergunta principal... Por que ele quer isso tudo? Perguntei enchendo o copo com o resto do whisky que sobrou.

– INVEJA! – respondeu soltando a fumaça que estava em seus pulmões. – Ele viu que eu tinha chances de crescer, e acabaria tomando o lugar dele. Então me demitiu e usou isso pra ampliar seus negócios, criando a Terra S/A, e consecutivamente vocês. Só que o monopólio não teria graça, então permitiu que eu me tornasse seu concorrente principal e único. Você só se torna o maior se tiver alguém menor que você. Só que ele não imaginou que eu cresceria tanto, então resolveu apelar para os núcleos eleitorais, que vocês chamam de igrejas... E abriu caça ao Diabão aqui. Esses pastores me pagam! Mas o que eles não sabem é que a passagem deles já esta carimbada rumo à minha humilde casa... aí eles vão mudar de caçadores à caça em dois tempos!

Tomei um gole do whisky e acendi outro cigarro, a história parecia fazer muito sentido, mas se não fosse alguém se intitulando como o diabo na minha frente.

– Você acredita em deus? – disse ele?

– Não! Ele nunca fez nada pra me ajudar. – respondi com raiva.

– Então você acredita em mim – disse pegando o copo da minha mão.

– Não necessariamente... – peguei o copo de volta. – Posso não acreditar em nada, concorda?

– Claro, mas agora você tem motivos de sobra pra acreditar, ate porque você esta me vendo, é mais fácil acreditar no que você vê, não é verdade? Esse é um dos pontos que eu sempre ganho. Ele fica fazendo esse misteriozinho de só vai aparecer no “juízo final”, balela! Eu prefiro o boca a boca, e estou jogando limpo, abrindo o coração e dizendo toda a verdade.

– Tá bom... Eu acredito em você.

– Sério? De verdade? – disse o diabo empolgado.

– A história me pareceu bem convincente, e eu não tenho nada a perder. Mas e agora? O que devo fazer?

– Nenhum sacrifício, basta fazer o que já ía fazer... Até porque agora mesmo é que você não tem motivos mesmo pra continuar aqui, não é mesmo?

– E o que eu vou ganhar?

– Ganhar? – disse o diabo espantado – Você ía ganhar algo antes?

– Não. Mas agora eu descobri que poderia ganhar algo, então eu quero.

– Já te dei muita coisa: a verdade. Isso não basta? Tudo que você só ia descobrir se morresse, eu te dei aqui, em alguns minutos. Muitos morreram tentando descobrir isso, e muitos ainda morrerão pela verdade. Você é um privilegiado, garoto!

– Faz sentido. – disse com segurança.

– Então faça o que tem de fazer: pegue a arma, aperte o gatilho e venha para a minha casa. Se tudo correr bem, ainda ganhará um emprego de brinde.

– Tudo bem...

Peguei a arma, verifiquei se a bala ainda estava lá dentro, claro! Se não tinha ninguém pra mexer na arma, não ia ser o diabo que se atreveria a fazer isso. Por incrível que pareça ele me pareceu gente boa, tinha uma visão totalmente diferente dele... Era elegante, verdadeiro, solicito, só bebeu o meu whisky todo, mas como eu não ia precisar mais, não tinha problema. Foi a minha primeira companhia desde que eu vim morar nesse apartamento. Ele era legal. Então vou continuar com o meu objetivo e conseqüente mente ajudar um amigo.

– Tudo bem, estou pronto, qual seria o melhor lugar pra eu atirar? – indaguei indeciso.

– Eu sugeriria dentro da boca, direcionado ao cérebro. Tenho certeza que não vai sentir nada.

– Como tem tanta certeza?

– Sou especialista em suicídios, já vi de todas as formas possíveis.

– Então tá. Seja o que deus quiser!

– Pára! Pára! Pára! Eu que estou aqui na sua frente te ajudando e você ainda roga a deus? Isso é um absurdo. – disse o diabo indignado.

– Tudo bem, desculpe... é a força do habito. Então vamos lá.

– Retire o que disse e recomece.

– Tudo bem, SEJA O QUE O DIABO QUISER!


– Adoro ver o sangue se espalhando, é quase que orgástico. Agora vem a dúvida, será que o corpo vai cair ou ficar sentado na mesma posição? Esse questionamento sempre me consome. Só que o mais incrível, é saber como os seres humanos são fracos e tolos! Com alguns minutos de conversa e meia dúzia de papo furado, trouxe esse idiota para mim. Não quero nem imaginar no que outros podem fazer com horas, dias, meses ou até anos de mentiras! Uns se beneficiam por quatro anos, outros pela vida toda, eu tenho a vantagem de me beneficiar por toda a eternidade. Quando será que eles vão aprender a não acreditar mais no primeiro que faz algumas promessas insólitas? E eu nem precisei contar a parte dos anjos... Bom, melhor assim. Pra uns ganharem, outros têm que perder. Baralho! Me fez lembrar poker. Ótimo jogo, só que como qualquer jogo, o melhor é jogar sozinho, assim eu manipulo, blefo, roubo, e assim eu ganho sempre.

A vida é como um jogo de poker: a vitória é do mais inteligente; não depende de sorte. Mas se por acaso ela blefar com você, basta dar uma manipulada de leve, que a mesa vai ser sua, e o prêmio? O prêmio... É você ter a chance de tentar descobrir se no final, o corpo vai cair ou ficar sentado no mesmo lugar. Como eu adoro a minha vida! Ou melhor, a minha morte!





















Fim

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