Afonso era um sujeito alegre que vivia contando piadas. Mesmo assim,
alguns de seus colegas desconfiavam de que ele guardava algum segredo.
Embora fosse bastante comunicativo, recusava-se a falar do próprio
passado. E muitos de seus conhecidos não o consideravam possuidor do
melhor caráter deste mundo.
Todas as noites,
depois do trabalho, Afonso ia para um determinado bar e ficava bebendo,
petiscando e passando cantadas nas garotas. Normalmente ele era um dos
últimos fregueses a deixar o local. Naquela noite, ele foi o último
a sair. Um denso nevoeiro dava à rua deserta um aspecto assustador.
Meio bêbado, ia tomar o rumo de sua casa quando alguma coisa o fez
paralisar-se por uns instantes. Era um cachorro grande, preto, que o
encarava com insistência.
– Passa!
disse Afonso.
Mas o cão
não se moveu.
Afonso falou
mais alto, bateu com o pé no chão, gritou. O animal permaneceu a encará-lo
com seus olhos de um tom castanho-amarelado que lhe pareceram algo entre
tristes e decididos. O único som que Afonso ouvia, além da própria
voz, era o da respiração do cão, que não se moveu. Embora estivesse
com um pouco de medo, Afonso deu-lhe as costas e seguiu caminhando em
direção a sua casa, que ficava ali perto. Pelo menos, o cachorro não
o seguiu – permaneceu estático onde estava.
Na noite seguinte,
a mesma coisa: ao sair do bar, lá estava o cão negro. Afonso gritou
com ele, e ele continuou a fitá-lo de uma forma que parecia desnudar-lhe
a alma. Afonso foi-se embora, apreensivo, e o cão continuou no mesmo
lugar. A cena se repetiu por várias noites. Numa delas, Afonso saiu
do bar com uma lata de cerveja e atirou-a na direção do animal. Nem
assim o bicho se moveu. Quando deixava o bar na companhia de alguém,
percebeu que não enxergava o cachorro. Mas sempre que saía sozinho
ele estava lá, cravando-lhe os olhos. Numa determinada noite, após
haver tido uma desilusão amorosa, ficou bebendo só até altas horas.
Afonso até se havia esquecido do cachorro, por causa de sua irritação.
Mas, quando saiu do bar, lembrou-se dele. Havia novamente um denso nevoeiro,
comum naquela cidade durante aquela época do ano. A rua estava erma
e escura. Afonso olhou em volta. Não viu nem sinal do cão. Respirou
aliviado e deu alguns passos na direção de sua casa.
Nesse instante,
sentiu uma mão pesar sobre seu ombro e se voltou. Deparou-se com dois
homens, que tinham o rosto coberto. Um deles mostrou-lhe uma faca.
– A carteira
ou a vida – disse ele.
Afonso demorou
um pouco para entender que estava sofrendo um assalto. Os efeitos do
álcool o deixavam confuso. Excitado pela bebida, resolveu reagir. Tentou
dar um soco no assaltante que estava desarmado. Mas o fato é que mal
conseguia se manter em pé, e o sujeito facilmente o derrubou, preparando-se
para começar a chutá-lo.
De repente,
Afonso viu uma sombra negra se lançar sobre o assaltante e fazê-lo
rolar pelo chão. O outro assaltante recuou um pouco, mas depois investiu
contra a criatura com a faca. Esta lançou-se em sua garganta. O homem
soltou um grunhido, o último som que conseguiu emitir, e deixou cair
a faca. Afonso ouviu o metal da arma tilintando ao cair na calçada
e sentiu o sangue respingar sobre si. Tentou se levantar, mas só conseguiu
sentar-se no chão. O cão negro lançou-se sobre o outro assaltante
e Afonso viu, com certo horror, que o animal o mordia no rosto, arrancando-lhe
parte da face. O infeliz berrou, desesperado. Afonso finalmente conseguiu
se levantar e saiu dali, correndo, cambaleando, caindo e tornando a
levantar-se, até que finalmente entrou em casa. Seu casaco estava manchado
de sangue vermelho-escuro. Livrou-se da peça de roupa e mal teve tempo
de chegar ao banheiro, onde vomitou, um pouco por causa da bebedeira,
um pouco por causa da cena grotesca que acabara de presenciar.
No dia seguinte,
esperava ler alguma coisa no rádio ou nos jornais acerca dos assaltantes.
Deviam ter morrido. Pelo menos o que tivera a garganta dilacerada pelo
cão. Mas não havia uma palavra sequer na imprensa acerca do ocorrido.
