O
Condenado
Jurandir
Araguaia
Faltava
muito pouco para atingir a liberdade. Os meus trajes haviam se
transformado em trapos – o uniforme brancos com listras
verticais azuis era a marca registrada dos condenados. Precisava
alcançar logo uma fazenda e roubar roupas comuns, depois
poderia misturar-me com a multidão e buscar uma vida normal,
oculto, longe da vigilância constante ou refugiar-me em algum
reduto isolado. Creio que a primeira assertiva seria mais correta
acreditando ser mais difícil me encontrarem em uma metrópole
cheia de gente.
O
problema seria os identificadores automáticos de retina, que
bisbilhotavam por toda a parte, deveria usar os colírios
descoladores que os confundiam e faziam que, por proximidade,
atribuíssem a primeira identidade similar que os seus
registros apontavam – era um método infalível e
eu sabia onde conseguir alguns frascos no mercado negro. Teria ainda
uma longa caminhada e deveria driblar as patrulhas e barreiras nas
estradas. Talvez pudesse misturar-me a grupos de fazendeiros em
direção a feiras – que possuíam certas
regalias, visto cuidar da alimentação de todos.
Interessante o status que alcançaram depois do colapso mundial
de alimentos – tornaram-se salvadores do mundo. Afinal, abdicar
da vida de luxo e conforto das cidades para lidar com o campo não
é fácil. Entretanto, graças aos avanços
da tecnologia, muitos possuem tudo o que precisam para viver com
conforto.
São dez anos longe da
liberdade e agora posso caminhar, mesmo no meio dessa mata densa, da
lama, rumo à minha própria vida. Pensei em me matar, o
que negaria de vez as minhas crenças e daria mote aos inimigos
para caçoar de mim. Matar-me nunca, não lhes daria o
prazer de escarnecer diante da minha vacilação.
Enfrentaria minhas escolhas com coragem até o fim, sendo um
suplício para aqueles que negavam o conhecimento que carrego e
que é o único que definitivamente tem importância.
Tenho que tomar cuidado: os
helicópteros e sondas aéreas são silenciosos.
Posso ser identificado e preso em poucos minutos. Sinto sede, fome e
frio. Abraço a mim mesmo na tentativa de aquecer-me. Pela
respiração sai vapor quente dos pulmões. Caso
não encontre um abrigo congelarei. Uma luz tênue aparece
adiante. Aproximo-me com cuidado e, atrás de alguns arbustos,
identifico uma pequena fazenda. Teria que tomar cuidado com os
cachorros e outros mecanismos de defesa. Fiquei algum tempo
observando para reparar se possuíam sondas aéreas ou
terrestres. Não percebi coisa alguma. Cuidadosamente saltei a
cerca de madeira e caminhei em direção ao celeiro.
Escondia-me atrás de pequenas árvores ou de plantas.
Pisei em um monte de estrume, o que poderia indicar boa sorte segundo
algumas tradições supersticiosas.
O celeiro poderia ser quente e me
oferecer abrigo por uma noite. Seriam simpatizantes das minhas
crenças? Difícil saber. O mundo já não
era o mesmo e em prol da harmonia um código mundial de conduta
que fora adotado abandonando posições outrora
corriqueiras que foram consideradas subversivas – e esse era o
meu caso.
Ouvi o latido distante de cães.
Minhas pernas fracas e cansadas tremeram. Abaixei-me no meio do
pasto. Os animais, ao que pude observar, faziam alvoroço
quando um homem lançou-lhes comida. Apesar da distância
pude ver com nitidez. Um senhor alto e forte, na casa dos sessenta
anos, divertia-se com a algazarra que provocava chamando-os pelos
nomes. Arrastei-me pelo chão e fiquei quieto, deitado por
algumas horas até que tudo ficasse calmo e as luzes da casa
começassem a se apagar. Os cães ficaram na vizinhança
da residência. Aproveitando de lama, besuntei ao máximo
meu corpo para que o cheiro não se espalhasse pelo ar
alertando-os. Com dificuldade alcancei o celeiro. Entrei lentamente,
ainda deitado no chão, abrindo a enorme porta lentamente. Aos
poucos meus olhos se acostumaram com a escuridão. Percebi um
sótão e uma escada. Caminhei devagar e subi com cuidado
para não fazer barulho. Um amontoado de panos velhos e muitas
ferramentas, além de diversos engradados vazios se encontravam
espalhados. Deitei-me sobre os panos e fui vencido pelo cansaço.
Literalmente desmaiei.
Naquela noite tive o mais doce sonho
de minha vida. Via-me diante de uma interessada platéia em uma
assembléia iluminada por tons dourados. Todos os rostos
sorriam com minha pregação. A multidão aceitava
a doutrina e o meu verbo tinha a força e a influência
dos anos bons em que éramos aceitos por boa parte da
humanidade. Ao final da sessão as pessoas me abraçavam
e nos confraternizávamos. Fui acordado com uma forte luz sobre
a minha face. Percebi que um grupo de soldados, além do
fazendeiro, me cercava. Imediatamente lançaram sobre meu corpo
uma teia magnética que me imobilizou tolhendo os movimentos.
Uma sonda postou-se diante de mim projetando em terceira dimensão
a imagem em tamanho natural do juiz que me condenara:
-
Você tem a última chance de negar as suas crenças
e entrar em um programa permanente de reabilitação.
Você nega as suas crenças?
Eu tinha uma escolha: poderia
fingir que não acreditava, como muitos faziam por comodismo e
para ter uma vida boa e pálida, dentro de uma casa quente, com
comida na geladeira. Ao contrário, preferia morrer a abrir mão
da verdade. Reunindo forças, gritei do modo mais forte que
pude:
- Nunca, prefiro a eternidade do
cárcere a levar uma vida falsa e sem esperança.
O semblante do juiz ficou
carregado. Apontou-me o dedo e declarou:
- Levem esse cristão de
volta à sua cela.
Minha fuga não durara
muito, mas de uma coisa tive a certeza: de algum modo meu sacrifício
valeria a pena, assim todas aquelas mortes nas antigas arenas
romanas...
Fim
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