Diário de Bordo
– Missão 00589
Por Tainá O. Kind
Preferia a companhia
de retratos e esculturas, mas estava condenado a conviver com gente
de carne e osso.
02/03/1987, 03:07h
- Embarcamos todos. Johnny faz a inspeção final, medo dos turcos sabotadores.
Paul e Lydon na sala de mantimentos, descarregando. Madrugada fria,
capitão Dudde está sob efeito de cafeína. Sairemos às 03:30h, se
tudo estiver como Deus quer. Não sei o que nos espera no mar. Medo
dos ingleses.
--- 03:43h - Puxamos
âncora. Capitão inexperiente Dudde teme o mar, não mais os ingleses.
Madrugada fria, mar agitado. Turcos nada aprontaram, Johnny transmite
sinais à base.
--- 03:57h - Mar muito
agitado. Entraremos em modo segurança - FJ78 - Muitos códigos, não
consigo decorar. Paul me ajuda, Dudde inexperiente. Comentários sobre
minha capacidade, sempre vindos de Johnny e Lydon que conversam na sala
de transmissão.
--- 04:25h - Ingleses
não são mais problemas, segundo Johnny. Lydon já dorme, Dudde ainda
tem cafeína nas veias. Paul guia-nos até mesmo de olhos fechados.
Manhã fria, 15 graus abaixo de zero. FJ78, mar agitado. Preciso decorar
todos os códigos.
--- 05:37h - Peço
para que Paul guie sozinho, mal estar. Lydon comenta algo, ignoro-o.
Johnny não é o capitão, mas age como. Lendo Julio Verne.
--- 05:38h - Esqueci
de registrar: a arrumação das bagagens está péssima, não encontro
Conan Doyle.
--- 07:21h - Paul nota
algo estranho no mar. Alerta, embarcação não identificada - FK12
- temo os ingleses. Lydon preocupa-se com a vela. Johnny recebe informações,
parece tenso. Clima nublado lá fora e aqui dentro.
--- 07:27h- Tudo esclarecido,
não são ingleses. A base informa que é um cruzeiro, os burgueses
nos assustaram. Clima nublado aqui dentro.
--- 08:02h - Poucos
tripulantes ao mar, quatro no total. Lydon comenta insatisfação com
a missão. Johnny preocupa-se com o silêncio, é o mais hostil dos
três. Dudde assume, Lydon está lá fora, parou de chover. Johnny abraça
o mapa da missão.
--- 08:59h - Dudde
inexperiente se orgulha, ainda no comando. Capitão daqui a uns minutos
irá para sala de transmissão. Paul e Lydon trabalham duro lá fora.
Johnny hostil e estudioso.
--- 09:58 h- Tempo
muda contra. Aviso dos franceses: sinal verde. Dentro de algumas horas
vamos ancorar, se assim quiser Deus. Até agora nenhum sinistro.
--- 10:01h - Nota cômica:
Paul zomba do meu apego pelo diário. Surpreende-se com a quantidade
exagerada de registros e de detalhes. Segundo Lydon esse é o 'Diário
de Dudde'. Volto a ler Verne, ainda não encontro Doyle.
--- 12:15h- Alívio,
Sol tenta aparecer mais que as nuvens. Em alguns minutos iremos ancorar.
Terminei Verne, Paul descansa. Johnny encontra Sir Arthur Conan Doyle,
fico grato. Johnny se interessa por Julio Verne, empresto-o. Paul expressa
saudades de Màrrie.
--- 12:27h - Não há
mais motivo para escrever, os sentidos cuidarão de registar cada detalhe.
Fecho o Diário.
Papai não me entende
e nem ao menos sabe minha idade. Certa vez me chamou de 'maricas' por
ouvir Guillaume Dufay. Ele acha que música clássica é tudo igual,
tolo! Capitão Jones tem o doce desejo de ver seu filho homem crescer
dentro do exército, seu filho homem sou eu. Nunca fui nacionalista,
mas em todo jantar que ele oferecera aos amigos disse a frase decorada
desde os meus 6 anos: "Nosso país só estará saudável e pronto
para disparar tecnologicamente quando o Estado se livrar dos embriagados,
dos amantes da anarquia e da imoralidade religiosa". Aprendi o
que é moral religiosa enquanto o padre Christian me tocava, no meio
da tarde, três vezes por semana. "Esse é o nosso segredinho",
ele falava. Estava farto de manter segredos com tal pessoa.
