(Conto comemorativo
ao primeiro aniversário da Irmandade das Sombras)
Richmond
não acreditava na possibilidade de que o morto pudesse retornar mas
Harmony fora enfático: Ele retornaria após a leitura correta do “Im
Reich Der Farbtöne” (1).
Os
dois estavam em uma das inúmeras salas escuras do castelo gótico do
barão Von Sorian, na Moldávia. Ele havia sido o ultimo representante
da Irmandade das Sombras e desaparecera misteriosamente no ano de 2057.
Agora
Richmond e Harmony haviam localizado o local incrustado em meio às
inóspitas e solitárias montanhas dos Cárpatos. Sem sombra de dúvidas
aquele havia sido o lugar de reuniões do grupo de literatos mais perturbador
de toda a história da literatura universal; produtores de obras que
aterrorizaram o mundo e foram capazes de transformar o senso de horror
a níveis globais. Houve muita perseguição à concepção artística
da Irmandade; governos americanos e europeus tentaram a todo custo banir
suas publicações mas o povo insistia em ler cada um dos novos trabalhos
de seus membros. Foram os discursos públicos e campanhas publicitárias
cada vez mais agressivas, promovidas pelos governos dos países mais
conservadores, que fizeram com que o grupo buscasse o isolamento nas
montanhas. Um local escondido dos olhos de todos onde eles poderiam
buscar inspiração e concentração total. E foi então que seus temas
e suas produções encontraram um nível jamais imaginado nos anais
das concepções de arte sombria.
As publicações
continuaram de forma clandestina, mas, ainda assim, chegando frequentemente
ao alcance de seus leitores nas mais diversas línguas. E houve quem
afirmasse, em lugares tão diversos do mundo quanto a África e a Suíça,
que a leitura das obras dos escritores era prejudicial à saúde física
e mental de quem lia.
Richmond
e Harmony, a duras penas e depois de vinte anos, obtiveram autorização
do governo local para explorarem as ruínas do velho castelo. Foi entre
as inúmeras salas, e em meio a extensas e mofadas estantes de livros,
que eles encontraram a passagem para a sala secreta da Irmandade, conhecida
como “A câmara dos Tormentos”; porém, daquele lugar escuro e úmido
saíram durante o tempo em que os escritores ali permaneceram apenas
os mais puros deleites sombrios que um leitor jamais sonhou em desfrutar.
Não causavam tormentos ao corpo como queriam crer os puritanos do mundo.
E na mente, o único mal que originaram talvez tenha sido a libertação
dos afetados deste mundo apenas material oferecendo-lhes mergulhos profundos
em vastos e encantados mundos etéreos.
O
que Richmond e Harmony queriam era encontrar o lendário corpo insepulto
do ultimo representante do movimento. Os outros, todos eles, havia sido
descobertos em ruínas abandonadas ao redor do mundo sempre mutilados
de forma bastante sistemática. Os dois pesquisadores do insólito encontravam
razões para crer que as partes extraídas dos cadáveres estariam naquele
local, junto ao corpo do barão Von Sorian. Estes motivos eles cooptavam
das leituras e da interpretação da obra máxima da Irmandade, o terrível
livro escrito em conjunto por todo o grupo, “Im Reich Der Farbtöne”.
Segundo o compêndio, seria possível através da execução de determinados
rituais, manter eternamente acesa a chama da imaginação obscura do
grupo. Mas, lendo atentamente, e de posse das traduções dos trechos
escritos em aramaico, se poderia encontrar “um livro dentro do livro”
e este era muito mais terrível. Harmony o lera, e seus cabelos haviam
embranquecido do dia para a noite. Para Richmond, sempre menos curioso
que o amigo, aquela era a suma confirmação de que o material era sim
danoso ao corpo e a alma; todavia, como fã incondicional da obra da
Irmandade, nunca se opôs em seguir o outro em sua empreitada.
Os
rastros do barão haviam sido seguidos desde sua fonte original, no
nordeste brasileiro, sendo elaborada uma detalhada reconstituição
de sua trajetória entre a cidade de Salvador e as montanhas dos Cárpatos.
Ele adquirira o castelo através do investimento de recursos próprios,
muito provavelmente originários de espólios de família. Depois agrupara
os irmãos em Londres e de lá partiram para sua ultima morada terrestre.
