O BANQUETE
Pauline Kisner
Eis que eu
abri meus olhos e me encontrava num salão de pedra, ricamente ornado
com todas as belezas que o gênio humano concebeu. Tapeçarias antigas,
cortinados de veludo, prata, ouro, cristais e porcelanas; e ao longe
o som encantador das gargalhadas dos convivas e o ar que recendia a
perfume e às delícias da mesa. Mãos enluvadas me conduziram ao salão
onde interminável távola estendia-se, recoberta por toalha alva do
mais fino linho, caindo ao chão, que recebera tantos pratos quanto
nela couberam, havendo ainda criados nos cantos à espera do momento
de servir mais.
Tratava-se
de um banquete ao qual eu fora convidado sem me recordar por quem nem
quando, e tampouco conhecia eu aquele que se sentava à cabeceira. Havia
na mesa sete lugares – dois nas pontas, dois à esquerda do suposto
anfitrião e três à sua direita, um dos quais me fora reservado. À
minha chegada, os demais já estavam presentes e, talvez, embriagados.
Sendo assim, sorri e me juntei a eles, não sem grande espanto.
À minha frente
achava-se uma figura de formas horrendas e retorcidas, por certo digna
dos contos feéricos, cujos cabelos eram já cãs ralas. Sua pele, muito
enrugada e sem cor, tinha inúmeras fotografias marcadas, como tatuagens
ou cicatrizes, não posso precisar. Quando gargalhava, a boca exalava
um odor putrefato como o de velhas catacumbas, privando-me por completo
de qualquer apetite...Notei então que tinha a seu lado uma criatura
diminuta e não menos caricata, dotada de olhar tal que me gelou o espírito
e faltou-me o ar. Falava-lhe ao ouvido, alisava seus cabelos ressequidos
e a outra ria, admirando-se num espelho velho e torto, tal qual uma
rainha de fábulas. Era a Mentira falando à Vanglória.
Desviei-me
delas e reparei que o assento à minha direita ficara vago e meu vizinho
de cadeiras agora passeava junto aos outros convivas. Ao meu lado, fora
um homem respeitável; junto à Vanglória e à Mentira, assumira a
imagem de um sedutor romanesco a alimentá-las com seus galanteios.
Ao anfitrião oferecera ouro e ao meu vizinho da esquerda entregara
uma coroa de louro e alguns papéis. Novamente em seu assento, tomou
primeiro a figura de um homem idoso e venerável, para depois perder
completamente a forma humana. Era a Amoralidade, que não conhece princípios
e seduz a todos por ser volúvel.
Meu conviva
da esquerda estava ainda absorto com os papéis ganhos quando dei-lhe
alguma atenção. Era, em tudo, um sacerdote, na tonsura e no hábito
negro. O livro que trazia, contudo, não era a Bíblia Sagrada dos monges
e fiéis sinceros; na capa de couro se lia em tipos dourados CIÊNCIA
e de suas páginas escorriam lama e cédulas de dinheiro já sem qualquer
valor. Pendia em seu peito não uma cruz, mas um caduceu sanguinolento.
Nosso anfitrião
parecia feliz, embora silencioso, quando passei a examiná-lo. Era um
senhor robusto, vestido à maneira dos antigos, com botas lustrosas
e casaca de veludo e um bigodinho amigável. Notei, contudo, que todas
as vezes que tocava a comida, fossem frutas ou os assados, esta fazia-se
pó e então o homem metia a mão nos bolsos e dele tirava grossos maços
de dinheiro com os quais se alimentava. Vi naquele homem a penitência
ad aeternum daqueles que fizeram morrer de fome aos miseráveis
para acumular riquezas. Era o Capital nosso anfitrião.
Atemorizado
e perplexo por aquele circo de horrores, tentei me erguer e constatei
que estava preso ao assento. Tentei protestar e vi que não tinha mais
voz. Fiz gestos desesperados e os presentes caíram em estrondosas e
sombrias gargalhadas, entre as quais se ergueu o anfitrião:
—Vejo bem
que descobriste quem somos, William, a todos menos um e a ti mesmo,
claro.
Eu não havia
notado, sentada na outra ponta da távola, silenciosa e acossada como
uma criança, aquela que parecia ser a esposa do nosso anfitrião. Não
olhava ela para os lados e juntara tantos pratos à sua volta que não
conseguiria encontrar os talheres ou apoiar os cotovelos na mesa. Eu
estava em pânico e gesticulava ao modo mediterrâneo, sem conseguir
que aquele indivíduo me prestasse qualquer atenção.
—Oras, William,
não fales à Indiferença, que ela não te dará qualquer atenção,
afinal não vê nos outros mais importância que nela própria...
—E eu? –
minha voz saiu como um estampido.
—Tu és a
Humanidade, que assiste impassível a tudo o que aqui se passa.
***
Quando acordei,
ainda tendo vivas em mim as lembranças do banquete, apercebi-me que
estava, contudo, em meus aposentos, portanto bem longe daquele castelo...Disse-me
o médico que a governanta me encontrara caído sobre a mesa do jantar
e que minha morte não se dera somente porque nem mesmo o Diabo me aceitaria
no inferno...Maldito ópio...