Candeio
Gustavo Gollo
Deveria ter dado crédito aos rumores
graves que ouvi dos pescadores, mas quando vi a luz que saía do combro
acreditei que não passasse de uma brincadeira de mau gosto, embora
o candeio parecesse ter surgido de dentro da duna do mesmo modo que
me fora descrito, me seguisse por um largo trecho da caminhada como
ouvira que aconteceria, e também se afastasse de mim quando caminhei
de encontro a ela.
A luz tênue que parecia bruxulear em
um archote mantinha de mim sempre a mesma distância; era um fogo brando
e oscilante que parecia manter-se no nada, não havendo que o segurasse,
mas só senti o arrepio percorrer meu corpo quando voltei e não encontrei
outra pegada que não fosse a minha, tendo retornado até onde havia
visto a luz, e não quis acreditar que a distância percorrida nessa
volta já tivesse sido suficiente para apagar as pegadas deixadas pelo
corpo que sustentasse a chama, já que tais rastros não existiam, mas
quando o arrepio varreu o meu corpo até os meus cabelos eu tinha a
completa certeza de que tinha visto a luz vagar pelo ponto onde estava,
e que tinha me seguido até muito mais além.
Apertei meu passo com naturalidade, pois
naquele momento apertava todo o meu corpo, e me afastei novamente do
estranho combro cuja feição eu conseguia avistar novamente, e foi
voltando o pescoço para trás que eu tive a intuição de que aquela
luz fantasmagórica que se sustinha no nada e que voltava a me seguir
queria me dizer algo; foi quando discerni muito claramente que um dedo
de fogo me acenava simbolizando um não, que eu interpretei assustado
como uma indicação de que eu não mais deveria prosseguir, e creio
que eu talvez tivesse voltado dali em obediência ao sinal que eu adivinhava
na chama, não fosse a própria luz aterrorizante a me obstar o caminho
me empurrando mais e mais para o sul.
Meus passos muito largos não foram suficientes
para aumentar minha distância da chama, mesmo assim vi com meu pescoço
voltado para trás quando ela estacou e permaneceu apenas sinalizando
aquele não que parecia feito por um dedo de fogo oscilando de um lado
para outro enquanto apontava o céu, e também vi quando o facho retornou
na mesma direção por onde tinha vindo, do modo exato que me havia
sido descrito. Mas quando a chama desapareceu e meus cabelos já se
acomodavam ao corpo do modo usual, sem que se descolassem como se quisessem
desgrudar de mim, meus pensamentos se reorganizaram e eu quis voltar
a acreditar que aquilo não passasse de uma brincadeira, e quis também
afastar a estranha lembrança das pegadas inexistentes, e foi assim
que meus passos voltaram ao normal e que eu tornei a sentir o vento
soprando em meu corpo de forma leve e agradável na noite quente e de
uma lua mórbida quase em aro.
Muitos minutos já haviam passado até
que eu deixasse de voltar o pescoço para trás quase a cada passo,
e tudo parecia ter tornado à normalidade quando uma coruja, ou qualquer
outra ave que não pude distinguir, deu um grito estridente e bizarro
que me fez pular sobressaltado e com o coração quase gritando em ritmo
muitíssimo veloz que me atiçou os brios me indicando o quanto eu estava
atemorizado, coisa inadmissível para mim, e embora o silvo da ave se
assemelhasse a um “não” apavorado e selvagem que me implorasse
a retornar, não tinha outra opção que não fosse prosseguir, já
que havia desafiado e insultado todos os que previamente haviam se acovardado,
se recusando a transpassar o combro na caminhada noturna para resgatar
a canoa abandonada nas areias da praia vastíssima.
Enquanto impelia a canoa para o mar o
desassossego voltou na forma de uns sussurros sempre às minhas costas,
que se confundiam com o barulho das ondas suaves na areia, e embora
eu tivesse voltado a minha vista para trás algumas vezes, não vislumbrei
nada que não fosse areia, e não me permiti dar ouvidos àquelas vozes
sussurrantes que me recomendavam não ir para o mar, pois aquilo era
o que devia ser feito.
