A Face da Loucura
Autor: Diego Santos
ESCRITO EM FEVEREIRO DE 2008
Escrevo
esta carta com o objetivo de relatar eventos os quais tive o desprazer
de presenciar enquanto de minha estadia em meio a Floresta Equatorial
da Amazônia. Cheguei aqui no dia 23 de Janeiro de 1999, em um sábado
chuvoso, completamente despreparado para andar nesta horrível mata
densa. Não sei quanto tempo estou aqui, mas posso dizer que foi o suficiente
para me impedir de distinguir fatos reais ou meras ilusões óticas
geradas pela fome severa que vem me acometendo nos últimos dias.
Ainda
me lembro do meu próprio nome: Carlos Damasco. Trabalhava como investigador
e sentinela para a SIVAM – Sistema de Vigilância da Amazônia –
e, para exercer tal função, é claro, tive um treinamento complexo
e rígido de como andar por estas matas, o que comer e o que aspirar
encontrar. Mas ainda assim eu estava despreparado para me deparar com
uma situação que ia além dos aspectos físicos e perigos mortais
da floresta ombrófila a qual eu me preparava para desbravar. Encarar
a Floresta Amazônica significa enfrentar as mais sombrias e obscuras
criptas da própria mente.
Tudo
começou com o comunicado que recebi do delegado de polícia Tobias
Ubiratã de Manaus, relatando-me atividades ilegais, principalmente
de tráfico de entorpecentes em uma região protegida pelo projeto Amazônia
Legal. Basicamente o meu trabalho era reunir uma equipe, composta de
policiais, guias e operadores de câmera de vídeo, no intuito de investigar
o caso. Eu deveria também levar provisões, equipamentos e armamentos,
além de uma autorização judicial para agir com prelado no meio daquele
inferno verde. Em menos de três dias estava tudo pronto.
Como
sempre fui um sujeito solitário, despedi-me apenas do único membro
de minha família que morava em minha residência em Manaus, o Senhor
Benedito Damasco, meu avô, um historiador aposentado, professor em
dezenas de universidades, e especialista em História do Norte do Brasil.
Lembro-me claramente das palavras do velho, minutos antes de minha saída:
cuidado, jovem, pois o bioma ancestral
é responsável por perigos ocultos que nem em um milhão de anos os
pesquisadores poderão decifrar.
Naquele
dia, achei sinceramente que sabia do que meu avô estava falando. Bioma
é o conjunto de seres vivos que habitam uma área extensa. E como na
Amazônia uma boa parte da fauna é ainda incógnita, na floresta há
perigos inimagináveis. A falta de luz do sol no solo da grande floresta,
devido ao número denso de copas em toda a extensão do lugar, tem como
conseqüência a falta de vegetação e de animais rastejantes que usufruem
dela. Por isso concluíra que meu avô me alertara sobre os morcegos
e marsupiais selvagens, grandes vetores de doenças, ou talvez estivesse
falando dos mosquitos. Mas hoje entendo o que ele realmente quis proferir.
Toda
a equipe se reuniu no dia 21 de Janeiro de 1999 em frente ao escritório
do IBAMA, e a mesma estava engajada da seguinte maneira: cinco policiais
ambientais, dois guias, um deles descendente dos índios Campas do Acre
(Ashaninka) e apenas um operador de câmera, o único que aceitara participar
da campanha pra receber alguns trocados. A equipe contava comigo também,
claro, um investigador ambiental perito em fauna e flora, biólogo formado
pela Universidade de Manaus. No horário marcado chegara uma Kombi negra
com um motorista que lembrava muito um daqueles velhos exploradores
que costumamos ver em filmes estrangeiros – careca, barba branca acinzentada
muito mal cuidada e pele enrugada como ameixa. Em nenhum momento de
nossa viagem o velho pronunciou uma sílaba sequer.
O velho
não falou nada – e nenhum de nós estava realmente com vontade de
conversar, pois, no fundo, o mau presságio vinha sendo sentido a partir
daquele momento, quiçá de uma forma muito sutil para a sensibilidade
masculina. Três horas depois, a estrada barrenta a qual atravessamos
com muita lentidão acabara e, ao longe, todos puderam ver um barco
de madeira tosco e pequeno aguardando-nos no meio da tarde. Silenciosos,
saímos todos e caminhamos até o barco. O único som que ouvimos, além
do som molhado do afluente muito ao longe, foi o ronco engasgado do
motor da Kombi, lutando contra o barro e se afastando com velocidade.
