A DOCE ILUSÃO DA NOITE
AUTOR: Rafael
Gomes
“O homem teme o fracasso quando corre o risco de pagar por ele.”
Sir Arthur Conan Doyle
É dia, mais uma manhã que irrompe as trevas esquálidas abatidas sobre
o infinito rodopio da cronologia humana imersa nessa terra insólita e
inexoravelmente cruel. O espaço aplicado a nossa sobrevida terrestre é
conquistado em mais um ciclo pelas ondas ultra-violetas ardentes e impiedosas
que insistem em fustigar nossa vigília impondo-nos um limite para desejos,
aspirações e quaisquer divagações da imaginação simbiótica do homem e dos seres
inumanos. Os primeiros gritos são audíveis mesmo ao se confrontarem na
cacofonia dos rumores despejados nas vielas por entre as aves que investem
cortando o ar em fatias translúcidas de prata acinzentado e as máquinas
alvoroçadas sobrepujadas pela força descomunal que tentam aflitamente aludir a
sons onomatopéicos. A vizinhança levanta-se de uma imediatez singular e
coerente, porém que infligia a ordem natural dos afazeres. Aos poucos iam-se empilhando os muitos numa mescla de
incredulidade e ignorância buscando alcançar nem que seja tocar o dito cujo
caído a ladeira barrenta recoberta pelo sangue coagulado das perfurações
torácicas outrora executadas por algum carrasco daquele indivíduo moribundo. A poeira resplandecia no ar, cobria a face distraída da
multidão e dificultava a quem se prestava a tarefa de investigar com os
próprios olhos aquela visão, que já não era tão anormal na comunidade e morro
acima. Dos barracos de alvenaria e papelotes, dos bojos improvisados, e fiações
desreguladas, desentupia-se de carnes perambulantes pululando de interesse no
que se sucedia mundo afora seus casebres. Aglomerou-se metade dos inquilinos
daqueles becos por onde escorria as águas fecais, negras dos suores lavados
matutinamente e não menos importantes os lares dos camundongos e outros
pequenos artrópodes também habitantes da imensidão daquele íngreme relevo. Uma
algazarra contemplável, até entretinha aqueles menos preocupados com a notícia,
e esta seria motivo de conversações e papo para manhã que se iniciara. Um
círculo de calças e vestidos, shorts e cuecas envolvia e sufocava o defunto.
Cabeças encurvadas passavam a vista com desmiucez analisando detalhes íntimos
entre o rapaz ceifado e seus mais novos decortes ilustrativos que lhe
proporcionaram uma particularidade tão interessante capaz de lhe transpor para
outra dimensão se não aquela a que os presentes o admiravam e até o elogiavam
pelo feito. Jogado ridiculamente com as pernas cruzadas, o dorso voltado para o
firmamento, a boca na terra ainda implorando misericórdia pela dentição antes
fixa, e os olhos semi-abertos mergulhados na lama do seu próprio humor espiando
o rastro da crueldade que lhe atribuíram noite passada quando lhe acertaram
sete cortes animalescos, descarnando seu ventre e seu peito em sucos
abundantes. Incrivelmente, o rapaz já combinava perfeitamente com aquele chão,
sua cor misturava-se de tal maneira ao barro, de forma que este já o tragava e
já estava difícil distingui-lo de sua próxima morada. Mais um, repetia em coro
o mutirão. Mais um entre os outros. A família ainda não aparecera, ainda era
desconhecido perante os observadores. Era apenas, mais um.
Mas a vida continua. Aqueles que ficam têm a obrigação de enterrar
seus fardos de fazer girar o globo mesmo que a contragosto, é a sina que muitos
têm de cumprir. Ganhar um pedaço no céu é uma promessa divina quase certa para
alguns, mas com o pé na terra que não lhes pertence, a grande massa não entra
em acordo e afirma que aqui estando dessa forma paupérrima nada tem a perder se
não a própria estadia mundana, e enquanto aqui estiverem são imbuídos a servir
a alguns poucos mesmo que essa servidão lhes ocasione uma passagem mais rápida
e segura para aquele pedaço lá no topo. Permanecer em silêncio apenas é uma de
suas tarefas, não questionar eis a questão fundamental, toca-se então a canção
da despedida e o resto se foi, o importante é estar tragando da ostentação
aerífera negra da metrópole, da aguardente para sucumbir as derrotas e
aflições, desfrutar das tonalidades variadas da vida em seus diferentes estados
de embriaguez, por fim estar mais um dia entre os animais e compartilhar com
eles os mesmos cheiros, o mesmo chão nu, as mesmas desgraças.