Empurrei a canoa para a água gélida
que sempre banha a região em noites como aquela e senti um estranho
prazer enquanto mergulhava, pois o frio intenso me avivou fortemente,
gerando em mim uma enorme sensação de potência, afugentando todo
o receio causado pelos sucessivos augúrios, e quando comecei
a remar me senti invadido por um vigor exuberante que permitiu que meus
braços impulsionassem os remos com uma força extrema que eu mesmo
não sabia possuir; e assim remei naquela noite, com remadas fortes
compassadas e seguras, e me sentia incansável quando ouvi os gritos,
pedidos de socorro trazidos pelo vento; os gritos distantes e indistinguíveis
que pareciam vir do leste, para onde eu me dirigi. E então os gritos
se tornaram claramente audíveis, e eram gritos de desespero.
Não recordo em que momento reconheci
a ilha que eu via no horizonte, mas foi quando me vieram à mente as
antigas histórias, as lendas inverossímeis, os relatos mórbidos,
que sempre me evocaram descrença e desconfiança, das invencionices
fantasmagóricas de vozes de náufragos que permaneciam eternamente
a implorar por socorro. Sobressaltado e confuso eu parei de remar, mas
percebi atônito e impotente que os sons de cada grito desesperado pareciam
puxar a canoa na direção de onde vinham, e que a intensidade da corrente
que impelia o barco correspondia à dos gritos. Creio que uma espécie
de desespero me invadiu naquele momento e tentei em vão manobrar a
canoa e remar na direção oposta, mas os gritos insanos se tornaram
mais fortes e constantes e eu não podia mais negar que fossem os apelos
desesperados de náufragos invisíveis, e ainda que eu remasse com todas
as minhas forças na direção contrária, a canoa era sugada inexoravelmente
rumo ao desespero. Remei até a beira da exaustão, com o coração
batendo forte até em meu pescoço, e apesar do cansaço enorme que
já me tornava lento, minhas forças se redobraram quando uma neblina
se adensou em torno da canoa naquela noite quente, e os gritos se tornaram
brados de terror quase ao meu lado. E foi quase ao mesmo tempo que surgiram
das águas todos aqueles braços descamados que se agitavam e se agarraram
à canoa em desespero e aos borbotões e que se aglomeravam uns sobre
os outros e eu nem tive tempo de discernir nenhum dos rostos desesperados
que brotavam das águas aos berros quando a canoa virou, e de tudo isso
eu me lembro.
E também me lembro que a água era muito
fria.
A água era muito fria.
E depois disso só recordo a sensação
de desespero que me invadiu, a tentativa de me manter sobre as águas
lutando para respirar em meio ao amontoado de desesperados, mas tudo
se foi restando apenas o desespero. O desespero e as águas geladas.
Depois veio o sol e também veio a noite,
e depois ainda vieram muitos dias e outras tantas noites que eu não
sei nem quantas foram, mas o desespero ficou; o desespero e as águas
geladas, sempre.
Em meio ao desespero que me acomete não
consigo entender como permaneço aqui há já muito mais tempo do que
poderia suportar e a exasperação extrema me impede de pensar claramente
sobre qualquer coisa a ponto de eu não conseguir mexer nenhum músculo,
que é sobre tudo o que mais me aflige; a impossibilidade total de me
mover e de nem ao menos movimentar a mais ínfima parte do corpo embora
eu me agite internamente de uma maneira quase alucinada tentando mover
os braços e as pernas e todo o corpo e eu só consigo gritar e gritar
nessa imobilidade completa que me deixa paralisado em meio às águas
geladas; em meio a essas águas sempre geladas onde eu grito desesperadamente
e me agito e grito mais e mais, embora tenha havido um momento muito
breve em que eu pressenti a chegada de uma canoa e que ouvi muitos outros
berros que me levaram a gritar ainda mais até que levado pelo total
desespero, com todas as minhas forças, e por um instante brevíssimo,
tive a sensação de que meus movimentos voltavam e então alcancei
a canoa desesperado e aos brados, mas tive também o vislumbre de que
ao mesmo tempo outros faziam o mesmo, virando a canoa logo em seguida
para me compelir à completa imobilidade novamente, mas essa lembrança
vaga e repetida que é meu único alento, me vem apenas como um sonho
nebuloso e distante, de modo que só me restam o desespero e as águas
geladas do mar.