O CONDENADO

AUTOR: JURANDIR ARAGUAIA

200

O Condenado

Jurandir Araguaia

Faltava muito pouco para atingir a liberdade. Os meus trajes haviam se transformado em trapos – o uniforme brancos com listras verticais azuis era a marca registrada dos condenados. Precisava alcançar logo uma fazenda e roubar roupas comuns, depois poderia misturar-me com a multidão e buscar uma vida normal, oculto, longe da vigilância constante ou refugiar-me em algum reduto isolado. Creio que a primeira assertiva seria mais correta acreditando ser mais difícil me encontrarem em uma metrópole cheia de gente.


O problema seria os identificadores automáticos de retina, que bisbilhotavam por toda a parte, deveria usar os colírios descoladores que os confundiam e faziam que, por proximidade, atribuíssem a primeira identidade similar que os seus registros apontavam – era um método infalível e eu sabia onde conseguir alguns frascos no mercado negro. Teria ainda uma longa caminhada e deveria driblar as patrulhas e barreiras nas estradas. Talvez pudesse misturar-me a grupos de fazendeiros em direção a feiras – que possuíam certas regalias, visto cuidar da alimentação de todos. Interessante o status que alcançaram depois do colapso mundial de alimentos – tornaram-se salvadores do mundo. Afinal, abdicar da vida de luxo e conforto das cidades para lidar com o campo não é fácil. Entretanto, graças aos avanços da tecnologia, muitos possuem tudo o que precisam para viver com conforto.


São dez anos longe da liberdade e agora posso caminhar, mesmo no meio dessa mata densa, da lama, rumo à minha própria vida. Pensei em me matar, o que negaria de vez as minhas crenças e daria mote aos inimigos para caçoar de mim. Matar-me nunca, não lhes daria o prazer de escarnecer diante da minha vacilação. Enfrentaria minhas escolhas com coragem até o fim, sendo um suplício para aqueles que negavam o conhecimento que carrego e que é o único que definitivamente tem importância.


Tenho que tomar cuidado: os helicópteros e sondas aéreas são silenciosos. Posso ser identificado e preso em poucos minutos. Sinto sede, fome e frio. Abraço a mim mesmo na tentativa de aquecer-me. Pela respiração sai vapor quente dos pulmões. Caso não encontre um abrigo congelarei. Uma luz tênue aparece adiante. Aproximo-me com cuidado e, atrás de alguns arbustos, identifico uma pequena fazenda. Teria que tomar cuidado com os cachorros e outros mecanismos de defesa. Fiquei algum tempo observando para reparar se possuíam sondas aéreas ou terrestres. Não percebi coisa alguma. Cuidadosamente saltei a cerca de madeira e caminhei em direção ao celeiro. Escondia-me atrás de pequenas árvores ou de plantas. Pisei em um monte de estrume, o que poderia indicar boa sorte segundo algumas tradições supersticiosas.


O celeiro poderia ser quente e me oferecer abrigo por uma noite. Seriam simpatizantes das minhas crenças? Difícil saber. O mundo já não era o mesmo e em prol da harmonia um código mundial de conduta que fora adotado abandonando posições outrora corriqueiras que foram consideradas subversivas – e esse era o meu caso.


Ouvi o latido distante de cães. Minhas pernas fracas e cansadas tremeram. Abaixei-me no meio do pasto. Os animais, ao que pude observar, faziam alvoroço quando um homem lançou-lhes comida. Apesar da distância pude ver com nitidez. Um senhor alto e forte, na casa dos sessenta anos, divertia-se com a algazarra que provocava chamando-os pelos nomes. Arrastei-me pelo chão e fiquei quieto, deitado por algumas horas até que tudo ficasse calmo e as luzes da casa começassem a se apagar. Os cães ficaram na vizinhança da residência. Aproveitando de lama, besuntei ao máximo meu corpo para que o cheiro não se espalhasse pelo ar alertando-os. Com dificuldade alcancei o celeiro. Entrei lentamente, ainda deitado no chão, abrindo a enorme porta lentamente. Aos poucos meus olhos se acostumaram com a escuridão. Percebi um sótão e uma escada. Caminhei devagar e subi com cuidado para não fazer barulho. Um amontoado de panos velhos e muitas ferramentas, além de diversos engradados vazios se encontravam espalhados. Deitei-me sobre os panos e fui vencido pelo cansaço. Literalmente desmaiei.


Naquela noite tive o mais doce sonho de minha vida. Via-me diante de uma interessada platéia em uma assembléia iluminada por tons dourados. Todos os rostos sorriam com minha pregação. A multidão aceitava a doutrina e o meu verbo tinha a força e a influência dos anos bons em que éramos aceitos por boa parte da humanidade. Ao final da sessão as pessoas me abraçavam e nos confraternizávamos. Fui acordado com uma forte luz sobre a minha face. Percebi que um grupo de soldados, além do fazendeiro, me cercava. Imediatamente lançaram sobre meu corpo uma teia magnética que me imobilizou tolhendo os movimentos. Uma sonda postou-se diante de mim projetando em terceira dimensão a imagem em tamanho natural do juiz que me condenara:


- Você tem a última chance de negar as suas crenças e entrar em um programa permanente de reabilitação. Você nega as suas crenças?


Eu tinha uma escolha: poderia fingir que não acreditava, como muitos faziam por comodismo e para ter uma vida boa e pálida, dentro de uma casa quente, com comida na geladeira. Ao contrário, preferia morrer a abrir mão da verdade. Reunindo forças, gritei do modo mais forte que pude:


- Nunca, prefiro a eternidade do cárcere a levar uma vida falsa e sem esperança.


O semblante do juiz ficou carregado. Apontou-me o dedo e declarou:


- Levem esse cristão de volta à sua cela.


Minha fuga não durara muito, mas de uma coisa tive a certeza: de algum modo meu sacrifício valeria a pena, assim todas aquelas mortes nas antigas arenas romanas...

Fim

Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.

veja nosso livro de visitas assine nosso livro de visitas

Todos os direitos reservados. Contos de terror, horror e fantasia escritos por Paulo Soriano e colaboradores.

Layout pronto por:
CONTOS GROTESCOS - www.contosdeterror.com.br - Desenvolvido e mantido por PAULO SORIANO