O beijo
O BEIJO
Por Susana Lorena
1
-Ela
não deve permanecer aqui! – Ele repetia a frase mais uma
vez.
-Você
se refere a um enterro cristão? – O padre perguntava
incrédulo.
-
Não! Eu digo na floresta ao norte da cidade.
Um
silêncio reinou na sala onde se reunia quase toda a cidade. A
pauta da vez: Um jovem, Lúcio, queria impedir que a jovem,
Serena, fosse queimada sob a acusação de bruxaria. Não
que ele quisesse que ela fosse poupada. Sua idéia era de que
ela fosse enforcada e enterrada longe da vila, mais precisamente,
dentro da densa floresta que cercava três quartos do lugar.
Tudo aconteceria no dia seguinte e as coisas estavam longe de acabar.
Lúcio
tentava convencer a todos de todas as maneiras:
-
Se nós a queimarmos, suas cinzas continuaram aqui –
dizia ele.
-
E que mal as cinzas de uma bruxa morta faria a nós? –
Gritou uma senhora na última fileira. Um murmúrio geral
concordava.
Lúcio
abaixou a cabeça. Não queria dizer a verdade. Não
queria admitir que todo o trabalho que estava tendo era por culpa dos
sonhos que tivera. Naquela noite não conseguira dormir. Sonhos
diversos, em que Serena falava com ele e dizia que ela não
poderia ser queimada. Ela o torturava, e falava que se ela fosse
queimada, todos na cidade sofreriam mais do que ele estava sofrendo
agora. Lúcio sabia ao tempo todo que se tratava de um sonho,
mas não conseguia acordar dele. Serena dizia que ele acordaria
quando ela quisesse ou poderia muito bem não acordar. Era ele
quem escolhia. No sonho ele tinha cordas que amarravam seus pulsos e
quando acordou naquela manhã as marcas das cordas ainda
estavam lá, vermelhas e a pele esfolada como se estivesse
amarrado por um longo tempo. Havia marcas de queimaduras em sua
barriga e longos lanhos de chicotadas em suas costas. Pelo seu
próprio bem, deveria convencê-los de que ela não
poderia ser queimada. Não sabia se conseguiria mentir na
frente de toda a cidade... Mas podia disfarçar a verdade.
-
Eu tive um sonho. Uma visão – disse ele finalmente.
Todos
ali se manifestaram ao mesmo tempo. O Padre tentava acalmar os
ânimos.
-Esperem,
esperem – dizia, ele mesmo curioso. – Vamos ouvir o que o
jovem Lúcio tem a dizer sobre isso.
Lúcio
limpou a garganta e começou a disfarçar a verdade.
-
Ontem à noite eu tive um sonho. Nele um anjo falava comigo.
Dizia que não queria ver uma comunidade de fiéis tão
devotados cometerem um erro tão grande - Lúcio tentava
parecer tomado de uma grande emoção devido à
revelação. - Disse que, se a queimássemos, as
suas cinzas permaneceriam em nosso solo. E essas cinzas impuras
trariam o mal para nós. Ele afirmou que a única maneira
de tirá-la daqui seria enforcando-a. Devolvendo seu corpo
inteiro para a floresta, onde os demônios a levarão para
as trevas de onde ela veio.
O
silêncio reinava naquele lugar. Todos se olhavam espantados.
Ninguém conseguia acreditar no que tinha ouvido. Todos
comentavam baixo entre si.
O
padre foi o primeiro a se pronunciar:
-Bem,
irmãos... - Tirou os óculos e limpou-os na batina. –
O que nós ouvimos aqui é uma experiência única.
Podemos nos considerar um povo abençoado por Deus. Se o Nosso
Senhor se deu ao trabalho de mandar um de seus anjos nos avisar do
mal que essa mulher nos causaria, nós somos realmente um povo
do qual Ele se agrada – o padre juntou as mãos em frente
ao corpo. – Irmão Lúcio, aproxime-se de mim. –
Lúcio andou a te ele e se postou ao seu lado. Agora se
referindo a toda a congregação o padre disse. –
Irmãos! Oremos! Vamos agradecer por essa graça!
O padre conduziu a oração em altos brados.
