A CASA DO ENFORCADO

Autor: Paulo Soriano

corda

Quando finalmente  conseguiram vencer  a resistência da  madeira da janela – que fora a única abertura  a vergar ao ímpeto  de um aríete improvisado –,  os homens retrocederam de surpresa, nojo e horror.  De uma densa névoa –  uma bruma  mefítica e pestilenta –   que emanava  dos intestinos   da casa velha, veio a surpresa, capaz de paralisar os mais impávidos e amolecer os mais empedernidos.  Polca  – o velho e bom Polca,   que até então se   contentava  em relamber o que restara do sangue nas  patas hirsutas,  condoídas e tontas  de tanto escavar a  rude porta de madeira ancestral –  saltou  pela abertura de luz que  os homens abriram,  e quase cegou ao contato do Sol, que agora  desmaiava. E, com as fuças enodoadas, onde os dentes arreganhados ainda  retinham em suas frestas negros nacos de carne apodrecida,  emitiu  um ganido ensandecido, para depois galgar o horizonte constrito, encharcado de manguezal,  sobre o qual  escorria e ondulava  o sangue silencioso do anoitecer.  

No interior da casa, os homens, embrutecidos pelo miasma,  mantiveram  os lenços apertados contra os narizes.  Dois deles erguiam candeias olorosas  de querosene,   porque o antro era mais escuro que a morte e mais pestilento que um túmulo. Mas contam os antigos que  foi um deles, o  que espraiava as mãos nuas, espalmadas contra a  escuridão  de pedra, que tocou  o cadáver do ancião.   Quando o lume chegou,  viram  os homens que  a velha figura     oscilava no vazio, colhida  em pleno  ar pelo próprio cinto – o puído cinto de couro que  contivera um magro ventre por tantos  e tantos anos. E   bailava serenamente  aquele corpo  informe, como que tangido  pela brisa suave e asséptica, quase poética,   do anoitecer  invernoso do Recife.

A antiga casa, onde se enforcara o ancião, e que hoje não existe mais,  era uma das mais sólidas construções de Campo Grande.  Construída sobre  alguns alicerces devastados  aos invasores,  a  vivenda ressurgira  seguindo  os passos dos sóbrios e elegantes engenheiros flamengos. A casa era, assim, de pedra. Pedra  absurdamente  equilibrada  sobre um ângulo improvável de outra  pedra, como ainda se vê nos antigos trapiches abandonados  do velho Recife.   Compunha-se de um único pavimento, comprido e estreito, tenaz em evaporar a luz aos primeiros e ousados passos.    E as suas paredes, rebocadas pela   argamassa úmida,    carcomida de mofo e   estrias, deixavam entrever, no sulco das profundas  cicatrizes,  que desciam céleres dos caibros repletos de fungos,  a face ossuda das pedra revelhas, que reagiam  e fulguravam à luz  das candeias,  como crânios a desafiarem a imortalidade da própria morte. 

A musculatura das paredes laterais erigia-se  incrivelmente forte. Sobre ela, apoiavam-se as tesouras de madeira de lei.

E  era  a trave da  última das  tesouras – a mais mofada e encardida –    que   sustentava  o peso morto,  e dele fazia agora  um pingente assustadoramente  desumano e lúgubre.   Parecia  incrível, à luz mortiça  dos lampiões, constatar o cuidado que  assediara  o  homem velho   ao  afundar, na língua puída, que era a ponta de seu cinturão, os pregos  vigorosos e brilhantes. Possível ainda seria  ouvir o eco seco da madeira reverberando  por cada um dos ossos que compunham o esqueleto da casa anciã, como um pulsar de um coração ainda mais nefasto e carcomido pelo  bolor  dos anos.  E  escutar – enfim – o  esgar  da madeira –  que, durante séculos, não emitira  um  rangido sequer –  lamentar-se,  com um angustiante protesto,  ao mergulho resoluto que o homem  descreveu    no mais negro  dos mais negros  vazios.

Quem o via  ali, tão desolado em sua  mortal solidão,  não podia adivinhar a calma com que o homem, roto  de alma, ajustou, num gesto altivo e solene, o  cinto ensebado ao pescoço exangue. E nem cogitou de que restaria  apenas o espetáculo monótono de um homem  bailando  suavemente o seu vazio de morte, tão melancólico  e tão  sombrio  que  só a bênção do Deus da  inconsciência eterna poderia proporcionar e compreender.