“Parece
que vamos encontrar a velha Anaconda, amigos” lembro-me que disse
um dos policiais, chamado Paulo, “vejam, já posso ver o John Voight
daqui”. Um outro policial completou “eu te confesso que preferia
ter a Jennifer Lopez como companheira de viagem”. Estavam fazendo
referencia a um filme de exageradas proporções norte-americano de
1997, onde um grupo era assassinado por uma cobra Anaconda de
proporções dantescas. Todos estavam rindo despreocupadamente, exceto
o nosso guia que era descendente dos Campas, chamado Leo, e eu, que
a partir dali comecei a ser cingido por uma nuvem de pensamentos aziagos
que vinham me causando arrepios desconfortáveis.
O homem
que nos aguardava no barco de madeira não parecia em nada com John
Voight. Era um sujeito muito moreno, semblante grave e postura relaxada.
Estava vestindo um short de um time qualquer e estava sem camisa, exibindo
um físico desnutrido e cicatrizes por tudo que é parte do tórax.
No braço direito, próximo ao ombro, havia uma tatuagem esverdeada
e embaçada, do que parecia ser um totem ou um ídolo de alguma civilização
pré-colombiana. Tentei uma comunicação amistosa com este cidadão,
mas ele não me respondeu, como se não entendesse o idioma português.
Decidi que seria melhor não tentar falar com o dito cujo novamente.
Seguimos
bem grande parte da rota fluvial, e não tivemos problemas nos dois
dias que se seguiram. O rio Amazonas, afinal, era um rio tranqüilo.
Neste ínterim tentei arrancar algumas informações de Leo – lendas
locais, folclore e mitologia dos Campas, entre outras informações
de cunho antropológico – e Leo pareceu-me um camarada de fácil relacionamento.
Foram nestas investidas que consegui descobrir o motivo pelo qual o
meio-indígena estava tão sério e desmotivado. Ele me falou de uma
lenda tão antiga quanto os primeiros maias que pisaram nas Américas:
o Tzinagan, Deus Morcego da Morte, que exigia que seus seguidores lhe
montassem altares de ouro e prata em troca da vida eterna. Leo me disse
que havia muitas referências deste deus no lendário e incompleto Popol
Vuth, a Bíblia Maia, que conta que Tzinagan era um anjo que, exilado
dos céus, viera à Terra destruir os primeiros e toscos maias feitos
de madeira. No início relacionei o antigo texto maia – o qual Leo
ia-me “educando” aos poucos – a uma grande mixórdia cultural
com a Bíblia judaica, talvez conseqüência da colonização européia,
relacionando o nome Tzinagan a um dos milhares de nomes conferidos ao
Lúcifer dos cristãos. Esta minha teoria foi se tornando ainda mais
forte à medida que ouvia as outras lendas maias, inclusive sobre um
homem santo nascido de uma virgem que combatia demônios e outras forças
do mal.
Leo
estava preocupado pois estávamos entrando exatamente na área onde,
há séculos, rituais estranhos eram feitos em nome de Tzinagan. Treze
crianças eram selecionadas para servirem de sacrifício – seus corações
eram arrancados e dispostos em fileira em cima de um altar de prata,
circundado por treze tochas negras. Este ritual era devotado a Tlaloc,
deus da chuva, e era cantado para que as águas pudessem abrir caminho
para a chegada do Grande Morcego Tzinagan. Quanto mais as treze crianças
chorassem, mais feliz ficava o deus Tlaloc, e mais chuva ele enviava.
Se chovesse durante treze horas, ininterruptamente, Tzinagan, um gigantesco
morcego negro azulado, materializar-se-ia em uma caverna preparada especificamente
para o cerimonial. Aí então o grande feiticeiro indígena, maia ou
de outra civilização similar, poderia requisitar a imortalidade física,
através de uma citação cabalística: “Senhor da Vida e da Morte,
mestre de grandes mistérios ocultos, invoco-te para que baixes a sanar
minhas doenças, e para que me dê existência eterna”. Esta citação
devia ser proferida em frente ao ídolo morcego feito de quartzo, que,
acreditavam os indígenas, possuía a essência vital de Tzinagan.
