Edgar Braga
Buchara
A FACE
DO SUSTO
“Uma
injúria permanece irreparada, quando o castigo alcança aquele que
se vinga. Permanece, igualmente, sem reparação, quando o vingador
deixa de fazer com que aquele que o ofendeu compreenda que
é ele quem se vinga”.
E.
A. Poe
Eu,
que tenho uma personalidade voltada a apreciar boas histórias, revelo
que o gênero que mais me atrai: é o sobrenatural. Devido essa
particularidade, como passa-tempo, propus-me a pesquisar casos relacionados
a fenômenos que fogem a compreensão e a lógica humana.
Em
vista disso, não posso deixar escapar nenhuma oportunidade, para coletar
elementos sobre esse assunto que tanto estimula a minha imaginação.
Por isso, em todos os momentos encontro-me pronto para taquigrafar em
minha inseparável agenda de bolso, histórias interessantes e instigantes
que ocorrem nas entrelinhas de nossas vidas.
Essa
minha qualidade leva-me a crer, que em determinados momentos, assumo
traços psicológicos inerentes a uma pessoa que passa por um surto
de paranóia. Explico: Em “alguns” desses assuntos de natureza pouco
convencional, que me proponho a pesquisar, “inexplicavelmente”,
eu passo de pesquisador a também personagem como num passe de mágica.
Portanto, quando esse fenômeno
acontece, faz-me conjeturar, que há alguma entidade sobre-humana, impelindo-me
a passar por essas experiências extraordinárias para ser o mensageiro
de suas aspirações. E devo confessar: “gostar dessas histórias
é uma coisa, mas agora, vivê-las é completamente outra”.
A
história que relato a seguir, acreditem, aconteceu comigo há alguns
dias, e retrata bem esse fenômeno que esporadicamente me atormenta.
No entanto, por se tratar de um assunto
que para muitos ainda é um tabu, devo ressaltar, que tomei a precaução
de omitir o nome da região e o nome da cidade em que esse “fato”
aconteceu.
Recentemente, um amigo que foi transferido
a trabalho para uma cidade do interior do estado, telefonou convidando-me
para o aniversário de seu primogênito. Como já fazia algum tempo
que não via meu estimado amigo, confirmei minha presença no evento
e aproveitaria a ocasião para espairecer, pois meu último trabalho
havia me causado um enorme cansaço mental.
De
malas prontas com o suficiente para passar o final de semana, embarquei
no ônibus, num sábado pontualmente às 08h00m. O percurso era de 480
km, e a previsão dada pelos funcionários da empresa de transporte,
era que seria uma viagem em torno de oito horas, mas que poderia sofrer
algum atraso, devido às péssimas condições de preservação da estrada
federal.
Por ser uma viagem razoavelmente longa
e enfadonha, levei um livro para distrair-me. E revezando-me entre o
livro e a contemplação da paisagem, que pra dizer a verdade não tinha
mais a originalidade e a beleza de outrora, cochilei.
Passado algum tempo fui despertado
num sobressalto, pois o ônibus parecia ter se envolvido em algum acidente.
Assustado, fiz uma rápida averiguação e descobri que havíamos passado
em uma “panela”, nome dado pelos motoristas a buracos nas estradas
e que muitas vezes é a principal causa de acidentes.
Depois
do ocorrido, anotei em minha agenda, que este sentimento “o susto”,
seria um bom assunto para uma próxima pesquisa, aja visto que, trata-se
de uma sensação ligada diretamente ao medo, ou seja, uma reação
em face de uma ameaça de perigo real ou imaginária.
Satisfeito por ter encontrado nesse acontecimento casual, um novo tema
para minhas especulações, perdi-me em devaneios olhando uma imensa
plantação de soja. Foi então que entramos no perímetro rural de
um município. Inclinei-me para visualizar melhor uma placa que vinha
adiante, e a informação era de que em 15 km, estaríamos na cidade.
Pelo horário supus que seria lá a nossa parada para o almoço.
Passaram-se
vinte minutos e algumas lombadas, então adentramos na cidade. Passando
lentamente pelo centro comercial, vi uma loja que me despertou a atenção.
A fachada era pintada da cor preta com uma placa acima da porta de vidro
com um sugestivo nome: Sebo Sobrenatural compra, venda e troca de livros
usados. Livraria especializada nos gêneros: Esotéricos; Espíritas;
Fantástico; Horror; Mistério; Místicos; Sinistros; Sobrenatural;
Suspense e Terror.
