AUSÊNCIA
AUSÊNCIA
Por:
Lucca Bacal
Aconteceu
quando ele tinha cinco anos, foi estranho e inacreditável, mas
aconteceu. Simplesmente, era de noite e os pais dele haviam saído
para jantar fora. A empregada jovem aproveitara para encontrar o
namorado às escondidas.
O
garotinho que respondia pelo nome de Vitor ficara sozinho em casa.
Ele pensou em ligar para os pais no restaurante e explicar que a babá
havia deixado ele lá, sem ninguém para cuidar dele, à
noite.
Mas
não, ele gostava dela, pensava que fora apenas um mal
entendido. Em sua mente de criança ele achava que ela não
ficaria muito tempo fora. Que ela voltaria para ficar junto dele. Mas
não era assim, ela havia fugido com o namorado na noite,
quando os patrões não estavam em casa. Deixando sozinha
uma inocente criancinha de cinco anos.
Ele
se acomodou na sala de estar, sentado no sofá, lendo seu
pequeno livro sobre coisas que apenas interessariam a um garoto de
cinco anos. Por mais que as letras fossem grandes e tivessem enormes
ilustrações coloridas, ele demorava entre dez a quinze
minutos para ler uma página.
Cansou
de ler, marcou a página, fechou o livro e olhou para capa.
Sorriu e colocou-o na mesinha de centro feita de vidro.
Pegou
o controle remoto da tevê e a ligou. Deitou-se no sofá e
começou a rir dos desenhos que passavam. Era divertido para
ele, até que o fato escabroso aconteceu. E este é o
motivo para eu estar contando para vocês esta pequena história.
O motivo que fez Vitor enlouquecer e virar apenas um fardo morto na
família Williams.
A
televisão exibia imagens coloridas e divertidas, os olhos do
pequeno menino estavam arregalados, não piscavam. Ele mantinha
um sorriso estampado em seu rostinho corado, que mais tarde ficaria
tão branco e sem vida quanto um pedaço de papel. Mas,
olhe pelo lado bom, ele ainda mantém seus olhos arregalados na
situação atual, pós-trauma.
Sua
concentração era tão grande que, quando ele
ouviu o primeiro estrondo vindo do quarto ao lado, ele caiu do sofá,
batendo com a cabeça na mesinha de centro e fazendo com que o
pequeno livrinho voasse por cima de sua cabeça e fosse parar
atrás do sofá, deixando o marcador no caminho, que foi
caindo como uma folha seca em cima do garotinho.
Vitor
desligou a televisão e esperou para ver se ouvia mais algum
barulho. Outro estrondo ocorreu, seguido de pequenos ruídos
que pareciam algo riscando o vidro, que fizeram o garoto lembrar de
quando viu um urubu no zoológico, e ele começou a
arranhar um toco de árvore, produzindo um som semelhante. Este
pensamento provocou um horrível frio na espinha.
Sua
cabeça começou a latejar. Vitor colocou a mão na
testa, onde havia levado a pancada, e sentiu algo liquido, pegajoso e
quente. Assustado, ele colocou a mão no seu campo de visão.
E para seu espanto, um liquido rubro escorria entre seus dedos.
Vitor
sabia o que era aquilo, era sangue. Era algo que ele tinha nojo e
medo.
Seus
olhos lacrimejavam e sua boca se abria, pronta para um escândalo.
Isso até ocorrer outro estrondo, só que desta vez,
seguido por uma fina voz, que poderia muito bem ser o vento:
“Vitorrrrrr”, ela dizia com seu “erre”
puxado.
O
inocente garoto estremeceu e correu para o telefone, apavorado. Ao
tirar o aparelho do gancho para ligar desesperadamente para os pais e
contar sobre a fuga da babá, os estrondos e seu machucado, ele
não ouviu o som do telefone dando linha, ele não ouviu
nada. Ele ficou alguns segundos com o aparelho no ouvido, até
que ele ouviu novamente alguém o chamar. Aquela horrível
voz de vento. Aquela macabra sinfonia rouca e com o “erre”
esticado. Só que desta vez, por mais horrível que
fosse, a voz vinha do telefone:
-Vitorrrrrr,
garoto, venha até mimmmmm.- A voz completou – Vou
cuidarrrr de vocêêêê.
Com
extremo pavor e desespero, com o coração explodindo e
quase saindo pela boca, o menino gritou com sua vózinha de
cinco anos e atirou o telefone com uma força anormal para
garotos de sua idade.
