As
primeiras gotas de chuva começaram a cair. O vento gélido as fazia
açoitar o corpo de César, que encolheu-se dentro do casaco e olhou
em volta, procurando um abrigo. Havia um bar aberto a alguns metros
de onde ele estava, na mesma calçada. Apressou o passo e entrou no
lugar. Sentou-se diante de uma mesa, amaldiçoando mentalmente o tempo,
o inverno e a falta de dinheiro que não lhe permitia tomar um táxi.
Uma garçonete jovem e feia veio atendê-lo, visivelmente de má vontade.
César pediu uma garrafa de vinho tinto seco e, enquanto a moça foi
buscá-lo, pensou se teria dinheiro suficiente na carteira para pagar
a bebida e, depois, o ônibus que o levaria para o subúrbio onde morava.
Enquanto
bebericava o vinho, o jovem pensava em sua vida. César era advogado.
Tinha trinta e dois anos. Interrompera os estudos durante muito tempo,
mas, finalmente, conseguira se formar, e passara no teste da OAB. Porém,
trabalhava num escritório de advocacia onde o tratavam praticamente
como um office boy – pagavam-lhe um salário mínimo e o mandavam
levar petições ao Fórum, carregar processos, comprar material de
escritório, fazer cobranças dos clientes, atender o telefone. E sabia
que só conseguira aquele emprego porque sua mãe era prima da esposa
do chefe – o que não lhe garantiria a vaga por muito tempo, mas,
pelo menos, ajudava-o a manter-se em Porto Alegre, embora fosse só
pelo fato de que sua jovem esposa também trabalhava que ele pudesse
sonhar com alguma coisa melhor, alguma especialização, algum curso
que lhe permitisse se arriscar a pegar alguns casos, ficar conhecido,
advogar de verdade.
Mas
o tempo passara. O verão se fora. O outono correra como um corisco,
e agora o frio do inverno fazia com que até seus ossos congelassem,
quando se abrigava no quartinho frio e úmido que alugava, deitava-se
na cama de solteiro que tinha de dividir com a esposa, porque não cabia
uma cama de casal naquela pecinha, e esperava que as ilusões do sono
lhe devolvessem alguma fé num futuro de sucesso que lhe parecia cada
vez mais improvável...
De
repente, César percebeu que um vulto parara à sua frente. Levantou
os olhos e assustou-se com o homem que viu. Embora a luz do bar realmente
não fosse boa, pôde perceber que o sujeito à sua frente era extremamente
pálido – parecia que não corria sangue naquelas veias azuladas que
podia enxergar através da pele pardacenta do desconhecido. Tinha um
nariz adunco e olhos penetrantes, que lhe pareceu que brilhavam como
os de um gato no escuro. Estava ensaiando um sorriso, e César pode
divisar-lhe os dentes amarelados, os incisivos tortos para dentro, os
caninos assustadoramente pontiagudos. O homem vestia um sobretudo negro,
com a gola levantada. Era alto e magro, e havia rugas profundas em torno
de seus olhos e de sua boca.
–
Com licença – disse o estranho. – Posso me sentar com o senhor?
César
sentiu-se desconfortável com aquela presença, mas não quis ser indelicado.
–
Claro – disse. – Fique à vontade.
O
homem puxou uma cadeira e sentou-se à mesa, diante dele.
–
Eu reparei que o senhor estava bebendo sozinho – disse o desconhecido.
– Dizem que “não presta” beber sozinho.
César
riu.
–
É verdade, dizem. Minha avó, que Deus a tenha, sempre me dizia que,
quem bebe sozinho, bebe com o diabo.
O
estranho deu uma risadinha.
–
Sua avó devia ser mesmo uma mulher muito sábia – comentou.
César
sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
–
Mas conte-me – disse o jovem, franzindo a testa –, e o senhor, o
que faz na rua numa noite horrorosa como esta?
–
Eu sou negociante – respondeu o homem. – Na minha atividade, não
se pode deixar de trabalhar debaixo de mau tempo. Posso perder um negócio
valioso se deixar que a chuva ou o frio me impeçam de sair. Já quanto
ao senhor, como é assalariado, não tem escolha, mesmo, não é?
