A
primeira sensação de Ernesto foi agradável. Sentiu que estava deitado
sobre alguma coisa macia e sedosa, como cetim. No instante seguinte,
porém, um cheiro horrível atingiu-lhe as narinas. Abriu os olhos e
percebeu que estava em meio à mais profunda escuridão. Tentou erguer
as mãos, que repousavam sobre seu peito, e descobriu que, alguns centímetros
acima de seu corpo, havia uma prancha de madeira, também acolchoada
com cetim, que o enclausurava. Mal conseguia mover as pernas. Deslizou
os dedos para os lados, tocando em mais cetim, e descobriu que havia
uma substância gordurosa que impregnava o tecido. E começou a sentir-se
sufocado, como se o ar do ambiente restrito em que se encontrava se
estivesse consumindo por sua respiração angustiada, sem que alguma
lufada de vento viesse renová-lo.
Lembrou-se,
então, da forte tontura que o fizera perder os sentidos. Então, já
em pânico, adivinhou o que acontecera depois. Havia sido dado como
morto e enterrado na gaveta do cemitério vertical que, já há algum
tempo, comprara, para que fosse seu túmulo. Aterrorizado, tentou levantar
a tampa do caixão. Teve a sensação de movê-la um milímetro, e o
cheiro de carne podre tornou-se ainda mais intenso, porém sentiu que
as alças fechadas do ataúde o impediriam de abri-lo. Desesperado,
começou a bater na tampa com todas as suas forças, enquanto gritava:
Socorro! Socorro, por favor! Alguém me ajude!
De
repente, ouviu uma voz de homem:
Tem alguém aí dentro?
Tem, sim! gritou. Socorro, por favor! Eu estou vivo! Fui enterrado
vivo!...
Calma respondeu a voz. Por favor, fique quieto e poupe seu ar.
Vou chamar alguém para tirá-lo daí.
Tire-me você daqui, por favor! O cimento ainda deve estar fresco!
Não posso.
Por que não pode?
Porque sou aleijado. Mas fique calmo que vou procurar ajuda. Não grite
e tente respirar devagar.
Ernesto
sentiu o suor que lhe cobria o rosto e encharcava o cetim da cobertura
interna do caixão. Procurou controlar os nervos. Pelo menos, alguém
o tinha ouvido, o que já era uma grande coisa. Todavia, o homem que
fora buscar ajuda começou a demorar. O ar imundo estava cada vez mais
pesado, e ele começou a amaldiçoar o momento em que comprara um túmulo
tão barato. Por outro lado, se estivesse enterrado no chão, provavelmente
seus gritos não teriam sido ouvidos, ou, quando a ajuda chegasse, já
seria tarde...
Então,
começaram a vir-lhe à mente, como que num filme, todas as cenas de
sua vida. Primeiro, os momentos agradáveis. Depois, seus erros, suas
falhas de caráter, seus pecados de juventude. À medida que o socorro
demorava, sentia-se cada vez mais angustiado. Não tinha um bom relacionamento
com a esposa e com os filhos, o que provavelmente fora decisivo para
resolverem enterrá-lo o mais rápido possível. Mas, caramba, e a precipitação
do médico? Com certeza iria processá-lo assim que se visse fora daquele
túmulo horrível. Já se antevia tirando-lhe um bom dinheiro. Mas a
demora do socorro começou a deixá-lo ainda mais aflito. De repente,
num ímpeto, gritou de novo:
Socorro! Tem alguém aí?...
Calma respondeu a mesma voz de antes. Eu estou aqui. Não grite.
Mas e você não foi buscar ajuda, homem? desesperou-se Ernesto.
Não consegui encontrar o coveiro, mas encontrei um menino e pedi que
ele o procurasse.
Caramba, eu estou sufocando aqui dentro! Vá procurar o coveiro você
também!
Está bem respondeu ele. Mas é mais provável que o garoto
o encontre, porque eu me locomovo muito, muito devagar.
Ernesto
respirou profundamente. O ar estava extremamente pesado e nauseabundo.
Súbito, ele se deu conta de que a substância oleosa que escorrera
para dentro de seu caixão devia ser a gordura do cadáver que estava
na gaveta acima da sua, e sentiu uma náusea violenta. Virou o rosto
para o lado, tentando desesperadamente não se afogar no vômito que
empapou o cetim e grudou-se, quente, em seu rosto e em seus cabelos.
Tossiu um pouco e lembrou-se de que deveria manter a calma, não gritar,
não respirar muito. Manter a calma. Aquelas palavras martelavam em
sua mente. Manter a calma... Não entrar em pânico...
Então,
lembrou-se daquele episódio em sua juventude, no qual não conseguira
manter a calma e o pânico o fizera simplesmente fugir.
Vinha
dirigindo, num carro esporte, meio bêbado. Dera uma tragada no cigarro
e levara aos lábios a garrafa de uísque. Então, sentira o impacto.
Perdera o controle do veículo, até que conseguira frear, assustado.
Num primeiro momento, tentara acreditar que havia atropelado um cão.
Mas se atrevera a olhar pelo espelho retrovisor e percebera, horrorizado,
que um corpo humano jazia no meio do asfalto. Então, tomara mais um
gole de uísque, atirara a garrafa vazia pela janela e fugira, sem socorrer
a vítima...
Nunca
soubera o que acontecera ao homem que havia atropelado. Sempre tentara
se convencer de que não tinha chegado a morrer. Mas, pela quantidade
de sangue que vira no retrovisor, e pela forma como percebera que os
membros do infeliz haviam ficado retorcidos, sabia que ele deveria ter
ficado no mínimo aleijado...
Subitamente,
a voz do homem diante do túmulo interrompeu seus pensamentos:
Você ainda está vivo?
Sim! gritou Ernesto, já quase sem ar. Você já trouxe ajuda?
Seguiu-se
um breve silêncio, que a Ernesto pareceu uma eternidade.
Agora, você pode gritar o quanto quiser disse o homem.
O quê?
Agora, você pode gritar à vontade. Já consegui mantê-lo quieto por
todo o tempo de que precisava. Agora, já anoiteceu, o cemitério já
fechou e o coveiro já foi embora. Todas as pessoas que poderiam ouvi-lo
e ajudá-lo já se foram, Seu Ernesto...
De
repente, Ernesto compreendeu o que estava acontecendo.
Então,
enquanto o homem aleijado se afastava lentamente, apoiando-se na única
perna que lhe restava e nas muletas que fixava sob os tocos do que já
tinham sido seus braços, Ernesto gritou, com todas as forças, até
que o ar e a voz definitivamente lhe faltaram...
AGOSTO DE 2007
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Nota: esta
é uma obra de ficção, que não retrata necessariamente minhas crenças,
idéias ou opiniões; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais
terá sido mera coincidência.