ESMOLA

AUTOR: ALISSON HEBERT

200

ESMOLA

Por Alisson Lobo Guará

A cadeira de balanço parecia adormecer na varanda da casa. As árvores em redor da residência davam-lhe um ar agradável e preguiçoso; era uma aconchegante casa azul-bebê encravada no meio de um pomar.

E a cadeira de balanço já parecia dormir nesse instante. Na cozinha, uma mulher cozinhava no fogão à lenha.

Mãe...

Que foi Isabel? Tô ocupada...

Eu tô com fome.

Daqui a pouco está pronto, vá brincar.

Isabel tinha sete anos. Era uma menina ativa de olhos negros e brilhantes. Era pequena para a sua idade, fato que preocupava Madalena, sua mãe, e seu pai, um caixeiro viajante, que na maior parte do tempo deixava a mulher e a filha sós naquele sítio. Isabel passou pela cadeira de balanço e se sentou no degrau do terraço, de onde se tinha uma vista panorâmica da estrada que descia a serra e de onde seu pai despontava quando voltava de suas andanças.

A barriga roncou. O vento farfalhou os galhos das jabuticabeiras, mas não estavam em época de dar fruto. A menina levantou-se e foi se sentar na cadeira de balanço. Bem verdade que se sentia só agora naquele lugar. Preferia a casa antiga, com as filhas da vizinha. Sabia que sua mãe também não gostara da mudança, mas ela não iria contra a vontade do marido.

Menina.

A voz passou como um assobio pelos ouvidos de Isabel. Ela olhou para os lados, mas não viu ninguém.

Ei, você...

Agora tinha sido mais consistente. Não podia ser engano; alguém estava falando com ela. Mas não via ninguém. Mesmo assim, achou por bem responder.

Onde você está?

Nenhum som, além dos galhos das jabuticabeiras ao vento, em resposta.

Isa!

Ela se assustou com o chamado repentino da mãe. Levantou-se, ainda olhando para os lados.

Traga-me uma maçã.

A voz era arrastada, mas clara e direta. Isabel estremeceu ao ouvir a ordem. Já estava à porta de entrada da sala. Olhou para trás e viu uma velha corcunda, de cabelos ralos e totalmente brancos, com uma longa saia negra cuja cintura ia até seus peitos fartos e caídos. Ela se esgueirava por trás da pilastra do terraço. A menina nunca vira aquela senhora por ali.

Não havia macieiras no sítio, nem mesmo na região. Mas na casa ainda havia maçãs, das que sua mãe comprara na sua última ida à cidade. A menina não viu mal algum em dar uma maçã a uma pobre senhora. Almoçaram na enorme mesa colonial, disposta apenas para duas pessoas. Por alguma razão, que nem mesmo ela entendia, Isabel não contou a sua mãe sobre a velha lá fora.

Havia quatro maçãs. Isabel comeu uma, sua mãe outra e depois mais outra. A última a menina pegou – não era tão vermelha quanto as outras três – mas chamou a atenção de Madalena.

Isa, minha filha, você ainda está com fome?

Não mamãe.

Essa maçã ainda está um pouco verde, vamos guardá-la para o seu pai.

Isabel não retrucou. Deixou que sua mãe pegasse o fruto e o pusesse na fruteira. A menina não sabia de que forma olhar na cara da velha do lado de fora. Preferiu ficar dentro de casa o resto do dia. Vez ou outra, ela olhava da janela da sala e podia ver a velha atrás da coluna do terraço, com o mundão verde das árvores atrás, contrastando com seus cabelos brancos e sua saia centro-peito negra. E ela sorria banguela, como que a cobrar o pedido.

Ela não vai embora...

Quem, minha filha?

Isabel olhou para o rosto preocupado da mãe, que já estranhava o fato da filha não ter saído de casa mais naquele dia.

A senhora lá fora.

Madalena abriu a cortina da janela por completo. Lá fora a tarde findava e a algazarra dos grilos já tomava conta de tudo.

Não tem ninguém.

Mamãe, ela deve ter se cansado. Ela esperou por tanto tempo...

Você já a viu antes?

Não.

Falou com ela?

Ela queria...