Fiquei pasmo de admiração, que deixei escapar um comentário enfeitiçado
– “Caramba! O proprietário dessa loja deve ser aficionado como
eu por esses tipos de gêneros. Definitivamente é o lugar. Preciso
conhecer essa loja!”.
Com
a livraria ainda em meu campo de visão, vi quando um homem, que parecia
estar colocando algo na maçaneta da porta, se voltar e olhar enigmaticamente
para ônibus. Devo ressaltar, que a impressão que eu tive, foi que
o sujeito olhou por alguns segundos, diretamente para mim e só depois
entrou. Num gesto brusco, acomodei-me na poltrona e uma sensação estranha
apoderou-se de mim, gerando-me um rápido desconforto. Essa inquietação
foi fragmentada pelo anúncio do motorista, que teríamos trinta minutos
para o almoço. Só então eu percebi que o ônibus já estava estacionado
na rodoviária.
Aguardando
a vez para descer, resolvi aproveitar o intervalo para dar uma olhada
na livraria. Mesmo sabendo que a “curiosidade matou o gato”, eu
precisava matar a minha curiosidade. Além de que, achava-me sem apetite
e faltavam poucas páginas para concluir a leitura de meu livro e certamente
precisaria de outro para entreter-me.
Porém,
logo que desci, ocorreu-me que teria pouco tempo para escolher um livro,
visto que o livro que eu estava lendo naquele momento, levou duas horas
para eu escolher dentre tantos títulos que havia na livraria.
Como eu detesto fazer as coisas às pressas resolvi interromper aqui
a minha viagem.
Decidido dirigi-me até o guichê da
empresa de transporte, e me informei, que o próximo ônibus com destino
a cidade para onde eu estava indo, sairia às 13h 45m. Consultei o meu
relógio eram 11h 25m, isso me dava uma margem de mais ou menos duas
horas, tempo suficiente para que eu pudesse comprar um bom título.
E essa pequena interrupção, não afetaria em nada minha programação,
já que o aniversário para qual eu estava indo, seria só no dia seguinte.
Resoluto,
retornei ao ônibus para buscar a minha bagagem, foi quando notei que
as janelas do veículo eram encobertas por uma fina camada de insul-film
bem escuro, portanto, era impossível uma pessoa que estivesse fora
do ônibus, visse algum passageiro. Essa conclusão dissipou a impressão
de o sujeito que entrou na livraria tivesse olhado para mim. Mas, que
foi uma instigante sensação. Ah! Isso foi.
Para
facilitar a minha locomoção, deixei minha bagagem no guarda-volume
da rodoviária e sai fazendo o trajeto contrário ao do ônibus.
Não foi preciso andar muito e nem pedir informações, pois mal sai
da rodoviária, avistei a livraria uns cinqüenta metros de distância.
Após breve caminhada, cheguei à bendita loja de livros. O vidro fume
da porta impedia-me de ver seu interior aguçando ainda mais a minha
curiosidade.
Pendia
na maçaneta da porta uma plaqueta com uma frase imperativa: “ENTRE
A LOJA ESTÁ ABERTA”. De pronto obedeci.
Diante de mim, surgiu a mais extravagante e esquisita decoração, que
uma livraria poderia ter. Aquele diferencial deixou-me estático ao
pé da porta, contemplando vislumbrado o visual. A propósito, não
havia viv’alma a vista. Enquanto, aguardava aparecer alguém para
atender-me, inventariei o lúgubre e soturno ambiente para que o leitor
possa ter uma idéia do que eu estou falando.
À
minha esquerda havia uma mini-sala, composta por um jogo de sofá, um
tapete sem detalhes e uma mesinha de centro. Na parede, havia vários
quadros com retratos dos mais célebres autores in memórian,
que se destacaram nos gêneros a qual a livraria se propunha a trabalhar
(tipo um hall da fama). Adjacente aos quadros tinha uma estante com
muitas repartições reservadas aos gêneros: espíritas; esotéricos
e místicos. No centro paralelamente havia duas estantes onde estavam
os gêneros: fantástico; horror e sinistros.