–
Pois é. – César tomou um gole de vinho. – Mas eu já ia pegar
o ônibus para ir para casa, quando começou a chover e resolvi entrar
aqui para ver se estiava um pouco...
O
estranho cravou os olhos nos do jovem, de uma maneira que lhe pareceu
que penetrava em sua alma.
–
O senhor teria pegado o ônibus anterior, se o advogado para quem trabalha
não lhe houvesse mandado digitar mais uma petição e o senhor tivesse
saído do escritório na hora certa.
César
estremeceu.
–
Como o senhor sabe disso?
–
Ah, eu o venho observando há bastante tempo, Sr. César. Tenho visto
o quanto se esforçou para se tornar bacharel em Direito. Sei que o
senhor tem bastante potencial. Suas notas foram ótimas na faculdade,
apesar de todo o tempo que ficou sem estudar por causa das dificuldades
econômicas de sua família. Sei que o senhor tem habilidade com as
palavras, tem bom conhecimento das leis, sabe argumentar, enfim, sei
que o senhor tem tudo para ser um ótimo advogado, rico e bem sucedido.
Mas seu chefe não lhe dá uma oportunidade de mostrar o seu talento.
Ele prefere explorá-lo, não é mesmo, Sr. César?
Àquela
altura, César sentia o coração aos pulos e parecia que o ar lhe faltava.
–
Como sabe meu nome? perguntou, num fio de voz.
O
estranho olhou em volta. A garçonete estava distraída assistindo a
novela das sete numa pequena televisão, e não havia nenhuma outra
pessoa no lugar.
–
Sr. César, eu vim lhe propor um negócio – disse.
César
engoliu em seco.
–
Que espécie de negócio?
–
Ora, vamos, Sr. César. O senhor é um homem inteligente. Já sabe quem
eu sou, e já sabe o que quero lhe oferecer.
–
E também já sei em troca de quê – respondeu o jovem, sentindo-se
gelar de medo.
O
outro riu.
–
Sr. César, há poucos minutos o senhor nem acreditava em mim. Muito
menos no inferno. Nunca teve medo disso. Sempre achou que a morte fosse
o fim de tudo. Se eu desaparecer, o senhor sabe que não vai correndo
para uma igreja rezar um “Credo”. Não me diga que, justamente agora,
agora quando surgiu a oportunidade de sua vida, vai se tornar religioso
e passar a se preocupar com coisas que nunca acreditou que existissem.
O
jovem encolheu-se um pouco e encarou o estranho:
–
Ah, mas acontece que eu sei de muita gente que fez um pacto com o...
Bem, que fez um pacto, e pagou tudo o que devia nesta vida aqui,
mesmo. Ou então pagou com a própria vida. Por exemplo, sei de uma
pessoa que até ficou rica, mas morreu de câncer três meses depois
do acordo. Sei de uma mulher que conquistou o homem que amava
há anos, mas daí a uma semana ele morreu, vítima de uma bala perdida.
E sei de um cantor famoso que ficou paraplégico num acidente de carro
que...
–
Sr. César – interrompeu a figura sinistra –, o senhor é advogado.
O senhor sabe quais são as conseqüências de um contrato mal feito.
– Inclinou-se na direção do jovem e disse, baixinho: – Todas essas
pessoas fizeram um contrato muito mal elaborado, Sr. César. Nenhuma
delas incluiu qualquer cláusula que as protegesse. Além do mais, o
Direito Civil brasileiro não incide naturalmente sobre esse
tipo de contrato metafísico. Isso tem de ser estipulado pelas
partes contratantes. Mas o senhor é advogado, Sr. César, e dos bons.
Tenho certeza de que será capaz de pensar num contrato tão bem feito
que é até mesmo possível que o senhor consiga me passar para trás.
César
franziu a testa e ensaiou um sorriso. De repente, sentia uma certa auto-confiança
crescer dentro de si.
–
Bem – disse –, supondo que eu aceitasse a sua oferta, com certeza
eu exigiria no mínimo mais uns cinqüenta anos de vida próspera, saudável
e feliz.