É
óbvio que, naquele momento, não acreditei em uma palavra do que o
descendente dos Campas me disse, mas, mesmo assim, senti os pêlos de
minha nuca ficando em pé. Acredite que, se ouvir uma história dessas,
em um ambiente como este que, mesmo ao meio-dia já está parcialmente
sob sombras, você acaba captando uma sensação mortificante no ar,
e isto com certeza lhe impede de ter um sono tranqüilo. Em todo tempo
de nossa excursão em que me permiti dormir, mesmo que por menos de
meia-dúzia de horas, tive pesadelos desconfortáveis e, principalmente,
agourentos. Para piorar, não sei quantas vezes fui acometido de total
estado de letargia, talvez por culpa da desidratação, ainda que eu
estranhe um diagnóstico do tipo, levando em conta o fato de que sempre
fui robusto e saudável, e nunca me deixei abater por tonteiras e vertigens
como estas de que fui vítima. Meus companheiros de viagem, em sua maioria,
também sofrerão com estas enfermidades, enquanto Leo insistia em associar
os nossos problemas físicos a maldições e quebrantos.
Naqueles
dias não notei – ou melhor, não dei importância – a um fator
muito curioso: Leo, e o condutor do barco conhecido apenas pela alcunha
“Levante”, não sofreram com nenhum tipo de indisposição ou virose.
Preferi acreditar que ambos estavam tão acostumados a rodar por aquelas
bandas que seus corpos já haviam criado anticorpos para protegê-los
de tais moléstias. Todavia, estando na condição em que me encontro
neste momento, tenho outras conjecturas as quais crer.
∞
Chegamos
a um cais medíocre, de madeira podre caindo aos pedaços, e com dificuldade
descarregamos os equipamentos do barco, espalhando-os pela terra úmida
que precedia a extensão de vegetação rala e árvores gigantes. O
outro guia que estava nos ajudando, um paraense chamado Raimundo, anotava
cada passo, dificuldade ou sucesso do grupo em um caderno de páginas
amareladas que ele chamava de “diário de bordo”. Por minha vez,
eu apalpava paranoicamente o meu revólver preso no cinto, escondido
sob minha camisa pólo, ainda que meus intentos com esta atitude fossem
um tanto tolos, pois, sabia eu, os principais perigos da floresta amazônica
não vinham das criaturas que nela habitam, e, mesmo assim, as palavras
infaustas vindas de meu avô ecoavam em minha mente.
Levante,
o condutor, disse que nos aguardaria pelo período de uma semana, pois
além de provisões essenciais para sobrevivência, aquele lado do Rio
Amazonas era uma boa fonte para a pesca – mesmo no atribulado período
de chuvas – , e havia mangueiras e pacobeiras aos montes. Já em terra
firme, em uma clareira pequena, tratei de passar os detalhes da missão
aos outros policiais, enquanto me imunizava com um creme especial contra
insetos. Tínhamos uma semana para investigar a movimentação de traficantes
daquele lado da floresta, e não estávamos ali para combater. Éramos
batedores apenas, e aquela era uma missão de reconhecimento e busca.
Oh,
Deus, os traficantes eram o menor de nossos problemas!
Era
dia 23 de Janeiro de 1999, um sábado chuvoso, e as palavras de Leo
também não saiam de minha mente. Talvez pela febre gerada por alguma
virose ou simples medo da noite que se aproximava, comecei a ter devaneios
– mesmo acordado – com a figura totêmica de Tlaloc banqueteando-se
de treze corações sobre um altar de prata, lançando risadas fúnebres
que ecoavam por toda aquela selva verde. No limiar da sanidade e da
demência, achei ter visto sangue ao invés de água caindo do céu
torrencialmente. Não uma, mais inúmeras vezes fui vítima destas visões,
e, percebendo o meu estado psíquico, Leo me despertava e me mandava
tomar um chá feito de ervas que ele colhia sempre que passávamos por
uma nova vereda.