Lúcio, que estava ao seu lado de cabeça baixa e com as
mãos entrelaçadas na altura da barriga, teve que conter
o seu espanto quando viu que as marcas de cordas já não
estavam nos seus pulsos. Tentou se mecher sem que ninguém
reparasse e percebeu que a dor das chicotadas nas costas havia
sumido. Em meio às palavras empolgadas do padre ele pode ouvir
uma risada que reconhecia muito bem. A ouviu diversas vezes na noite
anterior. Era Serena. Pela falta de reação dos outros,
só ele mesmo ouviu aquilo. Aquela risada esganiçada que
lhe causava um frio na espinha. A risada cessou de repente, assim
como surgiu. Quando ele achou que podia respirar aliviado, ouviu um
sussurro, como se ela estivesse de pé ao seu lado, com os
lábios colados ao seu ouvido. O sussurro dizia:
- Muito bem...
2
Ela se arrumava calmamente. Apertou os cordões
atrás do espartilho e bateu a poeira das botas que usava.
Jogou a cabeça para trás e sacudiu os longos cabelos
negros como as asas de um corvo. Seus olhos estavam em paz, olhando
para fora da janela gradeada. Quem a visse assim, nunca imaginaria
que estivesse a poucos minutos de ser enforcada. A sua prisão
era improvisada. Ficava em baixo da sacristia. Um lugar bem parecido
com uma masmorra, mas não tão ameaçador. A
janela pela qual olhava ficava rente ao chão do lado de fora.
Não podia deixar de ter pensamentos perversos sobre os motivos
que levaram o padre a ter aquele lugar mantido ali.
Ouviu a porta do andar de cima ranger e depois passos na
escada. O padre descia com uma bíblia e uma cruz na mão.
Um sorriso brincou em seus lábios “será que ele
pensa que eu sou um vampiro?”.
O padre abriu a bíblia e beijou a cruz. Começou
com a sua ladainha. A cabeça de Serena fervilhava de ansiedade
e não estava com paciência para aturar aquilo.
- Hei! – Disse ela ao padre. – Você
não quer saber se eu me arrependo de meus pecados antes de
começar a encomendar minha alma?
O padre olhou para ela, incrédulo, por cima dos
óculos:
- E você se arrepende?
- HÁ! – Serena soltou uma sonora risada. –
Claro que não! – Se apoiou na grade para se aproximar do
padre. – Então acho que estamos rezando em vão
não estamos? Não use o nome do seu Senhor em vão.
Foi ele mesmo que disse.
O padre fechou a bíblia com um estalo. Tirou os
óculos com raiva.
- O que você pensa que está fazendo? Por
acaso tem idéia do que está para acontecer? – O
padre gritava agitando a bíblia.
- Sim – Serena disse com toda a calma. – Por
isso estou tentando fazer com que nenhum de nós perca seu
precioso tempo. – E deu uma piscadela para o padre.
Ele respirou fundo, tentando não perder mais a
calma. O padre olhou para o chão procurando alguma coisa.
Jogada perto da parede estava uma corda já gasta pelo tempo.
Ele colocou a bíblia em um bolso da batina e deixou a cruz
recostada na parede quando se abaixou para pegar a corda.
- Vire-se de costas – disse ele.
Ela se virou e ele começou a amarrar os seus
pulsos atrás das costas.
- Hmmm... Padre... – Serena usava sua melhor voz
sensual. - Achei que você tivesse feito voto de castidade. –
Ela estava a minutos da forca, mas não poderia deixar de
perturbá-lo.
Estava de costas para ele e não tinha como vê-lo.
Mas de algum modo sabia que com esse comentário, o padre havia
corado até a raiz dos cabelos. Ele a guiou até as
escadas e a mandou subir. Ela subiu lentamente e fez a sua última
brincadeira com o padre:
- Você não credita realmente que eu sou uma
bruxa, não é?
- C - Como? – Ele não se sentiu confortável
com essa pergunta. – Por que diz isso?
Serena sorriu:
- Se realmente acreditasse, não acharia que essas
cordas são suficientes para me impedir.
O padre olhou para as cordas. Tão velhas e
gastas. Se ela realmente fosse uma bruxa ela se soltaria facilmente
dali. Mas admitir isso na frente do povo, dizer que ele estava errado
e ela não era uma bruxa, nunca. Como diria que seus anos
dedicados à fé estavam errados? Ele nunca saberia se
ela realmente era uma bruxa. Nunca saberia se outras que foram
condenadas também não eram. Tinha nesse momento o
assassinato de muitos inocentes nas suas costas. Esse pensamento o
atormentaria para toda a vida. E assim, sem que ele percebesse,
Serena jogou um feitiço nele. Ele se culparia pelo resto da
vida por ter a mandado para a forca.