O
outro afastou o corpo do de seu interlocutor e o olhou de uma forma
que denotava alguma espécie de contrariedade.
–
Acontece que eu não posso prometer vida – disse. – Vida
é algo que Ele dá, e Ele sempre poderá tirar na hora
em que quiser.
–
Então, nesse caso, não tem acordo comigo – respondeu César, decidido,
já fazendo menção de levantar-se.
–
Calma – interveio o outro. – Não posso prometer vida. Mas
posso prometer proteção contra todas as formas de morte que o senhor
conseguir imaginar.
–
Como assim? perguntou César, sentindo-se vagamente interessado.
–
Posso lhe prometer, por exemplo, que o senhor não será acometido por
qualquer espécie de doença, seja causada por agentes internos ou externos.
Posso lhe prometer que nenhum golpe ou artimanha de qualquer inimigo
irá atingi-lo, seja usando revólver, arma branca, veneno, explosivo
ou o que for. Também posso protegê-lo de ataques de animais. Posso
protegê-lo do fogo, da água, das pedras, dos desabamentos, dos esmagamentos,
em suma, posso cobri-lo de tantas garantias que com certeza o senhor
vai viver, próspero, saudável e feliz, muito mais do que os cinqüenta
anos que me pediu.
–
Sei – disse César. – E qual é o truque?
–
Não há truque – respondeu o sujeito. – Gosto de lidar com gente
inteligente, gente que confia em sua própria capacidade. – Olhou-o
em tom de desafio. – Vamos, melhore a minha proposta, Sr. César.
Sei que é capaz de criar um acordo que lhe seja plenamente favorável
em todos os sentidos.
–
Então, quero que incidam as normas gerais das obrigações do Direito
Civil Brasileiro, na forma em que eu as conheço – disse César, em
tom irônico. – Especialmente a cláusula da exceptio non adimpleti
contractus. A exceção de contrato não cumprido. Ou seja, se o
senhor não cumprir com qualquer item do acordo, eu posso alegar isso
em meu favor, e resguardo a minha alma.
–
A exceptio non adimpleti contractus está expressamente admitida,
Sr. César.
–
Bem, além de todos os itens que o senhor já mencionou, acrescente
proteção contra acidentes de carro, de barco e de avião.
–
Bem lembrado, Sr. César.
–
E estenda todos esses itens a todas as pessoas da minha família.
O
outro fez uma careta.
–
Todas as pessoas da sua família? O senhor está tentando vender
a sua alma bem caro, Sr. César. Acha que ela vale tanto assim?
–
Sem isso, não há acordo.
–
Bem, vamos negociar. Seu pai já é falecido, e posso lhe garantir que
não tenho a intenção de me meter com sua esposa, até porque sei
que o senhor não a ama tanto assim. – Fez uma pausa. – Portanto,
se eu estender minha proteção à sua mãe e aos filhos que o senhor
vier a ter, está bom, não está?
–
É, está razoável.
–
Certo. Que mais?
–
Um amplo apartamento de cobertura no bairro Bela Vista.
O
camarada sorriu.
–
Isso é fácil, Sr. César.
–
Um BMW importado. Uma conta bancária bem gorda.
–
O senhor está pedindo muito pouco.
–
Em um mês.
O
outro franziu a testa.
–
Em um mês? Tudo isso? Bem, acho que dá.
–
E quero que minha fortuna só aumente. Não quero que se passe um dia
sequer em que eu tenha menos dinheiro do que na véspera.
–
Serve mais patrimônio do que na véspera, Sr. César?
César
sorriu. Estava gostando da conversa, especialmente quando o homem usava
termos jurídicos. Sentia a confiança crescer dentro de si. A cada
momento que passava, parecia-lhe que se convencia mais de sua inteligência,
de sua capacidade, de sua habilidade em forjar um pacto no qual o próprio
demônio fosse prejudicado.
–
Serve – respondeu.
–
Então, temos um acordo, Sr. César. Pacta sunt servanda.
