ASAS DA MORTE
Paulo Valença
Pedro despede-se do amigo:
- Até mais tarde, no trabalho.
O outro sorri:
- Até, cara.
Com passos vacilantes Pedro
se afasta, enquanto o colega toma outro rumo, pensativo, na madrugada
alta. As ruas assim sem pedestres, automóveis... Não, melhor não
pensar negativo! Apressa-se em sentido à parada dos coletivos, onde
aguardará aquele que o conduzirá a casa, com a mulher esperando-o,
preocupada. Então, ao dobrar a esquina recebe a violenta pancada no
pescoço.
- Porra!
Exclama perplexo e vê as asas
fazendo círculos e sumir no alto, por trás do parapeito do edifício
defronte.
- Um morcego...
O pescoço queima. Esfregando-o
com os dedos nervosos, sente o calor do sangue. A vista se turva. A
cabeça roda e, ante a súbita fraqueza das pernas, o corpo se projeta
na calçada.
Sobre o parapeito olhos miúdos
seguem a cena embaixo, do homem que, aos poucos, imobiliza-se... para
sempre. As asas batem uma de encontro à outra, como num aplauso, e
alça vôo, em busca de nova vítima, pois o vampiro é mortal.
* * *
SERVO DO MAL
Paulo Valença
1
- Messias você já sabe: mulher
morena, nova, e com aparência.
O sujeito gordo em gesto de
cabeça aquiesce:
- Pode ficar tranqüilo, chefe.
Sei como fazer.
- Tudo bem. Pode ir. Qualquer
coisa ligue pra mim.
- Certo, Dr. Gabriel.
Este fica seguindo com os olhos
analíticos o outro cruzar a sala espaçosa e descer a escada que o
conduz à outra, na qual, cortando-a, se encontrará na varanda, com
o automóvel cinza próximo. Adentrando neste, passará pelo jardim,
o portão automático e ganhará a rua, em busca de executar a tarefa
que lhe foi determinada.
- Assim é que funciona a coisa...
Sorri, resumindo-se, prático,
realista. E se deixa cair sobre o sofá fofo, no qual estende o corpo
magro, relaxando, em repouso. Amanhã, já será outro Gabriel, com
a noite que lhe dará energia...
Despertará novo. Sim, restabelecido.
Cerra os olhos, adormecendo.
2
Messias dirige. O Dr. Gabriel
sempre o convoca para a missão de conseguir uma garota para curtir
o programa amoroso. E, o que então rolará?.
- Como vou saber?
O patrão assim que a menina
lhe é apresentada, despacha-o:
- Tudo certo, Messias. Segura
aí e pode ir.
Então pondo a quantia no bolso,
ele com discrição, observa a jovem sentada na sala conjugada, na humildade
da submissão do prazer que proporcionará ao senhor que agora conversa
com o subalterno. Afasta-se, sem se voltar. O que a adolescente terá
de fazer, quais os caprichos sexuais aos quais se submeterá? Melhor
nem imaginar! O mundo é assim mesmo, e quem o consertará? Portanto...
Liga o motor e o carro ganha a rua e depois a avenida praticamente deserta
de veículos e pedestres.
No bolso das calças as cédulas
recebidas. Na mente, a persistente indagação: E agora? O que ele sabe
é que o patrão nunca volta a transar com a mesma garota, o que se
lhe apresenta um mistério.
A madrugada envelhece e o carro
se distancia na repetição de outras cenas.
No dia seguinte, o Dr. Gabriel
amanhece mais alegre, mais corado (mais corado?), brincalhão:
- Como é, Messias, já gastou
o dinheiro?
- Nada doutor. Guardo pra uma
precisão.
O patrão sorri e, dando-lhe
as costas, esconde o sorriso que exibe os caninos maiores, ainda avermelhados
do sangue sugado do pescoço da mocinha, que se deixou morder, julgando
ser tudo aquilo uma carícia do jogo amoroso. E Messias vê o chefe
entrando no automóvel negro cruzar o jardim, o portão e desaparecer,
reentregado à sua misteriosa maneira de viver. Pensativo, se perde
em si mesmo.
- É isso aí, cada cabeça
é um mundo. Um mistério.
Diz baixinho, dando voz ao
que pensa, enquanto já distante, o carro vai se reduzindo, se reduzindo...
* * *
Paulo Valença é autor de
livros de contos e romances, com premiações nacionais. É verbete
em dicionários biobibliográficos de escritores contemporâneos. Pertence
a várias instituições literárias. Vive em Recife/PE.