Ao
meu lado direito, tinha o balcão de atendimento e ao lado dele, havia
uma redoma de vidro, com um enorme livro medindo em torno de 40x60 cm,
que atiçou e muito a minha curiosidade. Firmei minha vista e li numa
etiqueta que lá estava colada: “Livro dos Mortos”. Após a leitura,
um friozinho percorreu toda extensão da minha espinha dorsal, fazendo-me
sacolejar levemente o meu corpo e pensei: “Realmente o dono dessa
livraria pensou em tudo, até uma réplica do lendário Livro dos
Mortos ele tem aqui”. Adjacente a essa redoma começava
a sessão dos Gêneros: sobrenatural; suspense e terror.
Olha,
devo ressaltar que se uma pessoa fosse incumbida para catalogar todos
os títulos existentes nessa livraria levaria meses para concluir o
serviço. Diante disso, meu encantamento e minha vontade de revirar
tudo só aumentavam. Porém, continuei parado a espera de atendimento
e prossegui com meu exame.
A
pintura interna, os móveis e equipamentos eram da cor escura e dava
um toque sombrio no recinto. A iluminação do interior era feita por
um belíssimo candelabro, que pendia bem sobre a minha cabeça e por
quatro castiçais que estavam colocados no início de cada prateleira.
Aquelas luminárias tinham lâmpadas fluorescentes que imitavam velas
de cera e a claridade emitida por elas iluminava apenas o hall de entrada,
e o que se via no fundo da loja era uma cortina negra de sombras, dando
uma ligeira impressão, que as prateleiras de livros sumiam dentro de
um túnel infinito.
A
queima de um incenso aromático, emprestava ao local, um aspecto místico
e extremamente relaxante.
O
encantamento foi quebrado pelo fundo musical lamentoso, que saía de
algum alto-falante e aquela música bem poderia ser utilizada para fazer
trilha sonora de filmes de suspense.
Ligeiramente inebriado, resolvi chamar por alguém.
– Oi! Tem alguém ai? – algo incrível aconteceu. O som da minha
voz ecoou repetidamente como se eu estivesse à beira de um abismo,
enchendo-me de terríveis fantasias. Por tudo que vi e senti, tinha
que salientar “o cara que criou essa acústica e toda essa decoração
devia ter uma imaginação muito fértil, pois não tinha visto nada
igual em toda minha vida. Como não apareceu ninguém, voltei a insistir”:
–
Oi? – o som voltou a se propagar. E nada.
Então
decidi ir dando uma olhada até que aparecesse alguém. Tinha
tantos livros para eu olhar, que precisaria dispor de muito tempo para
ver tudo. Pensando nisso, peguei meu celular, que estava no bolso da
frente de minha calça para verificar as horas. Eram 11h56min, e por
via das dúvidas, programei o despertador para as 13h30min, deixando
uma margem de quinze minutos, para que eu pudesse retornar com segurança
para rodoviária e assim pegar o ônibus das 13h45min.
Satisfeito por ter tido essa idéia,
voltei a reparar com fascínio toda extensão da loja, não sabendo
por onde começar. Até que pousei meus olhos novamente sobre a redoma
de vidro, que insinuava conter o “Livro dos Mortos”. Decidi
iniciar por ali a minha pesquisa, visto que, foi algo que me deixou
demais curioso.
Diante da redoma, inclinei-me para
melhor focalizar a capa do livro. Percebi que era composta por nódulos
de vários formatos em alto relevo e havia algo escrito com caracteres
por mim desconhecidos, mas que a etiqueta sugeria de maneira muito fantasiosa
tratar-se do lendário “Livros dos Mortos”.
Com
os olhos sobre a capa do livro, sofri um incrível golpe de vista e
tive uma sensação fantástica que um daqueles nódulos havia se mexido.
Para conferir o inusitado, inclinei-me mais um pouco quase encostando
a testa no vidro. Numa ilusão de ótica medonha todos os nódulos se
transformaram em corpos humanos nus, passando uns sobre os outros, como
se fosse um amontoado de vermes e emitiam num unissoro, um choro cheio
de lamúrias e de sofrimentos.
Eis
que, um daqueles corpos, voltou-se para mim, e vi que em seu rosto não
tinha olhos, mas mesmo assim estendeu a mão em minha direção, numa
atitude desesperada de quem pede ajuda. Hipnotizado com o fenômeno,
instintivamente, estendi a mão em seu socorro. Já estava quase
tocando no vidro, quando um estalar de dedos (num gesto característico
de um hipnotizador), e uma voz enérgica e viril tirou-me bruscamente
daquele sortilégio.
