A CHÁCARAAUTORA: MARI MARTINS
A CHÁCARA
Autora: Mari Martins
Essa história
marcou para sempre a minha vida. Aconteceu comigo no verão de 2002.
Estava animada para comprar uma casa de praia num litoral norte
da minha cidade. Convenci-me que no momento aquilo seria muito importante
em minha vida. Algo me induzia a procurar uma chácara. Procurei um
corretor e comecei minhas andanças por todo o recanto litorâneo.
A teimosia é uma das reações negativa onde procuro ameniza-la
com pensamentos de que tudo acontece porque tem de acontecer. Dizem
alguns homens que mulher teimosa é a âncora do diabo, não acredito
em nada disso. Prefiro saber que minha teimosia é o caminho para as
grandes descobertas e novas experiências. Quando vi a chácara pensei
ter encontrado o recanto dos meus sonhos. O terreno de bom tamanho era
frutificado e com um bom espaço de lazer. A casa ampla, avarandada,
era de madeira escura e bem dividida. Ficava centralizada no terreno
plano, e nas laterais ficava à casa do caseiro. Aos fundos tinha um
enorme salão de festas que era usado pelo antigo dono como boate. Fiquei
sabendo disso depois de alguns dias. O que mais me atraiu foram às
luzes violetas, que quando eram ligadas, tinha-se a impressão de estarmos
numa pista de dança das discotecas dos anos 70. É claro que a família
adorou a idéia das lâmpadas violetas. Logo comecei a sentir-me mal
naquela casa, naquele ambiente pesado de onde emanava uma energia negativa.
Um cheiro forte vinha da casa, entranhado nas brechas de sua madeira
escura. Era um odor diferente, de coisas velhas, como um bafo quente
e nauseabundo, o cheiro de carne podre. Quando falava para os amigos
achavam que era uma de minhas loucuras. Tudo vinha da minha mente já
que era muito criativa. Joana a mulher do caseiro, um dia aproximou-se
perguntando se poderia conversar comigo em particular. Levei-a até
o salão de festas e notei seu rosto pálido. A mulher não teve nenhuma
intenção de entrar no local. Quando perguntei o motivo, falou-me com
o olhar de espanto que aquele salão era mal assombrado. Já tinha visto
várias vezes as luzes acesas e depois eram apagadas repentinamente.
Senti que tudo estava focalizado naquele lugar. Fiquei calada, precisava
de algo mais concreto. Um final de semana estava lá com minha família
e amigos. Era um dia de sábado, e uma chuvinha fina começou a cair
logo no começo da noite. Como sempre o mês de Janeiro é premiado
pela mudança rápida de tempo. A maioria tinha ido embora, e o pior
de uma casa de praia é quando termina a farra e todos vão para suas
casas deixando a bagunça e a tristeza de ficarmos sozinhos. Os
que ficaram foram dormir logo cedo, a farra tinha sido pesada. Tentei
ler um livro para mexer com o sono. Lá pelas 2h da manhã consegui
cochilar. De costume sempre deixava a luz do corredor acesa. Senti de
repente o quarto esfriar e minha camisola sendo levantada até a cintura.
Sabia que estava acordada, pois vi nitidamente a luz do corredor acesa.
Meu coração batia tão acelerado que pensei que fosse explodir
de tanto medo. A gente fica sem saber o que fazer, nosso corpo é paralisado
por algo que domina nossa mente. No fundo de minha alma sabia
que estava lidando com o sobrenatural. Logo, tudo voltou ao normal,
mas o medo me deixou acordada até o dia amanhecer. Passei o domingo
calada, culpando a mim mesma por ter comprado aquela chácara. Minha
família foi contra desde o início, não gostaram do local e nem da
casa de madeira escura. Depois daquele dia senti como se algo tivesse
invadido minha vida. Comecei a ter pesadelos contínuos e meu corpo
gelava todas as vezes que me aproximava da casa. Era como uma maldição,
tinha medo da casa, mas não conseguia viver longe dela. Algo maligno
me dominava, me alimentava mal, não dormia e um ódio atroz consumia
minha alma. Não entendia de onde vinha tanto ódio já que minha vida
sempre foi direcionada para o bem. Quanto mais tomava remédios, mais
meu corpo se deteriorava. Sentia no mais íntimo do meu ser que a única
resolução para o problema poderia vir de mim. A chácara tinha sido
posta a venda, e ninguém aparecia para comprar. O corretor fizera um
comentário uma vez. Já tinha vendido casas piores e mais caras e nunca
sentira tanta dificuldade para vender uma chácara tão bonita e com
um preço razoável. No final de março de 2002 meu corpo estava magérrimo.
