A CRIATURA DO MAR

Autor: Paulo Soriano

Criatura

Não sei como sobrevivi. Se é que sobrevivi verdadeiramente.

O Urano, um galeão de  bandeira grega, saíra do porto de Roterdã com destino às Antilhas, com escalas em Lisboa e nos Açores, mas foi surpreendido por uma tempestade,  a poucas milhas do arquipélago.  O dia estava claro e o ar diáfano. Respirava-se uma atmosfera luminosa e pura.  Mas, de repente, do nada veio uma neblina fria,  pegajosa em seus múltiplos tentáculos, que engolfou o galeão como a mão de um deus inclemente. E depois veio a chuva, uma chuva áspera, pesada, e contínua,   encontradiça apenas   nas regiões mais agrestes e desoladas dos trópicos. Então ribombaram trovões. Os raios retalharam a neblina como finíssimas garras nervosas.   Sentimos todo o casco estremecer, perfurado pelos gumes afiados dos arrecifes angulosos.   O casco rompeu-se docilmente, como se a sua substância fosse tênue como o invólucro de um ovo. A água jorrou por todos os lados e eu fui violentamente arremessado ao mar.  Embora fosse dia,  a névoa densa convolava  tudo em treva, e foi com muita sorte que consegui segurar-me a um barril de vinho em que um velho  companheiro já havia buscado refúgio.

A tempestade amainou, mas o ar continuava saturado  pela neblina fria.  O mar estava incrivelmente  calmo, e não nos era admitida a projeção de um olhar capaz de perfurar a espessura de toda aquela névoa.   Nada mais se enxergava.  Mas, de longe – muito longe, supúnhamos –,  o vento trazia uma canção melodiosa, cuja origem  nos parecia  um mistério tão espesso quanto o eram  as brumas circunstantes. Quando,  finalmente,  a treva se dissipou, tão inesperadamente quanto viera, eu e meu companheiro constatamos que não estávamos  sós.  Com horror,  verificamos, aos poucos,  que muitos corpos flutuavam no espelho d’água, bem próximos de nós. Eram marinheiros do Urano e todos eles traziam,  singularmente, as cabeças decepadas. Os corpos desolados exibiam  os pescoços cruelmente  dilacerados. E não nos    e era possível estimar a dimensão das mandíbulas  que produziram tamanha aberração.  

Anoitecia. Oh, como era linda a moça que vinha ao nosso encontro, em seu bote gracioso, para nos salvar!  Com que elegância  e delicadeza nos estendeu os braços brancos e majestosos!  Com que cuidado deu-nos água, vinho e pão!  Era ela  diáfana  como o orvalho da primavera e  longos eram os  seus negros cabelos, que a brisa enfunava com uma meiguice sem fim. Vestia uma túnica branca, como de deusa grega, que descia do colo e lhe escondia completamente os pés.

Quando a noite veio, repleta de luar,  a nossa salvadora acendeu o lume e nos cantou maviosamente, como nos cantaria uma sereia. Quando meu companheiro adormeceu, a musa chamou-me a si e me selou com um beijo calmo e profundo.   A princípio doce, saboroso, seivoso... Mas a  seiva azedou, ganhou  uma consistência de uma gosma, repugnante como o sabor de ostras apodrecidas. Nauseado, o meu companheiro despertou. Fora a  intensidade do cheiro pútrido, de criaturas marinhas  decompostas, que a mulher exalava, que o fizera acordar-se. A verdade é que eu queria me desvencilhar da criatura, mas não podia. Estava preso a ela como  ostras incrustadas nos cascos de  navios avoengos.   Então a coisa me repeliu. Avançou para o meu amigo, engendrando  um bote assustadoramente rápido e eficaz.  Seus olhos, que agora   eram dois imensos  globos de  azeviche, refletiram o grito inerme do  meu companheiro. E da fralda de sua túnica   escapuliu, pesadamente,   a cauda de peixe, a mesma cauda que ela  tão bem escondera de nós, mas que agora,  em sua  excitação, pôs-se a  abanar num ritmo frenético.   Percebi, na luninescência  que o candeeiro irradiava,  que a pele da  coisa se rompia,  rasgava-se em tiras, desnudando malhas de   escamas sobrepostas, fortemente unidas entre si, mas maleáveis, escuras e fétidas. Seu rosto  se fazia bojudo, opaco,  guarnecido de fortes e salientes mandíbulas,  encrespadas por dentes anavalhados.  Então aquilo distendeu assustadoramente  os maxilares, de onde escorria uma gosma pútrida; e, num assalto voraz, lacerou a cabeça de meu amigo. Horrorizado, vi que a coisa se punha a mastigar  e a engolir   ruidosamente,  com uma voracidade somente comparável ao  deleite  que o triturar do crânio lhe  produzia. 

Depois,  a coisa atirou-se ao mar. E, enquanto lentamente  se afastava, a Lua me permitia  ver  que  a sereia retomava, aos poucos,   do púbis para cima, a bela forma de mulher.

Novamente anoitece. A brumas vieram e agora se dissipam. Estou   trancafiado num  catre  de um pequeno barco pesqueiro. O mesmo que me recolheu,  há dois dias.  Julgam-me louco. Não me ouvem.  Mas,  como  eu gostaria de  gritar   aos homens  do bote salva-vidas – que consigo divisar  da escotilha esfumada desta cela imunda – para que  não  se aproximem  aquela  mulher. “Oh! – eu diria – Não socorram aquela coisa   de túnicas brancas e  cabelos negros! Oh,  não socorram o demônio cruel que, como um anjo indefeso,  clama por  socorro  em um bote à deriva!”

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