Quando os dois saíram da sacristia, dois jovens a
esperavam. Um desses jovens, Serena já conhecia muito bem. Deu
um passo a frente em sua direção:
- Sabia que conseguiria – ela disse bem baixo para
que só ele ouvisse. Ele olhou desconfiado para os lados para
ter certeza disso. – Agora... – continuou ela – O
seu prêmio.
Quase que junto ao fim de sua frase, Serena se atirou
sobre ele. Lês eram quase do mesmo tamanho, então ela
não teve grandes problemas em alcançar a sua boca. A
reação de Lúcio foi a esperada por ela, ele a
segurou pela cintura e retribuiu o beijo. Um beijo apaixonado de dois
amantes em uma despedida. Todos na cidade já estavam reunidos
ali, e todos pararam diante daquela cena. O beijo acabou quando
Serena descolou seus lábios dos de Lúcio dizendo:
- Acho que temos algo a fazer agora.
Ele ainda estava meio atordoado, sem saber como reagir.
Olhava incrédulo para ela. Deveria escoltá-la até
a forca, mas isso não foi preciso. Quando ele conseguiu se
mover novamente, saindo do seu estado de total surpresa, ela já
estava na metade da escada que levava ao tablado da forca.
Apressou-se para alcançá-la.
Ficou ao seu lado no tablado. Ela estava sobre a marca
na madeira que indicava o alçapão. Foi ele que colocou
a corda em seu pescoço. Ela olhava para longe quando ele fez
isso. Seus olhos pareciam nem estar mais ali. Ele tentava fazer
contato visual, mas nada acontecia. Ele olhava para frente.
O padre fazia a sua prece em voz alta fora do tablado.
Ele perguntou se ela tinha alguma última palavra. Ela não
disse nada. O padre não pode deixar de respirar aliviado.
Tinha medo de ela fazer mais alguma piadinha ou algum comentário
como os que fizera na sua prisão. Diante do silêncio
dela, ele disse as últimas palavras da cerimônia.
- Já que não tem nada a dizer, que se
cumpra o seu destino. Que Deus tenha piedade de sua alma.
Lúcio puxou a alavanca que fez o alçapão
do tablado cair. O corpo dela despencou. Alguns desviaram o rosto na
multidão. Outros aplaudiram. Lúcio apenas a olhou cair.
Sentiu um frio na espinha quando ela sumiu de sua vista.
Um vazio tomou conta do seu estômago, algo que deveria ser
sentido à beira de um penhasco. Sentiu que ali, com um simples
movimento de braço, havia selado não só o
destino daquela moça, mas o seu próprio.
Algo estranho aconteceu naquele enforcamento. Seu
pescoço não quebrou. Mas quando a corda ficou
completamente esticada, seu corpo já estava sem vida, como se
houvessem pendurado ali um pessoa já morta.
3
Naquela noite, Lúcio não conseguiu dormir.
Revirou-se na cama por algumas horas e o sono não vinha. Por
volta de meia noite ele resolveu sair da cama. Abriu a janela do
quarto para conseguir se refrescar com algum vento, já que o
suor encharcava a sua roupa de dormir. Estava ofegante, como se
houvesse corrido durante todo o tempo que tentara dormir. Ao abrir a
janela, a luz da lua cheia invadiu seu quarto. Não foi o
vento, mas a luz que lhe trouxe o alívio de que precisava. Ele
respirou fundo apoiado na janela. Aquela luz... Ela lhe trazia a paz
que ele precisava agora. Resolveu que precisava de mais dela. Colocou
rapidamente uma roupa, pegou seu candeeiro e saiu pela rua.
Tudo estava muito escuro e o candeeiro não
fornecia luz suficiente para andar muito. Mas para ele, a lua era
toda a luz de que precisava.
Sua cabeça fervilhava com os acontecimentos do
dia que se passou.
Naquela manhã ele havia puxado a alavanca que
enforcou Serena, retirado seu corpo sem vida da corda e, junto com
mais dois jovens do vilarejo, a levou para uma clareira no meio da
floresta. Lá, eles cavaram um buraco na terra fofa e a
deixaram lá. Para que, segundo ele mesmo dissera na frente de
todos os habitantes, os demônios a levassem para longe da vila.
Agora ele imaginava se não era essa a vontade dela, quando o
aprisionou em seu sonho e o torturou. Será que a desculpa que
ele deu para a população não acabaria sendo a
verdade?
