“
O domingo chegou ensolarado. Christian minuto a minuto, conferia as
horas. Porém, o dia teimava em passar lentamente. Nuvens carregadas
deixaram à tarde com um ar sombrio. Em vista disso, a ansiedade de
Christian só aumentou, e percebeu que jamais tivera uma sensação
tão estranha que chegava a ponto de ser até selvagem.
Já estava quase escurecendo, quando
o ônibus finalmente apontou a duas quadras de suas casas. Nem preciso
dizer da euforia que tomou conta dele.
Com o plano mentalmente esquematizado,
Christian caminhou quase correndo até o portão da casa de Josué e
apertou a campainha três vezes e retornou correndo para sua casa. Pela
sua dedução, o pai de Josué não largaria seu Palmeiras, por nada
desse mundo. E quem atenderia o portão, seria a dona Sofia, que
provavelmente, a procura de quem apertou a campainha, veria o ônibus
e ficaria em frente da casa, à espera do desembarque de seu filho,
deixando o fundo da casa desguarnecido para sua ação.
Christian
entrou correndo em sua casa, pegou uma mochila que o esperava na área
de serviço, e ofegante subiu numa mesa de madeira para pular o muro
que dividia as residências. Mas, antes deu uma rápida olhada na situação
e com cautela pulou o muro. Convicto rumou para a edícula que fica
nos fundos da casa de Josué que servia de depósito de quinquilharias.
Pelos seus cálculos, dona Sofia, faria Josué guardar no depósito,
todos os objetos utilizados no acampamento, e ele estaria lá esperando
pronto para pôr seu plano em ação.
Christian adentrou rapidamente no depósito,
fechando a porta atrás de si. Apesar de estar anoitecendo, notou que
a bagunça estava organizada, graças ao perfeccionismo de dona Sofia.
Parado
de costas para a porta, via no lado esquerdo uma antiga máquina de
costura, uma bicicleta ergométrica enferrujada e na parede havia um
espelho com uma bela moldura desgastada. Em sua frente havia uma estante
rústica com várias repartições e cheia de coisas e a sua direita
havia um velho biombo revestido com papel colorido do “tempo do ronca”,
que outrora Christian vira decorando o quarto dos pais de Josué. Agora
o objeto serviria para seu propósito.
Lá
de fora, veio o som do ônibus parando. Presumindo que Josué perderia
tempo despedindo-se dos amigos. Christian foi para trás do biombo,
abriu a mochila e de lá tirou todos os acessórios. Despiu-se. Guardou
suas roupas na mochila e pôs a vestir-se. Colocou um macacão vermelho
com rabo, pôs uma capa preta e montou um tridente. Por fim, retirou
da mochila uma bomba caseira.
O quarto naquele momento estava agora
tomado pela escuridão, e Christian não encontrou o mini-isqueiro e
foi tomado por uma terrível angústia. Sem ele, não poderia acionar
a bomba e realizar o efeito de fumaça que imaginara. Tateou freneticamente
o chão, até que achou o objeto, então respirou aliviado. Bem no instante
que pegou a máscara do diabo, seu último acessório sentiu um calafrio.
O vento lá fora sibilou, e um trovão bem longe anunciava uma tempestade
dando um toque sinistro na encenação.
Devido
ter tido essa sensação muito estranha. Christian decidiu abortar a
brincadeira. Porém, ouviu passos aproximando-se e um impulso repentino
e alheio à razão, fê-lo colocar a máscara mecanicamente. Nesse instante
de consternação, Josué entrou na edícula, colocando os objetos no
chão acendendo a lâmpada. Eis que, porém, um vento tempestuoso fechou
a porta assustando Josué. Christian quis falar-lhe, mas uma força
sobrenatural travou sua boca, então a verdadeira face do diabo transmutou
sua fantasia, fazendo-o prosseguir automaticamente com o plano sem a
sua conivência.
(Caramba!
Estou gostando dessa história. Pensei enquanto taquigrafava).