Não
só a mim estes pesadelos incomuns molestavam, mas também meus companheiros
de viagem estavam sofrendo. Poucos dias depois da nossa chegada àquele
lugar, peguei o diário do guia Raimundo, e em determinado trecho, onde
ele descrevia o ambiente, ele parara de súbito seu relato para escrever
isso: sinto que ele está me seguindo... olhos que não vêem, mas
que me alcançam.. sinto cheiro de óbito... – depois continuou
seu relato normalmente. Os policiais também não estavam saudáveis,
atracavam-se por qualquer coisa, golpeavam-se por migalhas de pão,
ainda que houvesse provisão suficiente; mas no fim das contas, nos
dois primeiros dias, estes acontecimentos não nos impressionavam muito.
O horror
aconteceu no terceiro dia. Depois deste dia, perdi totalmente a noção
do tempo.
Na
noite anterior ao acontecimento ao qual me refiro, ainda no dia 25 de
janeiro, montamos acampamento próximo a um estranho platô de barro
endurecido, no meio de uma enorme clareira. Apenas um filete de água
corrente vindo de um rio distante passava por ali, e árvore não se
via a, pelo menos, cinqüenta metros. Assim que chegamos ao local não
notamos uma característica muito curiosa, estampada no barro tão claramente
que hoje me sinto um idiota por não ter visto tão semelhante atributo.
Porém, quem o percebeu foi o homem mais propício para tal, pois não
estava doente e conhecia bem aquelas terras.
“Vejam
aquilo” – disse Leo, apresentando um semblante que era o misto de
espanto e excitação.
O meio-indígena
precisou dedicar cinco minutos de seu tempo e paciência para que nós,
enfermos do cansaço e da febre, identificássemos o que ele queria
nos mostrar. Quando percebemos, porém, toda a lassidão nos abandonou,
e eu falo por mim quando digo que quase tive um ataque do coração
quando percebi do que se tratava.
Esculpido
com uma perfeição insonhável, mesmo em se tratando dos grandes escultores
indígenas americanos, estava ali o rosto de um homem. Na verdade, identifiquei
o “homem” como sendo a imagem da cabeça de um ancestral da raça
humana, possivelmente o australopithecus, contudo esta não era
uma premissa que eu poderia afirmar com toda a certeza. O grande problema
diante desta visão foi a reação dos policiais, que começaram a tagarelar
e a achar que estávamos pisando em solo de selvagens canibais. Tudo
se complicou ainda mais quando Leo disse: “Grande Deus. Estamos contemplando
o lar do Grande Morcego”.
Então
eu tive que contar sobre a lenda de Tzinagan aos homens que, atordoados,
ouviam com atenção. Contei sobre os sacrifícios, sobre o deus da
chuva e sobre a dádiva que ele concede. A mitologia foi emitida aos
homens que, temerosos, já não mais se lembravam de sua verdadeira
missão naquele Hades. Mas as coisas mudaram quando contei sobre as
riquezas, sobre o ouro e a prata abundantes, e sobre o ídolo de quartzo
em formato de morcego. O medo se transformou em ambição.
Agora,
descansado e um pouco mais tranqüilo, acredito que, não fossem os
mosquitos, o cansaço, a febre e a chuva, os policiais, em sã consciência,
jamais acreditariam em uma história como aquela, e jamais fariam o
que fizeram em seguida. Desmontaram acampamento e acenderam tochas,
outros usaram lanterna, e, com a ajuda do guia Raimundo, procuraram
a entrada da caverna, dando a volta no portentoso platô. Leo e eu tentamos
convencê-los a voltarem atrás em sua decisão. Mas eles estavam determinados.
Seguiram em frente. E nós, que não éramos partidários desta decisão,
acabamos seguindo-os em sua loucura, pois não achamos conveniente ficarmos
sozinhos, em meio à terra úmida e sem nenhum tipo de equipamento ou
provisão.
O que
aconteceu em seguida, para mim, e inenarrável. Neste momento, a mão
com a qual seguro a caneta esferográfica treme de tal maneira que,
se tentar reproduzir todas as perversidades e horrores de que fui testemunha
naquela ocasião, haveria apenas borrões sobre este papel que uso.
E o que posso dizer neste momento é que ninguém sobreviveu àquela
empreitada, nem mesmo o pobre Leo, mas acho que Deus foi transigente
comigo, salvando-me da sombra que abateu a minha equipe. Tentarei, em
pouquíssimas palavras, descrever o que presenciei naquele ambiente.
