A BELA DA NOITE
Carlos Henrique Fernandes
Gomes
“Senti então o trêmulo
e macio toque dos lábios molhados
sobre a supersensível
pele de minha garganta...”
Bram Stoker
Naquela
agradável noite de começo de outono o movimento estava fraco para
Belinha. Era assim que suas colegas de trabalho conheciam aquela moça
que há dez anos tinha a mesma carinha de menina, cachinhos dourados
bem cuidados, corpinho de adolescente e olhos verdes ofuscados por uma
sombra.
Já
tentaram dar um porre nela para amolecer sua língua na esperança
de que contasse tudo, mas foram elas que contaram, sem freios na língua,
todas as amarguras de jovens enganadas, chantageadas, maltratadas, abusadas
e sem esperança.
Para
os clientes fixos ela era “A Bela da Noite, que te faz subir pelas
paredes” e para os esporádicos ela dizia:
—
Esqueça-me! Adoro ser esquecida!
Soprava
uma deliciosa e carinhosa brisa que fazia Belinha voltar ao passado
e lembrar das noites gostosas de menina sonhadora quando ficava vendo
os vaga-lumes e as estrelas antes de chegar o sono. Sonhava acordada
com o príncipe encantado que faria dela a mulher mais feliz do mundo
e agora ela era a mais infeliz por causa dele.
Duas
horas de pé e nada de aparecer alguém requisitando seus serviços.
Aquela lembrança deixou-a muito angustiada e a espera só fazia o tormento
pesar mais.
Um
rapaz alto e robusto, de camisa vermelha, que disfarçava sua palidez,
se aproximou e Belinha sentiu um amargo na boca. Tinha certeza de que
ele seria o primeiro da noite. Sentiu um frio na espinha e as mãos
ficaram frias ao ver o rapaz com os olhos maldosos fixos no seu pescoço.
Estava
há muito tempo na profissão mas alguns homens ainda lhe causavam uma
sensação desconfortável. A experiência e o instinto de auto-preservação
ensinaram-lhe a escanear as pessoas e antecipar seus movimentos no jogo
de xadrez do cotidiano, mas ainda era de carne e osso.
Belinha
estava de braços cruzados, realçando a generosidade exagerada do decote,
ele chegou perto e ela virou o rosto, ele deu a volta e se mostrou;
queria sua imagem gravada na retina dela.
—
Boa noite, moça bonita.
—
Depende!
—
Do quê?
—
De você!
Ele
andava em volta dela como um lobo em volta de uma lebre ferida. Belinha
esperava sua vez de movimentar o jogo e ele aspirava seu perfume.
—
Hum! Perfume de rosas...
—
Mas não é pra qualquer um!
—
Não sou qualquer um!
—
A não, é? Parece um vira lata cortejando uma cadela. Igual a todos!
—
Posso te provar que sou diferente.
—
E como pretende fazer isso?
Belinha
já estava zonza e ele andava mais rápido em volta dela. Sabia que
podia lidar com ele, mas estava tensa. Nunca se acostumou com aquele
tipo de olhar maldoso, tão comum.
—
Posso te fazer subir pelas paredes! — e Belinha sentiu a respiração
dele no seu pescoço.
—
Se você não tem mais nada pra fazer...
—
Posso fazer com você o que nenhum outro homem pode! — e Belinha sentiu
outro arrepio desconfortável quando ele encostou a mão na sua cintura.
—
E você pode pagar o preço?
—
Dinheiro não é problema!
—
Nem tudo se paga com dinheiro! — e sorriu para ele.
Dirigiram-se
para o quarto de pensão ali perto onde Belinha morava. Ele deixava
boiar nos lábios seu sorriso maldoso e Belinha achava graça daquilo.
Com o tempo deixou de sentir raiva e agora sentia algo pior: vontade
de rir.
O
que um tipo daqueles fazia vestido assim? Por que parecia tão diferente?
Despreocupado, romântico, até encantador, enquanto os outros eram
desesperados, arrogantes e violentos. Mas era igual à todos, com certeza!