Não tinha mais mãe,
morreu de desgosto... ou de câncer, não sei ao certo. Mamãe era linda,
baseando-me nos retratos que papai fazia questão de esconder de mim
e de si. Uma vez, em vida, vovô me contou que o temido Capitão em
outras primaveras fora um homem apaixonado e gentil. Baseando-me no
tratamento que recebia daquele jovem de meia-idade, que gostava de ser
tratado por "sim, senhor", custo ainda a acreditar.
Vovô me dizia muitas
coisas em vida, porém foi em morte que ele passou a ter mais o que
falar. Me contava das sensações do outro lado, ria dos mortais (incluindo-me),
zombava quando alguém me pegava conversando com ele. Nenhum amigo me
dava crédito e eu não esperava diferente, ninguém crê que mortos
não somem sem mais nem menos.
Perguntava ao meu avô
porque mamãe não aparecia com ele, nem nas noites em que meus olhos
viravam rios, nem nas tardes em que Christian queria contar-me segredos.
Vovô ria, ria, ria...
Às vezes eu pensava
que mamãe não estava morta. Isso me atormentava.
Partilhava com Steve
Tallis, meu mais querido e único amigo, minhas idéias e planos infalíveis.
Tivemos a vez do gato voador, da bomba de cheiro e da comida espacial.
Sangue, suspensões e internações foram conseqüências naturais,
mas era tudo por uma boa causa...
Em 1975 eu tinha 12
anos e Steve ainda era meu ciclo de amizades. Foi naquele ano, no mês
de Agosto, que matamos aula para ir à feira do livro - nos disseram
que dessa vez teriam amostra grátis de Doctor Machine, o melhor personagem
futurista já criado - e lá encontramos um livro de capa preta, com
fotos sobre morte. "Sinistro", disse Steve. Concordei somente
para que ele se calasse, adorava aquilo tudo.
Voltando para casa,
comentávamos sobre o falecimento de Thomas Hart Benton, o que os meninos
da escola haviam perdido e, é claro, elaborávamos nosso mais novo
plano infalível.
"Vai ser bom"
foi a última coisa que ouvi Steve dizer. Uma bala vinda do outro lado
da rua acertou a cabeça de meu estimado amigo. Ele, então, caiu ao
meu lado.
- Assaltos a essa hora?
Foi a única coisa que pude dizer.
A culpa tinha sido
minha. Minha e de nossa irresponsabilidade. Somos, ou melhor, éramos
duas crianças, agora resta apenas uma. Os pais dele vão querer comer-me
vivo, sei que vão! Devem estar me odiando. Os professores, os outros
amigos de Steve... todos devem estar me odiando!
Era nisso que meu pai
me fez acreditar. Professava palavras duras e me agredia, física e
psicologicamente. Contudo, o castigo não foi pior do que os sentenciados
quando eu quebrava algum copo da casa: um mês sem isso, duas semanas
sem aquilo outro, hoje eu fico sem sei lá o que... e Steve? Por quanto
tempo fico sem Steve?
A resposta que eu mais
temia ouvir era "Para sempre".
Em 1987 eu tinha 23
anos, acabei de concluir o curso de espionagem oferecido pelo exército.
Fui mandado para a primeira missão, tão vil e barata que provocava
risos.
- Dudde Philipp Jones,
7853215, missão número 00589. Apresentando-me.
- Missão quinhentos
e oitenta e nove, missão quinhentos e oitenta e nove... ora! Vai procurar
equipamentos ingleses perdidos? Tome cuidado com o bicho-papão, hein,
amigão! Hahaha!
O gordo fiscal que
não fiscalizava coisa alguma ria balançando a pança, nojento. Sua
ironia, distribuída entre nós, novatos, me enojava.
- Sim, obrigado.
Na noite anterior à
minha viagem, jantei com papai. Ele olhava somente para o prato e comia
rápido, sinal claro de que estava muito orgulhoso de mim. Quando estava
bravo, mastigava lentamente, seu olhar se fixava ao saleiro à sua frente
e mexia o pescoço num tranco rápido, para o lado. Eu havia criado
técnicas para decifrar as "emoções" do meu velho, já que
seu rosto não ajudava.
- Você irá bem cedo!
