O DELIRIO DE RUI SILVA
Este conto é uma homenagem
ao maior génio da literatura de terror de sempre: Edgar Allan Poe.
Rui Silva pegava ao serviço
sempre bêbado nem um cacho.
Aparecia sempre meia
hora antes das oito da noite, que era a sua hora de entrada na biblioteca
municipal do Seixal. Não objectivava com isto qualquer representação
de zelo, ou encenar pretensiosamente algum brio profissional. Não.
Apenas pretendia ficar na tagarelice durante esse período com a sua
voluptuosa colega Raquel, que tanto o fascinava.
Tinha por ela uma obsessão
quase doentia, desde o primeiro dia em que ela lhe fora apresentada
como colega, ali na biblioteca. Embora Rui silva fosse um homem educado
e de bons costumes, não conseguia captar o interesse de Raquel, que
era uma jovem bela e com “tudo no sítio”, e que deixava de lhe
prestar atenção sempre que o tema de conversa se desviava para além
do “estritamente profissional”.
Silva vivia obcecado
com a ideia de a conquistar, mas ela já lhe tinha dado para trás umas
quantas vezes.
Naquela noite, ele conferiu
cuidadosamente os registos de entradas e saídas para confirmar que
todos os funcionários da biblioteca já tinham saído, e assim começar
por encerrar todas as portas do edifício, bem como accionar os alarmes
de intrusão na central. Curiosamente não tinha visto Raquel a sair,
mas não deu importância ao assunto.
O serviço nocturno era
longo, e tal obrigava-o a efectuar uma ronda pelo perímetro das instalações,
sempre de hora em hora. Teria que levar um pequeno aparelho portátil
que servia para ler as bandas magnéticas que se encontravam espalhadas
pelas diversas divisões da biblioteca. Esse aparelho debitava depois
o resultado das rondas efectuadas, depois de conectado a um computador.
Depois destas tarefas
executadas, ele aproveitava todo o tempo livre que tinha pela frente
para desenvolver algumas ideias que lhe ocorriam durante o dia, pois
tinha o sonho de se tornar escritor. Era um adepto incondicional do
género horror. Beneficiava de ter à sua disposição milhares e milhares
de livros para poder fazer todas as consultas que quisesse, sempre que
necessitasse. Mas era ao primeiro andar que ele gostava de ir, pois
a secção “horror” ficava nesse piso, e ali disponha de toda a
colecção dos maiores mestres da literatura do género, desde Poe a
Lovecraft, passando por Stephen King, ou até mesmo alguns mais recentes
como Henry Evaristo ou Paulo Soriano. Naquela noite decidiu ler um pouco,
antes de encetar a sua escrita, pois, mergulhar os olhos na literatura
daqueles mestres, servia para ele da mesma forma que um exercício de
aquecimento ajudava um atleta, antes de uma corrida de cem metros.
Seleccionou “Contos
extraordinários” de Edgar Allan Poe – o seu autor favorito. Trouxe
o livro consigo para a sua escrivaninha, local onde se situava o seu
posto de controlo.
Leu, leu e releu até
que algo o obrigou a interromper a leitura.
Um grito asfixiado e
desconforme irrompera do arquivo de economato. Levantou a cabeça num
sobressalto. Esperou em silêncio para se certificar que não tinha
sido fruto da sua imaginação, consequência das suas leituras obscuras.
Ergueu-se da cadeira
e dirigiu-se ao local de modo silencioso. Empurrou cuidadosamente a
porta do arquivo morto e foi surpreendido com uma luz ténue provinda
do interior da cave. Para além disso apercebeu-se da presença de alguém
lá em baixo, o que o fez descer as escadas de modo muito subtil. Quando
chegou ao último degrau deparou-se com um cenário de terror macabro
e devastador. Raquel estava morta, e um homem escondia o seu cadáver
por detrás de uma parede falsa que ele agora tapava, sobrepondo os
tijolos cuidadosamente.
Repentinamente, Rui Silva
despertou ensopado em suores frios.
“Meu Deus”, suspirou
ele aliviado. Tudo não passara de um pesadelo.
Dirigiu-se aos lavabos
e aspergiu a cara com água fria. Depois saiu e permaneceu quedo como
que a recobrar do susto que tivera. Aquilo não lhe podia voltar a acontecer.
Adormecer em serviço, valia-lhe um despedimento com justa causa, e
ele precisava daquele emprego.
Inesperadamente, voltou
a escutar um ruído estranho, e não teve outra alternativa, senão
ter de se dirigir ao arquivo morto, que ficava no piso inferior –
Pois era daquele local que o ruído se amplificava.
De lanterna em punho,
ele percorreu a biblioteca até ao extremo, até que encontrou a porta
que comunicava com a cave, onde se situava o arquivo. Era um local obscuro
e pouco iluminado. Sempre que executava as suas rondas, ele evitava
sempre de ir aquele local horrendo, conspurcado com baratas e teias
de aranhas medonhas.
