Eu já
não sinto mais nada
Suelen Marinho
Realmente eu não sabia como tinha
ido parar deitada no meio da rua. Estava uma noite estrelada, um pouco
quente. Podia-se ver todas as constelações. A rua estava deserta,
ninguém dava o ar de sua graça. Eu levantei-me do chão, abanei um
pouco da poeira das roupas e comecei a olhar ao meu redor com muita
atenção. Era a rua do meu bairro, sem dúvida. Mais silenciosa do
que normalmente é, mas era o meu pedaço. Comecei a andar para ver
se descobria o porquê, e, de soslaio, vi que havia várias pessoas
agrupadas na igreja da cidade, precisamente perto do altar. Entrei por
pura curiosidade. As pessoas olhavam para algo que eu não conseguia
ver. Aproximei-me mais. Pude ver um caixão. Um velório estava acontecendo
naquele momento. Olhei para os rostos das pessoas e notei que muitas
ali eram conhecidas minhas. Vizinhas, amigos da minha família, colegas
de escola, estavam todos lá. Achei aquilo tudo muito estranho. Aproximei-me
ainda mais. Do lado do caixão pude visualizar minha mãe sentada em
uma cadeira, totalmente transtornada. Ela chorava amargamente, levantava
as mãos para o céu, perguntava a deus o propósito de todo aquele
sofrimento. Vê-la naquele estado me deixou completamente sem reação,
ou melhor, quase. A única coisa que fiz foi me aproximar do caixão
para ver por quem minha mãe se debatia em dores. Levei um susto tremendo.
Minhas pernas bambearam. Perdi o ar. Eu conhecia a pessoa que estava
deitada. Eu conhecia a morta. Era eu.
Fiquei inerte por alguns minutos. Quando
a razão começou a me fazer companhia novamente eu tive a impressão
que ninguém estava conseguindo me enxergar. Era como se eu fosse invisível.
Fiquei na frente da minha mãe, mas ela simplesmente olhava para o caixão,
e seus gemidos enchiam a igreja. Seus lamentos eram de cortar o coração.
Saí correndo da igreja. Não podia
agüentar nem mais um minuto daquilo sem perder completamente o pouco
de juízo que ainda me restava. Corri o mais rápido que pude. Como
uma maratonista eu corria, mas não sentia cansaço. Nem ao menos suava.
Claro que, dada às circunstâncias, aquilo passou despercebido por
mim. Nunca saberia precisar a distância percorrida, mas quando finalmente
parei e olhei à minha frente, eu estava em frente aos portões do cemitério
da cidade. E mesmo sem entender a razão, eu pressentia que era exatamente
o lugar onde eu deveria ir, e meu corpo, sabendo disso, levou-me até
lá. Os portões estavam abertos, algo totalmente anormal naquele horário.
Decidi entrar. Alguma coisa me chamava, alguma coisa com uma força
descomunal. E, devo confessar, aquela situação estava me causando
um certo fascínio. Era como olhar pelo buraco da fechadura do quarto
da irmã mais velha. Surpresas estariam garantidas.
Entrei. Olhei para o céu. Nada de
estrelas. O céu agora era um breu. Ficou frio de repente. Ouvi passos
ao meu redor. Pessoas caminhavam para cá e para lá. Tinha algo de
muito esquisito naquele caminhar. Eram como bêbados tentando andar
em linha reta. Um deles olhou para mim. Seu rosto expressava total indiferença.
Era como se nada lhe importasse, como se a resignação fosse a chave
para seus problemas. Não gostei do que vi. Não fiquei com medo, mas
aqueles olhos vazios fizeram com que eu me sentisse vazia. Caminhei
em direção aos portões. Iria embora imediatamente. Foi quando ouvi
alguém chamar meu nome. Não foi um chamar educado. Alguém bradava
a plenos pulmões o meu nome. Nesta hora senti medo. Nesta hora me dei
conta da minha situação. O que estaria acontecendo? Seria aquilo tudo
um sonho? -era o que eu pensava. Infelizmente aquela voz deixava bem
claro que não.
O dono daquela voz foi se aproximando.
Calmamente. Eu me mantive no mesmo lugar. Pude vê-lo melhor à medida
que chegava mais perto. Ele usava um paletó cinza com uma rosa na lapela
e trazia uma chave na mão. Era alto, e sua presença transmitia
superioridade. Por incrível que pareça fui perdendo meu medo, e sentimentos
confusos começaram a alojar-se no meu peito.
Eu o segui. Andamos alguns metros até
chegarmos em uma cova aberta. Olhei para a inscrição na lápide e
pude constatar o que já estava suspeitando: era o meu nome lá.
-Não entendo.
-Suicidas são sempre assim, se esquecem
facilmente de seus atos impensados. Almeja tanto ir para o outro lado,
e quando finalmente consegue, se apega à vida de uma forma que me deixa,
digamos, surpreso.
-Suicidas?
-Você não se lembra, não é? Fique
despreocupada, isso é perfeitamente natural. Acontece freqüentemente.
Vou deixa-la à par de tudo.
E me contou tudo. Foi algo agonizante
de ser relembrado. As lembranças fluíram então. O choque do abuso,
a vergonha, o sentimento de culpa. Meu tio fez o serviço completo.
Além de abusar de mim fez com que eu encarasse a vida de uma forma
aterradora. Às vezes que tentei contar à minha mãe, mas a vergonha
falava mais alto. Os cortes nos braços e pernas, como uma forma de
me punir por algo que eu não tinha a mínima culpa. E o desfecho final.
Overdose. Realmente meu tio fez o trabalho completo.
-Está na hora de ir.
-Quem são estas pessoas? Por que vagueiam
sem sentido?
-Pessoas como você que não agüentaram
o amargor da vida. Mas elas podem esperar. Hoje eu quero você.
E saiu caminhando na minha frente.
Eu o acompanhava logo atrás.
-O caminho é longo. Parímono é teu
senhor agora. Almas vazias, acovardadas, deleite para minha eternidade.
Mas agora já não sentes mais nada.
E ele tinha toda a razão. Para onde
eu iria, o que aconteceria, não me preocupava. Indiferente eu estava.
Resignada também. Um longo caminho me espera, mas eu continuo a passos
firmes, pois eu já não sinto mais nada.