Bem cedo, passou pela frente do bar, imaginando que ainda haveria vestígios
do sangue derramado, mas a calçada estava estranha e impecavelmente
limpa. Perguntou ao funcionário da limpeza do bar e a alguns vizinhos.
Ninguém sabia de ataque de cachorro ou coisa parecida por ali. Afonso
foi trabalhar, mas permaneceu o dia inteiro confuso. Teria sido uma
alucinação? Quando chegou em casa, as manchas de sangue em seu casaco
pareciam demonstrar o contrário. Resolveu guardá-lo sem lavar, mais
para se convencer de que não estava louco do que por qualquer outro
motivo.
Durante alguns
dias, não foi ao bar. Mas, por fim, seus amigos o convenceram de voltar
lá, no que sempre fora seu lugar preferido da cidade para um “happy
hour”. Acabou ficando até mais tarde e saiu sozinho. Mal cruzou a
porta do estabelecimento, divisou, em meio à neblina, a figura conhecida
do cachorro preto.
Talvez estivesse
bêbado demais para ter medo, mas o fato é que o animal provavelmente
lhe salvara a vida.
– Vem cá
– chamou.
O cão moveu-se
em sua direção. Afonso acariciou-lhe a cabeça. Caminhou lentamente
para casa, e o cachorro o seguiu. Afonso abriu o portãozinho do pátio
e o deixou acomodar-se na varanda. Na manhã seguinte, o animal permanecia
por ali. Deitou-lhe alguns restos de comida antes de sair para o trabalho.
Porém, naquele
mesmo dia, Afonso descobriu, pelos jornais, que havia sido descoberto
o corpo em decomposição de um homem, com a garganta dilacerada, e,
pela foto que apareceu no jornal, identificou o bandido que o atacara.
Não fazia idéia de como o corpo atravessara a cidade e fora parar
no matagal onde havia sido encontrado. Porém, lembrando-se de que havia
outro bandido, o qual talvez ainda estivesse vivo – vivo, desfigurado
pelas mordidas do cão e furioso, resolveu comprar uma arma para se
defender, caso o criminoso sobrevivente viesse atrás dele. Adquiriu
clandestinamente um revólver que guardou em casa.
Daí a algumas
noites, voltou ao bar e conheceu uma garota. Após algumas doses de
bebida e muita conversa, convenceu-a a visitar sua casa.
Quando chegaram,
Afonso não viu o cão no pátio da frente. Chamou-o, mas ele não apareceu.
Não deu importância. Ele e a jovem entraram. Afonso acendeu a luz.
De repente,
vindo do interior da casa, o enorme cão negro avançou furiosamente.
A moça ainda teve tempo de gritar. O animal lançou-se sobre ela, derrubando-a.
Afonso tentou afastá-lo, mas o cão rosnou para ele de forma tão assustadora
que ele se desesperou. Investiu contra o bicho, que o mordeu, rasgando-lhe
a pele da mão esquerda, e voltou a cravar os dentes no peito da moça,
de uma maneira tal que parecia querer arrancar-lhe um dos seios. Ela
berrava, contorcia-se, mas não conseguia se defender.
Diante daquela
visão horrível, Afonso buscou o revólver. Apontou-o e hesitou.
– Atira!
gritou a mulher. – Por favor, atira!
A mão de Afonso
tremia, mas ele apertou o gatilho duas vezes.
Súbito, o
cão largou sua presa e fugiu para o fundo da casa, sem qualquer sinal
de ferimento. Afonso correu para a jovem, que ainda lhe lançou um olhar
desesperado. Sua roupa estava coberta de sangue. Ele pensou em chamar
uma ambulância, mas, mal tirara o telefone do gancho, ouviu fortes
batidas na porta:
– Polícia!
gritou uma voz masculina. – Abra!
Estarrecido,
Afonso não se moveu. A voz insistiu, e ele pensou em fugir, mas não
teve tempo. Dois policiais arrombaram a porta e, antes que ele entendesse
o que estava acontecendo, haviam-lhe colocado as algemas. Um vizinho
ouvira os tiros e telefonara para a polícia, que acionara uma viatura
que se encontrava próxima ao local...
Diante do Delegado,
Afonso tentava se explicar:
– Um cachorro...
Meu cachorro a atacou, e eu tive de atirar para tentar salvá-la!
O Delegado
o olhou com interesse.
– Deveras,
Sr. Afonso? Pois eu lhe digo que não havia qualquer sinal de dentadas
de cachorro no corpo da vítima.
– Mas como?