Mas não lhe restavam
grandes dúvidas, o estrupido que escutara era abafado, parecia um arrojar
de tijolos de uma parede. Ele tinha de se certificar que estava tudo
bem. E concerteza estaria, mas ele queria continuar o seu turno em sossego;
regressar para a sua secretária e prosseguir com as suas leituras preferidas.
Ou talvez não...
Rodou a maçaneta da
porta com cuidado e apontou a lanterna para diante. O que ele viu, lembrou-lhe
um túmulo. Rui Silva tinha por habito gabar-se que nunca tinha medo
de nada. Pois tinha cumprido serviço militar nos comandos, e isso servia-lhe
para se enaltecer diante dos colegas, e de Raquel, obviamente. Costumava
encetar longos monólogos quando contava as suas façanhas, naquela
unidade especial do exército. Mas agora de nada lhe servia tal experiência,
pois aquele local assolava-lhe a alma e arrepiava-lhe os ossos, pronto!
Permaneceu imóvel, tentando
decifrar algum estampido ou fragor, digno de o impelir a descer aqueles
degraus nefastos que o conduziam para um recanto, do qual ele não estava
de maneira nenhuma interessado em ir. Dirigiu a mão direita ao blusão
e libertou uma pequena garrafa onde guardava 30 cl de “Scotch” Old
Parr. Deu um trago demorado e voltou a guardar a botelhazita no bolso.
Arrebatado pelo momento, reuniu coragem antes de começar a descer ao
subterrâneo. Suores frios começaram a desprender-se dos poros do seu
coro cabeludo, que já dispunha de escassos filamentos de cabelo. Limpou-o
com a mão e começou a progredir. Lembrou-se que havia por ali um interruptor
de luz, mas não deu com ele. Devia estar tapado com pastas de arquivo,
como sempre. Tentou usar a lanterna para obter alguma luminosidade,
mas atrapalhou-se ao tentar ligá-la e acabou por dar um passo em falso.
Ao querer segurar-se, sentiu que algo felpudo lhe passara por entre
as pernas, fazendo-o tropeçar e descambar dolorosamente pelas escadas
abaixo.
Quando recobrou dos sentidos,
percebeu que a lanterna estava fortuitamente ligada, provavelmente devido
à queda que dera. Mas a luz que ela emitiu, para alem de ser débil,
mostrou-lhe algo que o fez brotar de pavor. Um gato preto de ar selvagem
assanhava-se para ele com o pelo todo eriçado.
Rui encolheu-se completamente
amedrontado, e mais apavorado ainda ficou quando viu que o gato tinha
uma orbita vazia e que o fitava ameaçadoramente apenas com um olho
cintilante.
Silva pegou na lanterna,
que era grande e maciça e lançou-a contra o monstro que o intimidava.
Este deu um pulo e desapareceu por entre as estantes empoeiradas.
O segurança deu mais
um trago no seu Scotch.
Recompôs-se do susto,
concluiu a ronda ao local e voltou a subir os degraus para o piso superior.
Mas ao virar-se, um tremor horrendo subiu-lhe pela garganta acima que
o deixou paralisado de medo. Uma figura hedionda esperava-o no alto
das escadas. Não lhe conseguia ver as feições, mas assemelhava-se
e muito à pessoa que ele vira no seu pesadelo. Silva apenas descortinava
o delineamento de uma silhueta que contrastava com as débeis luzes
de presença da biblioteca. Tentou apontar-lhe a lanterna, mas esta
teimosamente voltou a não funcionar. O vigilante deu por si a entrar
em pânico. A figura detinha-se imóvel, obstruindo a saída para a
biblioteca.
- Quem é você? –
Interrogou Silva, não conseguindo disfarçar o nervosismo na sua voz.
- Procuro pelo Plutão,
você viu-o?... – Rosnou o ser numa voz cruel e soturna.
- Quem é o Plutão...O
que você quer de mim? – Indagou Silva.
- Já lhe disse que
procuro pelo Plutão. Eu sei que ele se encafuou aqui, o maldito. Espero
que você não tenha nada a ver com o desaparecimento dele, senão racho-lhe
a cabeça como fiz...
- Eu não sei do que
está a falar, senhor. – Ao terminar a frase, Silva apenas viu a figura
dirigir-se a ele e desferir-lhe um golpe severo no estômago, que o
fez voltar a cair pelas escadas abaixo, perdendo os sentidos.
Quando voltou a abrir
os olhos, Silva percebeu que se encontrava no mesmo local onde tinha
sido agredido. Sangrava de uma das têmporas devido a queda que dera
das escadas. Ergueu-se e notou que a porta que comunicava com a biblioteca
ficara aberta. O intruso parecia já ter desaparecido. Subiu as escadas
e dirigiu-se para a sua secretaria, pois era lá que se encontrava o
telefone. Ia dar parte do sucedido às autoridades.
