ESTRADA PARA A AGONIA AUTOR: RAFAEL VALLE
Estrada
para a agonia
Rafael Valle
O
vento se tornava gélido enquanto Laís ansiava por chegar a sua casa.
Fazia um quarto de hora desde o início do percurso ao longo da estrada
escura e deserta, tendo apenas o reflexo da lua entre nuvens escurecidas
como companhia. À frente de Laís só havia a mais repleta escuridão,
não permitindo calcular se ainda faltava muito a caminhar. A moça,
amedrontada e solitária, alimentava um profundo arrependimento pela
demora na casa da amiga, assim como não ter consigo mais que seu vestido
para se abrigar do frio.
Com
lágrimas no rosto, a caminhada já durava meia hora, até que Laís
finalmente avistou uma movimentação. Uma luz intensa estava vindo
em sua direção, com seus raios difundidos pela neblina, formando um
clarão ofuscante. O ruído anunciava a chegada de um automóvel, cortando
a noite angustiante. Parada no acostamento, Laís sustentava a idéia
de pedir carona para o veículo que, agora, com seus faróis inquietantes,
iluminava parte da vegetação baixa que se estendia por quilômetros
distanciando-se das margens da rodovia. Enfim o veículo passou pela
moça sem hesitar, deixando-a no breu completo novamente. Exausta, Laís
demonstrava-se no limite da situação, caindo aos prantos em meio à
escuridão, agachada à beira da estrada sem forças para resistir ao
frio intenso. Só se ouvia o mais sombrio soprar do vento por entre
os galhos de uma árvore solitária. Nada indicava ajuda para a moça
que permanecia abaixada, tentando de todas as formas se resguardar do
frio com o pouco pano de seu vestido surrado.
O
som de um ronco macabro surgia na direção de onde Laís estava vindo,
tornando-se cada vez mais intenso. Laís levantou-se trêmula, se virando
lentamente para trás enquanto enxugava as lágrimas geladas de seu
rosto, ainda aos soluços. Nada notando, a moça reuniu forças e continuou
a caminhada, engolindo o pranto ao longo do breu que nada permitia ver
além do próximo passo. A cada passo o ronco se aproximava e já permitia
distinguir ser um motor, provavelmente do mesmo veículo que passou
por ela, mas estranhamente apagado. Com os braços cruzados e ombros
encolhidos, numa tentativa inútil de abrandar o tremor causado pelo
frio, a moça retornou a caminhar, mas, dessa vez, depressa, sentindo
agora um receio em relação ao veículo que parecia segui-la lentamente,
poucos metros atrás. Intrigada com a capacidade de conduzir o veículo
em meio à escuridão, Laís desconfiava da possibilidade de ser abordada
de maneira indesejável pelo estranho motorista. A respiração ofegante
e os olhos esbugalhados acompanhavam certa mudança na origem da preocupação,
num acesso de dúvidas sobre o que a estava seguindo. Agora Laís não
mais ligava para o frio. Ela corria com a respiração acelerada, pela
estrada, percebendo o ruído do motor roncando de maneira furiosa, como
se estivesse rugindo de tempos em tempos com rotações aceleradas de
aviso, mas mantendo sempre a mesma distância.
A
corrida de Laís durou pouco até que se cansasse, reclinando-se com
as mãos apoiadas aos joelhos, respirando com exaustão. O momento de
agonia teve o ápice com o clarão dos faróis se acendendo por trás
da moça solitária. Hesitante, Laís virou-se para trás e manteve
os olhos semi-cerrados, de pé, tentando proteger os olhos da luz intensa
com o braço arqueado sobre o rosto. Um momento de dúvida e desespero
tomou conta do corpo e da mente de Laís, a qual caiu desmaiada em seguida
na beira da estrada.
Ao
abrir os olhos, a primeira coisa que Laís percebeu foi uma dor intensa
na cabeça, a qual julgou ter sido causada pela queda do desmaio. Desnorteada,
começou a perceber que já não mais estava à beira da pista, mas
sim no que parecia ser o porta-malas de um carro. Tateando tudo a sua
volta, a moça percebeu, com o toque das pontas dos dedos, algo pegajoso,
escorrido ao longo do chão. Ao procurar mais, tocou o que parecia ser
uma lanterna, pegando-a em seguida para poder enxergar onde estava.
