Era uma linda noite de
lua cheia. Cris encontrava-se sentada no terreiro, defronte à humilde
casa de barro batido em que residia com os pais e mais quatro irmãos
menores. O pequeno lugarejo de nome Charneca não dispunha ainda de
luz elétrica, água encanada ou saneamento básico, era tudo muito
rústico.
O cheiro de querosene
chegava às narinas de Cris, através da fumaça dos candeeiros que
iluminavam a casa, e ela gostava daquele aroma tão conhecido, assim
como o cheiro do mato, a terra molhada e aquela brisa deliciosa que
refrescava seu corpo enquanto ela fitava o céu e se encantava com o
brilho das maravilhosas estrelas que piscavam no céu. Cris costumava
fazer isso todas as noites, após fazer a refeição noturna juntos
aos pais e irmãos, buscando um pouco de tranquilidade, longe da bagunça
das crianças. Ela nunca imaginou que essa noite seria muito diferente
das outras e que viveria o maior terror de sua vida.
Perdida em seus pensamentos,
sem se dar conta do tempo passando, Cris de repente deu-se conta do
silêncio ao seu redor. Achou estranho não ouvir o barulho das crianças
dentro de casa e sua pobre mãe gritando o tempo todo para que ficassem
quietos... não era possível que todos já houvessem deitado e adormecido.
Resolveu levantar-se e ir ver o motivo da paz repentina... ao chegar
à porta sentiu-se envolvida por um cheiro ocre e putrefato, um arrepio
tomou todo o seu corpo deixando-a gelada e com uma sensação sufocante
de pavor. Com dificuldade, forçou-se a andar, tendo que vencer o medo
que a possuía, resistindo a vontade de dar meia volta e sair correndo
pra longe dali. Assustou-se ainda mais ao ver um vulto negro e enorme
cortar a sala em direção ao quarto dos seus pais. Foi uma cena rápida
que deixou-a em dúvida se viu mesmo aquilo ou era fruto de sua mente
apavorada.
-Pai! Mãe! – chamou
em voz baixa, como se evitasse que mais alguém além deles ouvisse
seu chamado. – Vocês estão aí? – Indagou indo em direção
ao quarto.
Havia apenas um candeeiro
aceso em toda a casa, e este encontrava-se na cozinha. Não tendo coragem
de entrar no quarto escuro, ela dirigiu-se até a cozinha para pegá-lo.
Ao voltar-se, já com o candeeiro nas mãos, para dirigir-se ao
quarto, viu outra vez o vulto, dessa vez com mais clareza. Não fora
fruto de sua imaginação, ela realmente viu algo parecido com um homem
muito alto e meio encurvado. O grito congelou-se em sua garganta e ela
tremia tanto que nem conseguia mover-se. Ficou parada, aterrorizada
aguardando aquela coisa voltar e vir em sua direção. O que não ocorreu
e permitiu que ela se acalmasse um pouco após alguns minutos, conseguindo
voltar a mover-se.
Foi caminhando passo-a-passo
em direção ao quarto dos pais, torcendo para que eles estivessem apenas
dormindo e a coisa não estivesse lá, ou melhor, nem sequer existisse.
Fosse apenas fruto de sua mente apavorada.
Chegando à porta do
quarto, Cris levou o candeeiro à frente do rosto para clarear
toda a extensão do aposento. O medo já havia diminuído, afinal ela
era uma mulher forte e corajosa, que não acreditava em seres de outro
mundo. Estava quase rindo para si mesma e pensando em como era boba
por se assustar com sua própria imaginação. Foi quando sentiu um
sopro quente, como se alguém ou algo estivesse respirando bem próximo
ao seu rosto. Não teve coragem de virar-se pro lado e ver o que era,
apenas fechou o olhos e chamou em voz baixa:
-Pai?!? – como resposta
teve apenas um grunhido rouco e feroz. Sem saída, Cris foi obrigada
a virar-se e olhar o que estava ao seu lado... deparou-se com um negro
horrendo. Ele a fitava com ódio nos olhos injetados de sangue, a boca
aberta como a de um cão rosnando mostrava os dentes quebrados e tortos.
O rosto apresentava cicatrizes de cortes e machucados. Paralisada de
terror, sem conseguir mover um só músculo do corpo e com um grito
preso na garganta, a jovem permaneceu ali, fitando a criatura sem esboçar
nenhuma reação... foram segundos que pareceram uma eternidade, até
que perdeu os sentidos e não viu mais nada.
Quando abriu os olhos,
completamente atordoada, Cris viu que já era dia e que estava em sua
cama. Lembrando imediatamente da cena horrível, soltou finalmente o
grito que estava preso em sua garganta. Todos, mãe, pai e irmãos apareceram
na porta de seu quarto assustados.
-Filha - falou a mãe,
tomando-a em seus braços – o que aconteceu? Encontramos você desmaiada
na porta do nosso quarto ontem à noite, ficamos muito assustados...