Depois
disso, não se sabe como, seus livros de contos, romances e novelas
terríficas apareciam nas bancas e livrarias sempre sem que nenhum funcionário
desse conta de sua encomenda e compra. Depois que as atividades cessaram,
e os primeiros corpos mutilados foram surgindo, o ultimo livro apareceu
numa biblioteca de Amsterdam. Foi lá que Peer Harmony o viu pela primeira
vez. Nele descobriu, lendo as entrelinhas, um plano sinistro. Sua casa,
nos subúrbios, era repleta de livros de terror e ocultismo. Juntando
informações de inúmeras fontes ele entendeu o propósito da obra
e assumiu para si a missão implícita ao descobridor. Foi apenas um
dia antes de chamar a sua casa o amigo Albertus Richmond que ele terminou
a tradução da ultima parte do rito principal. Era uma cerimônia de
ressurreição. E dizia que seria dado o poder de dar continuidade à
obra da Irmandade das Sombras àquele que, encontrando o cadáver do
ultimo cavaleiro das trevas, o reerguesse da morte. As páginas finais
do grimório continham todo o planejamento e prática da missa a ser
realizada.
No
dia 06/06/2076, dezenove anos depois do desaparecimento da Irmandade
das sombras, Richmond e Harmony estavam no interior do castelo abandonado
para trazê-la de volta.
Não
havia o que questionar: O corpo encarquilhado e escuro que jazia em
uma pedra de frio mármore negro era de fato o do barão Von Sorian;
porém, ele não era de forma nenhuma apenas isso. Seus membros não
eram apenas aqueles com os quais havia nascido; estavam misturados,
com costuras grossas e malfeitas, aos pedaços retirados dos cadáveres
dos outros irmãos das sombras. Suas pernas não eram apenas suas pernas;
eram também as de Lord Linx e Lord Henry. Seus olhos não eram apenas
os seus olhos, mas sim também os de Lady Celly e Lady Hell. Todo o
seu corpo era um imenso retalho, tal qual um Frankenstein medonho, que
agregava as partes de todos os outros membros. Viam-se aqui partes das
mãos de Lord Roger Silver misturadas com as unhas de Sir Luciano Barreto
e os dedos de Lady Mauren Müller; ali, a pele de Lady Catherine costurada
aos cabelos de Sir Luiz Poleto e Dom Alexandre Nunes. Via-se na abominação
híbrida, um rosto magnânimo: Metade era o do próprio Barão; a outra
metade era a da condessa Victoria Magna.
A
visão estarrecedora derrubou o livro das mãos de Richmond à primeira
vez que ele a avistara de sob a cortina de poeira que se erguera quando
a passagem por trás da estante fora aberta. Depois, como ocorre com
um odor nefando, ele acostumou-se e não mais sentiu os nervos abalados.
Ou curara-se ou não tinha mais nervos. De qualquer forma tinha que
se controlar; os planos de Harmony iam muito mais além.
Foi
numa sexta-feira que o ritual foi realizado. Uma descrição detalhada
de todo o ocorrido seria deveras traumática para o leitor. Opto por
partir do ponto em que tudo se tornou tão palpável quanto as pedras
das paredes bolorentas do castelo Von Sorian. Tudo o que era necessário
à manobra mágica se encontrava na própria câmara secreta. Os autores
haviam cuidado de tudo!
Às
seis da tarde, quando o sol escoava seus últimos raios avermelhados
por entre os picos cobertos por neves eternas dos Cárpatos, Richmond
e Harmony iniciaram a missa da ressurreição. Após a consagração
dos pontos cardeais aos espíritos da terra, depois que os signos mágicos
haviam sido traçados, leu-se a conjuração principal:
“Per Adonai
Eloim, Adonai Jeovah!
Adonai Sabbaoth,
Metrathon ou Aglamethon!
Verbum Pythonicum,
mysterlum salamandrae,Cenventus sylvorum, antra gnomorum, daemonia coelli.
Almosin, Gibor,Jehosua,
Evam, Zariathnatmik!
Veni, Veni,
Veni
Ego te provoco!
Ego te provoco!
In domine meum!
Veni, Veni,
Veni!” (2)
Primeiro
foram as velas que se apagaram sem que houvesse vento algum, depois
as dobradiças das portas estalaram sem que ninguém as manipulasse.