Ao acender o achado, Laís entrou em total desespero, comprovando que
se encontrava trancada a um porta-malas com um estranho desacordado,
o qual possuía um corte profundo na cabeça, exibindo parte de seu
crânio esbranquiçado, enquanto o que havia tocado seria seu sangue
jorrando pelo cubículo. Aos gritos, a moça socava, em vão, o interior
da lataria, suplicando por sua vida, assim como tentava se distanciar,
repulsivamente, do que julgava ser um cadáver.
Um
longo tempo havia se passado e Laís já não tinha mais forças para
socar o veículo, além de a agonia da reclusão já ter superado sua
repulsão pelo acompanhante inanimado. Seu choro já estava abafado
e quase silencioso. O automóvel tremia como se estivesse passando por
um terreno muito acidentado, enquanto eram ouvidas vozes vindas do exterior.
Parecia ter chegado a alguma espécie de destino final. A jovem tentava
decifrar o que se passava do lado de fora, sofrendo com a vontade de
voltar para casa e, ao mesmo tempo, com receio do que estaria lhe aguardando
quando o bagageiro fosse aberto. Sem muito espaço, com as pernas meio
encolhidas, de frente para a entrada, Laís apagou a lanterna e a segurou
na esperança de usá-la para surpreender o condutor com um golpe no
momento em que a traseira fosse aberta. Aflita, Laís ouviu o
ranger da suspensão, como se alguém muito pesado descesse do carro,
aliviando peso. Ruído de passos se aproximando eram ouvidos, os quais
a moça fantasiava ser de alguém grande e medonho. Como se transcendesse
um limite para o medo, a jovem transformava toda a sua angústia na
mais intensa fúria contra quem imaginava ser o seu rival. Já se ouvia
a chave destrancando o porta-malas durante os segundos mais longos e
duvidosos em sua vida. O suor escorria entre as belas formas da jovem
de olhos arregalados enquanto a luz fraca da noite entrava lentamente
à medida que o porta-malas se abria. Proferindo um grito estridente,
Laís projetou a mão que empunhava a lanterna na direção do que parecia
ser a silhueta do desconhecido que a libertava da reclusão, mas sua
surpresa foi tão grande quanto sua raiva quando notou que não havia
alguém ali, na direção da investida. Laís saiu do porta-malas tão
veloz e desesperadamente que sofreu um corte extenso e dolorido na coxa,
devido ao descuido na hora de atravessar a borda de metal enferruja
da abertura, tendo parte de seu vestido arrancada. Correndo, desengonçada,
em seguida, com a mão pressionando o machucado recém-sofrido, Laís
abandonou o local sem olhar para trás, nem ao menos visualizando o
veículo onde estava.
Alguns
metros adiante, tropeçando na raiz saliente de uma árvore e caindo,
a jovem enfim olhou para trás, para que então soubesse que se encontrava
na antiga fazenda abandonada que um dia pertenceu a sua família. Confusa,
Laís ficou alguns segundos jogada ao chão, refletindo rapidamente
sobre a situação, mas nada concluindo a respeito.
O som de uma
gargalhada com propulsão insana ecoou da direção do carro, acentuando
a agonia de Laís, que já não mais andava e sim rastejava sobre a
terra de consistência arenosa que invadia seu ferimento. A dor de seu
machucado aumentava a cada vez que puxava seu corpo para frente, utilizando
apenas um braço e uma perna para se arrastar, ao passo que uma de suas
mãos tentava proteger sua mágoa do contato com o chão. A risada medonha
se repetia, aproximando-se cada vez mais na proporção em que o pranto
vão de Laís se intensificava, sem ao menos recompor suas vestes quase
arrancas pelo atrito contra o chão.
