O ESPELHO OBOVAL

Autor: Paulo Soriano

Espelho

Aos amigos Henry Evaristo,  Linx, Rogério Silvério de Farias  e Alessandro Reiffer.

“Vi mais longe do que  era permitido”
Friedrich  Nietzsche

- Eu não sou cego de nascença – disse ele, provavelmente  afagando as barbas que, supunha eu, a partir do exame de seu caráter, deveriam ser  medonhas. – Queres saber como perdi a visão?

Ora, eu não havia perguntado nada e não tinha a mínima curiosidade de sabê-lo. Mesmo assim, ele continuou:

-   De certa forma, foi um “suicídio da visão”. 

Eu  nunca havia ouvido tanta parvoíce em minha vida. Mesmo assim prestei atenção.

- Quem era eu?  Um ocultista muito pouco famoso. E,  decerto,  o mais fiel  discípulo de Narciso.  Porque, além de alfarrábios cabalísticos,  colecionava espelhos tal qual  um filatelista renomado  disputa selos raros.  Em uma viagem a Roterdam,  fiquei sabendo da existência de uma relíquia milenar. Era um pequeno espelho oboval que, segundo um respeitadíssimo e honesto antiquário, seria assírio e  havia pertencido a Milton e a  John Dee.  Tratava-se de um pequeno objeto metálico,  emoldurado em cedro, de superfície côncava e opaca. Em nada se assemelhava a um espelho.  Mirei-me nele, mas o objeto  não refletia a minha imagem.  “Definitivamente – disse eu ao vendedor –,  isto está longe de ser um espelho.” Então ele me confidenciou:  “É uma justa constatação.  Mas é preciso que saiba o senhor que este espelho não reage à luz. Reage à alma.” Eu era, então – e literalmente –,  um homem desalmado, porque nada pude vislumbrar naquela superfície turva. E foi isso o que eu disse ao vendedor.  Kelley – assim ele,  ironicamente, se   dizia  chamar – me sugeriu que levasse a preço vão  o  “raro”  objeto (mas que a mim  me parecia simplesmente “lançadiço”)  e que o observasse em plena escuridão noturna. Foi o que eu fiz.

- Antes de recolher-me – prosseguiu meu singular interlocutor –, apaguei todos os lumes. Nem um  bico de gás, nem uma vela me escapou a uma atenta e minuciosa vistoria.  Fiquei, portanto, na mais completa escuridão. Olhei para o espelho obovalado e, então, contemplei monstruosidades. Sim, do fundo do objeto veio uma luz tão incisiva, tão extraordinariamente cintilante, que, a um impacto ofuscante,  me causou um desequilíbrio d’alma,  seguido de uma confusão mental de difícil restabelecimento.  O objeto prendeu-se à minha mão como um ímã. E de sua superfície airosa vieram, aos poucos, depois que a luminosidade estonteante arrefeceu,  as imagens que o espelho  sugava de minha alma, e as recompunha em conformidade com a minha real e íntima aparência. Ah! O choque foi tão profundo que perdi de imediato os sentidos.  E, quando despertei, verifiquei, para o meu horror, que o ser hediondo – o ente abominável refletido naquela  superfície espectral – congelara-se nas minhas retinas e mergulhara  definitivamente em meu cérebro. Não, não peças que eu descreva tamanha monstruosidade e abjeção!  Até hoje   não enxergo outra coisa senão a terrível imagem, a  representação  disforme,  infame – porém fiel –,   de minha  desgraçada alma!

Não sei se o homem era louco. Sei apenas  que ele  se ergueu e, com o tato de sua bengala, percorreu o longo corredor que dava acesso aos livros escritos em Braile. Mas virou-se para mim por um instante e concluiu:

- Tenho inveja da escuridão eterna dos teus olhos. Aqueles meus eu já os arranquei,  inutilmente,  com os gumes destas unhas. Porque é a minha alma que se reflete e enxerga-se a si própria, como um estigma perpétuo e indelével, e que nem os sonhos logram  esvair.   Vi mais longe do que  era permitido.

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