Trovejou. Deve ser o primeiro a estar lá, seja um exemplo nessa missão.
Eles dizem que querem os equipamentos dos ingleses... porque são modernos,
porque querem estudá-los, mentira! Essa missão é estúpida, mas já
é alguma coisa. Não quero você por aqui, com essas merdas na cabeça.
Tão grande e não me deu netos! Fica a tarde toda no quarto... cansei
de tentar descobrir a graça que tem! Você carrega meu sobrenome, chegue
cedo no porto, pegue aqueles equipamentos e faça outros levantamentos
importantes. Seja o melhor da tripulação! É uma ordem!
- Sim, talvez eu nem
durma. Eu gosto de livros, papai. No quarto eu posso ler sossegado,
pensar sossegado...
- Livros! Doutor Edward
me disse que a morte de Steve te afetou muito, e por isso você é assim.
Por Deus, isso foi há 9 anos!
- 11, pai.
- Que seja! Não vai
se recuperar nunca, seu fraco? Todos sabem que você é muito recluso.
Tive que pedir pessoalmente para que seu Superior lhe incluísse em
alguma missão, senão você ficaria atrás de uma mesa.
- Seria preferível...
Resmunguei.
- Como?
- Nada. Vou para o
quarto.
- Dia desses ponho
fogo nesse quarto!
E no quarto, como de
costume, não dormi. Peguei um livro velho do mais velho ainda Nietzsche.
"Não faz bem pra você, só agrava seu quadro", dizia Doutor
Edward, o médico da família, a respeito de Nietzsche. Desisti e me
joguei de costas na cama, que ainda estava arrumada, esperando Steve
dar o ar da graça. Enquanto esperava algum amigo para celebrar meu
aniversário - já havia passado da meia-noite, parabéns para mim -
imaginava, como de costume nessas datas, pra onde mamãe teria ido.
E antes que eu pudesse
pensar em qualquer outra coisa, uma pedra acertou minha janela, fazendo
de conta que ia quebrá-la. Era Paul C. Kennedy, meu colega de turma
e de missão. Ele se orgulhava de ter Kennedy no nome, ele sim desejava
servir ao país. Eu não entendia como um jovem tão agradável nos
traços, nos modos e com gosto tão refinado para artes poderia se encantar
por armas e patentes. Capitão Jones já dormia no sofá depois de alguns
goles de vodka (sempre foi fraco pra bebida) e pude sair sem problemas.
Chegando na porta de
entrada, onde Paul me aguardava, notei que um patinete decorava a varanda.
- Ora, ora, ora!, se
não é a Bela Adormecida. O que fazia já tão cedo no quarto? Venha,
vamos nos despedir da terra firme!
- Psiiu! Fale baixo!
Estava bebendo sem mim, sim? Pois me explique o que esse patinete faz
aqui.
- Seu presente de aniversário,
ou achou que EU tivesse esquecido? "HAPPY BHIRTDAY TO YOUUUU...
HA..."
- Psiuuuuu! Sim, sim,
obrigado! Ganhar um patinete sempre foi meu sonho.
- Sei que mente. Tem
mentira no seu olhar. Odiou o presente, mas é de coração. Roubei
de minha irmãzinha por você, meu nobre colega. Agora me recompense
e venha beber comigo.
- Temos que estar cedo
no porto, e agora está marcando 00:52. É melhor irmos repousar.
- Quê? Venha, essa
desfeita você não me faz. E Paul me puxou pelo braço, deixando cair
patinete, um vaso de planta e resquícios de sua dignidade - Estive
pensando... de que vale tudo sem uma boa puta?
- O que esperas dessa
viagem? Cortei Paul antes que ele se animasse com a idéia das putas.
- Espero ganhar algum
discurso quando voltar. E espero que Màrrie veja que sou eu o homem
de sua vida, e que se case comigo.
- Digo... o que espera
encontrar lá? Já pensou que aquele lado da França foi cenário de
vários filmes de suspense?
- Lá vem você com
isso. Me assusta, sabia? Nessa rua vazia, noite fria, os olhos e ouvidos
estão longe e desatentos. Te dei um patinete, não me faça nenhum
mal!
- Que bobagem! Só
digo isso pois penso muito no que a missão tem a me oferecer, será
um enriquecimento cultural.
- Se seu pai te escuta,
deserda-te. Maricas!
