O
fantasma da Linha Maginot
Por
Márcio Araújo
21 de Novembro de 2003
Tudo
começou no dia em que recebi um telefonema do serviço social do Hospital
Carémeau, em Nimes. Pensei se tratar de mais um daqueles telefonemas
pedindo contribuições ou coisa do tipo. Senti que do outro lado da
linha, aquela voz masculina estava me preparando para algo. Com certeza
iria pedir alguma coisa. Educadamente, tentei dissuadi-lo mas ele disse
que eu precisava ser forte nessa hora.
Confesso
que não entendi nada. Que hora? Para meu espanto, fui comunicado que
meu avô falecera naquela manhã.
Respondi
dizendo que aquilo devia ser algum engano, que eu não possuía parentes
vivos, mas ao confirmar meu nome, o nome de minha mãe e meu endereço,
solicitou minha presença para cuidar do enterro e desligou
Por
um momento achei ser brincadeira de algum amigo. Liguei para o hospital
e rezei para não ser verdade. Do lado de lá, confirmaram que Louis
Jeffrey Peverrel falecera naquela manhã, às 7:30. Ótimo, aquele era
o nome de meu avô. E agora? O que eu deveria fazer?
Não
cheguei a conhecer meu avô. De acordo com minha mãe, ele falecera
antes de eu nascer. Na verdade, a única pessoa que poderia confirmar
essa estória não estava mais entre nós.
Tirei
o dia seguinte de folga no jornal onde trabalho e resolvi ir até o
hospital. A distância entre Nimes e Paris é de aproximadamente setecentos
e vinte quilômetros e eu poderia percorrê-la em aproximadamente sete
horas.
Na manhã seguinte, acordei cedo como de costume, tomei meu desjejum
e rumei em meu Renault até àquela cidade. A viagem seguiu como prevista
e às 14:40 eu atravessava o pórtico do Hospital Carémeau.
Dirigi-me à recepção do hospital e perguntei pelo paciente Louis
Jeffrey Peverrel. Mais uma vez eles ratificaram a estória e perguntaram-me
se eu era parente.
Embora
não me sentisse parente, confirmei que sim e eles me auxiliaram no
trato com o corpo. Enquanto preparavam o corpo, fui chamado para receber
os pertences de meu avô. Preparei-me espiritualmente para uma série
de quinquilharias mas deparei-me unicamente com um diário. Perguntei
pelas outras coisas e disseram-me que não havia mais nada. Segundo
as informações que obtive, meu avô foi interno da ala psiquiátrica
daquele hospital por quinze anos.
Meu
Deus! Quinze anos. Uma tempestade de pensamentos inundou meu cérebro.
Será que minha mãe sabia? Porque nunca me contou nada? Como ele foi
parar ali? Absorto, fui chamado por uma freira para acompanhar o funeral,
que seria realizado no cemitério municipal. Foi tudo muito rápido
e resolvi pernoitar em um hotel da cidade.
Não
é preciso dizer que gastei a maior parte da noite lendo o diário de
meu avô. Algumas perguntas foram respondidas, outras não. Descobri
que minha mãe sabia do estado de meu avô e o visitava esporadicamente.
Nos últimos meses de vida, meu avô parecia um homem atormentado, paranóico.
Alegava ser perseguido por Julien Boulenger, a quem ele denominava “O
fantasma da Linha Maginot”
As
últimas folhas de seu diário continham desenhos infantis de algo que
pareciam ser soldados estocando um homem ajoelhado que parecia estar
rezando. Que loucura.
Devorei
o diário naquela noite. Nele, acompanhei toda a trajetória de meu
avô. No dia 10 de maio de 1940, Louis Jeffrey Peverrel, meu avô, servia
como soldado raso do 9o Exército Francês em um forte da
Linha Maginot localizado na entrada da floresta de Ardennes.
A
Europa era um barril de pólvora. Hitler e sua Blitzkrieg avançavam
com mão de ferro por sobre a Áustria, Tcheco-Eslováquia e Polônia
com sucesso esmagador. Os ingleses relutavam em um confronto enquanto
os franceses confiavam que a Linha Maginot impediria o avanço das divisões
Panzer. O futuro mostrou que, naquela época, ninguém estava preparado
para elas.
Por
se tratar de uma área geográfica considerada de difícil acesso, a
região das Ardennes possuía um frágil esquema de segurança apoiado
em sua suposta inexpugnabilidade.
Contrariando
todas as chances, o Grupo A do Exército Alemão, na noite de 12 de
maio daquele ano, rompeu pelas Ardennes e caiu em cima do Exército
Francês com uma mortalha protegida pela velocidade de colunas de blindados.
A noite virou dia e o inferno abrira suas portas. Aço e sangue misturaram-se
naquela noite. Mais da metade do contingente francês tombou.