Para
completar seu martírio, um relâmpago cortou a luz por alguns segundos
e quando voltou, o quarto estava tomado por uma densa fumaça vermelha
e com um odor forte de enxofre queimado. Josué que nada entendia, tossia
e abanava o ar com as mãos, na tentativa de dissipar a fumaça, que
foi diluindo aos poucos. Então, percebeu um vulto, saindo de trás
do velho biombo, vindo em sua direção e o som, produzido por seus
passos, assemelhavam-se com a dos eqüinos quando caminham em lugares
pavimentados.
Um
misto de surpresa e desespero fez com que Josué abanasse com mais intensidade
a fumaça, e perguntasse cheio de medo:
–
Quem está ai?!
Raciocinando
com rapidez, cogitou que só poderia ser seu amigo Christian, tentando
devolver-lhe o susto – É claro! É o Cris – pensou sorrindo e emendou:
–
Hãm, hãm! Te peguei! Eu sei que é você Cris. Dessa vez não vai
colar. Pode parar.
–
Quem te disse que é o Cris?
Essa pergunta foi murmurada num tom
baixo, porém grave e malevolamente irônica. E foi seguida por um trovão
que estremeceu o quarto.
– Chega cara! Parou a brincadeira,
eu sei que é você - ordenou Josué com uma pitada de receio e já
perdendo a paciência.
Eis, porém, que o ar rareou, ficando
a fumaça menos espessa, revelando, a Josué uma silhueta espectral,
que poderia ser tudo, menos seu amigo Christian. Acolhido por um temor
latejante, Josué recuou com passos hesitantes, parando com as costas
na porta fechada, e perguntou gaguejando:
– Que... que... quem é vo... vo...
você!?
Num gesto típico a do lobo ao uivar,
o ser estranho, tirou seu véu aspirando toda a fumaça desanuviando
completamente o quarto, deixando a mostra a sua forma mais repulsiva.
A seguir respondeu num murmúrio, expondo uma dentição canina enegrecida
acompanhada dum olhar zombeteiro:
– Eu sou o resultado das brincadeiras
de mau gosto – o demônio vendo a face do susto
estampado no rosto de Josué liberou uma risada longa e debochadamente
maligna.
(Confesso
que nesta parte da história, tive vontade de sair correndo da livraria.
Pois, o Luciano Ferreira, tinha um jeito peculiar de narrar o causo
dramatizando as cenas de um modo tão extravagante, e ao mesmo tempo
envolvente, que num lapso, pensei ter visto algumas mudanças em sua
fisionomia, que já era um tanto quanto exótica. Porém, contive o
impulso e mantive-me passivo, taquigrafando mecanicamente o causo).
Josué estava petrificado e apavorado com a aparição diabólica que
não conseguia emitir um ruído sequer. Com muito esforço, conseguiu
destravar-se, então, virou-se agarrando a maçaneta da porta com intenção
de abri para fugir daquela coisa das trevas. Mas... A porta estava trancada!
Emudecido Josué girava obstinadamente a maçaneta sem o êxito.
Christian
aflito assistia todo o drama vivido por seu amigo, sem poder esboçar
a menor ajuda, pois a força demoníaca que lhe revestia o corpo era
demais poderosa e impedia-lhe qualquer reação. E após ter visto
no espelho antigo o reflexo da figura grotesca provinda, com toda certeza
das profundezas do inferno, lutou incessantemente com a fantasia. Até
que, finalmente conseguiu retirar a máscara enfeitiçada.
No
entanto, quando tocou no ombro do seu amigo para avisar-lhe que tudo
havia acabado, foi um ato fatídico. Josué arregalou os olhos estupefatos
contra a porta. Dê em diante, ele foi dominado por uma crise de horror,
que o levou a sentir uma dor aguda na altura do coração, fazendo-o
amassar o peito com a destra, num gesto de quem sofre um ataque cardíaco
fulminante. Por fim, tombou inconsciente.