Os livros das estantes, então, saltaram de seus lugares e, espalhados
no chão, se abriam e fechavam sozinhos. Lá fora, a noite provinha
o ar de sons lamentosos; de gemidos de um quase prazer bestial. Eram
como o frenesi de uma multidão cujas vozes se espalhavam pelas florestas
e montanhas geladas.
No
interior da Câmara dos Tormentos, Richmond e Harmony presenciaram o
ressurgir do mito. O nascimento de uma nova era livre. De súbito, a
coisa em cima da pedra negra abriu os olhos. E seu corpo foi percorrido
por violentos espasmos. No ambiente espalhou-se um forte odor de raiz
de mandrágora em meio a densa fumaça azul esverdeada e ouviu-se o
som de ossos se partindo quando o ressurrecto tentou se erguer. E ele,
o último cavalheiro das trevas, olhando no fundo das almas de seus
renovadores, falou, e sua voz era a de todos os irmãos juntos:
“Tu
lestes bem nossos ensinamentos!” E enquanto falava se dirigia a Harmony.
Depois, encarando com seu rosto retorcido a massa trêmula em que se
tornara Albertus Richmond, disse: “Tu, não temas! Não há razão
para os teus temores!”.
E
continuou:
“Temo
eu, pois esta algazarra que vem lá de fora me perturba deveras. O que
são, pois, estes gritos, estes risos, estas exclamações?”
Neste
momento o pior medo, o horror mais desmesurado, se apossou do coração
de Richmond. Não havia meios de prever a reação do ressurrecto à
segunda parte do trabalho de Harmony. O que fizeram era para toda a
humanidade, mas não se poderia saber se a coisa iria aprovar. Assim,
a única ação cabível aos dois mortais mais completamente tomados
pelo poder da literatura das sombras, era abrir de uma vez a enorme
janela que dava para a paisagem fria do lado de fora.
Num
pulo, correram a destrancar e retirar as travas que haviam mantido no
escuro aquele quarto por mais de vinte anos. Em menos de trinta segundos
as duas partes pesadas do janelão se abriram deixando entrar uma rajada
de vento frio que espanou para o ar toda a poeira de muitos e muitos
anos. Junto com o vento o som dos gritos de êxtase invadiu os cantos
do velho castelo e a coisa que era toda a Irmandade das Sombras levantou-se
de seu leito de mármore. Seus velhos ossos estalavam depois de décadas
de inércia.
E
os sons continuaram pela noite. Repercutindo pelos vales e bosques ao
luar. Era um som portentoso, nítido, próximo. Quando o ressurecto
alcançou a sacada, a visão que teve o encheu do mais puro e indescritível
deleite. Lá, cobrindo toda a extensão visível da terra, mergulhando
em direção ao horizonte escuro como um enxame pululante interminável,
estavam milhões de pessoas. E elas traziam consigo artefatos luminosos
que brilhavam na escuridão.
A
coisa que era a Irmandade virou-se para Richmond e Harmony mas não
precisou falar.
“Eis
aí, mestre! Teus fãs de todo o mundo que vieram celebrar este vosso
renascimento. Eu mesmo, e meu amigo, chamamos e convencemos cada um
deles a estar aqui nesta noite. Eles são milhões, e o início do teu
reino!” Disse Harmony e seus olhos estavam cheios de lágrimas.
“Vê
Mestre!” Disse Richmond vencendo o medo em face da emoção. “Cada
um trás papel e caneta. Eles querem ouvir o início da nova estória!
Fala a eles!”
Então
a Irmandade das Sombras avançou mais para fora da janela até um ponto
em que já quase se debruçava para o ar. E do umbral ouviu e viu a
maior ovação que as forças do mundo já testemunharam. Com um sorriso
no rosto ergueu os braços e, depois que a multidão fez silêncio,
começou a escrita de uma nova era.
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(1) - “Im
Reich Der Farbtöne” = No Reino Das Sombras (N. do A.)
(2) - Ritual
de invocação retirado do livro "O caso de Charles Dexter Ward"
de Howard Phillips Lovecraft que por sua vez o adaptou ao seu conto
extraindo-o da obra "Dogma e ritual da alta magia" do ocultista
francês Elifas Levi. (N. do A.)