Lúcio andava a esmos sem saber para onde ia. Mas
seus passos decididos, e ao mesmo tempo cambaleantes, faziam parecer
que ele tinha um destino certo. Ele apertava os olhos tentando se
acostumar a pouca luz. Fazendo isso ele reconheceu a certa distância
uma cabana mal cuidada. Ela já parecia sinistra à luz
do dia, que dirá à noite. Lembrou-se de quando voltaram
da floresta. Ele carregava uma das pás que eles usaram para
enterrar Serena. Lembrava de tê-la jogado de lado no chão
assim que passou pela cabana. Enquanto andava em direção
a ela, tentava divisar no chão o formato da pá. Teve
que andar curvado, aproximando o candeeiro do chão para
conseguir encontrá-la. Pegou-a com naturalidade e a apoiou no
ombro.
Logo atrás da cabana, começava a floresta.
E foi ali que ele entrou.
Andar pela floresta no escuro fazia parecer brincadeira
de criança o caminho que eles fizeram de manhã
carregando um corpo enrolado em uma mortalha preta. Ele mal podia ver
alguns passos a sua frente. A luz da lua era filtrada pelas copas das
árvores acima dele. Ele podia ver apenas alguns pontos
iluminados nos troncos e no chão. Esses pontos não
ajudavam em nada a desviar das raízes das árvores e de
galhos caídos. Usava a pá como uma bengala para ajudar
a andar. Mesmo assim tropeçava com freqüência.
Chocava com os ombros nos troncos das árvores, largou a pá
algumas vezes para aparar a queda com as mãos. Isso lhe causou
alguns arranhões e hematomas pelo corpo.
Os sons da floresta entravam em sua cabeça com
força. Era como se cada pequeno ruído viesse de todos
os lados possíveis. O rastejar de alguma criatura passando por
ele, não faziam com que ele parasse. O bater de asas de alguma
ave, ou talvez um morcego, passou rente ao topo de sua cabeça.
Ouvia um roncar suave vindo de longe. Pelo som, não conseguia
precisar o tamanho do animal. Poderia ser desde um pequeno mamífero
inofensivo até... Ele nem queria pensar.
Mas isso não importava.
Ele seguia com a determinação de um
desbravador por aquela floresta. Nada era capaz de impedi-lo. Mas de
onde vinha aquela força? O que fazia com que ele continuasse
sem nem bem saber por onde andava? Sentia que uma força o
guiava. Uma força maior que ele e que estava além de
qualquer explicação. Tinha alguma idéia de onde
ia. Mas não era devido a nada no caminho. Apenas uma sensação
de que ele não poderia ter nada a fazer ali, a não
ser...
De repente algo em meio às árvores lhe
chamou atenção. Uma claridade estranha em meio a tanta
escuridão. Ele seguia sedento pelo caminho ao ver aquela
claridade. Parecia satisfeito em vê-la, como se a tivesse
esperando desde o momento em que pôs os pés fora dos
limites da vila. A alguns passos da claridade ele afastou uma cortina
fina de galhos e folhas com a pá. E pode ver o que era aquela
claridade. Era uma grande clareira, que formava quase que um círculo
perfeito circundado pelas árvores.
A luz vinha da lua. Ela parecia estar bem no centro do
céu acima da clareira. A falta das copas de árvores
fazia com que toda a luz entrasse nela. Se alguém perguntasse
para ele agora, ele poderia dizer que além de tudo a luz
parecia intensificada ali. Como se toda a luz da lua se dirigisse
exatamente para aquele ponto no meio da floresta. Ele colocou o
candeeiro, que surpreendentemente ainda estava aceso depois de tantas
dificuldades na floresta, no chão. Seguiu até o meio da
clareira onde um monte de terra se diferenciava de todo o resto do
chão. É claro que sim, aquela terra fora revirada mais
cedo. Um corpo fora enterrado ali. E ali ainda permanecia. Sem pensar
muito no que fazia, para ele era muito óbvio agora o que tinha
que fazer, Lúcio fincou a pá na terra, tirou o primeiro
punhado e o atirou para trás.
Quanto mais cavava mais inquieto ele se sentia.
Praticamente não piscava enquanto fazia o seu trabalho. Apenas
olhava fixamente para a terra se concentrando em cada monte de terra
que jogava para trás. Gotas de suor se formavam em seu rosto
devido ao esforço, mesmo com a brisa agradável que
agora sacudia as folhagens das árvores em volta. De repente
algo o fez diminuir a velocidade em que estava cavando. Tirava
punhados menores de terra e com mais cuidado do que antes. Ele estava
parado na beira do buraco e tirou mais alguns punhados de terra por
toda a extensão do que era agora a cova de Serena. Olhou mais
uma vez para o buraco. Ainda só era possível ver terra.