Julien
Boulenger e meu avô foram os únicos que restaram no controle de um
dos ninhos de metralhadoras do lado oeste. Aquela foi uma noite insana
e por diversas vezes a munição acabara, sendo reabastecida, em seguida,
pela linha de suprimentos subterrânea.
Meu
avô escreveu que não se lembrava bem a hora exata mas, em um dado
momento da manhã do dia 13 de maio, um morteiro atingiu sua posição.
O calor e o barulho infernal atingiram os dois que, por alguns momentos,
perderam a consciência. Meu avô foi o último a acordar e viu que
Julien estava procurando um livro que ele mantinha sempre perto de si.
Raios, aquele não era o momento pra isso.
Cuidadosamente,
meu avô se levantou e viu que a infantaria alemã havia se infiltrado
no complexo e o barulho das metralhadoras era ensurdecedor. A luta agora
era homem a homem pelo controle da fortaleza.
Os alemães caíam como furiosas vespas no lerdo Exército Francês.
Meu avô escreveu que, naquele momento, ele estava certo de sua morte
eminente. Não havia o que fazer. Era uma verdadeira carnificina. Enquanto
ele procurava esconder-se embaixo dos corpos dos outros soldados, Julien
abrira o livro e de joelhos, parecia realizar um ritual que meu avô
não soube identificar. Mais tarde ele escreveu que as palavras proferidas
por Julien pareciam estar em latim.
Coincidentemente,
quando Julien disse a última palavra, dois soldados alemães entraram
e o abateram a golpes de baionetas. Um suor gelado escorria em meu avô,
mas ele não denunciou sua posição, permanecendo ali, quieto, no meio
dos mortos por mais de 16 horas.
Relutante,
ele se levantou e esgueirou-se pelos amplos túneis de comunicação.
O desespero se apoderara dele. Era impossível contar o numero de corpos.
Muitos dos que ali tombaram conviveram com ele por mais de três meses.
Meio que perdido na complexa malha subterrânea, meu avô emergiu por
um respiradouro em algum ponto da floresta.
O
relato prossegue com a descrição de como ele vagou pelas Ardennes,
perdido, por mais de três dias até ser capturado por uma patrulha
alemã. O que salvou sua vida foi o fato de ele saber falar o alemão.
Sobre
seus captores, ele pouco falou. O grupo era composto de sete soldados,
um cabo e um sargento. Estavam em um veículo meia-lagarta e portavam
armas leves; pistolas, rifles de assalto, algumas metralhadoras e uma
MG42.
Aparentemente,
aquela patrulha afastara-se de mais de seu pelotão, encontrando, por
coincidência, meu avô. Após as hostilidades iniciais, ordenaram-no
que os levassem até o forte de onde meu avô fugira.
É
engraçado como o destino nos prega peças. Tanta energia desperdiçada
para nada.
Demorou
um dia e meio para chegarem ao destino. Por mais que meu avô tentasse
esquecer-se daquela cena, parecia que ela seria gravada em sua mente.
De uma forma ou de outra.
De
acordo com o diário, a patrulha (incluindo meu avô cativo) chegou
ao forte antes do esperado. Pela que pôde entender da conversa dos
soldados, o resto do comboio iria chegar somente no dia seguinte.
Os
soldados alemães nem se deram ao trabalho de armar um perímetro defensivo.
O que restara do Exército Francês debandara numa corrida desenfreada,
rumo ao Atlântico.
Após
um rápido reconhecimento do terreno decidiram armar acampamento em
uma das casamatas do complexo. A noite estava claro e todos (menos meu
avô) estavam confiantes.
Foi
nessa noite que o horror começou.
O
sargento, um sujeito chamado Hans, posicionou um de seus homens do lado
de fora da casamata. O posto de sentinela seria rodiziado a fim de que
cada homem não ocupasse a posição por mais de uma hora, sendo o prisioneiro
colocado no canto oposto da casamata, apartado dos soldados. Meu avô
observou que aquilo parecia uma reunião de escoteiros. Todos estavam
entusiasmados, ávidos por entrar em combate. Tolos.
Por
volta das duas horas da manhã, todos foram acordados com o barulho
de um tiro. A agitação foi geral. Meu avô foi o primeiro a ser verificado
para, em seguida, ser feita a contagem dos homens. Todos que foram chamados
responderam, à exceção do homem que estava de guarda naquela hora.
Rapidamente
o sargento “escolheu” dois voluntários para acompanhá-lo até
a sentinela. Passaram-se cinco, talvez dez minutos e eles retornaram.
O primeiro a entrar na casamata foi o sargento Hans, acompanhado de
um dos soldados, puxando pelo suspensório, o corpo sem vida da sentinela.
O
nervosismo reinava enquanto o sargento vociferava, dando ordens a seus
homens. Nenhum ferimento foi achado no corpo do soldado. Nenhum sinal
de tiro ou faca. Seu rosto parecia uma máscara de horror, com os olhos
esbugalhados e a boca aberta, gritando no vazio. Suas armas e munição,
à exceção do tiro que disparara, também foram achadas incólumes.