- Em outros tempos,
você havia me contado de seus desejos recolhidos. Hipócrita!
- Màrrie é linda,
e eu a amo.
- Não duvido.
Seguimos calados por
mais alguns minutos, até que Paul largou a garrafa num movimento brusco
seguido de um grito de horror. Toda a cena tinha sido por conta de um
negro bichano que passara. "Não é bom sinal, não trará sorte
para a viagem" disse ele enquanto eu ria, de soluçar, assistindo
ao seu pálido rosto com uma careta de pavor.
Não tivemos mais clima
para coisa alguma; quando bebia, Paul ficava sensível, sincero, medroso...
Voltamos, eu para minha casa, ele para o bar, julgando que lá estaria
mais seguro.
Foi o tempo de preparar
uma xícara de café e bebê-la para o relógio marcar 02:00. Era hora
de me preparar para a missão 00589. Papai tinha despertado com o barulho
que fiz na cozinha, eu não contava que ele fosse se despedir. Saí
antes de tudo, me prevenindo de qualquer sermão relativo ao meu atraso.
Andei até o centro, onde peguei um táxi. No caminho, enquanto admirava
os mendigos e ratos da cidade, sentia por Steve não ter aparecido e
ria silenciosamente das coisas que vovô havia me dito sobre esse estranho
novo amigo.
- Será que, por Paul
ser uma agradável companhia, Steve não se sente mais necessário?
Talvez a resposta do
jovem Tallis tenha sido não aparecer mais no mundo dos vivos para mim.
No porto, a pequena
tripulação se reunia: Dudde Philipp, nomeado capitão; Johnny Norton,
responsável pela comunicação com a base; Paul Caster, quem nos manteria
vivos e na direção correta; Lydon Buston, o auxiliar de todos nós.
Nas aulas de decodificação
do curso de espionagem eu já havia notado a hostilidade de Johnny.
Atribuía sua antipatia ao episódio ocorrido na aula de química, quando
eu e meu grupo deixamos a experiência dele com metal e cloreto de sódio
no chinelo. Afinal, não era motivo: aquela experiência havia sido
mesmo péssima! Podiam chamar-me de anti-social, mas eu era bom em química,
física e decodificação.
Entrando no navio,
cada um se ocupou de cada coisa. Um caderno sem capa estava disposto
sobre a mesa da cabine, seria nosso diário de bordo.
- Houve um erro. Essa
não é a ilha em que estão os equipamentos dos malditos ingleses.
Vamos ter que voltar. Paul, contate a base. Urgente!
A esse aviso, Paul
correu para o barco, enquanto Lydon trazia a boa nova. Nós (a tripulação
perdida) tínhamos o cenário perfeito para o pânico: estávamos em
uma ilha desconhecida e a mecânica do barco havia quebrado.
- Mas acalmem-se, não
há de ser nada. Um reparo rápido e tudo estará nos trinques.
Ele próprio não parecia
crer no que disse, isso me excitava. Não ocorria o mesmo aos outros...
Johnny cada vez mais irritado e Paul cada vez mais apavorado...
Depois da trigésima
sexta tentativa, Paul desistiu de se comunicar com a base. Estávamos
agora sem contato com o outro mundo. Lydon chegou a conclusão de que
o problema na mecânica era grave.
- Essa embarcação
é velha e não tem manutenção há séculos! Entregaram qualquer coisa
em nossas mãos, estão fazendo pouco de nós! E aí, meu rapaz, conseguiu
falar com a base? Perguntou, se voltando para John.
- Não, não sou seu
rapaz. E não, não temos sinal. Respondeu sem desviar os olhos do aparelho
de comunicação.
Como capitão eu deveria
tomar alguma providência. Sem demora, convoquei meus homens.
- Companheiros, a situação
é complicada...
- Corta essa, Dudde!
A engrenagem do motor não consegue compreender você.
- Permita-me concluir,
Paul. Pois bem, a situação é complicada e...
- Onde quer chegar?
Digo, seu discurso vai nos ajudar em quê?
- Bem, Lydon, se eu
pudesse continuar... Pois como eu ia dizendo...
- Ah! Pois para mim
já basta! Você não passa de um filhinho de papai, uma bicha que prefere
livros a uma boa cocota! Estamos há uma hora tentando sair daqui e
você nada fez, só sabe citar frases de gente que já está morta!
