CARTAS DE AMOR
Autor: C.M.poco
nem
sempre o que se esconde atrás dos fatos é a verdade. nem sempre a
verdade deve ser dita. porque de todo quando esta é revelada, nem mesmo
quem a confessa acredita.
“ Amada
de meu coração, desejada de minha alma. Aqui estou diante da tragédia
de minha vida. Posto que a meus pés se encontram os corpos de nossos
bens mais preciosos na Terra que Deus nos deu. Nossos filhos gêmeos
tão queridos por nós, agora já não respiram. Logo me juntarei a
esse antro de agonia e solidão não restando apenas os corpos das vítimas, mas
também do pai algoz autor da justiça divina. Vos peço que não me
julgueis, doce Kerolline. Mas que também não me perdoeis. Posto que
minha própria vida darei como salário pelo mal que minha prole causou
a nossa aldeia. Também jaz nesta sina nosso filho adotivo Tomás, vítima
da inveja e da maldade que se enraizaram nos corações dos gêmeos
um dia. Logo, com um punhal e uma pena em mãos hei de consumar o destino
que o criador nos outorgou. Ouvi-me esposa de meu coração. Ouvi-me
nestas palavras, já que não as repetirei neste solo outra vez.
Vinha eu
já de muitas noites conturbado. De todo conhecendo a consciência de
nossos filhos, sabendo as atrocidades e ultrajes por eles de contínuo
praticados. Bem conheces nossa sina desde tempos atrás, quando adotamos
Tomás e logo mais viemos a receber a bênção de 2 pequeninos idênticos
se achegarem a nosso lar, alegrando nossa família. Também tens idéia
que desde muito cedo, já nas primeiras frases conscientes, os dois
tomaram por vereda os maus desígnios do maligno. Atormentavam os bichos,
as pessoas, maltratavam a todos que lhes estendiam a mão. Eram indiferentes
a qualquer castigo ou conselho. Movidos de influência obscura, por
mais que tentássemos detê-los, persistiam nos mesmos erros, bem diferentes
de Tomás que tantos sorrisos nos colocou nos lábios.
Desde cedo
víamos o notório contraste entre a criança por nós tida como filho
e os gêmeos naturais de seu virtuoso ventre, querida. Tomás sempre
preocupava-se em fazer o bem. Quando sozinhos os três, sempre sobrevinham
as peripécias e maus costumes á mente de nossos filhos apenas. O pobre
Tomás de nada fazia para que tivéssemos raiva ou arrependimento de
nossa escolha. Pena não serem assim estes dois que de igual modo tanto
amamos e idolatramos.
Já nesta
saga tristonha há muitos anos vivemos, minha cara, tanto que
presenteamos aos gêmeos uma casa longe de nossa aldeia, para que os
vizinhos de mais nada viessem a se importunar. Tomás com ternura ofereceu-se
a residir com eles enquanto mantinha seus estudos, para lhes ajudar
no bom caminho. Como sempre, se impuseram vorazmente corroídos de inveja
ou qualquer outro sentimento que lhes impelia a terem a propriedade
só para eles, repelindo para longe o pobre rapaz. Mesmo assim Tomás
nada falou. De nada reclamou. E com carinho estabeleceu-se relutante,
mas a nosso pedido. Temendo apenas que seus irmãos se revoltassem ante
sua presença ali. Se soubéssemos o quanto estava certo!
Depois de
algum tempo, perturbado, pensando em como estariam nossos filhos
tão longe, resolvi visitá-los de surpresa. Seria uma última tentativa
para estabelecer a paz em suas mentes tempestuosas. Há algum tempo
não ouvia reclamações e me surpreendi com a notícia de que estavam
trabalhando. Logo, esperava encontrar naquele casebre um ar de calmaria.
Imaginando que nossos gêmeos finalmente houvessem crescido para a vida
e abandonado seus erros passados. Mais um horrível erro de minha parte,
meu amor! Qual é minha perplexidade quando ao chegar
á porta, encontrado-a aberta meio de soslaio, adentrar e observar...não
gosto nem de lembrar, doce Kerol!
