E assim fizeram-se
Trevas
Márcio Renato Bordin
-
Venha!!! Venha!!!
A
voz sibilante repetia incessantemente.
-
Venha!!! Venha!!!
Os
passos inocentes da pequena Mayara seguiam curiosos o estranho chamado.
-
Venha!!! Venha!!!
O
grande relógio pendurado na parede indicava 3h15m da madrugada. Seus
pais adotivos dormiam, sob a benção de Hipnos, atrás da maior porta
do corredor. Mayara desce a grande escadaria com destino ao salão principal
com certa dificuldade. Suas pequeninas pernas não alcançavam o degrau
inferior, obrigando-a a se pendurar no que se encontrava, e com muito
custo alcançar o degrau abaixo com as pontas dos dedos. Mas não haveria
obstáculo algum que impedisse a inocente garota de seguir o causador
de sua curiosidade. Algo comum n’uma criança de cinco anos.
A
pequena passa despercebida por detrás do enorme sofá de couro, onde
sua irmã mais velha se encontra desmaiada, devido ao consumo excessivo
de álcool e haxixe, em frente ao televisor que transmite chuviscos.
Mayara encontra a porta da rua entreaberta, deve ser a adolescente que
retornou de seu tour pela madrugada em seu rotineiro estado calamitoso,
sem condições alguma de fechá-la.
-
Venha!!! Venha!!!
Mayara,
caminhando como se saltitasse, braços estendidos à sua frente com
as mãozinhas abrindo e fechando, divertindo-se tentando pegar a
voz, atravessa a rua da cidade que nunca pára forçando os veículos
que vinham em alta velocidade a frearem bruscamente. O primeiro, uma
D20 prata, quase passou por cima da pequena garota, mas, felizmente,
o motorista teve reflexos rápidos para girar todo o volante para sua
esquerda. A menina escapou por um triz... A camioneta estava rápido
demais, a freada brusca somada à guinada repentina fez com que o veiculo
capotasse várias vezes em direção a uma das casas, derrubando tudo
que encontrou pelo caminho, passando por cima de um enorme sofá de
couro como se fosse feito de papel.
-
Venha!!! Venha!!!
Um
televisor em curto-circuito. Uma camionete derramando diesel. Combustão,
chamas, e não demora muito, explosão. Em questão de poucos minutos
o fogo passa a atacar e devorar com fúria tudo que encontra em seu
caminho. Tomando em pouco tempo os dois andares da casa. A adolescente,
que teve a cabeça decepada pelo veículo, perdeu o grande espetáculo
de Hefesto em sua nobre moradia. Seus pais , que até então adormeciam
no andar superior, acordaram com o calor infernal os devorando. As paredes,
em instantes, se tornaram ferventes como brasa. Uma cortina vermelha
se estendeu por todos os lados do cômodo, do tapete tibetano ao forro
de olmo holandês. Desesperados, a mulher grita os nomes das filhas,
enquanto seu marido esmurrava a porta de madeira de teca. Escolheu uma
madeira grossa para seu quarto por medo de assalto. Nunca imaginou que
sua prudência seria a sua morte. Ele esmurra centenas de vezes, até
sentir sua mão assar ao intenso ardor que tomara a madeira. Seus socos
de nada adiantavam, e o fogo se espalhava rápido ladeando as quatro
paredes do quarto. Subiram, ambos em cima da imensa cama italiana. Sentiram
a pele sendo dissolvida ao aproximar das chamas. Gritavam, abraçados
no centro do leito. Entre as labaredas vermelhas, amarelas e azuis,
viam-se caras e bocas. Faces com bocarra aberta, demônios prontos para
devorá-los ao som do fogo furioso, a sinfonia favorita de satã. Os
bombeiros chegaram, como sempre, tarde demais. A casa toda fora consumida
pela ira de Hefesto. A vizinhança faz silêncio pela fatalidade ocorrida,
a morte trágica de um casal de advogados e suas duas jovens filhas.
-
Venha! Venha!
Mayara.
Todos pensavam haver morrido carbonizada junto à sua família. Caminhava
sozinha. Seguindo a voz persuasiva pelas ruas escuras de uma cidade
pecaminosa. Com passos desengonçados de boneca viva. Ela segue em frente.