– POSSO AJUDAR?
O susto fez-me endireitar o corpo num
movimento brusco.
– Desculpe-me senhor. Permita-me
apresentar-me, meu nome é Luciano Ferreira, sou o proprietário dessa
humilde livraria – ciente do meu sobressalto, o sujeito continuou
com uma voz serena e um tanto quanto envolvente – ah! Não foi minha
intenção assustá-lo. De volta a razão, eu olhava compenetrado o
sujeito que aniquilou meu devaneio, e naquele instante percebi que estava
de fronte com a mesma pessoa que vi na frente da loja no momento em
que passei de ônibus, e tive uma sensação sinistra que ele materializou-se
misteriosamente atrás do balcão. O sujeito mirava-me com o mesmo jeito
enigmático e por uma fração de segundos divagou nos confins de minha
alma, fazendo-me desviar fugazmente daquele olhar.
Tratava-se de um jovem senhor, na faixa
de seus quarenta anos, estatura mediana e magra. Ele estava vestindo
calça e camisa nos padrões atuais de cores pretas, que contrastava
com uma tez de uma palidez mórbida.
Os
olhos oscilavam estranhamente, entre o castanho claro e o escuro, e
eram protegidos por um conjunto de pálpebras, que se assemelhava a
quem nasce no extremo oriente. As sobrancelhas eram rarefeitas. O nariz
era afilado, seguido de uma boca firme que parecia não ter lábios
e o queixo proeminente. Os cabelos pretos e lisos deixavam a mostra
apenas as partes superiores das orelhas, que tinham um formato pontiagudo.
O conjunto todo formava uma fisionomia de aspecto extremamente exótico
e peculiar.
–
SENHOR! – o sujeito trouxe-me novamente para realidade e notei que
sua voz tinha voltado a ficar enérgica e viril.
– Como? Ah, sim. O susto, não...
Não foi nada – respondi hesitante, e por fim apresentei-me.
– Nada? Você quase morreu de susto
– ele disse sorrindo deixando a mostra dentes perfeitos e alvíssimos.
– Não... é que... eu estava admirando
aquela réplica e...
– Réplica! – atalhou – Que réplica?
Esse é o único e verdadeiro “Livro dos Mortos” – ele falou com
uma seriedade que me espantou, mas logo em seguida, satisfeito por atingir
seu objetivo, sorriu cativante e disse:
–
Brincadeirinha, só pra descontrair. Realmente é uma réplica do famoso
Livro dos Mortos. Porém, eu vou confessar uma coisa pra você.
Este livro, na verdade é um brinquedo que eu comprei num antiquário
em uma das viagens que fiz a Europa. Com uma iluminação adequada ele
causa uma ilusão de ótica que é acionada com aproximação de alguém,
e o resultado você viu, é um tremendo susto.
Luciano Ferreira usou de franqueza
em suas palavras e fez dissipar os pensamentos nefastos, que transbordavam
na minha mente, deixando-me serenamente relaxado.
– Já que é pra dizer a verdade,
eu assumo. Assustei mesmo – sorri sem graça – estou até pensando
em escrever algo sobre “o susto”, esse sentimento tão perturbador
– declarei.
– Sério? Legal! Então temos aqui
um escritor?
– Não. Não. Quem me dera. Eu só
transformo os causos que ouço por aí, em pequenos contos. Porém,
procuro ser sempre fiel à história original. Mas, faço só por passa-tempo
- expliquei.
– Que modéstia. Mas, então se fosse
você iria fazer parte do time do sobrenatural, do terror, do fantástico?
- enquanto falava fazia gestos de horror e de assombros de um jeito
engraçado, fazendo-me rir.
–
Sim. Esse gênero muito me agrada – após responder senti que
minha gastrite ia atacar, em virtude disso meu sorriso transformou-se
numa careta. Naquele momento, virei e olhei na direção das prateleiras,
dando a entender que gostaria de inspecioná-las.
–
Ah! Você deve estar ansioso para dar uma olhada nos livros, não é
mesmo? Mas antes, já que você precisa colher dados para seus contos,
digamos assim. Eu... Quer dizer... Um cliente da livraria contou-me
uma história interessante, sobre dois amigos que viviam dando susto
um no outro. Ele garantiu-me que esse caso realmente aconteceu.