Nosso querido
Tomás debruçado sobra a cama, alvejado certeiramente por um punhal
no peito, enquanto nossos outros filhos faziam as malas com certeza
se preparando para uma fuga na noite! Não pude resistir, minha amada.
Antes que qualquer um dos dois crápulas pudesse pronunciar qualquer
palavra, mergulhei de ímpeto contra nossa linhagem! Tomei da arma branca
encravada sobre aquele corpo inerte, sem vida, e terminei por manchar
minha própria dignidade com o mais negro dos pecados. Sim, meu amor.
Tirei a vida de nossos outros filhos!
Era a justiça
que deveria ser feita. Chegaram ao extremo da maldade. Era irremediável,
meu amor! Nem ao menos foram capazes de reagir, não esperando que eu
sempre tão calmo tivesse tanta ousadia.
E antes
que minha culpa me consuma, como responsável que sou por tudo, logo
também não estarei respirando. Eu sou o pai. Eu permiti que chegasse
a este ponto. Eu executei a sentença, e também devo saldar minha dívida.
Doce Kerolline, lhe deixo agora para sempre com um doce beijo, e creio
que encontrarás 4 corpos ao invés de 3. também verás um envelope
que selará a paz em nossa casa mais uma vez. Adeus, amada minha!
quem dera usasse
Deus de bondade para com todos, e que todos de tudo tivessem consciência.
talvez sabendo das outras mentes, nossa própria resguardasse mais decência.
“
Papai, mamãe, sentimos muito por tudo isso. Sei que não somos bem
quistos por vós, nem tão pouco pela sociedade onde vivemos. Simplesmente
foi a gota d’ água a atitude de Tomás desta vez. A vida inteira
escondemos nossa índole. A vida inteira ocultamos seus atos cruéis
assumindo a culpa em seu lugar, sem que ninguém soubesse. Quando alguma
vez praticamos qualquer mal foi por intuito desta maldição que temos
por irmão. Fomos induzidos a cada erro, cada maldade por esta mente
que agora encontrou seu destino neste punhal que ele próprio adquiriu
com intuitos por demais exacerbados. Talvez vocês nunca soubessem da
verdade, pois os amamos demais. Tanto que não nos permitíamos revelar
a natureza deste irmão traiçoeiro que há tanto desistimos de salvar.
Não fosse este derradeiro ato de loucura seu, jamais escreveríamos
esta confissão a vós.
Chegou em casa neste fim de tarde num acesso de raiva, vindo das farras,
dos bares e das meretrizes. Trouxe consigo este presságio de morte por
baixo das vestimentas, intentando atacar meu irmão durante a ceia que
sempre partilhamos juntos. Graças aos céus que durante a prece ( pouco
antes da punhalada certeira), visionei a terrível arma e lutei com todas
as forças para impedir o pior. Pressionado por nós, confessou que desejava
nos assassinar friamente, indo depois a vosso encontro para vos exterminar!
Assim, lançaria em nosso fardo de culpa mais este calamitoso fratricídio.
Diria que enlouquecemos por completo tirando as próprias vidas e ficaria
com os bens de nossa família ordinariamente. Pai, mãe, isso foi o cúmulo!
Sabemos que foi um erro, mas isto foi o cúmulo!
Tão logo
o entregaríamos às autoridades competentes para que dessem cabo de
seus macabros planos. Mas antes que eu percebesse, se desvencilhou de
meus braços e jogou-se contra meu irmão tentando tomar-lhe o punhal
que segurava e a vida que o Senhor lhe dera.
Não pude
permitir. Lutamos até que aconteceu o que havia de acontecer!
Sei que
é difícil de acreditar meus tão sofridos pais, mas é a verdade.
Por isso levo este bilhete comigo, e cuidarei para que chegue em vossas
mãos o mais rápido possível. Partimos para sempre com dor no coração,
sabendo que nunca mais os veremos. Mas agora é nossa única saída. Dizemos
adeus e pedimos perdão meus amados. Não foi o correto, mas foi por
amor a quem sempre nos amou apesar de tudo. Foi por amor!"
e quando finalmente tudo se
descobre, se lastima não se ter observado tudo. quem sabe onde esse
tudo sempre se esconde? talvez nas cartas que se encontram em oculto.