O BEIJO

AUTORA: SUSANA LORENA

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O beijo

O BEIJO

Por Susana Lorena


1

-Ela não deve permanecer aqui! – Ele repetia a frase mais uma vez.

-Você se refere a um enterro cristão? – O padre perguntava incrédulo.

- Não! Eu digo na floresta ao norte da cidade.

Um silêncio reinou na sala onde se reunia quase toda a cidade. A pauta da vez: Um jovem, Lúcio, queria impedir que a jovem, Serena, fosse queimada sob a acusação de bruxaria. Não que ele quisesse que ela fosse poupada. Sua idéia era de que ela fosse enforcada e enterrada longe da vila, mais precisamente, dentro da densa floresta que cercava três quartos do lugar. Tudo aconteceria no dia seguinte e as coisas estavam longe de acabar.

Lúcio tentava convencer a todos de todas as maneiras:

- Se nós a queimarmos, suas cinzas continuaram aqui – dizia ele.

- E que mal as cinzas de uma bruxa morta faria a nós? – Gritou uma senhora na última fileira. Um murmúrio geral concordava.

Lúcio abaixou a cabeça. Não queria dizer a verdade. Não queria admitir que todo o trabalho que estava tendo era por culpa dos sonhos que tivera. Naquela noite não conseguira dormir. Sonhos diversos, em que Serena falava com ele e dizia que ela não poderia ser queimada. Ela o torturava, e falava que se ela fosse queimada, todos na cidade sofreriam mais do que ele estava sofrendo agora. Lúcio sabia ao tempo todo que se tratava de um sonho, mas não conseguia acordar dele. Serena dizia que ele acordaria quando ela quisesse ou poderia muito bem não acordar. Era ele quem escolhia. No sonho ele tinha cordas que amarravam seus pulsos e quando acordou naquela manhã as marcas das cordas ainda estavam lá, vermelhas e a pele esfolada como se estivesse amarrado por um longo tempo. Havia marcas de queimaduras em sua barriga e longos lanhos de chicotadas em suas costas. Pelo seu próprio bem, deveria convencê-los de que ela não poderia ser queimada. Não sabia se conseguiria mentir na frente de toda a cidade... Mas podia disfarçar a verdade.

- Eu tive um sonho. Uma visão – disse ele finalmente.

Todos ali se manifestaram ao mesmo tempo. O Padre tentava acalmar os ânimos.

-Esperem, esperem – dizia, ele mesmo curioso. – Vamos ouvir o que o jovem Lúcio tem a dizer sobre isso.

Lúcio limpou a garganta e começou a disfarçar a verdade.

- Ontem à noite eu tive um sonho. Nele um anjo falava comigo. Dizia que não queria ver uma comunidade de fiéis tão devotados cometerem um erro tão grande - Lúcio tentava parecer tomado de uma grande emoção devido à revelação. - Disse que, se a queimássemos, as suas cinzas permaneceriam em nosso solo. E essas cinzas impuras trariam o mal para nós. Ele afirmou que a única maneira de tirá-la daqui seria enforcando-a. Devolvendo seu corpo inteiro para a floresta, onde os demônios a levarão para as trevas de onde ela veio.

O silêncio reinava naquele lugar. Todos se olhavam espantados. Ninguém conseguia acreditar no que tinha ouvido. Todos comentavam baixo entre si.

O padre foi o primeiro a se pronunciar:

-Bem, irmãos... - Tirou os óculos e limpou-os na batina. – O que nós ouvimos aqui é uma experiência única. Podemos nos considerar um povo abençoado por Deus. Se o Nosso Senhor se deu ao trabalho de mandar um de seus anjos nos avisar do mal que essa mulher nos causaria, nós somos realmente um povo do qual Ele se agrada – o padre juntou as mãos em frente ao corpo. – Irmão Lúcio, aproxime-se de mim. – Lúcio andou a te ele e se postou ao seu lado. Agora se referindo a toda a congregação o padre disse. – Irmãos! Oremos! Vamos agradecer por essa graça!