Para cada ocasião tens uma frase: Lydon foi defecar, 'tem uma de Nietzsche';
Paul quebra a unha, 'como Sherlock disse certa vez'. Já basta! Esse
é nosso primeiro dia e já naufragamos. Estou farto de você e de seu
charme, farto!
- A situação é complicada
e devemos nos concentrar. Temos comida e abrigo, esses não são problemas
por uns dias. Continuaremos tentando falar com a base, para que nos
tirem daqui e para que nos passem o caminho correto. Enquanto o equipamento
de comunicação não transmite sinal algum, tentaremos consertar a
velha engrenagem do navio. Temos que nos manter unidos, discussões
agora não nos cai bem, Johnny.
No momento em que eu
terminei de dizer tais palavras, Johnny avançou para cima de mim como
um animal selvagem. Ameaçou-me ainda, prometendo que nada ficaria do
jeito que estava. Por sorte minha isso era o que ele externava apenas
pelo olhar, fixo e repleto de ódio.
Anoitece e estamos
exauridos. Estava marcado que pela manhã iríamos procurar pessoas
na ilha, operação de onde não obtivemos sucesso. Passaram-se sete
dias e a missão que a princípio era ridícula tornava-se impossível.
A comida havia acabado, o estoque era para 3, 5 noites no máximo. Em
uma tarde saímos para procurar alimentos e na volta, algumas horas
depois, o navio estava longe da praia, tão longe... O desespero se
misturou aos gritos dos meus três companheiros, os gritos se misturavam
ao suor por subir em árvores a tarde inteira, o suor se misturou à
lágrima. Estávamos de fato naufragados.
Paul mais que depressa
se apegou ao equipamento de transmissão e, como se fosse coisa divina
(ainda me pergunto se foi) pudemos ouvir "Base de informações
das missões Norte-americanas na Europa, diga seu código"
- DR01, repito, DR01,
estamos naufragados, repito, naufragados! Um pouco, ou mais, ao leste
de onde devíamos, missão 00589, repito, ao leste da ilha das armas
inglesas, ajuda!
Talvez o avião que
tenha causado a interferência. Paul acabou de alertar os fiscais que
não fiscalizam coisa alguma e o avião passara cortando de vez nosso
sinal. Pergunto se teria sido obra do Mal.
O fato era que, até
o resgate aparecer, estávamos presos ali. Clichê, ainda assim atraente.
Esse era o enriquecimento cultural de que eu havia comentado.
Amanheceu, não vi
Lydon nem John.
"Saíram bem cedo",
segundo meu nobre amigo. Paul com medo ficava sensível, sincero...
acho que ele era naturalmente assim, precisava apenas de uma máscara
para subir ao palco.
- Dudde, lhe disse
muitas coisas, porém não a principal. Sabia que eu nem gosto tanto
assim de Màrrie? Não minto, não para você. Você me atrai, capitão,
e sei que você também se sente atraído por mim. Esses dias aqui serviram
para eu notar uma coisa: és mesmo um maricas.
- Isso é uma confissão?
- Uma declaração.
Podíamos ter consumado
nossa paixão ali mesmo, na areia, mas minha covardia não permitiu.
Não sabia para onde os outros dois tinham ido, podiam voltar a qualquer
momento.
- Aposte uma dança
como foram fazer o mesmo! E Paul ria, achava que o comentário tinha
graça em meio ao meu nervosismo.
Mais tarde, os jovens
Buston e Norton voltaram com notícias de que haviam encontrado castanhas.
- Sou altamente alérgico!
Revelou Paul.
- Então não coma!
Assim disse Lydon, copiando os maus modos de Johnny.
- Na verdade, também
encontramos manga e eu vinha comentando com Lydon que eu cozinhava no
curso enquanto muitos jogavam football. Farei um molho com peixe pra
nós comermos essa noite.
Sorrimos desconfiados
pelo gesto tão cordial do sempre rude Sir Johnny Norton Burgman. Descansamos,
nas circunstâncias onde estávamos um tiro na nuca não era muita coisa.
E pela noite... o peixe!
E o molho, estavam deliciosos!
"Nunca provei
nada assim antes!"
"É o melhor peixe
que eu já comi!"
"Parabéns, mestre
cuca!"
