A
FAZENDA DOS FLORENCE
Por
Henry Evaristo
Sempre
soube dos rumores a respeito da propriedade dos Florence. Na pequena
cidade onde nasci nenhuma criança se aventurava ao longo da
estradinha de terra que levava aos portões enferrujados da
velha fazenda ao sul. Desde cedo, em suas residências, lhes era
ensinado a temer a estranha família. Ao longo dos anos faziam
com que acreditassem que os Florence eram malvados, perigosos,
diabólicos. Mas era mais do que isso. Lembro-me de que, certa
noite, ao pé da lareira com meu pai, o ouvi contar para todos
nós, de sua casa, como a triste família se havia
perdido nos caminhos das trevas; como havia trocado as bençãos
de Deus pelas falsas promessas de fortuna feitas pelas coisas que
andam no inferno e que eles evocavam graças aos poderes da
velha matriarca. Ainda me causa calafrios a maneira como meu pai
parecia acreditar em tudo o que contava e a forma como ele nas
advertia para manter distância, pois aquelas pessoas eram
monstros reais que, em noites enluaradas, vagavam soltos dentro dos
limites da velha propriedade. "Foram os demônios que os
mudaram, meus filhos" dizia meu pai, e seus olhos faiscavam
iluminados pelas chamas vermelhas do fogo voraz na parede.
Depois
que cresci, deixei a localidade e me mudei para a capital. Meus
pensamentos se voltaram para coisas mais importantes. Estudei,
graduei-me com honras no curso de Física e assinei um contrato
com uma multinacional. Casei-me com uma mulher cuja beleza
impossibilitava-me de admitir, mesmo lá em meu íntimo
mais profundo (este que sempre acaba assomando em nós nas
horas da madrugada), que pudesse haver no mundo algo tão
horrendo quanto o que diziam existir em minha terra natal. Hoje
entendo que estas histórias sempre me acompanharam e que todo
o meu destino convergiu para a noite fatídica de que vos
falarei agora.
A
última lembrança que guardo de meus tempos de criança
é de ouvir a gritaria das pessoas na praça central.
Enfurecidas, elas corriam em torno de uma carroça numa noite
de inverno. Havia armas nas mãos de muitos e a exigência
de que os estranhos Florence devolvessem aos pais uma menina loura
que desaparecera. Recordo-me do velho xerife tentando conter a massa
que surpreendera alguns membros da amaldiçoada família
tentando comprar medicamentos em uma farmácia.
Mas
o que me toca mais profundamente até hoje é a lembrança
do olhar que me lançou o mais novinho dos quatro que vi. Um
garotinho enfermiço e de pele pálida e suja que me
olhou de cima da carroça cercada por cidadãos
ensandecidos. O pavor, o medo em seus olhos, causou-me repulsa
àquelas pessoas; pois me fez sentir, de uma só vez, o
peso dos anos de discriminação e banimento a que vinham
sendo submetidos todos daquela fazenda isolada. Aquela criança,
que como eu ainda olhava o mundo de baixo, já não era
apenas mais um menino. Era um homem triste e assustado. Um pobre
diabo acuado por todos os lados que perdera a infância antes
mesmo de tê-la conhecido.
Nestes
meus dias finais, quando não sei se o que me matará
primeiro será a velhice, o câncer ou a vilania desta
cidade grande e impiedosa, digo que o que havia de errado com aquelas
pessoas dos Florence (a despeito daquilo que vi, à noite, em
frente aos portões da velha fazenda - e que pode perfeitamente
ter sido apenas o fruto de uma mente viciada) era tão somente
o fato de eles serem pobres e, oriundos de distantes terras
estrangeiras, manterem costumes diferentes dos da comunidade que
tanto os demonizava. Penso comigo, em meio às minhas inúmeras
reflexões de velho, se não foi pelo que presenciei
naquela praça que resolvi, tempos depois, deixar a cidade.
Acho que a vergonha cobriu meus passos desde então.
Foi
assim que decidi, após a morte de todos que me eram caros, e
quando a solidão deu asas à minha disposição
para viajar, voltar à velha terra para saber o que afinal fora
feito dos miseráveis fazendeiros. Sentia que pediria mil
desculpas a qualquer deles que encontrasse pelo caminho.
Desembarquei
no início da noite na mesma praça central que tanto
povoara minhas más lembranças por mais de cinqüenta
anos. O ônibus que me trouxera só perdia em decrepitude
para aquele horrendo centro em ruínas. Espantava-me e me
mortificava ver que nada mudara! Tudo permanecia exatamente como eu
deixara e, por alguns instantes, esperei mesmo ver a carroça
dobrando mais uma vez a esquina perseguida pelos vândalos
locais.
Na
verdade aproximava-se um veículo escuro do ponto em que a
principal cruzava com a dezesseis. Parou diante de mim e o motorista
abriu uma porta ruidosa que já tinha visto dias bem melhores.
“Ei,
Chapa!” Era meu amigo Warren Nesbel. Não era mais apenas
gordo como antes. Agora estava calvo e abatido.