Atirou para longe a pá e pulou dentro do buraco, ele nem
passava da sua cintura. Ao cavar, ele teve o cuidado de cavar em uma
largura maior do que deveria estar o corpo dela, para que ele pudesse
ficar de pé sem pisoteá-la. Ajoelhou-se no chão
e começou a afastar a terra com as mãos. Dessa vez não
foi preciso muito trabalho. Logo ele encontrou uma ponta de tecido
preto e soube o quanto faltava para desenterrá-la. Trabalhou
mais rápido com as mãos até que conseguiu
afastar terra o suficiente para erguê-la do chão.
Colocou os dois braços pode de baixo dela e a pegou no colo.
Colocou-a na beira da cova e saiu pelo outro lado. Deu a volta e
pegou-a no colo de novo. Olhou em volta e viu um monte de folhas
secas caídas, aquilo serviria. A carregou até ali e a
acomodou naquela cama improvisada.
De pé ao lado dela, ele a olhava incrédulo.
Havia feito todo aquele caminho, tido todo aquele trabalho
mecanicamente. Não pensou nem por um momento em que estava
fazendo, em qual era a finalidade disso tudo. E agora, em algum canto
de sua mente, ele se desesperava porque continuava sem saber o que
fazer. Então fez a única coisa que podia fazer, e que
fizera até aqui: Sufocou os gritos em sua mente que pediam por
um pouco de lucidez e se deixou levar por aquele instinto que o
conduzira até onde estava.
Ajoelhou-se e desenrolou o tecido que a envolvia. Lá
estava ela, mais branca do que nunca, fazendo um contraste violento
com o preto de seus cabelos. Uma coisa estava muito estranha. Lúcio
não vira muitos cadáveres em sua vida, mas desconfiava
de que os lábios dela deveriam estar roxos, o que não
acontecia. Eles estavam vermelhos e cheios, como se ela tivesse
acabado de cobri-los com batom. Ele olhou para ela com um assombro.
Ela era uma moça bonita, mas algo mais aconteceu quando ela
morreu. Agora ela parecia irresistível, seus lábios
naquele vermelho convidativos estavam entre abertos deixando aparecer
um pedaço bem pequeno de seus dentes muito brancos.
Ele havia prendido a respiração diante da
visão dela. Ela estava estonteante. Duas coisas passaram pela
cabeça dele nesse momento. Uma delas era uma sensação
de que viera até ali para devolver alguma coisa. A outra era
uma vontade incontrolável de beijá-la. Ele não
sabia ao que se devia o primeiro. Mas não resistiu ao segundo.
Primeiro levemente. Depois pressionou mais os lábios
contra os dela, forçando para abri-los. Sentiu algo que não
deveria estar acontecendo, primeiro ignorou a sensação...
Mas depois não pode deixar de perceber: Os lábios dela
se moviam sob o seu. Ele abriu os olhos e se afastou sobressaltado.
Ela estava de olhos abertos fitando o céu acima da clareira.
Não havia expressão neles. Eram os mesmos olhos sem
vida que subiram à forca. E mais uma vez ele sentiu o mesmo
impulso de beijá-la. Curvou-se novamente, e agora, a resposta
dela era mais evidente. Ele podia sentir ela o beijando de volta.
Sentia o movimento dos lábios dela muito melhor agora. Ouviu
um murmúrio dela, como se desejasse falar alguma coisa.
Afastou-se por um momento:
- Disse alguma coisa?- Perguntou ele imaginando o quão
surreal era perguntar isso a uma pessoa que estava morta há
apenas alguns segundos.
- Mais... – Respondeu ela. Sua voz era pouco mais
do que um sussurro deixando transparecer uma fraqueza contrária
ao seu próximo movimento.
Ela, mais do que rapidamente, ergueu as mãos e
segurou o rosto dele contra o dela. Ela o beijava com fúria e
violência. Ele não tentou se soltar e aproveitava cada
momento daquele beijo doce. Até que reparou uma coisa, um
pouco tarde demais: Ele estava ficando sem ar. Tentou empurra-la
gentilmente, mas ela não cedeu um milímetro se quer.
