A Escolha
(Um
texto de Jurandir Araguaia)
A
cena era de um angustiante e terrível desespero: uma mulher grávida,
no alto de um edifício, apontava para a própria barriga uma enorme
adaga. Encontrava-se na beirada, sobre o parapeito, de joelhos enquanto
as lágrimas escorriam copiosamente pelas suas faces. Eu assistia a
cena de uma lanchonete próxima ao local onde o drama se desenrolava.
Helicópteros sobrevoavam filmando em close. Uma multidão incrível
juntara-se e o pavor podia ser lido em todos os rostos.
-
Será que pula?
-
Louca! Vai matar o filho no ventre.
-
Alguém tem que impedir isso!
Os
comentários que ouvia na lanchonete não deviam diferir daqueles que
a multidão emitia. Os corações disparavam. Por que a mulher, querendo
se livrar do feto, simplesmente não saltava? A morte não mataria a
ambos? Qual a necessidade da adaga? Provavelmente queria ter a certeza
de que o feto morreria. Esperava ansiosamente que não me chamassem.
Não tardou e meu celular soou. O chefe do Departamento policial intimidava-me
a comparecer ao local. Eu sabia que poderia ser chamado, mas esperava
que outro psicólogo pudesse atender ao caso.
-
Você é o único disponível! Venha logo, uma mulher ameaça saltar
do Edifício Capricórnio...
-
Eu sei. Estou acompanhando o noticiário e estou muito perto. Não devo
demorar.
Minha
relutância em atender talvez venha das terríveis conseqüências.
Prefiro lidar com um seqüestrador movido a dinheiro do que com essas
intrincadas questões emocionais. Larguei o lanche que mal começara
a digerir, deixei o dinheiro e dispensei o troco. Corri para o local
e fui passando pelos cordões de isolamento graças às minhas credenciais.
O
elevador subiu rapidamente. O tumulto no final da hora do ¨rush¨ congestionara
todo o centro da metrópole. O drama era transmitido ao vivo em cadeia
nacional. Eu odiava publicidade, mas não haveria como escapar. Obrigaram-me
a usar um colete. O capitão que comandava a operação disse que a
mulher estava a ponto de dar à luz e que pensavam em disparar um tiro,
caso eu não conseguisse dissuadi-la.
-
O senhor enlouqueceu? Vai matar uma mulher em cadeia nacional?
-
A criança é o nosso objetivo. Não podemos permitir essa loucura.
-
Pensei que eu fosse o psicólogo.
-
Escute, doutor. A mulher é uma ex-drogada neurótica. Já esteve presa
por assassinar o padrasto. Possui uma ficha com vários furtos e agora
entrou em depressão por causa da gravidez. Não vamos permitir que
mate a criança. Vamos amarrar esse cabo ao senhor. Se puder, tente
agarrá-la e salvará as duas.
Senti
terrível calafrio. Os helicópteros, o barulho de sirenes, a multidão
e o vento naquele 33º andar somente aumentavam o stress e o desconforto.
A mulher, ao perceber que eu abrira a porta daquele terraço, gritou:
-
Não se aproxime, você não pode fazer nada.
-
Sou médico! Precisamos conversar.
-
Fique longe.
-
Escute, vou me aproximar dessa borda e então falaremos.
-
Esse cabo na cintura? Vai tentar me salvar?
-
Obrigaram-me a usar pela minha segurança. Deixe-me aproximar. – sem
esperar resposta aproximei-me e sentei no parapeito. Ela estava a menos
de dez metros. Caso se jogasse eu não poderia fazer nada.
-
Escute, não sei qual o seu problema, mas tudo tem uma saída.
-
Essa gravidez não tem saída. Ele não pode nascer.
-
Não se apavore. Poderemos arranjar alguém para cuidar de você e do
bebê.
Ela
me encarou furiosa:
-
Você não entende. Esse bebê será a desgraça do mundo. Se ele viver,
a humanidade acaba...
O
caso era grave. A mulher devia sofrer de intensos distúrbios neuróticos.
-
Ele é filho do demônio. – dizendo isso, levantou a adaga para o
alto ganhando velocidade para perfurar o ventre. Em seguida o próprio
gesto e o seu peso, visto estar de joelhos de frente para o vazio, lançariam
seu corpo para baixo. Antes que ela terminasse, um disparo certeiro
vindo de um edifício em frente arremessou-a para trás após arrebentar
parte de sua cabeça. Um jato de sangue ainda me atingiu. Fiquei tenso.
Os paramédicos correram para tentar salvar o bebê. Aproximei-me da
mulher. Nada mais poderia por ela. Vestia uma blusa leve e, com a queda,
a enorme barriga ficou à mostra. Por um instante pareceu que seu ventre
desenhara algo estranho, como se fosse a cauda de um réptil desenhando
um tridente sob a pele.
O
caso ganhou densa repercussão. Os boletins jornalísticos não se cansavam
de repetir o drama. Fugi a todas entrevistas. Naquela noite me refugiei
em um bar tentando escapar do quadro. Trôpego, caminhei pela noite
em becos escuros. No meio de um deles ouvi o barulho de latas caindo.
Olhei para trás e vi dois olhos vermelhos enormes em meio à escuridão.
Corri no sentido contrário e ao dobrar uma quina, uma poderosa mão
agarrou-me pelo pescoço e suspendeu-me no ar. Era uma criatura monstruosa.
Senti seu bafo quente e nauseante. Possuía uma fisionomia dantesca,
similar aos demônios que estamos acostumados a retratar.
-
Quero que proteja o meu filho. – disse a criatura.
-
Como?
-
O bebê que salvaram. Quero que você o adote e crie como seu.
-
Eu não posso. Como farei isso? – de repente, diante dos meus olhos,
desenharam-se quadros narrando uma grande felicidade que se daria na
minha vida ao cuidar do bebê. Teria dinheiro, prestígio, publicaria
livros e teses de sucesso e conheceria uma linda e estonteante mulher.
-
Se me servir, tudo isso será seu. Abrirei os caminhos para que a adoção
te beneficie. Ensine-o a lidar com as emoções e a manobrar a mente
das pessoas. O resto despertará com o tempo.
-
E caso me recuse? – soltou-me no chão.
-
A escolha é sua... – sumiu no ar deixando um odor putrefato.
Na
manhã seguinte fui à maternidade. Seria difícil um homem solteiro
assumir a guarda da criança. Na recepção, a mesma mulher estonteante
das visões, trajando um justo vestido vermelho sorriu para mim. Era
uma assistente social encarregada de acompanhar o bebê. Apresentei-me
e pedi para ver a criança. O bebê parecia inocente, como todos são.
A mulher tocou em meu braço.
-
Ele não é lindo? – afirmei positivamente com a cabeça. Sem que
esperassem puxei uma adaga e cravei no peito da criança...
O
tempo passou e eu agora apodreço nessa cela escura. Posso lidar com
a acusação da humanidade e com o rótulo de monstro. O difícil é,
por todas as noites, encarar a face nua do demônio e conviver com os
terríveis pesadelos que me proporciona enquanto prepara minha cama
no inferno...