O padre conduziu a oração em altos brados. Lúcio, que estava ao seu lado de cabeça baixa e com as mãos entrelaçadas na altura da barriga, teve que conter o seu espanto quando viu que as marcas de cordas já não estavam nos seus pulsos. Tentou se mecher sem que ninguém reparasse e percebeu que a dor das chicotadas nas costas havia sumido. Em meio às palavras empolgadas do padre ele pode ouvir uma risada que reconhecia muito bem. A ouviu diversas vezes na noite anterior. Era Serena. Pela falta de reação dos outros, só ele mesmo ouviu aquilo. Aquela risada esganiçada que lhe causava um frio na espinha. A risada cessou de repente, assim como surgiu. Quando ele achou que podia respirar aliviado, ouviu um sussurro, como se ela estivesse de pé ao seu lado, com os lábios colados ao seu ouvido. O sussurro dizia:

- Muito bem...


2


Ela se arrumava calmamente. Apertou os cordões atrás do espartilho e bateu a poeira das botas que usava. Jogou a cabeça para trás e sacudiu os longos cabelos negros como as asas de um corvo. Seus olhos estavam em paz, olhando para fora da janela gradeada. Quem a visse assim, nunca imaginaria que estivesse a poucos minutos de ser enforcada. A sua prisão era improvisada. Ficava em baixo da sacristia. Um lugar bem parecido com uma masmorra, mas não tão ameaçador. A janela pela qual olhava ficava rente ao chão do lado de fora. Não podia deixar de ter pensamentos perversos sobre os motivos que levaram o padre a ter aquele lugar mantido ali.

Ouviu a porta do andar de cima ranger e depois passos na escada. O padre descia com uma bíblia e uma cruz na mão. Um sorriso brincou em seus lábios “será que ele pensa que eu sou um vampiro?”.

O padre abriu a bíblia e beijou a cruz. Começou com a sua ladainha. A cabeça de Serena fervilhava de ansiedade e não estava com paciência para aturar aquilo.

- Hei! – Disse ela ao padre. – Você não quer saber se eu me arrependo de meus pecados antes de começar a encomendar minha alma?

O padre olhou para ela, incrédulo, por cima dos óculos:

- E você se arrepende?

- HÁ! – Serena soltou uma sonora risada. – Claro que não! – Se apoiou na grade para se aproximar do padre. – Então acho que estamos rezando em vão não estamos? Não use o nome do seu Senhor em vão. Foi ele mesmo que disse.

O padre fechou a bíblia com um estalo. Tirou os óculos com raiva.

- O que você pensa que está fazendo? Por acaso tem idéia do que está para acontecer? – O padre gritava agitando a bíblia.

- Sim – Serena disse com toda a calma. – Por isso estou tentando fazer com que nenhum de nós perca seu precioso tempo. – E deu uma piscadela para o padre.

Ele respirou fundo, tentando não perder mais a calma. O padre olhou para o chão procurando alguma coisa. Jogada perto da parede estava uma corda já gasta pelo tempo. Ele colocou a bíblia em um bolso da batina e deixou a cruz recostada na parede quando se abaixou para pegar a corda.

- Vire-se de costas – disse ele.

Ela se virou e ele começou a amarrar os seus pulsos atrás das costas.

- Hmmm... Padre... – Serena usava sua melhor voz sensual. - Achei que você tivesse feito voto de castidade. – Ela estava a minutos da forca, mas não poderia deixar de perturbá-lo.

Estava de costas para ele e não tinha como vê-lo. Mas de algum modo sabia que com esse comentário, o padre havia corado até a raiz dos cabelos. Ele a guiou até as escadas e a mandou subir. Ela subiu lentamente e fez a sua última brincadeira com o padre:

- Você não credita realmente que eu sou uma bruxa, não é?

- C - Como? – Ele não se sentiu confortável com essa pergunta. – Por que diz isso?

Serena sorriu:

- Se realmente acreditasse, não acharia que essas cordas são suficientes para me impedir.

O padre olhou para as cordas. Tão velhas e gastas. Se ela realmente fosse uma bruxa ela se soltaria facilmente dali. Mas admitir isso na frente do povo, dizer que ele estava errado e ela não era uma bruxa, nunca. Como diria que seus anos dedicados à fé estavam errados? Ele nunca saberia se ela realmente era uma bruxa. Nunca saberia se outras que foram condenadas também não eram. Tinha nesse momento o assassinato de muitos inocentes nas suas costas. Esse pensamento o atormentaria para toda a vida. E assim, sem que ele percebesse, Serena jogou um feitiço nele. Ele se culparia pelo resto da vida por ter a mandado para a forca.