E Polca,  sozinho naquela casa tão obscura, não cansava de  lamentar, com o seu uivo animal, a ausência de um dono que, enigmaticamente, se fazia  tão presente.  Se ali estava, por  que  não se mexia? Por que não sabia que estávamos  ambos famintos? Por que  somente se balouçava na trave, para lá e para cá,  quando  tocado pelas  patas cansadas,  e não cuidava da água e dos alimentos? Não lhe trouxera alguns ratos para comer? Não implorara que  repartisse comigo  as  ratazanas?

O tempo girou os seus gonzos cansados,  e finalmente Polca percebeu que  aquele ali, dependurado num cinto velho, não era mais o seu dono. O cheiro mudara.  A atitude mudara.  Nenhum afago. Nenhuma palavra.   Não mais havia a ordem de entrar e de sair.  Aquele não era mais o seu dono. De alguma forma, algo que jamais imaginara, e que a sua mente canina não entendia, usurpara o bom  homem que o alimentava e que  cuidava  carinhosamente de suas feridas, quando os ratos motejavam de suas orelhas.

Então polca, corroído pela fome, começou por mastigar as sandálias que pairavam  opressivas acima de sua cabeça.  Ganiu, deu várias voltas em torno do próprio rabo. Latiu. E passou a lamber os pés daquilo que descia dos céus, e que tomara o lugar de seu dono.

Depois mordeu.

Roeu e mordeu novamente.  

Excitado, lambeu o sangue revelho com um furor que ele próprio desconhecia.

Algum tempo depois – um tempo que somente a mente canina pode medir e  eternizar – o cão sentiu uma secura na língua,  que grassou  à insanidade. Mastigando  e dilacerando,  uivando e roendo,  assim ficou o animal, até saber que não era fome o que sentia.

Era sede.

Era uma  sede que se tornava mais pungente  a cada naco de carne podre que extraía das pernas  descarnadas do ancião.  Uma  sede monstruosa, que  quase tocava o infinito.  Mas não parou em sua agitação canina,  rosnando e  eriçando os pêlos nervosos. Mordeu, ganiu, gemeu e dilacerou até não mais poder roer osso algum.  Quando, finalmente,  foi avisado de que  os ossos  e as carnes sulfurosas não mais estavam ao seu alcance, apesar de todo ímpeto e  de toda fúria  com as quais   se lançava contra a beira do cadáver,  mergulhou os focinhos entre as patas  traseiras,  mastigando  e remoendo o próprio rabo. Enrodilhou-se, pois,  como uma serpente iracunda.  Tremeu e espumou  num canto escuro,  qual um  endemoninhado.  Tremeu e gemeu.  Ganiu e dormiu.

Outra eternidade passou-se até que viesse um despertar com a súbita deliberação de fugir e abandonar para sempre o cadáver que amputrara.

Os ossos do ancião – homem pobre, valoroso  e solitário –  insinuavam-se pela abertura das calças mutiladas.  E quando os homens viram as pontas   dos fêmures carcomidos, corroídos pela fúria alucinada do pobre animal., caíram numa espécie de torpor e de horror indizíveis.  O luzir dos  ossos brancos,  impacientemente triturados por dentes sôfregos, ainda mais sinistra tornava  aquela oscilação pendular, aquele bailado inerme de  enforcado. Assim, encetaram uma  busca completa na região, para matar o animal, porque   induzidos  a um horror bem mais profundo que o necessário.   Abateram o animal a pauladas, sem compaixão alguma, e puseram-no a afogar-se no  charco lindeiro de  Santo Amaro. Somente depois  que se riram e jactaram  da própria crueldade, é que   encontraram,  no colete do enforcado,  um pequeno bilhete, metido na tampa de um relógio de algibeira,  a embrulhar os retalhos de um retrato feminino. O bilhete, escrito pela tinta púrpura  da solidão e do  desamparo, dizia apenas: 

“Cuidem  bem do meu cão, pois é tudo que tenho e o  melhor do que jamais tive”.

Obs.:

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