Esmola? Temos que economizar até seu pai voltar, você sabe.

Sim, mamãe.


***


Quando a noite cai, o que antes era um cenário bucólico e vivo, torna-se sombrio e desolador para a menina. Sorte que ao menos havia luz elétrica na casa, mas só nela; as outras moradas próximas ao sítio não gozavam do mesmo privilégio. Isabel ia dormir cedo, acordava cedo durante a semana, pois tinha que pegar um ônibus que levava as crianças da região para a escola que ficava numa cidade não muito distante. Madalena, por sua vez, de uns tempos pra cá voltara a bordar pequenas meias de bebê e fazia isso se balançando na cadeira do terraço, enquanto os grilos cantavam e a brisa noturna lhe acariciava a face. Às vezes uma ou outra “comadre” que morava mais próximo ao sítio lhe visitava, mas Madalena não era de criar vínculos fortes de amizade, nunca fora antes e agora, com aquela gente mais simples, é que não tinha vontade de fazê-lo.

Bordou até altas horas. Levantou sonolenta da cadeira, deixando cair alguns novelos no chão bem encerado, dirigiu-se à porta e entrou. Fechou-a com toda a segurança. Adentrou pela casa que parecia ainda mais desoladora àquelas horas. Na cozinha, algo brilhava vermelho, cor de sangue. Madalena aproximou-se da fruteira – sua boca já se enchendo de água. O fruto lhe tentava, estava cheia de desejo.

Quando amanheceu e Isa despertou e foi tomar café, deu por falta da maçã destinada ao seu pai, apesar de saber que certamente ela apodreceria antes que seu pai voltasse, mas não se incomodou. Achou que a senhora tinha vindo pegá-la durante a madrugada, afinal era dela.


***


As jabuticabeiras enfim presentearam a menina com seus frutos negros e doces. Agora Isabel passava boa parte de suas tardes, quando voltava da escola, embaixo das jabuticabeiras; hora colhendo frutos, hora apenas brincando ou soltando sua imaginação de menina olhando o céu através dos espaços entre as copas das outras árvores.

Parecem olhos, né?

Isa estava com seu vestido cheio de jabuticabas quando escutou a voz que lhe falava de cima. Deixou cair quase tudo na terra fértil.

Você é desastrada – riu a voz.

A voz era infantil e ela não sentia mais medo, passado o impacto inicial.

Onde você está – perguntou ela.

Aqui em cima, boba.

Isa olhou para cima, onde os ramos da jabuticabeira eram fartos e entrelaçados e onde havia os frutos mais negros e mais carnudos. Ela viu o dono da voz.

Como você conseguiu subir aí?

A cabeça do menino aparecia entre as ramagens e os galhos cheios de frutos semelhantes a olhos negros, segundo ele. Sorria traquinamente para Isa.

É fácil. Você não consegue porque é menina...

Não!

É sim. Venha, tente.

Ela pareceu refletir a respeito.

Melhor não...

Por quê? – pareceu frustrado nessa hora e a cabeça pareceu se esconder mais entre os galhos.

Mamãe disse que o papai chega hoje. Ela tá grávida... A barriga dela já tá bem redonda. Eu não quero sujar o vestido, desculpe... Qual é o seu nome?

Dinho. E o seu?

Isabel.

Isabel, vê essas jabuticabas aqui em cima? São as melhores.

Sim, são – disse resignada.

Se quiser, eu derrubo umas pra você.

Ela sorriu em agradecimento.

Só preciso que você levante as mãos para não deixá-las cair todas no chão, como você fez agora a pouco com as que tavam no seu vestido.

Tá bom.

E ela ergueu as mãozinhas rechonchudas no ar, enquanto as jabuticabas caiam sobre elas.

Suas mãos são bonitas – a voz de Dinho parecia vir de um lugar ainda mais alto agora.

Mostre-me as suas também.

O vento do meio da tarde farfalhou os galhos onde já não se via mais a cabeça de rosto pálido do menino. Só a voz cada vez mais distante anunciou:

Corra, seu pai chegou.