A fome é de fato o
melhor tempero do mundo. Repetindo a receita em casa, até mesmo os
cães rejeitaram o prato.
- Não me sinto nada
bem, Dudde... nada bem. Não... consigo res... respirar, Dudde!
Paul estava terrivelmente
feio aquela noite, se assemelhava muito a um zumbi. Seus olhos eram
fundos ao máximo, sua boca branca como neve limpa, suava frio... a
voz rouca e seu corpo inchado me assustavam. Eu não estava excitado
com aquele show de sinistros.
Acomodei meu amigo
na cabana fazendo promessas a ele, dizendo que tudo terminaria bem.
Lydon despertou com o barulho e, vendo o estado de meu único parceiro,
se propôs a velar por ele enquanto eu esquentava água, fazia chá
e mais o que fosse preciso.
A última noite foi
fria. Ouvi a música, mas não pude freá-la. A manhã se mostrou bonita
e pura.
Não sei como pude,
eu era mesmo um infiel. Assim como não poupei Steve da bala não curei
Paul.
- Maravilha, agora
temos um cadáver! Era mesmo o que estava faltando.
O sarcasmo inapropriado
de Johnny me irritou ao máximo, mas me controlei para o momento. De
fato tínhamos um cadáver ali, o cadáver de Paul. Temia, não por
ele estar morto, mas eu continuar vivo.
- Agora somos três.
Para comer está mais fácil, para sair daqui está mais fácil, pra
conviver está muito mais fácil.
- Lydon, cale-se! Johnny
alertou o cúmplice olhando-o como se, num interrogatório, ele tivesse
dito alguma informação comprometedora.
No molho que comemos
haviam castanhas, era fato.
- Não me importa mais.
Ele está morto. Mas não mexam no corpo, não ousem. Deixo-o aí. Quando
o resgate chegar, ele será enterrado como se deve.
O clima estava tão
pesado quanto chumbo. Certo momento, eu não pude segurar... chorei
por mamãe, por vovô, pelos gatos usados em minhas experiências, por
Steve, por papai, por minha mais nova perda...
- Dudde, foi melhor
assim. Essa relação iria te prejudicar. E Paul andava vulnerável
demais... ia nos atrapalhar aqui.
- Lydon, você passou
as últimas horas na cabana. O que ele lhe disse?
- Nada relevante...
- Diga-me o que ele
lhe falou, por favor.
- O que adianta isso
agora?
- Apenas diga.
- Lembrou de Màrrie,
e disse o nome dela. Apenas isso.
- Certamente estou
abalado com tudo o que aconteceu, mas me lembro de o ouvir dizer algo
como "desgraçado", "castanhas", "assassinos".
Estou errado?
- Como você mesmo
disse, está muito abalado com tudo isso.
- Pois eu ouvi claramente,
Lydon. E sei o que vocês fizeram, você e Johnny. Se estiver disposto,
mate-me também.
- Não sei do que você
fala. Aliás, ninguém sabe. És um jovem louco.
Johnny apareceu saindo
de sua cabana com uma expressão de insatisfação. Manteve-se assim
e calado por mais algumas horas.
Tivemos que ir procurar
comida, tão já a noite chegaria.
Mas no meio do mato
e das árvores Johnny se perdeu de nós. Não gritava por ajuda, não
pedia companhia. Concluímos que ele não precisava de apoio, continuamos
com o que fazíamos.
Numa pedra alta era
onde estavam as castanhas. Chamei Lydon e apontei. Ele engoliu seco,
como um culpado. Lydon tocou o solo e agora acompanha Paul numa dança
sombria.
Chegando à praia,
Johhnny me aguardava com uma faca, a mesma usada para cortar os peixes.
- Pude escutar você,
capitão. Pude ouvir tudo de minha cabana, na noite em que Paul passou
mal.
- Meu amigo não passou
mal, morreu.
- Castanhas, provavelmente.
- Certamente castanhas!
- E Lydon, onde está?
Até onde me foi revelado ele não é alérgico também.
- Não é alérgico,
mas tem problemas com altura.
- O matou, como fez
com Paul.
- Já está ensaiando
o que vai dizer à polícia, assassino?
- Jovem louco, perturbado,
solitário...
Johnny largou a faca
no chão e virou-se com desdém. Peguei a arma e fiz a oferta:
- Me acerte! Vamos,
acabe comigo!