Pálido Christian inclinou-se sobre
Josué e tentou reanimá-lo, mas sem sucesso. Aturdido pensando nas
conseqüências, teve uma idéia. Numa atitude desesperada retirou a
fantasia colocando-a na mochila e vestiu a sua roupa. Passou por seu
amigo caído, abriu a porta devagar e um vento frio açoitou-lhe o rosto.
A barra estava limpa. Então, saiu correndo, pulou o muro de volta pra
sua casa. Precisava ser rápido. Jogou a mochila num canto. Começou
a garoar.
Christian
correu num fôlego pelo corredor indo na direção da rua. Saiu de sua
casa e foi diretamente para casa do Josué. Chegando lá, apertou a
campainha com uma falsa calma. Precisava ser cauteloso. Respirou fundo.
Aguardou angustiado e apreensivo. Até que dona Sofia apareceu.
– Ah! É você Cris? Entra está
chovendo! Você já melhorou da gripe? – perguntou casualmente.
– Já... Já... Foi o Josué que
chegou naquele ônibus dona Sofia? - indagou Christian dissimulado,
sem demonstrar que estava com uma pressa danada.
– Foi. Ele está guardando as coisas
na edícula. Espere na sala, o pai dele está lá assistindo um jogo
– parou pensativa e disse num tom de preocupação:
–
Estranho, já faz algum tempo que ele está lá no fundo! – preocupada
ela foi caminhando apressada para a edícula.
Christian nem bem entrou na sala, ouviu
o grito desesperado da dona Sofia e na seqüência o pedido alarmante
de socorro. O pai de Josué levantou num salto da poltrona e passou
correndo por Christian indo na direção do fundo da casa, falando com
espanto:
–
Por São Benedito! O que aconteceu?!
– Não sei acabei de chegar! - disse
Christian acompanhando-o e isentando-se de qualquer ligação com caso.
A cena que se viu na edícula, era
comovente. Dona Sofia chorava escandalosamente, apalpando seu filho
a procura de algum sinal que pudesse evidenciar a causa da sua inconsciência.
– O que aconteceu Sofia?! O senhor
Paulo nervoso quis saber.
– NÃO SEI! – respondeu histérica
– eu o encontrei assim. Rápido! Vá chamar uma ambulância.
O socorro chegou rápido. Porém, os
paramédicos não puderam fazer mais nada. Josué já estava morto.
E o diagnóstico feito por eles, foi que, provavelmente o rapaz sofrera
um infarto fulminante, e raro pela pouca idade e se tivessem sido chamados
no momento do acontecido, as chances de salvá-lo seriam bem maiores.
Assim que foi dada a notícia trágica,
já havia uma aglomeração de pessoas na casa, e a comoção foi geral.
Os pais de Josué estavam inconsoláveis e precisaram de auxilio médico.
Já Christian que estava com o coração cheio de pânico e remorso,
quis contar a todos o que foi que realmente aconteceu. Mas foi acometido,
por um distúrbio selvagem e involuntário de contrações musculares,
semelhantes a uma pessoa atormentada por um espírito imundo e balbuciava
com os dentes cerrados em meio a uma baba espumosa, palavras desconexas,
como se tivesse sido impedido por alguma força misteriosa a não dizer
a verdade sobre os fatos.
Foi
preciso quatro homens para segurar Christian, para que o enfermeiro
pudesse aplicar-lhe uma dose dupla de calmante.
Noutro dia, quando acordou já em seu
quarto, Christian lembrou-se do ocorrido e a palavra que não conseguiu
pronunciar no dia anterior veio-lhe a mente. “Não foi minha culpa!
Eu só queria dar um susto no Josué, mas o Diabo apareceu de verdade
e causou tudo isso. Não foi minha culpa!”. Então entre lágrimas,
Christian resolveu omitir toda a verdade. Mesmo porque ninguém acreditaria,
e os pais de Josué iriam crucificá-lo. Era melhor assim. E prometeu
a si mesmo, que levaria esse terrível segredo junto com ele para o
túmulo.