Indiferente aos casais libertinos, levianos, lascivos. Esfregando-se
entrelaçados como serpentes no cio. Sem amor, sem pudor, sem vergonha.
As bocas se unem ardentemente. As mãos percorrem os corpos. Caricias
voluptuosa. As mãos de Réia e Afrodite acariciavam esses mortais com
toques lúbricos, libidinosos, em corpos suados e desejosos. Como em
rituais orgíacos de adoração às divindades gregas. Quatro casais
esfregando-se. As garotas seminuas encostadas no muro, com seus homens
às espremendo, tateando, revelando. Sem se importarem com a criança
desacompanhada àquela hora da madrugada passeando em um lugar desprovido
de decência e bons costumes. Encontram-se concentrados demais em seus
hormônios heréticos. A doce Mayara, na inocência de seus 5 anos,
não entendeu o que se passava entre os jovens casais. Ela riu ao ver
os adultos brincarem, e continuou seguindo a voz vinda do vazio em sua
frente.
A
pequena se distancia. As caricias dos jovens se tornam cada vez mais
ousadas, mais frenéticas. Os corpos fervem. As bocas dos rapazes percorrem
os frágeis pescoços das jovens como uma dança sincronizada. Mãos
penetram por dentro das calças ou por baixo das mini-saias das garotas.
Os movimentos se tornam bruscos. Machucam. Elas pedem para pararem.
Não são ouvidas. O desejo de possuí-las os ensurdecem. As jovens
gritam, empurram, esperneiam. Mas suas vontades de nada valem agora.
As investidas continuam cada vez mais violentas. Machucam os corpos.
Ferem as almas. Elas gritam, gritam com toda a força de seus pulmões.
Na rua, os carros passam sem que os motoristas nem ao menos virem o
pescoço para olhar de onde vêm os pedidos tão desesperados de ajuda.
Como se nada de anormal estivesse ocorrendo. Já se acostumaram com
esses casais de viciados fazendo escândalos nesse ponto da cidade.
Sem se darem conta que dessa vez, as coisas realmente estavam indo longe
demais. Elas gritavam, eles riam. Elas berravam, eles gargalhavam. Elas
empurravam e eles as estapeavam, esmurravam e riam. Como hienas demoníacas,
eles riam. Elas, Phobos; Eles, Deimos.
Mais
pelo instinto de sobrevivência do que por coragem, uma das garotas
crava suas longas unhas no rosto do rapaz que a bofeteava e lhe invadia
o intimo com a mão não mais desejável. Uma fúria imensurável toma
os olhos deste, ao sentir seu sangue escorrer por sua face. Segura a
cabeça da jovem pelo queixo, e n’um movimento ímpeto, explode o
crânio da garota de encontro à parede. Um som mouco seqüenciado por
um jacto de sangue, tingindo o muro de vermelho morte. Seus amigos,
estranhamente apreciam o ato do rapaz, e sem se importarem com os gritos
ainda mais histéricos de suas companheiras, repetem o mesmo gesto com
uma violência e prazer mórbido redobrados. Os funestos amigos gargalham
de modo diabólico diante aos cadáveres ainda convulsivos de suas vitimas.
Abraçam-se, radiantes com o sentimento de superioridade recém-descoberto.