Se você quiser, eu posso te contar. Bom, sei lá. Você poderia usar
como base para um de seus contos.
Como um vendedor que conduz habilmente
o cliente para o fechamento da venda, Luciano Ferreira conduzia-me para
algum lugar. Não sei por que não conseguia desvencilhar-me dele. Talvez...
não sei... Mas, o brilho intenso de seus olhos seduzia-me. Então,
num gesto mecânico, retirei do bolso de minha camisa, a minha pequena
agenda e meu lápis. Encostei-me no balcão e cheio de curiosidade perguntei:
–
Como é mesmo essa história?
–
Mas... se você preferir...
–
Já que você contou o milagre, conta agora o nome do santo.
–
Muito bem! Então vamos lá - disse ele deixando transparecer em sua
voz, um tom soturno próprio de quem vai contar um causo de assombração.
–
Bom - limpou a garganta – A história é sobre dois amigos inseparáveis,
um chama-se Christian e o outro Josué. Quem os conhecia, pensava que
eles eram irmãos, devido amizade que existia entre os dois, além disso,
eram vizinhos, estudavam na mesma escola e na mesma série.
Dentre tantas brincadeiras que tinham,
a que eles mais gostavam, era a de pregar susto um noutro. Começaram
com as básicas e tradicionais debaixo da cama e atrás da porta, que
foram sendo sofisticadas com o passar dos anos.
Na
adolescência, a brincadeira atingiu uma qualidade digna de filme de
terror e sempre um querendo superar o outro, na produção do cenário
até na finalização do ato.
O que eles não sabiam, é que o susto
e outros tipos de brincadeiras tidas como de mau gosto, que despertam
a sensação do medo, atrai um sinistro expectador. Que fica ali...
Observando... na penumbra, à espreita. Ansioso pra se deliciar, com
o susto estampado no rosto da vítima. Porém, quando, esse tipo de
brincadeira vira um ciclo vicioso e tem o tempero da vingança, o expectador
resolve fazer uma participação especial e lança sombras fúnebres,
nas vidas de quem ousa aventurar-se por caminhos aonde tudo é mistério.
(Luciano
Ferreira articulava as palavras com distinção e clareza, que facilitavam
a transcrição para minha agenda em notas taquigráficas. No entanto,
senti uma pequena mudança no timbre da sua voz, agora estava levemente
mais grave, principalmente neste último parágrafo).
A coisa atingiu o ápice, quando a
turma do ensino médio, a qual eles faziam parte, a fim de arrecadar
fundos para a formatura, promoveu num final de semana um acampamento
ecológico, com a saída numa sexta-feira à tarde e retorno no domingo.
A animação dos amigos era visível e durante toda semana que antecedia
ao evento, não se falava de outra coisa. Mas, na quinta-feira à noite,
bem na hora em que estavam jogando a tradicional pelada no clube onde
eram sócios, deu uma tremenda chuva de verão de lavar a alma. Por
esse motivo Christian amanheceu na sexta-feira muito gripado, tinha
febre e tosse. Até a tarde nenhum remédio havia aliviado a enfermidade
e seus pais não autorizaram a sua ida ao acampamento. O que amenizou
a sua frustração foi que lhe veio na mente à idéia de vingar-se
do susto que Josué lhe dera há alguns dias. E, diga-se de passagem,
foi um susto de arrepiar os cabelos.
Como
era de praxe, Christian teria que dar o troco e momento era mais do
que propício, já que, Josué só retornaria domingo, provavelmente
a tardezinha. Portanto teria tempo de sobra para preparar sua
fatídica vingança. Josué estava ciente que ia levar o troco, só
não sabia quando nem como. Christian por sua vez, deixou a poeira baixar
e pintou essa oportunidade. Agora com a vantagem da surpresa, estava
com a faca e o queijo nas mãos. É claro, que preferia ter ido ao acampamento,
que com toda a certeza rolaria altas paqueras. O destino não quis.
Fazer o quê? Então ele sorriu maliciosamente, premeditando os acontecimentos.
(Nossa!
Luciano Ferreira sabe mesmo contar uma história).
No
sábado, Christian acordou um pouco melhor, e com muito custo conseguiu
autorização para sair, pois, para realização de seu plano precisava
comprar alguns acessórios. Para completar, ele uma visita à
casa de seu amigo, com a intenção de verificar, alguns detalhes indispensáveis
para finalizar sua estratégia.
CONTINUA...
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