Amigos me aconselharam a ir a um psiquiatra. Adiei por vários
dias com o pensamento de que quem ia a psiquiatra era doido. Não estava
maluca, mas apenas vivendo momentos difíceis. E não saia da minha
cabeça que todos os meus problemas começaram com a compra daquela
chácara. Algo naquela casa me atraia. Quando não ia até lá nos finais
de semana minha vida transformava-se num inferno. Via o mundo de uma
maneira diferente, de um cinza tão profundo que meu corpo estava sendo
sugado para dentro de um abismo. As opiniões dos amigos e da família
foram várias. E não vou omitir de que andei por vários médicos e
terreiros de candomblé. Num dia estava morrendo do coração, no outro
tinha uma dor de cabeça tão forte que pensava que fosse morrer de
agonia. Cheguei a um estágio onde não tinha mais nada a perder. Estava
perdendo minha dignidade como ser humano já que meu corpo e minha mente
estavam definhando por algo obscuro e inaceitável. Já muito fragilizada
pedi a minha família para ir até a chácara. Queria passar um final
de semana nela antes que vendessem. O que era impossível, pois ninguém
tinha aparecido para compra-la. O caseiro tinha falecido de modo estranho
e Joana tinha ficado na casa porque não tinha onde morar. Pedi a família
que me deixasse sozinha na chácara. Como estava no ápice da passagem
para um outro mundo, digo isso porque estava convencida de que a morte
viria logo, não tinha mais nada a perder. Meu corpo não agüentaria
tanto sofrimento, estava sendo maltratado por doenças que a medicina
não explicava. Vários foram os especialistas consultados e nada encontraram
de errado com meu corpo. E mais uma vez fui aconselhada a ir a um psiquiatra.
Aquele dia seria a minha última opção. Se nada acontecesse, procuraria
seguir o conselho dos amigos. Naquela noite fiquei sozinha na casa.
Pedi a Joana para dormir na casa de uma amiga. Fechei todas as janelas
e portas e deitei num velho sofá aconchegante. Liguei a televisão
para não me sentir sozinha. Bruscamente senti algo anormal acontecendo.
A sala começou a ficar gelada. E pasmem! Estávamos em pleno verão
com todas as janelas fechadas e fazia um calor infernal. Meu corpo
logo começou a tremer e senti que minha vida estava chegando ao fim.
Num esforço sobre-humano levantei do sofá e saí cambaleando em direção
ao salão de festas. A porta estava aberta e era estranho, Joana averiguava
as portas todas as tardes. E nunca esquecia de fecha-las. Ao entrar
no salão todas as luzes foram acesas. As violetas piscavam aceleradamente.
O medo era tanto que senti minhas pernas fraquejar. A raiva e o medo
se misturavam. Meu espaço foi invadido por algo invisível que estava
destruindo a minha vida. As lâmpadas violetas estouraram quase me matando
de susto. Um halo escuro começou a circular por todo o salão e desceu
sinuosamente parando a minha frente. Devagar foi formando uma figura
de homem como num mata borrão para depois se tornar perfeitamente visível.
Reconheci no mesmo instante o dono da casa que tinha falecido há anos.
Meu corpo paralisado e minha mente alerta captavam a mensagem do morto.
“Vá agora até o grande cajueiro, aquele que fica perto do portão
e cave profundamente”. “O que encontrar destrua”. Com a coragem
adquirida através da energia do fantasma, peguei uma velha enxada e
fui até o velho cajueiro. Perto de sua raiz tinha um desenho esférico
brilhando como se tivesse sido desenhado por algo do outro mundo. Cavei
com tanta ânsia que nem parecia ser a mulher frágil de minutos atrás.
Quando a enxada bateu em algo, abaxei-me e terminei de cavar com as
mãos. Na claridade da lua vi uma caixa de madeira. Abri-a e vi vários
maços de dinheiro, todos envolvidos com elásticos. “Queime-os”.
Disse uma voz sussurrando ao meu ouvido. Não quis saber quantos maços
tinha. Queimei até a última nota. Depois fui até o salão e tudo
estava escuro. Fechei as portas e fui para a casa de madeira. O dia
já estava amanhecendo. Meu corpo tinha adquirido um vigor que há meses
tinha perdido. Estava fragilizada, mas sentia-me bem melhor. Quando
saí da casa, foi para sempre. Nunca mais voltei aquele lugar. Logo
a casa foi vendida e Joana foi morar com parentes. Mas a minha curiosidade
em relação à casa não parou até aí. Procurei saber notícias por
amigos que tinham casa de praia no mesmo local e disseram que a chácara
estava abandonada. Foi vendida porque a Sra. que a comprara tinha
morrido. Morreu semanas depois de ter comprado a chácara. A família
ainda estava inconsolável e não entendiam o porque de uma morte súbita
se ela gozava de boa saúde. Curiosa, procurei saber mais informações
sobre o primeiro dono. Ele usava a chácara como bordel e jogo de baralho,
apostando altas somas em dinheiro. Entendi o porque do dinheiro enterrado
debaixo do cajueiro. O que ainda assombrava aquela chácara? Não queria
saber. Todo o seu terreno estava minado por uma energia negativa e malévola.
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