A euforia os tornam irracionais. Três dos rapazes decidem repetir a
brincadeira, escolhendo o quarto amigo como vitima. Ao invés de tentar
fugir, de lutar, o carregado gargalha mais alto até o momento de seu
crânio também explodir de encontro ao muro, e seu corpo entrar em
funérea convulsão. Mal o recém-defunto cessou os movimentos epiléticos,
seus amigos já estavam escolhendo a próxima vitima. Outro cérebro
se abrindo. Outro corpo caindo em ritmo lúgubre. Restando apenas dois
em pé, uma luta se inicia. Um tentando chocar a cabeça do outro de
encontro ao muro tingido de morte. Lutam, se esmurram, por vários minutos
sem haver um vencedor. Cansados, tomam a decisão que parecia ser a
mais prudente no momento. Ambos correm e se atiram com a cabeça de
encontro à parede. Caem no solo com os ferimentos jorrando sangue,
e riem um do outro ao perceber o fracasso mútuo. Levantam-se rapidamente
em meio às gargalhadas, tomam mais distancia do que da primeira vez,
repetindo o ataque suicida. Um novo fracasso, novos risos histéricos,
mais sangue escorrendo de suas mentes vazias. Agora, eles atravessam
a rua cambaleantes. De uma distancia maior, usam suas poucas forças
para correr de forma insana e se jogarem mais uma vez de encontro ao
muro. Ambos caem em cima dos defuntos. Gargalhando, com os crânios
abertos, jorrando rios de sangue, não conseguem mais levantar para
uma nova investida. Ficam ali imóveis, sentido a vida lentamente esvair
de seus corpos fracos.
-
Venha! Venha!
Mayara
atravessa a rua movimentada, os veículos desviam da pequena causando
um novo acidente. Uma pequena batida de pára-choques com conseqüência
muito maior. Um dos motoristas envolvidos tomado de uma ira descontrolada,
sai de seu automóvel empunhando uma pistola calibre 380, e sem titubear,
disparara 13 vezes de encontro ao outro motorista sem dar-lhe tempo
de reação. A pequena se assusta com os disparos. Seus olhos lacrimejam,
mas o choro é contido ao repetir da sinistra voz.
-
Venha!!! Venha!!!
A
curiosidade infantil de Mayara a fazem ignorar o medo. Ela volta à
sua jornada, deixando um motorista tomado por uma ira descontrolada.
O cidadão volta a carregar sua pistola e disparar contra tudo e todos.
Fazendo vários defuntos, até que a última bala do pente fora projetada
contra sua própria cabeça.
O
chamado leva Mayara direto ao cemitério municipal. Ela adentra ao local
escuro, com os olhos repletos de euforia. Seguindo até o fim do corredor,
onde um homem coberto, por um manto negro e um gorro lhe cobrindo a
cabeça, a espera. Tendo em sua retaguarda outras oito pessoas, com
trejeitos de homens e mulheres vestidos da mesma forma do primeiro.
Mayara
pára curiosa a poucos passos deste que a recebe. E o ouve falar enquanto
retira o gorro, deixando amostra um crânio de caveira no local onde
deveria ser sua cabeça.
-
Bem vinda, Nyx, minha filha e deusa da noite. Há séculos esperamos
por seu renascimento. Esses são alguns de seus filhos! Uniram-se a
mim para lhe dar as boas vindas.
Com
as mãos do estranho em sua cabeça, Mayara sente seu corpo sofrer uma
estranha metamorfose. Envelhecendo anos em segundos. A menina se torna
mulher. Asas negras surgem, esplendorosas, em suas costas. Mayara se
torna Nyx, a deusa da noite. Ressurgindo de joelhos aos pés de seu
pai, o Caos. Ela se levanta abrindo suas asas de azeviche, eclipsando
a lua cheia. Adotando uma postura rutilante, Ela saúda com orgulho
os demais presentes.
-
Meus filhos! Que bom revê-los! Eu sou Nyx, a rainha da noite! E tudo
que é meu, também lhes pertencem. Hoje se inicia a noite perene. Hoje
as trevas se tornarão eternas. Vão e tomem o que lhes pertencem por
direito. Vão...
Um
a um, conforme ouve o nome ser pronunciado, descobre a cabeça, abre
as enormes asas negras e alçam vôo de encontro ao céu trevoso com
destino à civilização, aos pobres e insignificantes mortais.
-
Éris, a discórdia; Apáte, o engano; Lissa, minha amada Lissa, deusa
da loucura; Momo, o escárnio; Oizus, a miséria; Até, o erro, deus
já tão conhecido pelos mortais; e por último, meus queridos gêmeos,
Hipnos e Thanatos, o sono e a morte. Vão e espalhem as sementes de
Caos! Vão! Vão! Vão! A luz do dia nunca mais será vista por olhos
mortais!
Os
deuses, filhos da noite, alçam vôo. E assim, fizeram-se Trevas...