–
Os contratos têm de ser cumpridos – concordou o jovem.
O
homem levantou-se e estendeu-lhe a mão. César também se levantou
e apertou a mão magra, ossuda e acinzentada. Quando o cumprimentou,
uma estranha sensação percorreu seu corpo, algo que ao mesmo tempo
parecia congelá-lo e lhe produzir um choque elétrico, como se fosse
uma anti-energia, como se o próprio frio da morte o estivesse atravessando
naquele instante.
No
dia seguinte, César nem se lembrava mais do encontro da véspera com
o sujeito quando chegou no escritório. Assim que chegou, o chefe mandou
chamá-lo à sua sala. César entrou, sentindo-se vagamente inquieto.
O chefe estava com uma expressão estranha, parecia assustado com alguma
coisa.
–
César – disse ele –, preciso que tires fotocópias de todo esse
processo – entregou-lhe os autos de um inventário em cinco volumes.
– Agora mesmo.
–
Sim, senhor.
–
É muito importante. Vou ter de levar para casa. Sabes o Marco Aurélio?
–
O Dr. Marco Aurélio, seu sócio?
–
Sim. – O chefe o encarou, pálido. – Era o Marco Aurélio que estava
tentando destrinchar esse inventário. Só que o Marco Aurélio faleceu
ontem à noite, e agora eu não sei como vou desenrolar esse negócio.
César
arregalou os olhos.
–
O Dr. Marco Aurélio faleceu? Como?
–
Teve um enfarte.
César
estremeceu.
–
A que horas foi isso? perguntou.
–
Bem, a mulher dele disse que estava assistindo a novela das sete quando
o ouviu gemer. Ela chamou a ambulância, mas, quando chegou no hospital,
parece que ele já estava morto.
–
Na hora da novela das sete... – murmurou César, sentindo-se arrepiar.
–
Mas não percas tempo, César. Vai lá tirar o xerox agora mesmo, que
eu tenho que devolver os autos ao Fórum e analisar esse raio desse
inventário!
César obedeceu. Porém, enquanto o atendente da papelaria próxima
ao escritório tirava as fotocópias, o jovem ia examinando as peças
do processo. Realmente, era um inventário bastante complicado.
Mas,
de repente, toda a solução dos entraves do processo, desde a partilha
até o pagamento dos impostos, parecia surgir diante de seus olhos,
como num passe de mágica...
César
terminou de extrair as fotocópias, voltou ao escritório e sentou-se
diante de um computador. Em minutos, elaborou uma petição em que resolvia
todo aquele imbróglio, e apresentou-a ao chefe. O velho advogado leu
o papel e olhou para o jovem, espantado.
–
Como raios o Marco Aurélio não pensou nisso?... murmurou, enquanto
assinava. – Bem, rapaz, não sei se vai dar certo, mas pelo menos
o juiz vai ficar impressionado conosco!...
Nos
dias que se sucederam, César percebeu que tudo parecia conspirar a
seu favor. Não só aquele inventário foi solucionado como outros apareceram.
O chefe não demorou a reconhecer-lhe a habilidade e a torná-lo seu
sócio. Em poucos dias, foi preso um famoso traficante, em flagrante
delito de homicídio, e chegou-lhe às mãos a oportunidade de impetrar
o habeas corpus. César livrou o sujeito da cadeia e ele foi
bastante generoso em recompensá-lo. Mas já se haviam passado vinte
e sete dias, e ele ainda não tinha todo o dinheiro que pedira ao desconhecido.
Naquela
noite, quando voltava para casa, resolveu comer um cachorro-quente e,
quando ia jogar a embalagem numa lata de lixo, qual não foi a sua surpresa
quando encontrou dentro dela uma maleta aparentemente nova. Pegou-a,
levou-a para casa e a abriu. Estava cheia de dinheiro.
Estremeceu.
Deu-se conta de que, provavelmente, tratava-se do preço de um resgate.