Passaram-se
cinco anos daquele fatídico dia e durante todo esse tempo, Christian
foi atormentado por visões e alucinações, que não lhe davam trégua,
o levando-o a um desvio comportamental radical. Ele parou de estudar,
passou a beber e a fumar, além de alimentar-se muito mal. Seu sofrimento
só era consolado por amigos, que sabiam da amizade que existia entre
os dois. Até os pais de Josué que já haviam amenizado a dor da perda
do filho, se comoviam com a aflição vivida por Christian e várias
vezes chamavam-no para almoçar junto com eles e assim se confortarem.
O
que essas pessoas não sabiam, é que todo aquele martírio era causado
pela angústia e o desgosto de guardar a verdadeira causa da morte de
seu amigo no mais absoluto segredo.
Mas não pense você!...
(Luciano
Ferreira me assustou falando alto e apontando o dedo indicador para
mim. E continuou empolgado).
...que o infortúnio
de Christian parou por ai. Não. Mas não mesmo! Já algum tempo ele
vinha sentindo dores no abdome. Após, um péssimo atendimento num posto
de saúde um médico carrancudo diagnosticou que devido seu estilo de
vida, adquiriu uma bela inflamação no estômago. O doutor passou-lhe
uma dieta e uma medicação, que não foram seguidos à risca.
“Em
devaneio Christian brincava de futebol com seu amigo Josué no quintal
de sua casa. Era uma manhã de domingo. Ah! Como ele adorava os domingos.
Enquanto seu pai preparava um suculento churrasco, vinha da cozinha
um cheiro de torta de morango. Deixando mágicos aqueles momentos. Na
brincadeira ele era o goleiro e seu amigo preparava-se para bater um
pênalti. DE SUBITO! O dia virou noite. E o cheiro que pairava agora
no ar era fétido e seu amigo metamorfoseou-se no Capeta
em pessoa, e olhou para Christian, olhou para a bola como fazem os jogadores
antes de bater um pênalti. Então, chutou a bola violentamente que
foi em chamas, como um meteoro quando adentra na atmosfera terrestre.
A bola fumegante atingiu Christian em cheio no estomago, fazendo-o cair
no chão contorcendo-se de dor”.
(Os
olhos do Luciano Ferreira brilhavam, quando percebia que eu me assustava).
Christian
voltou a si agônico e com uma terrível dor, visto que, havia passado
o efeito do analgésico. Ele estava sem forças e muito cansado, e já
não suportava mais essa triste rotina. Perdera a noção do tempo,
mas isso era uma coisa que não importava mais... Pois, estava moribundo
em seu leito de morte sendo carcomido pela doença que avançava rapidamente
pelo seu corpo. Sentia-se como uma planta que vai sendo vorazmente devorada
por uma praga de lagartas, que vão comendo... comendo... comendo...
Enquanto não acabarem com todo verde existente e não a deixar seca
e esquelética, elas não param.
Contudo
ao fechar os olhos ele via as células cancerosas multiplicarem-se e
avançarem sobre seus órgãos vitais, diminuindo sua vida, tornando
seu fim numa tortura de dor e desespero. Seu descanso só era possível,
após altas doses de medicamentos aplicados regularmente, que o enchiam
de um sono artificial que o transportava para delírios e pesadelos.
Os médicos já sem muitas expectativas em relação a sua melhora aplicaram-no
uma dose forte de analgésico com um único objetivo: diminuir o sofrimento
do paciente no momento de sua morte.
Christian
abriu os olhos devagar, estava tudo embaçado. Entretanto, sentia uma
melhora indescritível, era como se nada estivesse acontecendo. Não
sentia nenhuma dor. Nada! – Será que houve um milagre, tirando-o
dessa situação caótica?! – pensou – ou então, é a melhora da
despedida – conjeturou sobre uma velha teoria que tinha a respeito
da morte. Sabe como é né? Você já deve ter ouvido algumas dessas
histórias, que contam por ai, “fulano melhorou falou com todo
mundo, e bimba! Amanheceu morto. Parece que melhorou só
para se despedir”.