Quando os dois saíram da sacristia, dois jovens a esperavam. Um desses jovens, Serena já conhecia muito bem. Deu um passo a frente em sua direção:

- Sabia que conseguiria – ela disse bem baixo para que só ele ouvisse. Ele olhou desconfiado para os lados para ter certeza disso. – Agora... – continuou ela – O seu prêmio.

Quase que junto ao fim de sua frase, Serena se atirou sobre ele. Lês eram quase do mesmo tamanho, então ela não teve grandes problemas em alcançar a sua boca. A reação de Lúcio foi a esperada por ela, ele a segurou pela cintura e retribuiu o beijo. Um beijo apaixonado de dois amantes em uma despedida. Todos na cidade já estavam reunidos ali, e todos pararam diante daquela cena. O beijo acabou quando Serena descolou seus lábios dos de Lúcio dizendo:

- Acho que temos algo a fazer agora.

Ele ainda estava meio atordoado, sem saber como reagir. Olhava incrédulo para ela. Deveria escoltá-la até a forca, mas isso não foi preciso. Quando ele conseguiu se mover novamente, saindo do seu estado de total surpresa, ela já estava na metade da escada que levava ao tablado da forca. Apressou-se para alcançá-la.

Ficou ao seu lado no tablado. Ela estava sobre a marca na madeira que indicava o alçapão. Foi ele que colocou a corda em seu pescoço. Ela olhava para longe quando ele fez isso. Seus olhos pareciam nem estar mais ali. Ele tentava fazer contato visual, mas nada acontecia. Ele olhava para frente.

O padre fazia a sua prece em voz alta fora do tablado. Ele perguntou se ela tinha alguma última palavra. Ela não disse nada. O padre não pode deixar de respirar aliviado. Tinha medo de ela fazer mais alguma piadinha ou algum comentário como os que fizera na sua prisão. Diante do silêncio dela, ele disse as últimas palavras da cerimônia.

- Já que não tem nada a dizer, que se cumpra o seu destino. Que Deus tenha piedade de sua alma.

Lúcio puxou a alavanca que fez o alçapão do tablado cair. O corpo dela despencou. Alguns desviaram o rosto na multidão. Outros aplaudiram. Lúcio apenas a olhou cair.

Sentiu um frio na espinha quando ela sumiu de sua vista. Um vazio tomou conta do seu estômago, algo que deveria ser sentido à beira de um penhasco. Sentiu que ali, com um simples movimento de braço, havia selado não só o destino daquela moça, mas o seu próprio.

Algo estranho aconteceu naquele enforcamento. Seu pescoço não quebrou. Mas quando a corda ficou completamente esticada, seu corpo já estava sem vida, como se houvessem pendurado ali um pessoa já morta.


3


Naquela noite, Lúcio não conseguiu dormir. Revirou-se na cama por algumas horas e o sono não vinha. Por volta de meia noite ele resolveu sair da cama. Abriu a janela do quarto para conseguir se refrescar com algum vento, já que o suor encharcava a sua roupa de dormir. Estava ofegante, como se houvesse corrido durante todo o tempo que tentara dormir. Ao abrir a janela, a luz da lua cheia invadiu seu quarto. Não foi o vento, mas a luz que lhe trouxe o alívio de que precisava. Ele respirou fundo apoiado na janela. Aquela luz... Ela lhe trazia a paz que ele precisava agora. Resolveu que precisava de mais dela. Colocou rapidamente uma roupa, pegou seu candeeiro e saiu pela rua.

Tudo estava muito escuro e o candeeiro não fornecia luz suficiente para andar muito. Mas para ele, a lua era toda a luz de que precisava.

Sua cabeça fervilhava com os acontecimentos do dia que se passou.

Naquela manhã ele havia puxado a alavanca que enforcou Serena, retirado seu corpo sem vida da corda e, junto com mais dois jovens do vilarejo, a levou para uma clareira no meio da floresta. Lá, eles cavaram um buraco na terra fofa e a deixaram lá. Para que, segundo ele mesmo dissera na frente de todos os habitantes, os demônios a levassem para longe da vila. Agora ele imaginava se não era essa a vontade dela, quando o aprisionou em seu sonho e o torturou. Será que a desculpa que ele deu para a população não acabaria sendo a verdade?