Pegou no auscultador
e preparou-se para digitar o número da esquadra, mas de imediato percebeu
que não tinha linha para o exterior. «Merda, o cabrão cortou a linha
telefónica”, resmungou Silva. Procurou pelo seu telemóvel, mas logo
deu conta que não o tinha – O intruso deveria tê-lo furtado do seu
bolso.
Olhou para o relógio
e viu que já eram quase sete da manhã. Raquel devia estar a aparecer
para o render. Nessa altura, ela asseguraria o serviço e ele dirigia-se
à esquadra da polícia da zona, onde apresentava queixa do sucedido.
O cérebro de Silva quase
explodia de tanta exaltação e nervosismo. «Quem seria o Plutão que
o intruso tão desesperadamente procurava? Seria o maldito gato?»
O relógio da biblioteca
bateu as oito da manhã e logo começaram a aparecer os primeiros funcionários,
que foram dando as suas entradas. Alguns perguntaram por Raquel, pois
estavam acostumados a vê-la ali aquela hora.
Quando Silva percebeu
que Raquel não ia comparecer ao serviço para o render, decidiu pedir
o telemóvel a uma das funcionárias da biblioteca e deu conhecimento
da ausência desta à central da sua firma.
Uma hora depois, Silva
foi rendido por um outro segurança que fora enviado pela central. Confuso
e cansado, decidiu meter-se na cama em vez de ir à esquadra da polícia,
local onde só perde tempo e não se resolve nada.
*
Por volta das dezanove
e trinta e cinco, Silva apresentou-se de novo na biblioteca para iniciar
o serviço. Voltara a comparecer com a antecedência do costume, pois
estava convencido que ia encontrar Raquel no posto. Mas enganou-se.
Não era Raquel, aquele devaneio de mulher, que estava ao serviço,
mas sim o mesmo colega que o tinha rendido naquela manhã. Silva estranhou
aquela ausência inexplicável e invulgar de Raquel.
Recebeu o serviço do
colega, e logo se viu sozinho entre as sombras que se abateram na biblioteca,
provindas das longas estantes abastadas de livros e enciclopédias.
Silva dirigiu-se a uma
das caixas de incêndio e retirou de o machado que lá se encontrava.
Reparou com estranheza, que a caixa se encontrava com o vidro partido
e que o dito machado se encontrava sujo de sangue. Este incidente seria
assunto de um relatório que ele elaboraria mais tarde. A partir de
agora, faria todas as rondas com aquela arma. Se o ente estranho voltasse
a aparecer, não hesitaria em rachar-lhe a cabeça, pois alegaria sempre
“legitima defesa”.
Fez a primeira ronda
por volta das onze horas da noite. Antes tinha encerrado as portas da
rua. Tinha ligado todos os alarmes de intrusão. Vasculhou a preceito
todos os cantinhos da biblioteca para ter a certeza que não ficara
ninguém escondido no interior do edifício.
Ao fim de uma hora tinha
concluído a ronda sem qualquer sobressalto.
Voltara a trazer consigo
o livro de Edgar Poe, pois na noite anterior não tinha conseguido acabar
de o ler. Acabava o capítulo onde estava e depois dedicar-se-ia à
sua escrita, pois também estava prestes a concluir um conto de terror.
Escutou um ruído estranho
e sobressaltou-se. O som provinha de novo do arquivo de economato –
lá da maldita cave escura. O seu coração começou a bater descompassadamente.
Imaginou o maldito gato a atirar com os dossiers para o chão, a tentar
caçar algum rato. Teria de apanhar aquele bicho zarolho e metê-lo
dali para fora, mas desta vez estaria também preparado para enfrentar
aquele indivíduo macabro, caso ele aparecesse.
Pegou no seu machado
e dirigiu-se de novo até ao arquivo. Abriu cautelosamente a porta e
espreitou para o interior. Permaneceu imóvel, como que à espera de
algo mais. Não aconteceu nada.
Regressou para a sua
secretária, colocou o machado no chão, junto a seus pés e recostou-se
na cadeira almofadada. Sentia-se nervoso e acabou por enfiar três calmantes
no bucho, que ingeriu acompanhados com Scotch. Vinte minutos depois
estava ferrado a dormir.
Acordou em sobressalto.
Batiam poderosamente na porta principal.
“Outro pesadelo”,
pensou. Mas as batidas continuaram. Silva deu um salto e levantou-se
para ir ver o que se passava. Quando lá chegou, reparou através da
porta envidraçada, que era a policia quem ingressava pelo edifício
dentro.
- Boa noite, senhores
agentes. Em que posso ajudá-los? – Inquiriu Silva.