Aos
poucos a visão de Christian foi se estabelecendo e toda a cena foi
sendo focada.
Ao
seu lado, sentada a beira da cama, estava sua mãe, que neste momento,
segurava sua mão e chorava inconsolavelmente e tinha no rosto as marcas
de toda aquela angústia. Tentou acalma-la, dizendo que estava sentindo-se
bem melhor e que logo sairia dessa, mas não conseguiu pronunciar nenhuma
palavra.
Agora
com a visão completamente restabelecida, viu seu pai ao lado de sua
mãe reconfortando-a afagando-lhes os cabelos, e também chorava. Ao
pé da cama, compenetrado com uma bíblia aberta nas mãos, estava o
pastor da igreja de sua mãe – Pastor?! O que o pastor está fazendo
aqui? - foi então que caiu a ficha – Não! Não pode ser. E... e...
eu estou morrendo... eu não quero!
–
Hei Cris. Calma! – uma voz serena e aveludada, chamou-lhe atenção
num dos cantos do quarto e tinha algo de conhecido naquela voz. Então
Christian firmou os olhos e viu seu amigo Josué envolto numa luz brilhante
e seu olhar era tão belo que lhe trouxe conforto e uma paz maravilhosa.
– Josué?! – ao perceber, que estava
se comunicando por telepatia com seu amigo, e que as pessoas não podiam
lhes ouvir, ele ficou intrigado – mas como?
– Calma amigo. Eu estou aqui para
ajudá-lo na transição.
– Como assim, calma?! Essa transição
que você esta falando só pode ser a morte. Não é mesmo?!
–
Isso. Comigo também foi assim. Vou lhe explicar: Quando uma pessoa
morre, é escalado um ente querido, para dar um apoio psicológico no
momento da transição. No seu caso fui eu. No meu caso, foi meu tio
que morreu em um acidente de carro quando eu era criança.
– E se eu recusar-me a ir com você?
– Aí você vai virar uma alma-penada,
mas vou lhe dizer uma coisa. É melhor você aceitar. Não existe nada
pior do que ficar numa dimensão, sendo atormentado de dia e de noite
por toda a eternidade.
– Se é o jeito. Fazer o quê? Ah!
Tira-me uma dúvida, o que foi mesmo que aconteceu naquele dia do susto,
em que você partiu dessa para melhor?
–
É assim. As brincadeiras tidas como de mau-gosto e que despertam sentimentos
como: medo, pavor, horror, calafrios, sobressaltos, surpresa e o susto.
São atrativos para o demônio. Ele adora ver estampado no rosto das
pessoas a face do susto. Portanto, quando a brincadeira
tem o tempero da vingança o demônio resolve participar da brincadeira,
dando um toque especial tornando trágico aquele momento.
– Você pode...
– Vamos Cris, o portal já vai fechar.
Quando chegarmos ao nosso destino, você terá todas as respostas.
A mãe de Christian percebeu o momento
em que ele desencarnou, então começou a chorar copiosamente e todos
se consolaram mutuamente. Porém, no momento em que atravessava portal
Christian refugou e ameaçou a olhar para trás. Estava triste com o
sofrimento de seus pais.
– Não! Não olhes para trás! Eles
vão ficar bem... Venha, segure na minha mão – pediu Josué.
Christian atendeu ao pedido, e segurando
na mão de Josué adentraram no portal de luz. Durante a transição
do plano físico para o espiritual, Christian sentia uma sensação
indescritível de conforto e segurança.
(Luciano
Ferreira, narrava esse final com uma voz calma, serena e cheia de paz).
DE SÚBITO!...
(Luciano
Ferreira mudou o tom e passou a narrar o causo com aquela voz soturna
e maligna surpreendendo-me)
...
A luz do portal se apagou e Christian assustado segurou mais firme a
mão do amigo, mas a mão dele não tinha mais aquela maciez de antes.
Agora estava áspera e repugnante. Christian travou uma luta violenta
no escuro para conseguir se soltar daquela mão asquerosa. Por fim,
quando a luz retornou, pairava no ar uma densa fumaça vermelha e tinha
um cheiro de enxofre queimado.