***


Madalena bordava na cadeira de balanço do terraço. A mulher, uma das vizinhas mais próximas despontou no batente da casa. Madalena parou de bordar. Era manhã e sua filha estava na escola, sua barriga crescia e uma preguiça a fustigava naquele período da gestação. Ela perguntou à recém-chegada:

Arrumou uma pessoa?

Por aquelas bandas num tem ninguém desocupado não. Se eu num tivesse minha casa pra cuidar, eu mesma vinha ajudar a senhora...

Sim, eu sei – e parecia ignorar que houvesse qualquer indício de boa vontade na figura humilde da outra mulher. – Meu marido chega hoje e não vai querer que eu fique só com a Isa em casa, não agora que tô assim.

Tem gente desocupada do outro lado do sítio. Eu não posso ir lá agora, porque tenho muito o que fazer quando chegar em casa. Mas certamente vai encontrar alguém lá pra ajudar a senhora aqui.

Foi embora em seguida. Madalena trancou a casa e cortou caminho pelo quintal, passou pelo tanque de lavar roupa, cercado por cajueiros e inúmeras bananeiras. As sombras das copas das árvores no chão pareciam um quebra-cabeça mal elaborado. Ela seguiu até chegar à cerca com o portão de ferro, divisa do sítio. Passou por ele e continuou pela estradinha de barro cercada por mato. Numa curva, avistou uma cruz velha com uma coroa de flores murchas. Indicava que alguém falecera ali. Madalena se benzeu rapidamente e continuou.

Divisou a caixa d’água, como era chamado o local que bombeava água para o sítio e arredores. Mais à frente viu uma primorosa casa disposta no meio do matagal. Parecia que a tinham encaixado no meio da vegetação. Não era pintada, era toda construída de pedras simetricamente colocadas e polidas, o telhado era vermelho e o que chamou ainda mais a atenção de Madalena: a chaminé, algo que não era comum nas casas daquela região. A mulher se encontrava batendo palmas na frente da casa, seus olhos vislumbrando cada detalhe.

Os passos vieram arrastados lá de dentro. A porta rangeu com um trincar noturno de dentes de alguém sofrendo de bruxismo. A cabeleira rala e branca apareceu antes do rosto enrugado da senhora.

Bom dia – falou Madalena . – Eu moro naquele sítio – apontou para trás, além da caixa d’água. – Eu queri...

Tome – estendeu a mão e entregou metade de uma maçã a Madalena.

Senhora...

A mulher pegou o que a outra lhe entregara e seu rosto era todo uma interrogação.

Não tenho outra coisa a lhe oferecer – continuou a velha com sua voz arrastada que saia de lábios que se moviam e paravam antes mesmo de terminada sua fala.

Eu não vim lhe pedir esmola...

A outra metade, que estava aí dentro – apontou com sua mão manchada para a barriga de Madalena – o meu neto comeu.

A mulher olhou nos olhos com catarata da senhora. Sentiu uma estranha sensação de perda em suas estranhas. O sol resplandecia num céu sem nuvens e da chaminé da casa da velha saia uma densa fumaça que tingia o azul.

Passaram-se sete minutos. Madalena deu as costas para a velha. Segurava metade de uma maçã. Ouviu as suas costas a voz arrastada que dizia:

Antes de seu marido chegar, eu quero as “duas” aqui.

A porta fechou em seguida com o mesmo trincar de outrora.


***


Isabel entrou eufórica em casa.

Papai! Papai!

Não houve resposta. Escutou um estranho barulho de metal vindo dos fundos.

Mamãe?

Também não houve resposta. Atravessou a casa. A porta da cozinha estava escancarada. Perto do tanque de roupas, que estava com a torneira aberta, avistou sua mãe de costa para ela, acocorada, a barriga apertada entre as pernas e o tronco, amolando um facão numa pedra.

Mamãe, o papai chegou?

Isa, eu tô ocupada. Vá sentar e espere – a voz perecia vir de uma mulher que estava bordando calmamente e parecia não interferir no som do facão em vai-e-vem na pedra.

O Dinho disse que o papai já tinha chegado.

O barulho cessa.

Quem lhe disse?

Dinho... conheci na jabuticabeira. Ele é um menino, mas é legal...