Depois
que conversamos e relembramos aquilo que ainda não havíamos
relembrado ao falarmos ao telefone no dia anterior, agradeci sua
hospitalidade recebendo-me por dois dias em sua residência e,
sem muita cerimônia, lhe pedi o carro de empréstimo.
“O
que vai fazer?” Perguntou ele mesmo sabendo do que se tratava.
E emendou: “Olhe, amigo, nós não queremos saber
deles. Pelo que me consta nem existem mais. Aquela terra toda está
abandonada. Ninguém vai lá! Assim como sempre foi.”
E me olhou com uma expressão realmente apreensiva em seu
semblante flácido. “ah, o garotinho...” continuou
ele. “O que te olhou... Não sabemos nada dele. Pode
ainda estar por lá.” Depois ele se calou diante de meu
olhar impassivo. E entregou as chaves.
Quando
ia saindo da frente de seu endereço, ele me segurou pelo
braço. “Wilfred, por favor não vá lá.
Deixe amanhecer pelo menos. Aquele lugar é um horror à
noite.”
Mas
eu estava irredutível e fiz menção de soltar meu
braço de suas mãos. Ele afrouxou a pressão e,
por fim, me largou.
Depois
que dei a partida no motor, no entanto, ele bateu à janela do
passageiro. “Wilfred” disse ele. “Não saia
do carro. Você não sabe o que anda por lá, no
escuro!” Depois me deu as costas e entrou na casa bem
iluminada. Eu sabia que ele me aguardaria e que, se houvesse alguma
demora que julgasse inaceitável, chamaria a polícia e a
mandaria em meu encalço.
Devo
confessar que não foi sem um mínimo de apreensão
que tomei a estrada abandonada que levava à fazenda dos
Florence. Era de terra batida e dominada por árvores de copas
tão espessas que tornavam a escuridão da noite ainda
mais pétrea e intransponível. Tudo o que se podia
delinear na escuridão fora do carro eram os raios de uma lua
cheia que fazia vazar seus raios por entre as árvores e
lançava, aqui e ali, barras de luz amarelada na estrada
adiante. A fantasmagórica luminosidade ocre me possibilitava
divisar vagamente partes do sombrio interior da floresta que margeava
o caminho.
Em
certos trechos a estrada era tão estreita que eu tinha a
impressão de que o veículo não conseguiria
seguir adiante, pois ficaria preso às margens altas pelos
retrovisores. Do nível do solo, um observador a pé se
sentiria como se subjugado por aqueles morros que se elevavam desde a
beira do caminho e partiam terreno a dentro até atingirem as
elevações mais altas no horizonte. A região era,
assim, sem dúvida, terreno fértil para as fantasias do
povo simples local e ali já haviam sido avistadas todo tipo de
abominações horrendas atribuídas, obviamente, à
maldição diabólica dos Florence.
De
repente, a despeito de minha situação bizarra, vagando
em alta madrugada por uma estrada abandonada em direção
ao local onde diziam que monstros erravam ferozes e famintos,
surpreendi-me buscando na memória algo que quebrasse a aura
negativa que aquele lugar insistia em moldar em meu imaginário.
Lembrei então de quando eu era um garoto de cerca de nove ou
dez anos e Ernest Florence costumava brincar nas terras de nossa
família. Saía da propriedade de seus pais e atravessava
a cidade até alcançar nossa fazenda. Ali, pulava a
cerca e escalava o grande carvalho que havia num ponto ermo da
propriedade. Algumas vezes eu o avistava ao longe recortado contra o
poente, magro, cabisbaixo, solitário em meio aos galhos
balouçantes. Recordei a vez em que eu fora ao seu encontro.
Por algum motivo ele não se apressou em se afastar como
normalmente fazia quando alguém tentava se aproximar; também
por esta época a perseguição brutal e imoral a
que sua família era submetida ainda não alcançara
os paroxismos do famigerado “dia da praça”.
Ele
simplesmente saltou dos galhos da árvore e ficou lá
parado me observando diminuir a distância entre nos dois. Era
louro, tinha olhos azuis aguados e um rosto afilado marcado por
sarnas. Notei um número exagerado e inusitado de pelos escuros
que brotavam precocemente de seu pescoço e aquilo me levou a
crer que fosse bem mais velho do que eu imaginara ao vê-lo
apenas de longe.
De
repente ele sorriu para mim. Era algo estranho o seu semblante; como
se, na verdade, não soubesse sorrir e se esforçasse
para emitir uma imitação canhestra de um sorriso. Seu
rosto, neste momento, me lembrou os dos manequins das lojas do
centro. Depois ele me deu as costas e correu. Com incrível
agilidade saltou por sobre a cerca e desapareceu rapidamente pela
estrada.
Fiquei
parado em baixo do velho carvalho imaginando como seria a vida de um
garoto como aquele; nos motivos pelos quais diziam que ele e os seus
eram monstros. E minha imaginação ia muito além
do que costumavam chegar as imaginações das crianças
de dez anos de meu tempo!