Lúcio andava a esmos sem saber para onde ia. Mas seus passos decididos, e ao mesmo tempo cambaleantes, faziam parecer que ele tinha um destino certo. Ele apertava os olhos tentando se acostumar a pouca luz. Fazendo isso ele reconheceu a certa distância uma cabana mal cuidada. Ela já parecia sinistra à luz do dia, que dirá à noite. Lembrou-se de quando voltaram da floresta. Ele carregava uma das pás que eles usaram para enterrar Serena. Lembrava de tê-la jogado de lado no chão assim que passou pela cabana. Enquanto andava em direção a ela, tentava divisar no chão o formato da pá. Teve que andar curvado, aproximando o candeeiro do chão para conseguir encontrá-la. Pegou-a com naturalidade e a apoiou no ombro.

Logo atrás da cabana, começava a floresta. E foi ali que ele entrou.

Andar pela floresta no escuro fazia parecer brincadeira de criança o caminho que eles fizeram de manhã carregando um corpo enrolado em uma mortalha preta. Ele mal podia ver alguns passos a sua frente. A luz da lua era filtrada pelas copas das árvores acima dele. Ele podia ver apenas alguns pontos iluminados nos troncos e no chão. Esses pontos não ajudavam em nada a desviar das raízes das árvores e de galhos caídos. Usava a pá como uma bengala para ajudar a andar. Mesmo assim tropeçava com freqüência. Chocava com os ombros nos troncos das árvores, largou a pá algumas vezes para aparar a queda com as mãos. Isso lhe causou alguns arranhões e hematomas pelo corpo.

Os sons da floresta entravam em sua cabeça com força. Era como se cada pequeno ruído viesse de todos os lados possíveis. O rastejar de alguma criatura passando por ele, não faziam com que ele parasse. O bater de asas de alguma ave, ou talvez um morcego, passou rente ao topo de sua cabeça. Ouvia um roncar suave vindo de longe. Pelo som, não conseguia precisar o tamanho do animal. Poderia ser desde um pequeno mamífero inofensivo até... Ele nem queria pensar.

Mas isso não importava.

Ele seguia com a determinação de um desbravador por aquela floresta. Nada era capaz de impedi-lo. Mas de onde vinha aquela força? O que fazia com que ele continuasse sem nem bem saber por onde andava? Sentia que uma força o guiava. Uma força maior que ele e que estava além de qualquer explicação. Tinha alguma idéia de onde ia. Mas não era devido a nada no caminho. Apenas uma sensação de que ele não poderia ter nada a fazer ali, a não ser...

De repente algo em meio às árvores lhe chamou atenção. Uma claridade estranha em meio a tanta escuridão. Ele seguia sedento pelo caminho ao ver aquela claridade. Parecia satisfeito em vê-la, como se a tivesse esperando desde o momento em que pôs os pés fora dos limites da vila. A alguns passos da claridade ele afastou uma cortina fina de galhos e folhas com a pá. E pode ver o que era aquela claridade. Era uma grande clareira, que formava quase que um círculo perfeito circundado pelas árvores.

A luz vinha da lua. Ela parecia estar bem no centro do céu acima da clareira. A falta das copas de árvores fazia com que toda a luz entrasse nela. Se alguém perguntasse para ele agora, ele poderia dizer que além de tudo a luz parecia intensificada ali. Como se toda a luz da lua se dirigisse exatamente para aquele ponto no meio da floresta. Ele colocou o candeeiro, que surpreendentemente ainda estava aceso depois de tantas dificuldades na floresta, no chão. Seguiu até o meio da clareira onde um monte de terra se diferenciava de todo o resto do chão. É claro que sim, aquela terra fora revirada mais cedo. Um corpo fora enterrado ali. E ali ainda permanecia. Sem pensar muito no que fazia, para ele era muito óbvio agora o que tinha que fazer, Lúcio fincou a pá na terra, tirou o primeiro punhado e o atirou para trás.