—
Então é aqui que a moça bonita se esconde?
—
Eu nunca me escondo. — e abriu a blusa na frente do espelho.
Belinha
andou na direção do rapaz que ficou junto à porta, longe do espelho.
Ele olhava a pele branquinha do seu pescoço fino.
“Por
que eles precisam ser assim? Por que tanta maldade, tanto ódio?”
Esses pensamentos trovejavam na mente dela desde sempre.
Ele
agarrou-a por trás, aspirava seu perfume de rosas e passava a língua
no pescoço liso de Belinha.
—
Hum! Parece pétala de rosa!
Lá
fora os cachorros começaram a uivar debaixo da janela, caiu uma repentina
chuva forte, uma cortina de água cobria a janela, o vento frio rodopiava
pelo quarto. Um trovão ensurdeceu a noite e um raio caiu ali perto.
O momento de subir pelas paredes estava próximo para os dois!
Belinha
sentiu os lábios úmidos dele grudados na pele do seu pescoço, as
pernas ficaram bambas, sentiu aquele tesão medonho e irreprimível,
a mente não respondia mais, a dor era assustadora, um pesadelo.
Duas
agulhas grossas perfurarem seu pescoço rasgando a carne. Era como sentir
uma faca cortar a barriga de um lado ao outro! Primeiro a dor da lâmina
entrando na carne, depois a dor do corte, depois a dor latejante, depois
o sangue correndo pela pele.
Ele
parecia gozar com as presas enterradas no pescoço fresco de Belinha.
Dois filetes de um líquido escuro escorriam e ela também parecia gozar,
gritando, cravando as unhas nos braços dele, de olhos revirados, boca
aberta e cenho franzido.
Ele
saltou para trás: olhos vermelhos, músculos retesados, pele cheia
de manchas roxas, não respirava e estava convulso. Belinha deixou-se
cair na cama, se debatia de olhos revirados, gritos de mulher que goza,
rosto contorcido. Dor e prazer em harmonia.
Ele
secava, estava enrugado e saía fumaça do seu corpo.
—
Ai! Estou subindo pelas paredes!
—
O que você fez comigo, sua puta?
—
Também fiz você subir pelas paredes, amor!
—
Quem é você, maldita?
—
A Bela da Noite, que te faz subir pelas paredes!
Um
rugido de fera ferida mortalmente estremeceu o quarto e ele se desfez
em pó que o vento levou para fora.
Belinha
continuou deitada, ofegante. A mordida daquele ser nojento tinha o poder
de hipnotizar, atordoar, de fazer a mulher mais pura se entregar despudorada.
Nunca conseguiu resistir ao terrível prazer da mordida de um vampiro,
o enigmático momento da mudança de lado. Logo caía sobre ela o pesado
véu da solidão, do rancor, da confusão.
Belinha
foi até o espelho:
—
Quando você vai me libertar?
—
Calma, Anabella! Tempo para você não é problema!
—
A morte do seu filho ainda não foi vingada?
—
Você não sabe como é perder um filho, menina!
—
E você não sabe como é viver duzentos e trinta anos com saudade do
único amor de sua da sua vida!
—
Criança! Você deveria me agradecer!
—
Por envenenar meu sangue ou por me privar da morte?
—
Por te dar a oportunidade de acabar com tudo isso!
No
ano de 1.777, numa aldeia do interior da França, na véspera do casamento
de Anabella com Felipe, uma tragédia mudou para sempre o que eles eram.
Felipe foi mordido por uma vampira na sua despedida de solteiro e sua
mãe, uma das bruxas mais temidas da época, culpou Anabella, ninguém
sabe exatamente por quê.
Para
fazê-la pagar pela perda do filho, condenou-a à imortalidade e envenenou
seu sangue. Veneno capaz de matar vampiros e deveria matar todos que
encontrasse.
Belinha
foi até a janela, estava tudo quieto, parou de chover e a brisa carinhosa
percorria seu corpo nu. Chorava desejando morrer, coisa impossível
para ela. Sentia Felipe por perto; era hora de fazer as malas.