Com certeza, alguém havia sido seqüestrado, encontrava-se em poder
de criminosos, e a família fora orientada a deixar o dinheiro naquela
maleta, naquela lata de lixo. Se não a devolvesse àquele lugar, ou
se não procurasse a polícia para que armasse uma emboscada para os
bandidos, a pessoa seqüestrada poderia ser morta... Mas contou o dinheiro
e se surpreendeu. Com o que havia ganho nos inventários, com a recompensa
do traficante e com o conteúdo daquela maleta, dava para comprar um
apartamento de cobertura na Bela Vista, um BMW importado, e ainda sobraria
aproximadamente duzentos mil de reais...
Quem
censurava César a todo instante era sua esposa Alice. Era uma jovem
bastante religiosa, e incomodava-a o fato de que boa parte da fortuna
que o marido amealhara em tão pouco tempo tinha alguma coisa a ver
com morte – a morte do advogado que houvera trabalhado no inventário,
as mortes dos próprios inventariados, a morte que o traficante causara.
E isso que ela não sabia nada sobre a maleta. César lhe mentira que
havia ganho o dinheiro na loteria. Mas, três dias depois do achado,
o jovem lera nos jornais uma notícia de um empresário que fora encontrado
morto, com um tiro na cabeça, boiando no Guaíba, após ter permanecido
vários dias em poder de seqüestradores, sendo que a família desesperada
jurava que pagara o resgate, embora depois os bandidos houvessem feito
contato e afirmado o contrário...
Ao
mesmo tempo em que enriquecia, César tornava-se cada vez mais frio,
com os empregados, com os servidores de cargos menos elevados do Fórum,
com as pessoas pobres com que cruzava na rua, e inclusive com Alice.
Esta, por sua vez, apegava-se cada vez mais à sua fé. César irritava-se
em vê-la cada vez mais religiosa, cada vez mais cristã, cada vez mais
próxima de Deus. Ela o convidava para orarem juntos. Ele recusava,
mas sabia que a esposa o incluía em suas súplicas. Todos os dias,
pela manhã, Alice se levantava, punha-se de joelhos ao lado da cama
e dizia:
–
Que o Sangue de Cristo nos cubra com seu poder e nos defenda de todo
mal.
Aquela
menção ao Sangue de Cristo parecia fazer com que seu próprio sangue
fervesse em suas veias. Sua raiva se incendiava cada vez que ela dizia
aquilo. Aos poucos, Alice foi-lhe parecendo cada vez mais feia, cada
vez mais burra, cada vez menos adequada para ser a esposa do advogado
de renome em que ele estava se tornando. Tinha vergonha de quando saía
com ela e ela começava a falar em Jesus Cristo. Chegava a dizer-lhe
que tinha ciúmes desse Deus que parecia ocupar a mente dela mais do
que o próprio marido. Mas Alice tudo suportava com paciência, e isso
o incomodava ainda mais.
Certa
manhã, quando ela fez sua oração costumeira, César exclamou:
–
Chega, mulher! Eu não quero saber de sangue nenhum em cima de mim!...
Alice
o olhou, surpresa e indignada.
–
Pois não parece – respondeu ela.
César
levantou-se e a encarou.
–
Como?
Alice
baixou os olhos.
–
César – disse, baixinho –, quanto sangue teve de ser derramado
para que pudesses fazer fortuna?...
César
chegou a levantar a mão para esbofeteá-la. Alice se encolheu. Então,
César se lembrou que a lei estava mais severa para com maridos que
batem nas esposas. Fez um gesto de impaciência.
–
Vai fazer o meu café – disse. – E vê se pára de me incluir nessas
tuas rezas! Eu não quero e não preciso desse tipo de proteção!...
A
esposa vestiu um robe e foi até a cozinha. César ligou o chuveiro.
Sentia-se exausto, já àquela hora da manhã. Impressionante como a
simples menção ao nome de Cristo era capaz de irritá-lo, e como essa
irritação era capaz de roubar-lhe as forças daquela maneira. Enquanto
a água quente corria por seu corpo, pensou: “Eu tinha que ter me
lembrado de acrescentar ao contrato um jeito de me livrar dessa
infeliz.”
Mas
nada o impedia de livrar-se ele mesmo do incômodo que sua mulher representava.