Os
soldados passaram a achar que aquelas construções não estavam tão
vazias quanto eles pensavam. Até mesmo meu avô viu nascer a chama
da esperança em ser resgatado por seus compatriotas.
A
patrulha aumentou os postos de sentinelas. Agora, eram dois postos com
dois homens cada, rondando o perímetro, e um terceiro posto com um
homem, fixo na entrada da casamata.
Algum
tempo depois, um fato incomum ocorreu. Todos que estavam no interior
da casamata começaram a ouvir uma tímida gaita.
A
princípio, meu avô achou se tratar de uma alucinação auditiva, mas,
a julgar pelas expressões dos alemães, ele tinha certeza de que os
soldados estavam ouvindo a mesma música. O mais estranho era que aquela
melodia lhe era de alguma forma familiar.
Por
quanto tempo a música tocou não há nenhum relato, mas quando ela
cessou, tiros e gritos foram ouvidos. Todos correram naquela direção
e meu avô se viu sozinho no interior da casamata com apenas um soldado.
Meu
avô tinha certeza que aquele seria o momento ideal para fugir. Uma
oportunidade como aquela não iria se repetir. Somente um homem o separava
da liberdade e este dava claros sinais de tensão, relaxando na segurança.
Quando
se preparava para dar o bote, algo aconteceu. Mais uma vez o ambiente
foi impregnado por aquela música. Era impossível precisar a sua fonte.
Assim como a melodia foi ouvida, foram também os gritos... e os tiros...
Aquele
som infernal deve ter se estendido por no máximo um ou dois minutos.
O suficiente para silenciar a todos que estavam lá fora. Dentro da
casamata, o jovem soldado que estava de guarda já não sabia mais o
que fazer.
A
ausência de ruídos indicava que todos os que haviam saído haviam
perecido. Mais uma vez, sangue havia sido derramado.
Desesperado,
o soldado alemão reagiu, golpeando por diversas vezes o corpo de meu
avô, que mal conseguia se defender. Logo após receber uma coronhada
em uma das têmporas, a melodia macabra (naquele momento meu avô jurava
que não a havia reconhecido) pôde ser ouvida novamente. Isso foi o
suficiente para cessar a sessão de espancamento.
Ainda
atordoado, meu avô pode ver que o jovem soldado preparava sua baioneta
encaixando-a ao fuzil, enquanto a música parecia caminhar de encontro
a eles. Contrariando as leis da física, os segundos pareciam horas.
Definitivamente
alguém vinha em sua direção. Meu avô sabia que não havia onde esconder-se.
Ele rezava para que o alemão não decidisse matá-lo naquele momento.
Seu salvador estava a caminho.
E
foi aí que meu avô testemunhou o evento mais assustador de toda sua
vida. Um vulto apareceu na entrada da casamata. De normal somente a
aparência humana. O seu corpo emanava uma tênue luminosidade esbranquiçada.
Certamente aquele ser era imaterial. Vestia um uniforme do Exército
Francês e metade de seu rosto possuía cortes profundos. Aquela coisa
era Julien Boulenger.
De
onde ele veio, meu avô não soube dizer. Ele simplesmente surgiu das
sombras. O pobre alemão esvaziou o pente de seu fuzil no espectro que
permaneceu parado enquanto as balas atravessavam o seu corpo.
Chorando,
o soldado largou seu rifle e procurou em vão algum lugar por onde pudesse
fugir. Aquela visão foi suficiente para transformar o soldado impetuoso
em uma criança medrosa.
Enquanto a aparição caminhava em direção ao pobre bastardo, meu
avô presenciava toda a cena, encolhido, assombrado por aquela visão.
Num movimento brusco, o fantasma de Julien enfiou sua mão no peito
do soldado que, gritando, caiu em seguida, como um boneco sem vida.
Diante
daquela sinistra visão, meu avô sabia por que a música que pressagiava
a morte lhe parecia tão familiar. Era a mesma melodia que Julien tocava
nas noites melancólicas que antecederam sua morte.
Após
o ocorrido o espectro simplesmente desapareceu. Meu avô correu desesperado
por horas e nunca mais foi o mesmo. Ele conseguiu chegar até um vilarejo
onde foi tratado e escondeu-se até o fim da guerra.
Depois
disso ele se tornou freqüentador assíduo das alas psiquiátricas dos
principais hospitais franceses. Assombrado, segundo ele, pelo fantasma
de Julien Boulenger.
Para
mim, toda essa estória não passa de devaneios de uma mente torturada.
O mais impressionante é que a natureza dos eventos descritos me impressionou
de tal maneira que por duas ou três vezes me peguei apreensivo com
o escuro.
Talvez
esse diário sirva para alguma coisa. Seu conteúdo daria um bom livro
de terror. Já posso até ver o título: O fantasma da Linha Maginot.
Hã???
Alô? Que barulho é esse? Quem está ai? Meu Deus...Não...
FIM