Ele imprimiu mais força da vez seguinte, também sem
sucesso. Ela parecia ter voltado dos mortos com uma força
descomunal. Cada segundo que passava com os lábios colados aos
delas agora era um martírio. Sentia que ela sugava todo o ar
de seus pulmões. Ele tentava puxar o ar de volta sem sucesso,
não adiantava tentar respirar pelo nariz. Ela continuava
deitada segurando o rosto dele colado ao se com naturalidade,
enquanto ele tentava empurra-la e se apoiar no chão para se
ver livre do aperto dela.
Aos poucos ele foi perdendo as forças e lutando
menos contra ela. Ainda apertava as mãos dela tentando
tirá-las quando ela finalmente o soltou. Ele rolou para o lado
ainda fraco. Apesar de ela ter o soltado, ele ainda não
conseguia puxar o ar de volta para seus pulmões. Ficou se
contorcendo no chão com as mãos agarradas ao pescoço
como se aquilo fosse fazê-lo voltar a respirar. Suas unhas
deixavam marcas vermelhas em sua pele na sua agonia por um suspiro.
Serena se sentou onde estava. Olhava em volta piscando,
tentando acostumar os olhos a luz depois de tantas horas na mais
absoluta escuridão. Um leve sorriso começou a se formar
em seus lábios quando sentiu um toque em seu braço.
Olhou para o lado e viu Lúcio. Suas mãos crispadas
tentavam alcança-la. Seus olhos injetados de sangue devido a
alguns vasos rompidos suplicavam por ar.
-
Me desculpe – disse Serena tranqüila. – Eu havia me
esquecido de você.
Ela
se levantou e andou em direção aos pés dele.
Pegou os dois e começou a puxá-lo para a beira da cova
ainda aberta. Ela parecia não fazer muito esforço para
isso. E começou a falar com ele:
-
Sabe, eu tenho que agradecer a você por guardar minha
respiração para mim – dizia ela em um tom de
conversa normal. - Foi por isso aquele beijo antes da forca. Sinto
muito se eu te fiz pensar que eu queria algo mais com você. –
Ela deu uma risadinha baixa. – Mas você sabe, nós
não tínhamos futuro. Afinal, eu morri alguns segundos
depois, certo? Claro que você sabe. Foi você quem me
matou, não foi? – Ela o puxava devagar para ter tempo de
falar tudo que precisava para ele. – Mas, enfim, como eu havia
morrido, eu precisava de um empurrãozinho para voltar a
respirar... Então peguei a sua capacidade de respiração
também. Espero que isso não seja um problema.
Lúcio
agarrava o pescoço com uma das mãos, e com a outra ele
tentava se segurar a terra para não ser arrastado. Mas isso
não mudava em nada o seu destino.
-
Aposto que quer saber por que ainda não morreu não é?
Bem, eu vou te contar. Para voltar à vida, eu não
precisava de toda a sua respiração. Então eu
deixei você com um pouquinho dela. Isso vai matar você? É
claro que vai! Só que bem mais lentamente.
Ela
chegou a beirada da cova e soltou os pés dele no chão.
Suas pernas se contorciam tentando fugir, mas ele mal se movia. Seus
olhos cada vez mais arregalados olhavam para a lua buscando o mesmo
alívio que sentiu nela mais cedo. Serena se abaixou ao seu
lado e se aproximou de seu ouvido. Disse em pouco mais que um
sussurro:
-
Aposto que foi uma agonia guardar isso para mim, não foi?
Tanto que você mal pode dormir essa noite. Bem...
Ela
se levantou e o empurrou para a cova com a ponta da bota que usava.
Olhou para ele da beira. Ele havia caído de barriga para cima.
Seus olhos piscavam com força. Provavelmente, pensou ela, ele
deve estar sentindo alguma dor da queda... Mas não vai durar
muito tempo. Chutou um pequeno punhado de terra para dentro da cova.
-
Bons sonhos – disse ela piscando um dos olhos e depois soprando
um beijo no ar para ele.
Ela
se afastou e saiu da vista dele. O deixando ali. A proximidade da
morte não era exatamente o que preocupava ele nesse momento.
Mas sim o quanto ela demoraria a chegar.
Ela
saiu andando tranquilamente para a floresta. Em direção
oposta à do vilarejo de onde viera. Entrou na floresta com o
alívio de um viajante que volta para casa. Sentiu o perfume
das folhas e da noite. Andou sem rumo para dentro da floresta. Em
busca de um novo lugar para ficar. Deixando para trás uma vila
que a vira morta, portanto ninguém a seguiria, e uma clareira
cheia apenas dos últimos suspiros de um homem. Mas que logo
estaria vazia novamente.
Fim
Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.