Isa, meu amor, ajuda a mamãe a fazer uma coisa pro seu irmãozinho – sua voz estava lânguida como uma canção de ninar.

Sim, mamãe.

Madalena chamou a filha para perto do tanque. As roupinhas de bebê estavam dispostas nela.

Eu preciso que você as enxágüe, enquanto eu termino outra coisa.

A menina se espantou; nunca sua lhe deixara perto do tanque e não se lembrava de tê-la visto com um facão na sua frente, mas não perguntou nada. Começou a fazer o que sua genitora lhe mandara. O tanque era alto e ela tinha que ficar nas pontas dos pés. O barulho do facão sendo amolado iniciou outra vez, mas parou em seguida. Isabel agora parecia se divertir com as pequenas meias do irmão na água.

Isa, feche os olhos.

Por que mamãe?

Apenas feche...

Olhos fechados.

O facão desceu e travou no osso do pulso direito, cuja mão segurava um pedaço de sabão. Em seguida a pedra desceu sobre a lâmina enegrecida e o osso se rompeu junto com que o que vinha abaixo. Madalena segurou firme o pulso da filha que competia com a torneira, em fluxo de líquido. A menina desfaleceu rápido.

Preciso da outra – os olhos da mulher estavam vermelhos e lacrimejados.

Ela preparou a outra mão da filha a ser amputada.

Subiu o facão no ar. Desta vez não desceu como antes. Foi jogado para o lado por uma mão forte, que esbofeteou Madalena com severidade e a lançou no chão, onde as sombras em quebra-cabeça dos cajueiros sobrepuseram-se sobre sua face sem expressão.

O que você fez?– berrava o pai de Isabel, com a menina nos braços.

Madalena respondeu mecanicamente:

Ele comeu a metade... As duas pela metade que falta era o acordo. Ela precisa das duas...

O sangue descia pelo ralo.


***


Só com a metade do cérebro? – o homem repetia as palavras do médico.

Sim, é um caso raro. Acredite foi melhor para ele...

Que tenha morrido?

O médico não falou nada.

Como ela está?

Sem reação. Não perguntou pelo filho. Assim que se recuperar ela volta para onde estava.

Alguns bebês choravam de algum lugar daquela velha maternidade de cidade pequena. O choro chegava aos ouvidos do homem que acabara de ser deixado só na sala de espera pelo médico que realizara o parto mal sucedido de seu filho. Pouca coisa lhe passava pela cabeça nesse momento. Um único arrependimento: não deveria ter levado sua mulher e sua filha para aquele lugar. Mas pensava apenas na segurança delas. A cidade estava ficando cada dia mais insegura para se criar uma menina. Nada disso importava agora.


***


Mamãe, o que acontece se eu não aprender a escrever? – ele balançava uma maçã na mão esquerda, um lápis na outra e sorria enquanto perguntava aquilo à mulher a sua frente, na mesa.

Luís, quando eu perdi a mão direita eu já sabia escrever. Tive que aprender de novo... com a outra. E foi muito difícil.

O menino a olhou com aquela cara apiedada e ao mesmo tempo curiosa que tanto encantava Isabel.

Vamos visitar o vovô no sítio esse final de semana – perguntou trocando algumas letras.

Sim, agora eu vou terminar meus afazeres.

Ela se retira, ajustando o avental ao corpo com um pulso liso, onde outrora houve um membro.

A campainha toca. O menino vai atender. Isabel pergunta da cozinha:

Quem é, Luís?

Do outro lado do portão uma velha encurvada olhava bem dentro dos olhos de jabuticaba do garotinho. Atrás de sua saia negra, um garoto de rosto pálido sorria e lhe acenava com uma mãozinha rechonchuda. Luís os olhou e os achou engraçados.

Quem é – perguntou Isabel da cozinha mais uma vez.

Menino, você não teria algo para meu neto comer...

Luís estendeu a maçã pela grade com sua mão pequena que passava facilmente pelos espaços. Os olhos de catarata da velha faiscaram, revelando um verde vivo, os do garoto atrás dela se encheram de alegria.

O que sucedeu a isto, os respingos rubros na calçada denunciam.



~ FIM ~


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