Quanto mais cavava mais inquieto ele se sentia. Praticamente não piscava enquanto fazia o seu trabalho. Apenas olhava fixamente para a terra se concentrando em cada monte de terra que jogava para trás. Gotas de suor se formavam em seu rosto devido ao esforço, mesmo com a brisa agradável que agora sacudia as folhagens das árvores em volta. De repente algo o fez diminuir a velocidade em que estava cavando. Tirava punhados menores de terra e com mais cuidado do que antes. Ele estava parado na beira do buraco e tirou mais alguns punhados de terra por toda a extensão do que era agora a cova de Serena. Olhou mais uma vez para o buraco. Ainda só era possível ver terra. Atirou para longe a pá e pulou dentro do buraco, ele nem passava da sua cintura. Ao cavar, ele teve o cuidado de cavar em uma largura maior do que deveria estar o corpo dela, para que ele pudesse ficar de pé sem pisoteá-la. Ajoelhou-se no chão e começou a afastar a terra com as mãos. Dessa vez não foi preciso muito trabalho. Logo ele encontrou uma ponta de tecido preto e soube o quanto faltava para desenterrá-la. Trabalhou mais rápido com as mãos até que conseguiu afastar terra o suficiente para erguê-la do chão. Colocou os dois braços pode de baixo dela e a pegou no colo. Colocou-a na beira da cova e saiu pelo outro lado. Deu a volta e pegou-a no colo de novo. Olhou em volta e viu um monte de folhas secas caídas, aquilo serviria. A carregou até ali e a acomodou naquela cama improvisada.

De pé ao lado dela, ele a olhava incrédulo. Havia feito todo aquele caminho, tido todo aquele trabalho mecanicamente. Não pensou nem por um momento em que estava fazendo, em qual era a finalidade disso tudo. E agora, em algum canto de sua mente, ele se desesperava porque continuava sem saber o que fazer. Então fez a única coisa que podia fazer, e que fizera até aqui: Sufocou os gritos em sua mente que pediam por um pouco de lucidez e se deixou levar por aquele instinto que o conduzira até onde estava.

Ajoelhou-se e desenrolou o tecido que a envolvia. Lá estava ela, mais branca do que nunca, fazendo um contraste violento com o preto de seus cabelos. Uma coisa estava muito estranha. Lúcio não vira muitos cadáveres em sua vida, mas desconfiava de que os lábios dela deveriam estar roxos, o que não acontecia. Eles estavam vermelhos e cheios, como se ela tivesse acabado de cobri-los com batom. Ele olhou para ela com um assombro. Ela era uma moça bonita, mas algo mais aconteceu quando ela morreu. Agora ela parecia irresistível, seus lábios naquele vermelho convidativos estavam entre abertos deixando aparecer um pedaço bem pequeno de seus dentes muito brancos.

Ele havia prendido a respiração diante da visão dela. Ela estava estonteante. Duas coisas passaram pela cabeça dele nesse momento. Uma delas era uma sensação de que viera até ali para devolver alguma coisa. A outra era uma vontade incontrolável de beijá-la. Ele não sabia ao que se devia o primeiro. Mas não resistiu ao segundo.

Primeiro levemente. Depois pressionou mais os lábios contra os dela, forçando para abri-los. Sentiu algo que não deveria estar acontecendo, primeiro ignorou a sensação... Mas depois não pode deixar de perceber: Os lábios dela se moviam sob o seu. Ele abriu os olhos e se afastou sobressaltado. Ela estava de olhos abertos fitando o céu acima da clareira. Não havia expressão neles. Eram os mesmos olhos sem vida que subiram à forca. E mais uma vez ele sentiu o mesmo impulso de beijá-la. Curvou-se novamente, e agora, a resposta dela era mais evidente. Ele podia sentir ela o beijando de volta. Sentia o movimento dos lábios dela muito melhor agora. Ouviu um murmúrio dela, como se desejasse falar alguma coisa. Afastou-se por um momento:

- Disse alguma coisa?- Perguntou ele imaginando o quão surreal era perguntar isso a uma pessoa que estava morta há apenas alguns segundos.

- Mais... – Respondeu ela. Sua voz era pouco mais do que um sussurro deixando transparecer uma fraqueza contrária ao seu próximo movimento.

Ela, mais do que rapidamente, ergueu as mãos e segurou o rosto dele contra o dela. Ela o beijava com fúria e violência. Ele não tentou se soltar e aproveitava cada momento daquele beijo doce. Até que reparou uma coisa, um pouco tarde demais: Ele estava ficando sem ar. Tentou empurra-la gentilmente, mas ela não cedeu um milímetro se quer. Ele imprimiu mais força da vez seguinte, também sem sucesso. Ela parecia ter voltado dos mortos com uma força descomunal. Cada segundo que passava com os lábios colados aos delas agora era um martírio. Sentia que ela sugava todo o ar de seus pulmões. Ele tentava puxar o ar de volta sem sucesso, não adiantava tentar respirar pelo nariz. Ela continuava deitada segurando o rosto dele colado ao se com naturalidade, enquanto ele tentava empurra-la e se apoiar no chão para se ver livre do aperto dela.