Acima
de Laís, havia apenas nuvens correndo apressadas pelo vento, alternando
a forma como a lua se mostrava, fazendo da luz noturna, além parca,
inconstante. Para a moça, o mundo acabou se limitando aquelas centenas
de quilômetros quadrados. Todos os seus planos iam desaparecendo dentro
de sua cabeça. Agora, Laís não via mais expectativas em sua vida,
pois tudo se resumia ao par de botas estacionado diante de seu pálido
rosto colado ao chão, na humilhante situação de estar fugindo sem
saber de quem ou porquê.
Os
olhos fechados no isolamento da escuridão apenas negavam o existente
contato com a massa fedorenta daquele que a carregava sobre o ombro
como se fosse o troféu de uma caça. Laís sentia a superfície adiposa
com textura íngreme de inexplicáveis quatro dedos apertando sua nádega
por baixo do vestido, ouvindo várias sentenças obscenas que soavam
em seus ouvidos como ameaça de morte. O homem, de porte gordo e desajeitado,
porém com força incrivelmente dominadora, a carregava na direção
do carro como se a jovem não oferecesse qualquer espécie de resistência.
Àquela altura, Laís não conseguia ao menos chorar diante de tal situação.
Encarando
um momento que parecia já ter acontecido, Laís viu-se surpresa ao
abrir os olhos e reparar que passava pelo carro, ainda carregada, sem
ser depositada no mesmo, assim como reparou a ausência da pessoa no
porta-malas. Na mente criativa da jovem estudante, brotavam idéias
sobre a possibilidade de que a outra aparente vítima de seu seqüestrador
ainda estivesse viva e, além do mais, pudesse ajudá-la, mas o pessimismo
no qual tudo se conduzia engolia sua gota de esperança, fazendo brotar
a idéia de que ele teria sido um corpo já despejado ou mesmo ter acordado
e fugido sem ser notado.
Minutos
de caminhada carregada sobre ombro do sujeito e Laís foi arremessada
a um sofá velho, já dentro de uma velha casa, a qual ela se recordou
no exato momento em que chegou. A presença das poucas velas acesas
já foi o suficiente para que ela tivesse uma visão nostálgica daquele
que tinha certeza de ser seu leito de morte, assim como foi seu primeiro
lar. No sofá, numa primeira tentativa de observar o dominador, Laís
foi agredida com um tapa desconcertante em sua face. O homem, que agora
ela já sabia ser um antigo funcionário da fazenda, demitido por motivos
que ela ignora, é alguém do qual ela guarda más recordações.
O
estalo das palmas pesadas se chocando marcou o início daquilo que o
gordo chamou de “a festinha”, iniciando o ritual com a ordem de
Laís arrancar a roupa que vestia sob a ameaça de ser espancada. Com
os olhos firmes na face apalermada e pateticamente sorridente do seqüestrador,
a moça deslizava as mãos para baixo sobre a barriga, num ritmo típico
de quem faz algo contra a vontade, vivendo a ironia de se sentir impotente
quanto ao rumo de sua intimidade. Trêmula, com ar impetuoso, as mãos
levantaram a barra do vestido para que este fosse arrancado, com a seqüência
de um gesto sarcasticamente convidativo, com os braços levemente abertos
num ângulo fechado, manifestando inutilmente a intensidade de sua revolta.
Após visualizar o corpo seminu de Laís, apenas com uma peça íntima
escondendo seu sexo, aquele no qual Laís tem como “o gordo”, abriu
uma gaveta, sacando uma garrafa de bebida com aparência bronzeada,
tal que o simples abrir do recipiente já poderia empestear o ambiente
todo com odor de álcool. O gordo, segurando a garrafa pelo gargalo,
aproximou-se da moça amedrontada e furiosa, projetando a bebida nos
seios de Laís, para em seguida lambê-los até fazer com que sua saliva
pegajosa substituísse todo o líquido entornado.