E chegada a noite, a etapa mais esperada. É nesta parte que as coisas
acontecem acobertadas pelo gênio defumado do tormento, as sórdidas figuras
emergem das esquinas inebriadas carregando consigo a substância do torpor que
sombreia os que ainda se encontram inquietados com a luz pesada do dia
pretendendo assim juntarem-se às sombras nos botecos. As superfícies encardidas
das paredes já denunciam o ambiente lúgubre e marginalizado, seres esquisitos
enroscam-se por entre saraivadas de cuspidas e jogo de braços e pernas entrelaçados,
arranhando-se, numa quase cópula selvagem e indecente. Por entre garrafas e
cinzas, fumaças e rostos avistam-se caricaturas disformes desvencilhando-se das
artimanhas da luz diurna carregada de maus pesares ainda impregnada no corpo
suado e dolorido da jornada e que tenta derrubar o mais imponente, mas que aos
poucos vai sendo lavada com goles energizantes das fermentações e insufladas
junto à fumaça das piolas remanescentes. Pernis sensuais desmancham nas
encostas pardecidas, convocando os mais atinados a dança das orgias gonocócicas
e a uma profusão de humores corporais tão instintivos quanto o paladar.
O limiar do crepúsculo findou-se, a noite impera majestosa sobre a
cidade. É chegada a hora dos sonhos nebulosos, das tenras ventanias encarregadas
de aniquilar qualquer pudor existente nas ruelas, cachorros se misturam a
trôpegos, o aroma da pinga aos quatro ventos denota a felicidade momentânea
daqueles que usufruem dos minutos de existência não tão humilhante na escuridão
das próximas badaladas dos relógios. O hálito denso e barato das gargalhadas se
espalha ladeira abaixo atraindo os que ainda não se fazem presentes na
comemoração noturna como se fosse um prelúdio do que viria adiante, um convite
muito bem estimulante para quem se desinteressara pela festa bacana. E aos
montes vão se aproximando, como uma verdadeira horda de abelhas a procura do
lugar perfeito para a colméia, numa violência bárbara que inunda as cafuas
alcoolizadas emanando o odor característico das moradias mofadas e azedas do morro.
As nuanças contorcem-se numa mesma vibração, uma pasta homogênea de machos e
fêmeas se batem e rebatem, caem, penetram-se e se remexem no mesmo ritmo, tendo
como anfitriã e saudosa convidada a noite e seus discípulos.
As impressões marcam o tempo, os
suores marcam a testa e o sangue mancha o clitóris recém violado e violentado
por um grupo de sombras fugazes atormentadas que reconheceram nas virgens um
prazer incontável. As brenhas aturdidas pela sua incapacidade de reação frente
aquele ato condenável observavam, sob rajadas de vento, as sombras se livrarem
das peças íntimas daquela fêmea ainda em fase de iniciação à puberdade. Sobre
uma forte tontura, a vítima permanecia em estado de semi-consciência abrindo
caminho por entre as nádegas empinadas e o sexo exposto. Atiraram-se contra o
pequeno corpo como urubus carniceiros esmagando-se e exterminando qualquer
última investida de sobrevivência da pobre vida. Os calores sufocantes daqueles
corpos opacos se misturavam a frialdade da pele clarinha juvenil num contraste
irritante de malevolência, um por um descarregou seu excesso de morbidade na
pequena até que entupida de tal nojo sucumbiu aos líquidos mortíferos sem ao
menos acordar do mais belo sonho, a infância. Mesmo sentindo a frieza daquela
que já se fora, os monstros da noite ainda se deliciavam com a carne fresca até
que se fartaram e largaram-na ao vento furtivo, um corpo inútil. A noite recebe
mais uma para encher a sua lista, e contente ela vai a se despir para que a
embaraçosa manhã possa cumprir seu turno e trazendo consigo a agonia de mais um
dia de pesar.
Arrastados os chinelos de dedo escorregaram morro abaixo levantando a
poeira das encostas e convidando os outros a participarem da estranha
caminhada. Muitos já começavam a se lamuriar. Mais embaixo aqueles de mais
coragem constataram mais uma hóspede da eterna escuridão noturna, a diversão
ainda rolava nos botequins e nos cabarés, a comunidade adaptou-se aquilo, a
vida continuava, mas não para a pequena ensangüentada debruçada nas relvas do matagal.
Um por um olhavam atônitos a cena, mais em nada poderiam intervir, se não pondo
a cabeça entre as coxas e lamentar, resmungar e chorar as primeiras lágrimas do
dia.
Mais uma manhã despertava os seres marginalizados para uma realidade
que eles buscavam evitar durante as horas que se passavam a pouco. Uma dura
existência amenizada por nada e apenas iludida pelas estratégicas peças que a
noite prega naqueles que pensam ser dela amigos.