Aos poucos ele foi perdendo as forças e lutando menos contra ela. Ainda apertava as mãos dela tentando tirá-las quando ela finalmente o soltou. Ele rolou para o lado ainda fraco. Apesar de ela ter o soltado, ele ainda não conseguia puxar o ar de volta para seus pulmões. Ficou se contorcendo no chão com as mãos agarradas ao pescoço como se aquilo fosse fazê-lo voltar a respirar. Suas unhas deixavam marcas vermelhas em sua pele na sua agonia por um suspiro.

Serena se sentou onde estava. Olhava em volta piscando, tentando acostumar os olhos a luz depois de tantas horas na mais absoluta escuridão. Um leve sorriso começou a se formar em seus lábios quando sentiu um toque em seu braço. Olhou para o lado e viu Lúcio. Suas mãos crispadas tentavam alcança-la. Seus olhos injetados de sangue devido a alguns vasos rompidos suplicavam por ar.

- Me desculpe – disse Serena tranqüila. – Eu havia me esquecido de você.

Ela se levantou e andou em direção aos pés dele. Pegou os dois e começou a puxá-lo para a beira da cova ainda aberta. Ela parecia não fazer muito esforço para isso. E começou a falar com ele:

- Sabe, eu tenho que agradecer a você por guardar minha respiração para mim – dizia ela em um tom de conversa normal. - Foi por isso aquele beijo antes da forca. Sinto muito se eu te fiz pensar que eu queria algo mais com você. – Ela deu uma risadinha baixa. – Mas você sabe, nós não tínhamos futuro. Afinal, eu morri alguns segundos depois, certo? Claro que você sabe. Foi você quem me matou, não foi? – Ela o puxava devagar para ter tempo de falar tudo que precisava para ele. – Mas, enfim, como eu havia morrido, eu precisava de um empurrãozinho para voltar a respirar... Então peguei a sua capacidade de respiração também. Espero que isso não seja um problema.

Lúcio agarrava o pescoço com uma das mãos, e com a outra ele tentava se segurar a terra para não ser arrastado. Mas isso não mudava em nada o seu destino.

- Aposto que quer saber por que ainda não morreu não é? Bem, eu vou te contar. Para voltar à vida, eu não precisava de toda a sua respiração. Então eu deixei você com um pouquinho dela. Isso vai matar você? É claro que vai! Só que bem mais lentamente.

Ela chegou a beirada da cova e soltou os pés dele no chão. Suas pernas se contorciam tentando fugir, mas ele mal se movia. Seus olhos cada vez mais arregalados olhavam para a lua buscando o mesmo alívio que sentiu nela mais cedo. Serena se abaixou ao seu lado e se aproximou de seu ouvido. Disse em pouco mais que um sussurro:

- Aposto que foi uma agonia guardar isso para mim, não foi? Tanto que você mal pode dormir essa noite. Bem...

Ela se levantou e o empurrou para a cova com a ponta da bota que usava. Olhou para ele da beira. Ele havia caído de barriga para cima. Seus olhos piscavam com força. Provavelmente, pensou ela, ele deve estar sentindo alguma dor da queda... Mas não vai durar muito tempo. Chutou um pequeno punhado de terra para dentro da cova.

- Bons sonhos – disse ela piscando um dos olhos e depois soprando um beijo no ar para ele.

Ela se afastou e saiu da vista dele. O deixando ali. A proximidade da morte não era exatamente o que preocupava ele nesse momento. Mas sim o quanto ela demoraria a chegar.

Ela saiu andando tranquilamente para a floresta. Em direção oposta à do vilarejo de onde viera. Entrou na floresta com o alívio de um viajante que volta para casa. Sentiu o perfume das folhas e da noite. Andou sem rumo para dentro da floresta. Em busca de um novo lugar para ficar. Deixando para trás uma vila que a vira morta, portanto ninguém a seguiria, e uma clareira cheia apenas dos últimos suspiros de um homem. Mas que logo estaria vazia novamente.

Fim

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