De
súbito um brilho incomum me fez despertar deste semi-transe em
que eu mergulhara, em meio às minhas recordações,
e me trouxe bruscamente de volta à estranheza daquela estrada
escura. Pareceu-me notar um reflexo amarelado e cintilante à
margem esquerda do caminho. A velocidade do veículo, no
entanto, não me permitiu vislumbrar nada com exatidão
e, provavelmente, forneceu-me uma impressão errônea de
ter avistado, na verdade, dois olhos enormes me espreitando do
escuro. Perscrutei o retrovisor, mas nada mais pude divisar no trecho
por onde passara.
À
minha frente surgiu então o portão principal da
propriedade dos Florence. O vento aumentara consideravelmente e ao
estacionar o carro no acostamento, e desligar o motor, mesmo com os
vidros erguidos pude ouvir os gemidos que ele provocava quando
passava por entre as árvores na floresta. Mantive os faróis
acesos pois percebera que a cerca de madeira da fazenda balouçava
muito embalada pela forte movimentação do ar. No
entanto a escuridão era tamanha que pouco as luzes do carro me
ajudavam. Resolvi ignorar os avisos de meu amigo da cidade e saltei
para fora do carro.
O
cenário no exterior era insuportável. Não havia,
de fato, alma crente que ali se postasse sem sentir no coração
as fisgadas de um medo sobrenatural que eram incontroláveis e
involuntárias. De minha parte senti meu corpo sendo percorrido
por calafrios que jamais imaginei serem possíveis.
Ao
longe a sede da fazenda se encontrava envolta numa escuridão
tão densa que seu peso parecia incidir violentamente sobre
minhas costas. A gigantesca silhueta negra da construção
rústica fazia lembrar algum deus mitológico adormecido
e mergulhado nas trevas; num caos de ventos violentos e gemidos
agonizantes.
Fiquei
parado diante dos portões de madeira apodrecida. Não
podia acreditar que as pessoas da cidade simplesmente não
sabiam o que ocorria naquela fazenda; ou não sabiam sequer se
estava ou não habitada.
Subitamente
minha atenção foi atraída por um movimento na
cerca de arame que passara a se agitar de uma forma que não
condizia com o sopro do vento. Arqueara-se como se pressionada para
baixo por algum peso extraordinário. Olhei para a escuridão
que se estendia ao longo, para o lado esquerdo, e com esforço
pude divisar um vulto grande equilibrando-se sobre a malha farpada de
aço. Assemelhava-se á uma grande ave que, empoleirada
na cerca, tivesse as asas abaixadas. Depois o vulto emitiu um pio
agourento que me pôs em corrida desesperada na direção
do carro. De lá os faróis iluminavam parte do terreno
para além do portão de entrada. E, banhadas pela luz
difusa, avistei paradas na escuridão criaturas que por um
momento me tiraram a sanidade. Eram como imensas corujas negras que
me fitavam com imensos olhos amarelados.
Entrei
no automóvel e tranquei as portas imediatamente. Logo minha
respiração ofegante e descompassada encarregou-se de
embaçar os vidros das janelas. E não pude ver
exatamente as coisas que me cercavam do lado de fora. Sei que bem
ouvi seus gritos e risadelas. E ouvi quando piaram lamentosamente do
alto da cerca e de dentro da fazenda. Depois creio que desmaiei ou o
pavor me conduziu para mundos dos quais depois não tive
qualquer recordação.
Quanto
retornei à lucidez ainda estava dentro do carro. A luz do dia
já ia alta e eu continuava parado diante dos portões da
fazenda dos Florence.
Havia
um homem do lado de fora. Ele olhava curioso para o interior do
veículo e quando me viu abrir os olhos deu um salto para trás
como se assustado. Algo em seu rosto me era extremamente familiar e
tão logo me recompus e o olhei bem pude reconhecer o rosto do
estranho garoto que me fitara na praça central. Estava
bastante idoso, assim como eu, mas sua compleição
física era a de um homem mil anos mais velho.
Saí
do carro e fiquei diante daquele esboço de dias longínquos.
Seu semblante era tão cansado e triste que me mortificou ainda
mais que a lembrança do horror da noite anterior. Não
disse nada e simplesmente ergueu uma das mãos na qual trazia
um copo com água que me entregou. Depois, com um sorriso
tímido, me deu as costas e caminhou para o portão
entreaberto onde o aguardavam outras pessoas tão tristes e
assustadiças quanto ele próprio. Não carregavam,
entretanto, nenhum traço das monstruosidades que eu avistara
na escuridão.
Deixaram-me
parado na estrada ensolarada repleto de pensamentos estranhos e
conflitantes. Será mesmo que havia monstros naquele lugar? Ou
minha imaginação, movida pelo medo, trabalhara contra
mim naquela noite?
Foi
assim, confuso e abalado, que retornei à cidade, devolvi o
veículo emprestado sem dizer uma palavra e nunca mais voltei.
Agora,
que já não tenho mais muito tempo nesta vida, sinto que
se romperam em mim muitas das convicções de outrora. E
já não sou mais capaz de sair de casa à noite
sem primeiro esquadrinhar
cuidadosamente
os céus e os lugares escuros ao meu alcance para me certificar
de que não estou sendo vigiado por estranhos e imensos olhos
amarelados.
Henry
Evaristo
Fim
Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.