A CASA ABANDONADA

AUTOR: LUCCA BACAL

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A casa abandonada.

Lucca Bacal 

     O assalto fora bem sucedido, ele estava dirigindo e Kaue fugia com ele. Duas pessoas foram mortas e uma gravemente ferida, mas, no final, quase todo o dinheiro que aquele mercado tinha fora roubado, ou seja, mais do que qualquer outro mercado já faturara, já que eles assaltaram o maior mercado da cidade.

     Dante olhou para fora, o carro deles não estava sendo seguido. Deu um breve sorriso e virou para uma casa abandonada.

     O aspecto exterior era horrivelmente sujo, os tijolos estavam quase caindo e cheios de musgo e ratos. Acima, uma enorme janela pendia, como um mirante, a única coisa é que ela havia sido tampada por um aglomerado de madeiras podres pregadas nos tijolos, como se estivesse escondendo algo...

     O telhado era de um marrom escuro, quase um pico, pois era pontiagudo e subia alto, Dante vira aquele telhado dois quarteirões antes de chegar.

     Ele deu uma volta por trás da casa com o carro, lá havia uma pequena garagem, perfeita para se esconderem... Kaue sorriu e olhou para Dante:

     -Despistamos eles não é, cara? – Sussurrou Kaue. – Nunca nos acharão!

     Dante concordou sorridente e saiu do carro hesitante, quase... desesperado.

     Sua língua estalou e ele caminhou até a porta de entrada, colocou a mão na maçaneta e a girou, a porta se abriu com um ruído agudo.

     Um horrível cheiro de musgo e umidade chegou aos seus narizes e Kaue teve a impressão de que iria vomitar, colocou a mão sobre o estômago e fechou os olhos, mas tudo o que conseguiu foi tossir forçadamente, provocando uma dor aguda em seu peito.

     Eles entraram, a porta ainda aberta, o ar era viciado e com um leve cheiro de carniça. Olhando em volta, eles viram que a casa só tinha um quarto de madeira em seu interior, o teto era baixo e com uma estrutura estranha. Na parede à frente da porta havia um enorme (e perfeito) desenho de uma mão direita aberta, a palma estava esticada e os dedos juntos, menos o dedão que pendia separado formando um “L” na parte direita da mão.

     Dante sentiu um calafrio e soltou a porta semi-aberta que segurava. Ela deslizou e fechou com um estrondo, Kaue se assustou e olhou para trás, depois, para Dante. Na expressão,  puro pavor. O queixo tremia e os olhos estavam arregalados:

     -A maçaneta caiu! – Ele balbuciou rapidamente.

     Dante olhou para trás e viu... o círculo enferrujado, que antes estava na porta, agora estava no chão, partido em dois.

     Um bando de formigas começou a sair de dentro da ex-maçaneta. Elas cruzavam a dupla de assaltantes em fila, mas não eram simples formigas, eram enormes!

     Ele olhou para Kaue e viu que o amigo fazia o mesmo. Os olhares eram horrivelmente desesperados:

     -Eu vi algo se mexer... – Kaue apontou com o indicador para o canto esquerdo da parede em que havia o desenho da mão – Ali...

     Dante olhou, grossas gotas de suor escorreram pela face. Sim, havia um homem naquele canto, que estava completamente vestido de preto. Ele usava uma camisa de manga comprida e calças longas.

     Seu rosto era de uma palidez horrenda, o cabelo era longo e emaranhado. Seus olhos eram negros, na boca um sorriso:

     -Visitas! – Ele exclamou. – Desde que eu fui convocado para guardar este local eu nunca recebi visitas!

     Ele se aproximou de Dante e roçou-lhe a testa com a palma da mão. Seu sorriso aumentou ao ver que Dante empalidecera e tentara recuar:

     -Pena... – Ele retrucou zombeteiro. – Imprestável!

     O homem se afastou de Dante a passos largos. Então, ele se virou e olhou para Kaue.

     Aproximando-se dele, o homem deu aquele mesmo toque com a palma da mão que dera no outro assaltante, só que desta vez ele fechou a mão na cabeça de Kaue e apertou, o assaltante começou a gritar.

     O homem riu histericamente:

     -Eu sabia! Sempre soube! – Ele exclamou. – Uma mente indecifrável! Como a do “garoto”, décadas atrás! Só que essa fui eu que achei!

     Dante correu para a porta e começou a espancá-la, cada vez mais forte. O homem olhou para ele, ainda agarrando a cabeça de Kaue. Então, com a outra mão, apontou para Dante e depois para o chão. O assaltante perdeu a força das pernas e caiu:

     -Para que a pressa, parceiro? Você ainda nem viu o show! – O homem riu. – É só estalar os dedos e PUM!

     O desenho da mão na parede começou a mexer o polegar, que entrou na frente da palma e voltou para o lugar onde estava antes. Após isso, o centro da palma começou a se abrir e um olho surgiu de lá. A pupila se mexeu e se fixou em Kaue, o homem de preto, então, o colocou na frente da pupila, que se arregalou:

     -Quem é você? – Gritou Dante. – Pelo amor de Cristo!

     -Eu? – Perguntou o homem, como se a pergunta fosse óbvia. – Eu sou um membro do Panteão! E os membros do panteão procuram o máximo de conhecimento possível nas mentes mortais, como o porquê de algumas mentes serem fechadas para nós!

     Sua voz parecia distorcida, grave e ecoou por todo o quarto. Quando Dante olhou para Kaue, viu que ele chorava silenciosamente, seus olhos reviravam e a boca estava aberta, produzindo gemidos estranhos.

     A polícia arrombou o local. Haviam achado o carro na garagem. A casa estava vazia, a não ser por Dante, encolhido e balbuciando besteiras sem sentido nem nexo no canto do único quarto da casa. O desenho havia desaparecido, mas as lembranças de Dante, não.

     Ele nunca mais esqueceu, nem se moveu...

FIM

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