Christian
estava confuso com a situação e veio-lhe na mente uma sinistra sensação
de estar revivendo o pior momento de sua vida. De fato, essa intuição
foi confirmada quando a fumaça dissipou completamente revelando o diabo
na sua forma mais humana no lugar do seu amigo Josué. Ele estava
com um sorriso cínico e debochado na boca que parecia não ter lábios
e seus olhos castanhos que mudavam de cor estranhamente, estavam fixos
em Christian, que pego de surpresa, levou um tremendo susto.
Estático...
(nesse
momento, enquanto taquigrafava o que parecia ser o final do causo em
minha agenda. Tive uma impressão, pelo modo de falar e como me olhava
que o Luciano Ferreira, falava de si mesmo. MEU DEUS! Espantei-me e
um calafrio percorreu toda extensão do meu corpo, fazendo-me empertigar-me
e instantaneamente pus-me em alerta!).
...
Christian teve forças apenas para um balbucio:
– Quem é você?!
– Quem sou eu? Ah! Ahahahahahah...
(Luciano
Ferreira estava convincente demais para o meu gosto!).
–
Quem sou eu? Você quer saber quem sou eu? Eu sou o diabo; o demônio;
o demo; o satanás; o satã; o capeta; a coisa ruim; o tinhoso e...
e... Lúcifer. Mas conhecido também como Luci... ano
Fer...reira, proprietário de uma sinistra livraria e seu guia para
o inferno. Ahahahahahahahahahahah!
A princípio quando Luciano Ferreira,
metamorfoseando-se em uma criatura diabólica, revelou a mim que era
nada mais, nada menos que o próprio Lúcifer. Quase morri de susto!
Porém, um instinto de sobrevivência reabilitou-me, fazendo-me sair
em disparada no rumo da saída. Meu desespero só aumentou, quando percebi
o óbvio: a porta da livraria estava trancada!
Briguei com a maçaneta da porta por
alguns instantes, sem sucesso. Aflito, olhei de relance para trás e
vi o demônio retirando o “Livro dos Mortos” da redoma de vidro,
que certamente seria para eu assinar, então meu desespero se multiplicou.
Lá dos fundos da livraria, onde era de uma escuridão total, tinha
agora aparência de uma boca de um vulcão preste a entrar em erupção,
emanando uma quentura infernal e um cheiro fétido de enxofre queimado.
Percebi também, que quando, as lâmpadas dos castiçais e do candelabro,
transformaram-se em velas de verdade, vários livros caíram das prateleiras,
com suas páginas esvoaçando e liberando, as criaturas diabólicas
que faziam parte daquelas histórias macabras.
Vendo estampada a face do susto
em mim, o capeta soltou outra sonora e maligna gargalhada e veio em
minha direção com o livro aberto nas mãos e foi seguido pelas grotescas
criaturas.
Para
aumentar meu espanto, até os retratos dos célebres escritores criaram
vida e riam de mim. Contudo, fui tomado por um pânico insano. Comecei
a gritar por socorro e a bater na porta de vidro desesperado, na esperança
de que alguma daquelas pessoas que passavam em frente à livraria naquele
momento, pudesse ajudar-me. Mas, apesar de bater com toda força na
porta, a ponto de doer minhas mãos, por algum motivo eu não era ouvido.
Então, já sem saída, fechei os olhos e fiz com muita fé o ritual
da cruz três vezes com o polegar direito: uma na testa; uma na boca
e a outra no peito. Por fim pronunciei a fórmula litúrgica – “Pelo
sinal da Santa Cruz livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos.
Amém”.
Após ter pronunciado a prece divina,
ouvi o estalar da porta destrancando. Quando abri meus olhos eu vi a
porta aberta, e nem deu tempo para agradecer o milagre atendido. Sai
em disparada daquele antro vil e asqueroso, sem olhar para trás. Na
calçada atropelei uma pessoa que caiu no chão juntamente com todos
os pacotes que estava em suas mãos. Mesmo assim, continuei a minha
fuga.