Era
uma furna escura com menos de dois metros de altura. Saindo do teto,
estalactites prejudicavam nossa locomoção, mas nada fazia os cobiçosos
policiais voltarem atrás. Nas paredes de barro petrificado podiam-se
ver, claramente, dezenas de pinturas rupestres indicando a existência
e as atividades de Tzinagan. Durante todo o trajeto, era corriqueiro
ouvirmos sons estranhos e grunhidos vindos do escuro, em todas as direções.
A umidade e o frio presente naquela gruta só estavam me deixando cada
vez mais doente.
Houve
um momento de silêncio quando um dos policiais, aparentemente, tropeçara
em uma pedra ou em um buraco. Este segurava um pedaço de cedro incandescente
para iluminar a parte da frente da fila indiana que havíamos iniciado.
Contudo, a tocha apagara no momento em que o infeliz sofrera o acidente,
e, em seguida, as lanternas dos outros policiais pifaram quase que ao
mesmo tempo. Ninguém pode desenhar o panorama do temor que senti sem
estar naquele lugar, submerso em negrume.
Perdido
na mortalha, eu tentei me comunicar com os outros. Alguns gritavam de
medo, outros se escondiam atrás de nada. Ao longe, juro ter visto o
brilho auto-suficiente de uma imagem em quartzo rosa, de cerca de cinqüenta
centímetros ou menos, no formato de um morcego; no lugar dos olhos
havia duas pedras vermelhas e lapidadas, semelhantes a rubis. Esta imagem
me deixaria paralisado, de horror ou de fascínio, não fossem os gritos
desesperados de alguns homens, os quais não pude identificar. Foi tudo
muito rápido. Nós estávamos sendo atacados por um inimigo invisível.
Em momentos como esse você não pensa em salvar seus amigos, ou lutar
ao lado deles. Você pensa em fugir. Falo por mim, pelo menos. Cansado,
com medo e com frio, minha primeira atitude foi correr ensandecido para
fora da gruta, esbarrando no pobre Leo que estava atrás de mim. Não
sei de onde tirei forças para correr daquela maneira, mas alcancei
a clareira onde acampamos. Por sorte, ainda havia alguma provisão e
parte dos equipamentos jogados no chão. Recolhi tudo – inclusive
o diário de Raimundo, que estou usando para escrever esta carta –
e fugi para longe, para o mais longe que pude.
A partir
deste momento, para mim, fica complicado relatar os fatos posteriores
a minha visita à caverna, pois, talvez pela fome e pela doença, não
estou conseguindo lembrar exatamente o que me aconteceu até este exato
momento. A questão é que acordei, não sei quantas horas – ou dias
– depois, deitado no chão, entre duas colunas de pedra de cerca de
um metro e meio de altura, alocadas com perfeição ímpar. Naquele
instante, acreditei ter sido capturado por Tzinagan e, com o coração
na boca, levantei o mais rápido que pude. De pé, pude ver várias
paredes de pedra, estranhamente dispostas, como se uma antiga tribo
estivesse preparando um templo ou algo do tipo, mas algo longe de ser
um conjunto de casas. E eu sabia que tinha sonhado com aquilo, de alguma
maneira, eu sabia da existência daquele lugar antes mesmo de acordar
e ver com os próprios olhos.
Minhas
mãos estavam muito machucadas, devo dizer. Lembro muito bem que me
machuquei bastante quando corri para fugir da caverna, mas, maior parte
das escoriações ocorreu nas minhas pernas e nos meus braços, mas
nada tão feio nas mãos. Atordoado, tentei enfaixar minhas mãos com
a bandagem que, felizmente, eu havia trazido no meio da minha corrida
alucinada. Em seguida, andei pelo complexo ajuntamento de pedras, tentando
decifrar aquele enigma.
Escrevo
esta carta pois sinto que, não vai demorar muito, vou falecer. Mesmo
tomando todos os remédios possíveis que consegui carregar, minha febre
não passa de jeito nenhum, só aumenta. Acredito que, devido a região
pantanosa a que me encontro e o número de mosquitos que me infernizam
toda noite, eu tenha contraído malária e, sem o resgate e o tratamento
apropriado, talvez eu não dure nem mais um dia. Preciso que esta experiência
fique registrada e peço que a pessoa que encontrar meu corpo e esta
carta passe a informação adiante, alertando exploradores e até mesmo
traficantes de que esta área esconde um perigo muito maior do que qualquer
pessoa da cidade possa imaginar.