Passou
o dia inteiro maquinando um plano. Sua esposa era uma mulher franzina,
sempre fora meio adoentada. Não seria difícil de acreditarem que sofria
do coração. Bastava que desse um jeito de matá-la sem levantar suspeitas
e subornasse um médico que atestasse que a causa mortis fora
enfarte. Alice não tinha pais vivos e seu único irmão estava morando
há muitos anos em São Paulo. Ninguém iria desconfiar.
Um
cliente seu, astuto criminoso, forneceu-lhe discretamente o veneno.
César chegou em casa mais cedo. Como imaginava, Alice não estava em
casa àquela hora. Provavelmente, tinha ido à Igreja. César foi até
a geladeira. Havia uma jarra com um restinho de suco de limão. Sabia
o quanto Alice gostava daquela bebida. Despejou na jarra todo o conteúdo
do vidrinho que o bandido lhe fornecera. O sabor ácido da fruta disfarçaria
o do veneno.
Foi
para a sala que utilizava como seu escritório, deixou a porta aberta
e ficou examinando alguns processos. Daí a pouco, ouviu Alice chegar.
As horas foram-se passando, até que, finalmente, a esposa veio avisá-lo
de que o jantar estava à mesa.
César
sentou-se e começou a comer. Andava enjoado da comida que Alice fazia.
Queria comer pratos finos, elaborados. Mas sua esposa ainda não aprendera
a cozinhá-los. Estava fazendo um curso de culinária, e teve de admitir
que a torta que ela serviu por último estava deliciosa, tanto que repetiu.
Mas Alice não comeu quase nada e nem tocou na sobremesa.
–
O que foi? perguntou. – Não estás com fome?
–
Não sei – respondeu ela, olhando com certa repulsa para a mesa farta.
– Parece que alguma coisa no almoço não me caiu bem...
“Provavelmente,
ela já tomou o suco, e o veneno já está começando a fazer efeito”,
pensou ele.
–
Desde que horas que estás te sentindo mal?
–
Não sei... Mas acho que desde que eu voltei da Igreja...
–
Vai ver que foi o Sangue de Cristo que não te sentou – provocou ele.
–
Que horror, César! Não digas uma blasfêmia dessas.
Levantou-se,
devagar.
–
Aonde vais? perguntou ele.
–
Vou me deitar um pouco. Pode ser que passe.
Alice
caminhou lentamente para o quarto. César viu quando ela entrou e fechou
a porta. Dirigiu-se para seu escritório, que ficava no outro extremo
do espaçoso apartamento. Entrou e trancou-se, satisfeito por haver
mandado isolar acusticamente a peça e instalar uma porta a prova de
som. Não queria ser incomodado pelos eventuais gemidos de sua esposa
agonizante.
Olhou
com displicência para os processos sobre a escrivaninha. Aproximou-se
do aparador e serviu-se de um copo de uísque. Sentou-se no confortável
sofá de veludo e começou a beber.
De
repente, ouviu uma voz dizer atrás de si:
–
Dizem que, quem bebe sozinho, bebe com o diabo.
Levantou-se,
sobressaltado, e voltou-se na direção da voz. O estranho com quem
se havia encontrado no bar, há mais ou menos dois meses, o encarava
com um ar cínico.
–
O senhor? murmurou, trêmulo. – O que está fazendo aqui?
O
homem fez a volta no sofá e sentou-se, cruzando as pernas.
–
Vim visitá-lo, Sr. César. Aliás, acho que agora devo dizer Doutor
César.
–
Com certeza – respondeu o jovem, arrogante. – Mas quem lhe deu permissão
para entrar aqui, e como conseguiu?
O
sujeito deu uma risada.
–
Parece que sua velha avó estava certa, Dr. César. A chave que me abriu
as portas de seu apartamento é essa que o senhor tem nas suas mãos.
César
olhou com certa repulsa para o copo de uísque e largou-o rapidamente
sobre a escrivaninha.
–
Bem, se o senhor veio me ver, já me viu. Agora, peço que me dê licença...
–
Calma, Dr. César. Eu acabei de chegar. O senhor nem me deu tempo de
perguntar-lhe como se sente.