Aquela
atitude estranha e suspeita, atraiu a atenção de um policial que estava
nas proximidades, fazendo-o sair ao meu encalço. Atravessei a avenida
perigosamente, e quando cheguei à frente da rodoviária, o policial
finalmente me alcançou e segurando-me pelo braço fez-me cessar com
aquela correria.
–
Senhor! O que aconteceu?! – interpelou-me sério com uma das mãos
no coldre.
– É que... – sentindo-me seguro,
mas ainda com receio, me virei apontando para a livraria sem olhar para
o policial. Então, eu vivenciei a verdadeira acepção da palavra:
“fantástico”. A livraria não estava mais lá. Desapareceu!
Sumiu! Escafedeu-se! Agora em seu lugar havia uma pitoresca floricultura.
Fiquei pasmo! Não era pra menos. E o que dizer para o policial? Ele
não ia entender nada. Ele iria achar que eu era um... um... louco.
E para completar a minha gastrite alfinetou meu estômago, fazendo-me
gemer bem baixinho. Vendo-me daquele jeito o policial perguntou sério:
–
O senhor está passando bem?!
A desculpa salvadora veio com o despertar
do alarme do meu celular, avisando-me que eram 13h30minh. Portanto,
faltavam apenas quinze minutos para meu ônibus sair.
– É que... que... Eu estava dando
umas voltas, e pensei ter perdido o horário de saída do meu ônibus.
Mas, ainda faltam quinze minutos. Graças a Deus.
– Tudo isso, só para pegar um ônibus?
Tome mais cuidado, você derrubou uma senhora e quase foi atropelado.
Preste mais atenção.
– Tudo bem seu guarda, foi mal.
Após o sermão, o policial deixou-me
fazendo com a cabeça um gesto em desaprovação. Enfim entrei na rodoviária.
Peguei minha bolsa de viagem no guarda-volume. Passei rapidamente numa
farmácia que ficava dentro da própria rodoviária e comprei um hidróxido
de alumínio em comprimidos, para aliviar a queimação em meu estômago.
Comprei minha passagem e entrei correndo no ônibus, que já estava
preste a sair. Contudo nem deu tempo para eu pensar no acontecido. Além
disso, estava ansioso para ir embora daquela cidade.
Já dentro do ônibus, peguei no frigobar
um copo de água e sentei-me na minha poltrona bem no momento em que
o motorista começou a manobrar para sair da rodoviária. Pus dois comprimidos
na boca e comecei a mastigá-los, tomei um bom gole de água. E por
fim murmurei – Que história! Que historia?! – lembrei-me da minha
agenda e bati a mão no bolso da camisa. Ela estava lá. Não me lembrava
de tê-la guardado. Mas não importa. O que importa é que ela estava
comigo.
Retirei a agenda do bolso e pus-me a folhe-la. A história estava toda
lá em notas taquigráficas. Pelo menos isso era a prova cabal de que
eu não estava ficando louco e tendo alucinações típicas de um esquizofrênico
ou coisa parecida.
Notei,
porém, que o ônibus iria passar novamente em frente ao lugar aonde
eu vivi aquelas terríveis fantasias. Diante disso, senti um enjôo
e quase vomitei.
O que aliviou o meu desconforto foi
saber que a livraria das trevas não estava mais lá. Agora já passando
em frente à singela floricultura, inclinei-me para vê-la melhor. Numa
placa eu li seu nome: Jardim dos Sonhos. Vi também uma senhora
baixinha e com avental colorido limpando a banca de flores. QUANDO DE
REPENTE! Aconteceu de novo. Ela virou-se e olhou diretamente para mim
com um sorriso cínico numa boca que parecia não ter lábios.
O “susto” foi inevitável. Afundei-me ofegante na poltrona,
desejando nunca ter parado naquela cidade e na minha volta para casa,
fiz o possível para não passar por ali novamente.