Cris abraçou forte a
mãe, soluçando num choro incontrolável. Olhava a família toda reunida
à sua volta, com mil perguntas na cabeça e sem conseguir articular
uma palavra sequer. Algum tempo depois, controlou-se um pouco e conseguiu
falar.
-Mãe, pai! Pensei que
nunca mais iria vê-los outra vez... o que aquele homem fez com vocês?
Quem era ele? Nunca havia visto nada tão assustador em minha vida...
Os pais olharam-se sem
entender nada. A mãe perguntou:
-Que homem, filha? Não
tinha ninguém aqui! Do que você está falando?
-Mãe, tinha sim, eu
vi. Era um negro muito alto, cheio de cicatrizes, uma criatura horrenda,
eu o vi.
-Filhinha – falou o
pai – você deve ter tido um pesadelo. Estávamos todos na cozinha
quando ouvimos um baque. Corremos e encontramos você caída na porta
de nosso quarto. Não havia ninguém aqui.
-Mas, pai! Eu entrei
em casa por estranhar o silêncio... chamei por vocês e ninguém respondeu.
Fui até a cozinha e não havia ninguém, peguei o candeeiro e fui procurar
vocês no quarto, foi quando vi a criatura... ele estava bem pertinho
de mim... eu vi!
Os pais entreolharam-se
sem entender nada, achando que a filha estava atordoada por causa do
desmaio e confundindo sonho com realidade. Ela continuou seu relato,
tentando controlar o nervosismo.
-Mãezinha... eu pensei
que nunca mais veria vocês, que aquela coisa tinha feito mal a vocês...
- e voltou a chorar copiosamente.
-Filha, - disse a mãe
abraçando-a – fique calma. Seja o que for que você viu, não está
mais aqui e não nos fez mal algum.
Depois de muita conversa
e muito carinhos dos pais e dos irmãos, Cris finalmente acalmou-se.
Mas, não conseguiu tirar aquela imagem horrível do pensamento.
Os dias foram passando
e o acontecimento foi tornando-se mais ameno na mente de Cris, os afazeres
do dia-a-dia, a preocupação com os irmãos não deixavam tempo para
indagações sobre o ocorrido, até porque nunca mais voltou a acontecer
nada de estranho na casa.
Até que uns dois meses
depois, Cris acordou no meio da noite com um frio que congelava até
sua alma. Encontrou dificuldade para conseguir levantar e pegar outro
lençol, pois o corpo inteiro tremia sem parar. Encolhida no lençol,
foi até o canto do pequeno aposento e retirou da caixa de papelão
onde guardava os lençóis e pegou um. Ao voltar-se em direção da
cama, o medo paralisou-a outra vez. Lá estava o negro, sentado em sua
cama com a cabeça baixa e as mãos cruzadas entre os joelhos.
Apesar do susto, Cris
notou que desta vez não foi tomada pelo pavor, pois o negro não estava
com aquela expressão de ódio da outra vez. Seu semblante era de abandono,
tristeza, sofrimento, carência, menos ódio. Sem conseguir mover os
pés do lugar, Cris ficou olhando aquela criatura sentada na cama sem
se mover... até que ele levantou o rosto e fitou-a. O que ela viu foram
olhos molhados de lágrima no rosto de um menino-grande.
Num fio de voz, achando
que nem seria ouvida, Cris perguntou: - Quem é você?
O negro fitando-a nos
olhos, respondeu com um lamento que a fez arrepiar-se:
-Quero ir pra perto de
minha gente...
-Quem é sua gente...
de onde você veio...? - perguntou mais uma vez, com a voz trêmula.
O negro levantou-se,
e num pulo, a face mais uma vez transfigurada pela ira, quase encostou
em Cris. Olhou-a com todo o ódio que poderia conter numa criatura,
deu um berro horrendo e despareceu. Mais uma vez, Cris desfaleceu no
meio do quarto.
Ao abrir os olhos já
era dia, e sua família estava ao redor de sua cama, aflita.
-Filha, você desmaiou
outra vez... - disse a mãe, chorosa.
-Mãe, eu o vi de novo,
mãe. Ouço até agora aquela voz e aquele grito pavoroso em meus ouvidos.
Não me deixe sozinha, mãe, não quero mais ver aquilo!
Os pais de Cris resolveram
procurar o padre da paróquia, pois sabiam que a filha estava à beira
de um colapso nervoso, e toda a família estava apavorada com receio
de encontrar a terrível criatura.
O padre informou que
não era a primeira vez que ouvia esses relatos. Que havia um cemitério
escravo nas proximidades e que outra família já o havia procurado
com relatos parecidos. Disse que não adiantou reza nem água benta
e a família teve mesmo que deixar o lugar.
E assim, com tristeza
no olhar e um futuro incerto, a família de Cris juntou os poucos pertences
que tinha e abandonou o casebre. Preferiram arriscar a falta de uma
moradia a ver a filha enlouquecer, pois Cris não queria mais dormir,
nem ficar sozinha. E entrava em desespero quando a noite começava a
cair...