César
ia responder que estava bem, mas, subitamente, sentiu uma tontura.
–
Não precisa falar, Dr. César. Eu sei como o senhor se sente.
Sei que está sentindo um mal-estar, uma náusea, uma vertigem, uma
falta de ar. Acho melhor que o senhor se sente, Dr. César.
César
obedeceu, cada vez mais pálido.
–
O que está acontecendo? perguntou, num fio de voz. – O senhor me
prometeu que eu nunca ficaria doente.
–
O que o senhor está sentindo não se deve a qualquer espécie de doença,
Dr. César.
–
Então...?
O
homem levantou-se e aproximou-se do jovem. César encolheu-se, ao mesmo
tempo em que o outro parecia crescer por cima dele.
–
O senhor foi envenenado, Dr. César.
César
arregalou os olhos e estremeceu.
–
Mas... Como...? Quem...?
–
Estava deliciosa aquela torta que o senhor comeu na sobremesa do jantar,
não estava, Dr. César? perguntou o sujeito, com malícia. – Não
sentiu um ligeiro gostinho ácido, provavelmente de limão?...
César
levantou-se, aterrorizado, e imediatamente sentiu um aperto no peito.
Caiu de joelhos e escorregou para o chão, sentindo-se cada vez mais
sufocado.
–
Sua esposa usou o suco de limão que o senhor envenenou para fazer a
torta, Dr. César. Ela não comeu nem um pedaço. Mas o senhor comeu
bastante. Devo dizer que cometeu o pecado da gula, Dr. César. Se não
tivesse repetido a sobremesa, a dose que o senhor ingeriu não teria
sido letal. Mas...
–
Socorro! gritou César.
Mas
o escritório era a prova de som...
–
Eu... Eu invoco... a exceptio... non adimpleti... contractus
– disse César, ofegante, sentindo o ar fugir de seus pulmões, como
que para não voltar, a cada palavra que dizia.
–
Lamento muito, Dr. César. Mas eu cumpri integralmente a minha parte
no contrato.
–
Como... se eu estou... envenenado...?
–
Ora, Dr. César, eu havia prometido protegê-lo de qualquer ataque que
viesse de seus inimigos. Mas não havia prometido protegê-lo do
senhor mesmo, Dr. César. Foi o senhor mesmo
quem colocou veneno no suco de limão. E foi o senhor mesmo quem
comeu dois pedaços da torta, Dr. César...
César
ainda o olhou, com terror, antes de mergulhar na escuridão. O sujeito
levantou-se e sacudiu a cabeça, com desdém.
–
Eles sempre deixam um furo na hora de elaborar o contrato
– murmurou.
No
meio da noite, Alice deu pela falta do marido e bateu na porta do escritório.
Como não houvesse resposta, por mais que ela insistisse, arrombou-a.
Encontrou-o caído e imediatamente chamou a ambulância, mas quando
o levaram para o hospital, já há muito tempo não restava mais o que
fazer. Todos se surpreenderam com o que havia acontecido – todos,
inclusive o médico que fora subornado por César para diagnosticar
um enfarte como a causa mortis de sua esposa, o qual percebeu
que alguma coisa no plano dele havia saído errado, mas achou por bem
cumprir com sua parte no trato: já que fora pago para diagnosticar
uma morte por enfarte, diagnosticou uma morte por enfarte, antes que
a polícia desconfiasse que estivera metido numa tentativa de envenenamento...
Depois
do velório, Alice chegou em casa, amparada por algumas de suas amigas
da Igreja, e, na falta de outra coisa, quis oferecer-lhes um pedaço
de torta de limão. Mas, estranhamente, a torta havia mofado, e ela
teve de jogá-la fora. E nenhuma daquelas mulheres piedosas teve a oportunidade
de provar a guloseima que tanto havia agradado a seu marido na véspera...
MAIO
DE 2007
-*-*-*-
Nota: esta
é uma obra de ficção, que não retrata necessariamente minhas crenças,
idéias ou opiniões; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais
terá sido mera coincidência.