- Temos uma denúncia
– Disse o comissário com um ar carrancudo.
- Uma denuncia, senhor
comissário?
- Sim - respondeu aquele,
colocando um par de algemas em redor dos punhos do segurança. – Revistem
tudo!
-Posso saber o que se
passa? – Perguntou Silva, em sobressalto.
- Você é suspeito do
desaparecimento da sua colega Raquel. Onde está ela?
Silva não conseguiu
responder com a estupefacção.
Repentinamente, um dos
guardas apareceu com o machado de Silva cheio de sangue.
- Senhor comissário.
Encontrámos isto junto aos pertences dele.
- Quer-nos dizer onde
esconde o corpo de Raquel ou não, senhor Silva?
- Eu não sei do que
está a falar. O que eu lhe posso dizer é que fui assaltado ontem durante
a noite... O tipo até me agrediu!
- Onde foi que isso aconteceu,
senhor Silva? – Questionou o comissário.
- Lá em baixo na cave.
- Leve-nos até lá,
por favor.
Rui Silva guiou o comissário
e a restante brigada até à cave, onde os acontecimentos tinham ocorrido
na noite passada.
Quando lá chegaram,
os agentes sondaram o local.
- Foi aqui que foi agredido,
Senhor Silva? – Insistiu o comissário.
Repentinamente escutou-se
um breve miar. Depois, outro. Todos ficaram quedos e em silêncio a
tentar decifrar de onde vinha tal gemido.
O comissário percebeu
que o ruído provinha de trás de uma extensa estante que estava encostada
à parede. Deu ordens aos guardas para a remover. Os gemidos felinos
agudizaram-se. Por fim, deram com aquilo que lhes pareceu ser uma parede
falsa, pois o cimento ainda estava fresco e descobriam-se partes em
que se viam fissuras intercaladas por tijolos mal assentados.
Os agentes muniram-se
de marretas e picaretas e começaram a deitar a parede a baixo. Quando
já lhe derrubavam os últimos tijolos, viram com terror o corpo de
Raquel, já cadáver, abandonado dentro daquele túmulo macabramente
construído. Um tremor trepou pelo corpo de Silva – Raquel estava
ali, morta e abandonada, tal e qual como a vira no seu pesadelo!
Tinha o crânio aberto
em duas metades como se fosse uma melancia.
Inesperadamente, de dentro
do túmulo, saltou um gato preto e felpudo que os fitou com o único
olho que se vislumbrava no seu focinho pavoroso. Depois fugiu assanhado.
- Senhor Rui Silva, você
está preso pelo homicidio da sua colega, Raquel.
- Eu? Meu deus, por favor.
Estou inocente.
*
Rui Silva foi detido
e colocado sob prisão preventiva numa cela das instalações da Policia
Judiciaria de Lisboa. Já tinha sido ouvido por um Juiz que o acusou
de homicidio e ocultação de cadáver. Curiosamente, Rui Silva não
compreendia como isto lhe podia estar a acontecer. Ele não se recordava
de ter matado ninguém, muito menos a sua coleguinha, a linda Raquel,
por quem ele sempre esteve apaixonado...
Algo estava mal explicado.
Ele achava-se inocente. Ainda referiu ao juiz que havia um indivíduo
estranho às instalações que o tinha agredido na noite anterior, e
que possivelmente seria ele o assassino de Raquel, mas nem polícia,
nem o juiz lhe deram qualquer crédito, pois não havia qualquer indício
da presença de tal pessoa nas instalações. Rui Silva encontrava-se
num beco sem saída.
Repentinamente reparou
que tinha um companheiro de cela que olhava para ele de um modo misericordioso.
Era um indivíduo de meia-idade, esguio de figura. Usava bigode e tinha
um ar malvado.
- Tens um cigarro? –
Requereu o sujeito.
- Não, eu não fumo
– Retorquiu Rui Silva.
- Pena...
- Porque estás preso?
– Questionou Rui Silva.
- Queres mesmo saber?
- Sim, tenho curiosidade...
- Muito bem. – Disse
o outro recluso – Sou horrivelmente nervoso. Mas porque dirás que
sou louco?... A doença agudizou os meus sentidos, não os destruiu,
não os entorpeceu. O mais apurado de todos os sentidos foi a audição.
Escuta! E observa com que sobriedade, com que calma eu te posso contar
a historia toda. A ideia penetrou no meu cérebro e perseguiu-me dia
e noite. Eu não tinha móbil algum.... Eu adorava o velho. Ele nunca
me prejudicara. Ele nunca me tinha insultado. Eu não cobiçava o ouro
dele. Acho que foi o olho dele. Sim, era isso! Ele tinha o olho de um
abutre, um pálido olho azul com uma película por cima!...
Que deus tenha piedade
da pobre alma de Rui Silva.
FIM