- Você não vale a
pena.
- Já fez isso uma
vez, vamos! Acabe logo com isso!
Larguei a faca no chão
e gritei. Ele propôs:
- Quer sangue, garotão?
Isso te anima, não é mesmo? Gostou quando nos perdemos, não? Gostou
quando o navio quebrou, não é? Não entendo como erramos a ilha, como
aquele problema com a engrenagem passou por nossa inspeção, não entendo!
Talvez VOCÊ possa me explicar, sim? Então vamos fazer um seguinte:
quem pegar a faca acaba com o outro.
Vi que ele não se
manifestou, nem mudou o olhar.
- Vai, Johhny, vai!
Vai, Johnny!
Johhny não foi, eu
fui.
Ele sempre foi muito
rude comigo, legítima defesa.
Horas depois, não
arrisco dizer quantas, o resgate chegou. Posso afirmar que meus superiores
não esperavam que uma missão tão fútil pudesse ter um saldo de três
mortos. Talvez a Universidade de Artes da França não parecesse tão
ruim para papai agora. Muitas explicações foram pedidas a mim, porém
eu não tinha o que confessar.
Os rapazes foram sendo
acomodados, um a um. O corpo mais grotesco era de meu estimado Paul,
o noivo de Màrrie. Para todos os efeitos Lydon havia se jogado, um
suicida. E a facada de Johnny, como explicar? "Legítima defesa",
eu afirmei. Para os que foram me resgatar, para meu pai e para o tribunal
francês.
- O que é isso, Dudde?
O que é isso? Você é incapaz de cumprir uma simples tarefa sem fazer
qualquer besteira? Isso aos berros.
- Não fiz nada, papai.
- Não me interrompa!
Você mata tudo à sua volta, tudo...
E papai se pôs a chorar.
Você talvez não compreenda. Eu nunca, em 24 anos, nunca vi papai chorar.
Será que finalmente descobri o que houve com mamãe?
- Para nós você pode
confessar: fez falecer os três cavalheiros que o acompanhavam?
O advogado Smith queria
a verdade, então a dei para ele.
- Sim, matei Johnny.
- E os outros dois,
seu imaturo? Você tem idéia de como isso me prejudica?
- Nada fiz...
O Tribunal Francês
era como os da América, facilmente comprável. Papai sempre foi um
homem influente, não fui preso e amanhã receberei do Estado um pedido
formal de desculpas, por terem me exposto chamando-me de assassino.
Uma carta minha bastou
para o juíz:
"Nunca fiz mal
a ninguém, a não ser a mim mesmo. Matei: minha esperança. Agredi:
minha vontade própria. Louco psicótico não define o que sou, um jovem
que viu mortos todos e tudo a sua volta. Porém, por mais que queiram
achar um culpado, o Mal não sou eu. Meu crime mais hediondo foi não
ter reconhecido isso naquela tarde de 75."
Esse trecho foi escrito
muito antes da viagem. Não atribuo minha insônia crônica aos fantasmas
daquela tripulação, meus próprios fantasmas são mais impertinentes.
A miséria me acompanha como um mal hábito, a morte flerta comigo...
eu resisto, até qualquer instante. Encontrei Màrrie dias atrás no
cinema, era o lançamento de Presumed Innocent. Ela me reconheceu, mas
não falou. Por mais que quisesse evitar, desviar, seus olhos disseram-me
algo... parecia dor, tristeza... talvez por eu ser uma tortuosa lembrança
de Paul. Ela também me lembrava Paul e eu sorri, como quem sorri para
um amigo.
- As lembranças fazem
o que sou. Pecados só são pecados quando você acredita que são.
Meu Deus é o mesmo que me permite viver para tentar um pouco mais...
não espero mais nada da vida, só quero tentar um pouco mais. Em meu
quarto eu nunca dormi, sempre sonhei. Me obrigaram a ser espião, soldado,
patriota, essas coisas não se forçam! Papai devia ter me deixado fazer
a faculdade de artes, aquela na rua da cafeteria. Seria eu um artista
e não precisaria de mais nada além de arte para expulsar meus fantasmas...
minha miséria, minha morte. Feliz Edgar Allan Pöe.
- É, boa história.
Não tão emocionante, mas boa. Você sabe como viajar nesses contos
de acampamento, hein, Dudde! Agora passa o marshmallow.