Eu vi! O cachorro mordeu... Mordeu os seios dela, e eu tive que atirar
nele!
O Delegado
deu uma gargalhada e o encarou.
– Desta vez
você arranjou uma desculpa terrivelmente absurda para ter cometido
um crime, Afonso Pedroso.
Afonso se sentiu
confuso.
– O quê?
perguntou.
– Você não
se lembra de mim, Afonso. Mas eu me lembro de você. Faz tempo e foi
longe daqui. Eu era apenas um inspetor de polícia. Mas me lembro muito
bem de seu ar de deboche, de sua certeza na impunidade. Desta vez você
não vai escapar, Afonso.
Fez uma pausa
e o olhou:
– Até porque
não é de um único homicídio que você está sendo acusado. O namorado
da mulher que você matou também foi assassinado há alguns dias. Era
um cara bastante perigoso, e não vou me admirar se você alegar legítima
defesa. Mas também não vou acreditar em você. Nem o promotor. E,
provavelmente, nem o júri, desta vez.
– Quem foi
assassinado? perguntou Afonso, sentindo-se cada vez mais perdido.
– O namorado
de sua vítima, Afonso. Foi encontrado morto num matagal, há alguns
dias. E nós encontramos um casaco seu, na sua casa, com sangue. Tenho
certeza de que os exames comprovarão que é o sangue dele.
Afonso sentiu-se
sem ar.
– Mas...
– gemeu.
– Mas também
foi o cachorro que matou aquele homem!...
O Delegado
deu uma gargalhada.
– Cachorro?
Que cachorro? A polícia não viu cachorro nenhum em sua casa, Afonso!
Afonso estremeceu.
O Delegado inclinou-se em sua direção e cravou-lhe os olhos.
– Desta vez,
você vai pagar por estes dois crimes, Afonso Pedroso. Pena que eu não
possa mais fazer você pagar por aquele outro...
Arrastaram-no
à cela da Delegacia. Num canto dela, havia uma janelinha com grades
que dava para um pátio interno. Afonso correu para ela, sentindo-se
sufocado, e respirou fundo.
Então, seus
olhos pousaram numa sombra negra, na qual brilhavam duas chamas castanho-amareladas,
que o encarava, ofegante, a língua muito rubra balançando no ritmo
de sua respiração.
De repente,
Afonso se lembrou de tudo o que acontecera anos atrás.
Tivera um bom
advogado e fora absolvido. Obrigara-se a se esquecer. Mas agora, tudo
voltava à sua mente, como se houvesse uma explosão, um clarão que
lhe incendiasse, na alma, aquelas memórias que ele tentara enterrar
com tanto afã.
Um empregado
de seu pai. Um jovem. Já nem se lembrava por quê. Talvez houvesse
sido por ele haver reclamado das regras de trabalho desumanas a que
ele e seus companheiros costumavam ser expostos. Afonso e outros dois
empregados, mais subservientes, haviam-no encurralado, num canto da
fábrica, após o final do expediente. Afonso dera-lhe um soco tão
violento que lhe fizera com que dois dentes do infeliz saltassem longe.
Depois, enquanto os outros dois o agarravam, Afonso lhe desferira vários
pontapés. O jovem cuspia sangue, e Afonso não sabia se era dos dentes
arrancados ou se de dentro de seu corpo, de algum órgão interno –
e nem lhe importava. Por fim, um dos dois tinha lhe alcançado uma barra
de ferro. Afonso batera com ela no jovem até seu braço ficar dormente.
Os outros dois
empregados haviam-no levado, moribundo, e o tinham soltado a uma boa
distância da fábrica. Mas Afonso ficara sabendo que o jovem não tinha
resistido aos ferimentos.
O cachorro
preto latiu, arrancando-o de suas lembranças.
Súbito, Afonso
compreendeu.
– Desgraçado!
gritou. – Vagabundo!...
Dali por diante,
sempre que foi levado a interrogatório, Afonso só pronunciava o que,
aos olhos do Delegado, do Juiz e do Promotor, não passavam de palavras
sem nexo. Foi considerado louco e internado num manicômio judiciário,
onde ficou até o final de seus dias. E, sempre que tentavam falar com
ele, dizia coisas sem sentido a respeito do fantasma de um jovem que
assumira a forma de um cachorro para se vingar e para destruí-lo...
JUNHO DE 2007
Nota: esta
é uma obra de ficção, que não retrata necessariamente minhas crenças,
idéias e opiniões. Qualquer semelhança com nomes, pessoas ou fatos
reais terá sido mera coincidência.