Mas
antes de finalizar esta epístola por completo, quero dizer o que descobri
hoje de manhã, referente a este aparente amontoado de pedras em formas
estranhas. O fato é que subi em uma árvore alta, a noroeste desta
clareira – eu risquei o tronco da mesma com um “X” usando uma
faca que tenho em meu poder – e pude observar, quase que perfeitamente,
que aquilo era mais racional que um simples aglomerado de pedras. Minha
espinha congelou quando percebi que os muros, de pedras irregulares
e toscamente polidas, formavam a face de uma criatura antropomórfica,
muito similar a que vi na entrada daquela amaldiçoada caverna. A meu
ver, isto me parece um misto de macaco e morcego, o que me lembra claramente
ao ídolo de quartzo que também tive o desagrado de ver. Quão mais
a influência nefasta deste deus pagão se estende na Amazônia?
Espero
que, com este pequeno relato, eu possa estar ajudando a erradicar um
mal que talvez esteja tomando esta região há milênios. A única coisa
que peço em troca de tudo que sofri, é que meu nome seja lembrado
nas salas de aula, e em minha terra natal, Manaus.
GAZETA
AMAZONENSE
Dia
22 de Fevereiro de 2000.
CORPO
DE INVESTIGADOR DA SIVAM É ENCONTRADO. OUTROS MEMBROS DA EQUIPE AINDA
DESAPARECIDOS.
A investigação,
que já dura cerca de dez meses, finalmente levou os especialistas a
encontrar o corpo de Carlos Damasco, biólogo e investigador do Sistema
de Vigilância da Amazônia, o SIVAM. Segundo o delegado Tobias Ubiratã,
Carlos Damasco era perito em sobrevivência na selva, além de ser o
líder da equipe de policiais que partiram de Manaus em 23 de Janeiro
de 1999 com a missão de identificar atividade de tráfico de armas
e drogas em uma região complicada da floresta tropical.
Foi
encontrado com o corpo de Damasco um revólver, uma mochila com lanterna,
isqueiros e um diário, onde o próprio investigador escrevera sua experiência
naquele local pouco antes de morrer, segundo a Perícia. Dentro de alucinações
e enjôos, a polícia descobriu que os dados que Damasco descreveu sobre
um estranho culto indígena presente naquela área possivelmente constitua
de informação verdadeira, e que os outros membros da equipe podem
ter sido mortos por índios com hábitos canibais.
O mais
estranho, entretanto, foi o local onde o corpo do investigador foi encontrado.
Ali havia dezenas de colunas e muretas de menos de dois metros de altura
que, vistas do alto, formavam o rosto de uma antiga divindade indígena
conhecida como Grande Morcego da Morte. Para identificar este rosto,
os investigadores seguiram as coordenadas do próprio Damasco, que descreveu
a estranha visão em seu diário. Segundo o explorador e pesquisador
da Universidade de Manaus, Sérgio Mello: “a face, feita as pressas
com pedras comuns, não foram feitas por uma antiga civilização pré-colombiana.
Sabemos muito bem da engenhosidade e capricho dos maias, astecas e incas,
e posso afirmar, com total certeza, que aquele rosto, simbolizando o
antigo deus Tzinagan, foi feito por
uma criatura sem nenhuma noção de arquitetura”.
Os
peritos em necropsia, além dos investigadores da polícia do estado
do Amazonas, chegaram à conclusão que, ao observar as pegadas, a faca
utilizada por Damasco, e os relatos contidos no diário do mesmo, aqueles
muros e colunas feitos sem muito asseio formando o rosto da estranha
divindade indígena, era não mais do que reflexo do trauma que Damasco
sentiu ao observar o ídolo de quartzo rosa, o qual ele descreve no
seu próprio diário. Esta afirmação pôde ser comprovada na autópsia,
onde os médicos viram ferimentos graves nos dedos e nas mãos do cadáver.
Ou seja, o rosto formado por pedras e barro naquela clareira isolada
foi erguido pelo próprio Carlos Damasco, imerso em febre e psicose,
dominado por “impulso do inconsciente”, como explica o professor
de psicologia Francisco Vital. Mas de onde ele tirou forças para fazer
um trabalho de tal competência?
A polícia
segue investigando.