Ele
correu para o ponto na sala mais longe do quarto, de onde a voz
fantasmagórica não parava de se repetir, chamando por
seu nome.
Vitor
se atirou para o corredor que dava para seu quarto, tropeçando
nas escorregadias meias de veludo estampadas com personagens de
desenhos animados, no chão encerado.
Em
total desespero, o garotinho que hoje tinha saído para jogar
bola com os amigos sentiu algo agarrando seu calcanhar esquerdo e que
o fez tropeçar no corredor com paredes de gesso que pareciam
cada vez mais apertadas e estreitas.
Vitor
tentou se segurar, mas apenas cortou sua mão com a moldura de
vidro de um Rembrandt falso que seu pai havia ganhado em um
sorteio do último cruzeiro que fizeram em família, cujo
destino era o Caribe. O quadro caiu da parede e sua moldura de vidro
se esmigalhou no chão, arranhando o corpo dele em vários
lugares dos braços e pernas.
Virou-se
para trás para ver se estava sendo seguido, não estava.
O menino se levantou chorando e correu em direção ao
quarto que lhe pertencia. Sim, lá estava a porta de seu
quarto, ele iria entrar e pular na cama, infestada de bonecos de
pelúcia, lençóis e travesseiros com figuras de
seus desenhos preferidos.
Mas,
algo realmente estranho ocorreu, com uma grande rapidez, Vitor puxou
a maçaneta e a virou. A porta se abriu em uma fresta, o
garotinho tentou empurrar o resto, mas ela estava emperrada. Ele
forçou com o ombro, nada. Então, com muita burrice e
horror, Vitor se jogou de frente contra a entrada semi-aberta do
quarto. Batendo e quebrando o nariz com um estalo. Sangue escorreu
das narinas para a boca.
A
porta se escancarou, jogando Vitor para o chão, que caiu em
cima do próprio braço, quebrando-o. Seus olhos estavam
serrados pela dor...muita dor.
O
garoto foi se arrastando para frente, o rosto no chão. Mas
quando abriu seus pequeninos olhos ele viu que não estava no
seu quarto.
O
chão era diferente, era de um mármore branco e
encerado, muito brilhante. Aquele era o chão da sala. Quando
olhou para frente, viu que estava cara a cara com o quarto de onde
vinha o chamado da voz, desta vez com um tom zombeteiro. A luz estava
apagada, a escuridão prevalecia, mas mesmo assim, Vitor
conseguia enxergar um vulto que se movia rapidamente dentro do
quarto, subindo nas paredes e teto.
Com
uma extrema coragem que deveria ser lembrada para todo o resto da
eternidade no mundo inteiro, Vitor se levantou com raiva e dor e
começou a se aproximar do quarto medonho. O vulto, percebendo
isso, voltou para o chão e começou a caminhar para a
porta, em sua direção.
Quando
os dois estavam frente a frente e Vitor sentiu a quente respiração
da estranha silhueta humanóide em seu rosto, ele entendeu que
não era uma questão de coragem, que ele iria morrer.
Com pavor, ele gritou, fazendo com que o vulto soltasse um urro
animalesco e horroroso.
O
garoto tentou correr, mas seus pés o haviam abandonado, ele ia
cair no chão e aquilo ia pegá-lo. Vitor se apoiou no
parapeito da porta, onde sua mão roçou o interruptor e
acendeu a luz.
Com
a mesma velocidade que a luz predominou, o estranho ser sumiu, junto
com as vozes e estrondos. Vitor derramou algumas lágrimas, sua
boca se abria, seu rosto havia se contorcido em uma careta de dor.
Então, com um súbito alívio, Vitor caiu no chão,
desmaiado.
Quando
os pais finalmente chegaram, tudo estava quebrado e o garoto em
estado moribundo. Eles correram para o hospital, onde o salvaram do
toque gélido da morte. Mas depois, Vitor teve de ser internado
em uma clínica psiquiátrica. Ele não falava, não
se movia e não comia sem ajuda.
A
babá foi presa por tentativa de homicídio. Por algum
estranho motivo ela foi encontrada fugindo de algo, aterrorizada, o
sangue do garoto estava em suas mãos, corpo e roupas. Ela
segurava com força uma lixa de unhas de metal ensangüentada.
O
garoto nunca melhorou o estado mental, os pais nunca superaram, a
babá se enforcou na cadeia e a moldura do quadro falso do
Rembrandt nunca foi trocada.
Fim
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