O
transtorno mental causado pela situação causava sensações com efeitos
psicológicos absurdos sobre Laís. Ela, na imprevisibilidade de tal
situação surreal, via-se tendo que se esforçar para vencer a dor
de um ferimento grave, ficando de pé, apoiada com as mãos sobre os
ombros daquele animalesco sujeito ajoelhado, enquanto seu sexo era explorado
por sua boca deformada e fétida. Num estado de mais pura luta por sobrevivência,
a moça se sentia forçada a livrar-se dos pudores, na esperança de
que lhe reste, senão a honra, ao menos a vida. Ao cume que suas lembranças
de infância sobre tal homem gordo, maltrapilho e ignorante só lhe
causavam angústia por se lembrar da maneira doente e ameaçadora como
ele a observava, nada mais importava além de garantir que estaria viva
e nunca mais teria de encará-lo novamente.
Adiantando
o indesejável, porém, aparentemente inevitável, Laís tentou aparentar
cumplicidade, afagando os raros fios de cabelo do sujeito, os quais
se soltavam quando mexidos. O gordo, apatetado, respondeu com uma gargalhada
asmática, abafada pelo púbis de Laís. Sentindo que nem todo o controle
sobre a situação estava perdido, Laís observou melhor a sua volta,
na tentativa de ver algo que pudesse utilizar para feri-lo. Logo a direita
do sofá, sobre uma pequena mesa, a moça avistou o que parecia ser
uma espécie de faca improvisada, com um cabo de madeira mal-preso a
uma lâmina tosca meio enferrujada. Induzida por uma súbita adrenalina,
acompanhada de um rápido cálculo mental, a moça apoiou as mãos sobre
as orelhas imundas do gordo e fez um leve movimento com a perna e o
braço, como se indicasse para o homem que se viraria de trás para
ele, com joelhos e mãos apoiados sobre o móvel mofado.
Com
movimentos apressados e soltando grunhidos apavorantes, o sujeito se
levantou enquanto começava a abrir suas calças, enquanto a jovem se
mantinha debruçada com as mãos sobre o braço do sofá, ficando de
frente para o que almejava fazer de arma. Era desconcertante a maneira
como o homem que fisicamente teria condições de estrangulá-la facilmente
estava tão distraído com a visão posterior da jovem. Castigado pelo
movimento de aproximar suas genitálias, o homem sucumbiu no erro de
pegá-la por trás, sem ver o que a moça fazia com as mãos enquanto
aguardava que ele tentasse penetrá-la. Com uma lágrima de ódio escorrendo
pela face, Laís tinha o membro do sujeito dentro de si enquanto pegava
o instrumento de sua vingança. Apoiada a um só braço, Laís segurou
o canivete e o conduziu com a mão, ocultando-o sob si, na altura do
abdome. No momento em que o sujeito se encontrava completamente entretido,
Laís se aproveitou e moveu a mão para trás, cravando o objeto cortante
no pênis do seu rival e girando-o ferozmente. O homem soltou um urro
desesperado enquanto Laís movia seu quadril para o lado, fazendo com
que seu membro fosse arrancado. A moça, não mais sabendo sobre onde
se encontrava o limite de sua fúria, retirou aquele pedaço de dentro
de si, para logo após, aproveitando-se do momento de dor do homem,
cravar o canivete em seu olho esquerdo. Mancando, a moça abandonou
a casa enquanto ouvia os urros ensurdecedores do atacado, para que só
então ela se permitisse cair em prantos durante a fuga dolorosa. Após
se aproximar do carro, viu que o homem já surgia lentamente na porta,
praguejando e ameaçando-a. Após entrar no veículo, não satisfeita,
ela o surpreendeu atropelando-o quando saía da casa, repetindo a manobra
até não haver mais sinais de vida.
Enfim,
o pranto. Laís chorava de tristeza pelo que passou, mas chorava de
alegria por estar viva. Agora, de volta a rodovia, nua, dirigindo um
carro estranho, nem sequer sabia para onde iria. O alívio se formava
junto ao sofrimento. Laís ainda sentia aquele cheiro repulsivo em seu
corpo, assim como se algo ainda estivesse pressionando sua garganta.
Minutos ao volante e Laís confirmava o motivo da pressão ao seu pescoço:
o carro capotava após a condutora ter seu pescoço cortado pelo homem
que julgava estar morto. Triste foi o fim daquela que não viu quem
estava no banco de trás. Triste foi o fim daquele que errou o alvo
inimigo. Ela não era o ladrão de carros, assim como ele pensou.
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