Uma Coisa
na Janela
(um texto
de Jurandir Araguaia)
Responda-me com sinceridade:
- O que pode nos assustar mais do que um rosto do lado de fora da
janela?
E se esse rosto fosco, te aparecer nas altas horas da madrugada?
Imagine agora que é noite de relâmpagos ainda sem chuva
e que, ao cair de um deles, a forma se ilumine mostrando ao lado do
rosto, grudadas ao vidro, duas mãos espalmadas, que pensaria
você? Fechei os olhos e comecei a rezar para um Deus que,
nesses momentos, torço para que exista. Devo acordar quem
dorme ao meu lado, gritar e acender a luz? Fechar os olhos é a
fuga das crianças, dos medrosos e dos fracos. Em qual deles me
enquadro? Em qual deles você se enquadra?
Percebo então que o rosto respira. Uma espécie de
vapor se forma embaçando a janela. Por que havemos de dormir
sem cortina? Lembro que estão sendo lavadas e recordo da
desgraça que será despertar com o sol na cara. Maior
desgraça é aquela forma que não me deixa como um
encosto. Sou homem - e o único da casa. Devo então
adotar a atitude cabível. Sei que não poderá
entrar. Temos grades que nos protegem dos invasores. E se disparar um
tiro e atingir-nos? Mil idéias me passam e não sei o
que fazer. Posso bater no vidro e espantar a forma. Ela não
aparenta ter cabelos. O crânio é perfeitamente divisado.
Poderia estar usando uma touca. Tenho a impressão de que é
enorme, monstruoso e de que aumenta de tamanho a cada relâmpago.
O coração dispara, sinto-o na boca, e permaneço
estático como se fosse esta a minha única defesa
possível. A chuva começa a cair. Vem em meu socorro,
imagino, por que ladrão nenhum resiste a uma chuva. E em um
dia como aquele não se deve invadir a casa dos outros. Onde o
bom-senso? Sempre deduzi que a chuva espantasse os boêmios, os
ladrões e o calor.
Meus pés encontram-se gelados. O suor escorre por todos os
poros. A chuva incrementa o ritmo e a coisa continua lá. De
modo inexplicável sinto que ela sabe que estou desperto.
Ocorre aquela ligação psíquica misteriosa típica
da nossa essência quântica, nos momentos de fatalidade.
Quero que tudo termine o mais rápido possível. Ela se
movimenta, pois percebo os dedos abrindo e fechando e a cabeça
virando de perfil, ora para um lado, ora para o outro.
Os minutos correm e o normal seria que um vadio tentasse forçar
uma porta ou janela. A chuva é intensa, o que torna impossível
para um ser humano normal não buscar abrigo ou fuga. Um novo
relâmpago ilumina por completo o quarto e a criatura que antes
estava fora agora entrou no ambiente e se coloca de pé,
inteira, postada ao lado de nossa cama. Queria que algo pudesse me
despertar do pesadelo e que fosse um pesadelo. Queria ter a fé
dos santos e a coragem dos guerreiros de qualquer época. Não
havia mais alternativa. Deveria gritar, mas o grito não sai.
Os músculos, inertes, como se transformados em chumbo,
recusam-se a reagir.
Muito suor. Medo é pouco. Entrego-me a uma vertigem e a
têmpora esquerda dói, estala. A garganta está
seca e a respiração é muito difícil. Um
novo estalo e tudo se apaga. Sinto que fui desconectado do mundo. A
criatura some e eu mesmo perco a noção do tempo e
espaço. Não mais consigo abrir os olhos. Aos poucos
volto a mim e sei que algo medonho ocorreu. Depois de um período,
que não sei precisar, percebo-me lúcido, porém
imóvel. Sou pouco mais que um vegetal. Reconheço a voz
dos parentes, dos amigos, e sinto o toque nas mãos e no rosto.
Lentamente descubro que uma fatalidade me conduziu a um estado
catatônico depois do derrame. O desespero é indizível.
Sei que correm os dias. Haverá esperança? A respiração
é difícil como se uma pata de elefante me comprimisse o
peito. Não tenho mais sonhos e a única emoção
é o desespero. Em uma determinada noite consigo enxergar,
apesar da escuridão, e vejo a forma aos pés da cama.
Novamente há relâmpagos e tempestade. Não há
mais medo: eu venci o pior de todos. Peço-lhe, por pensamento,
que me desconecte por completo e um novo estalo atinge a têmpora
direita...
Fim
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