Alguns
dirão que foi um sonho anormal. Outros, que é apenas uma ficção
absurda de um escritor delirante. Eu não digo nada, eu limito-me a
contar o que vivi. Limito-me a dizer que perambulava doentio e inflamado
pela noite. Algo de terrível, de onírico, de lancinante, de fatal
pairava sobre minha alma. Minha alma já não se suportava em meu ser
insatisfeito e irremediável à eternidade. Vagavam alucinados os meus
pensamentos inconformados pela escuridão noturna, iluminada por luares
e sonhos medievais em doces pesadelos.
E
ainda mais longínquo voava tudo o que eu sentia, todas as tempestades
apocalípticas que em mim se debatiam em sua invisível violência.
Meu universo sentimental fitava olhos e asas de anjos sobre nuvens avermelhadas,
febrentas e férvidas nos céus repletos de ultra-romantismos, nuvens
carregadas de emoções que me trovejavam sobre o espírito inconsolável.
Foi então que a encontrei.
Ela
abriu a imensa porta de um casarão antigo de mistérios e convidou-me
sedutoramente a entrar. Se exteriormente aquele casarão sombrio de
inquietante imagem ancestral assomava de forma majestosa e aterrorizante,
em seu interior havia alguma espécie indefinível de magia sublime
que me envolveu perigosamente...
Um
denso aroma de incensos impregnados de delírios invadiu-me além das
narinas, hipnotizando-me como um alucinógeno sobrenatural. Ao inalar
aquela atmosfera carregada de auras e sonhos e febres e vidas e mortes,
uma luz astral queimou meus pulmões apaixonados. No ambiente febricitante,
em penumbra celestial e estranhamente luminosa, meus olhos ardentes,
lacrimejando, somente distinguiam coisas que não sei nomear. Tudo,
tudo o que eu via não possuía nome em nosso mundo, em nossas existências
normais, nós não conhecemos aquelas coisas indizíveis. É-me impossível,
arranco-me os cabelos intentando escrever as coisas tão absurdas que
ali viviam... Porém, afirmo que vi infinitas existências inefáveis
que atordoavam meu coração em vertigens. Perturbavam como uma devastação
minha mente desvairada, entorpeciam-me como venenos ofídicos e mágicos.
Arrebatavam-me a céus e a infernos cada vez que eu a elas dirigia meus
olhos que se desvaneciam em vapores. Eu chorava...
E
num instante de suprema insanidade espiritual, refulgiu pelo mistério
um tempestuoso clarão iriado de luz solar. E pude contemplar o que
até então me fora impossível: a face e os olhos da mulher sobre-humana
que me havia feito o insalubre convite a entrar. E foi então que a
amei. Daquela face onde conviviam anjos e demônios, e daqueles olhos
fundos como o Desconhecido, que, sem cessar, mudavam de cor, raios nucleares
em forma de flechas dardejavam enfebrecidos a essência de minha mônada.
E
cantos e gritos alucinados, canhestramente dementes, porém belos, belos
demais para se suportar, que me comoviam, esgotavam minhas lágrimas
enlouquecidas, cantos e gritos partiram daqueles seres nunca-vistos,
pela tensa escuridão iluminada. Uma sinfonia vulcânica, ciclônica,
em forma de relâmpago. E enquanto meu peito explodia ao som dos estranhos
seres e aos olhares em fogo da bela celeste-infernal, compreendi. Compreendi
que estaria ligado maldita e abençoadamente àquela mulher para toda
a eternidade finita ou infinita de minha existência insensata.
Desejava
saber quem era aquele ser feminino que me arrastou à loucura com seus
filtros e feitiços mágicos, que tinha a cura para aumentar minha doença.
Arrastando meu manto de roxas saudades e torturas, mergulhei minha alma
nos enigmas arcânicos de tudo o que se oculta no cosmos... Abalos sísmicos
anímicos faziam tremer meu ser, e aos vapores sangüíneos de rosas
e sangues, pesadelos e sonhos desabavam pesarosos sobre minha fronte
ensandecida.
Com
meus braços inflamados de esquisitas e angustiadas energias não-corpóreas,
abracei em êxtase divino o coração daquela mulher e beijei, na marcha
fúnebre da morte e do fim, seus lábios em lava. Pelas janelas de meu
sublime transtorno, da furiosa paixão sem limites, eu via a celestial
tempestade eterna se aproximando em relâmpagos apocalípticos. Ao nosso
redor, erguiam-se, em deliciosa loucura ameaçadora, fantasmas e magas
em fulgurantes espectros de astros vermelhos. E num murmúrio, na plenitude
fantástica da demência, perguntei aos ouvidos da mulher que me arrebatou
e devastou-me como um furacão aos extremos universais... Eu perguntei
o seu nome. E ela falou-me. Senti-me salvo. E o seu nome era Arte.
Conto dedicado
à Ópera Tristan und Isolde, de Richard Wagner