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O FUNIL DE COURO
Autor: Conan Doyle. Tradução: Silveira de Souza

Meu amigo, Lionel Dacre, morava na Avenue de Wagram, em Paris.
Sua casa era dessas comuns, tendo grades de ferro e um espaçoso
gramado na frente, e ficava no lado esquerdo se você viesse pelo Arco
do Triunfo. Imagino que ela já existia ali bem antes da construção da
avenida, pois as telhas cinzas estavam manchadas de líquens, e as
paredes mostravam-se emboloradas e desbotadas pelo tempo. Vista da
rua, dava a impressão de ser uma casa pequena, com cinco janelas na
fachada, se estou bem lembrado, mas que se estreitava para o fundo até
reduzir-se a um único amplo aposento. Era ali que Dacre colocara a
singular biblioteca de literatura de ocultismo, e as fantásticas
curiosidades que consistiam, ao mesmo tempo, na sua paixão predileta e
num divertimento para seus amigos. Homem abastado, de gostos
excêntricos e refinados, ele investira boa parte da sua vida e da sua
fortuna em reunir o que se dizia ser a única coleção particular de obras
cabalísticas, talmúdicas e de artes mágicas, muitas das quais de grande
raridade e valia. Suas preferências inclinavam-se para o maravilhoso e o
monstruoso, e tenho ouvido dizer que os experimentos que fazia no
campo do desconhecido haviam transposto todos os limites do civilizado
e do decente. Ele jamais fez referências sobre esses assuntos a seus
amigos ingleses, assumindo sempre a postura do estudioso e do
especialista; mas um francês, cujos gostos eram da mesma natureza que
os de Dacre, assegurou-me que os piores excessos da missa negra
haviam sido perpetrados naquele amplo e alto salão, que se alongava
entre as estantes de livros e os mostruários de seu museu.
A aparência de Dacre era suficiente para mostrar que seu acentuado
interesse nesses assuntos psíquicos era de ordem intelectual antes que
espiritual. Não havia o menor vestígio de ascetismo naquela face
robusta, e sim muita energia mental no volumoso crânio em formato de
abóbada, que se elevava em curva por entre delgados anéis de cabelo,
como um pico nevado acima da orla de abetos. Seu conhecimento eramaior que sua cautela, e suas faculdades eram bem superiores ao seu
caráter. Os pequenos olhos claros, afundados no rosto carnudo,
cintilavam com inteligência e uma inabalável curiosidade pela vida, mas
eram olhos de alguém sensual e egotista. O que foi dito sobre esse
homem é o suficiente, pois agora já é morto, pobre coitado, morto
exatamente no momento em que estava certo de haver finalmente
descoberto o elixir da vida. Não é do seu caráter complexo que irei me
ocupar, mas com o incidente muito estranho e inexplicável que ocorreu
durante a visita que lhe fiz no início da primavera de 1882.
Conheci Dacre na Inglaterra, porque minhas pesquisas no salão
assírio do Museu Britânico foram conduzidas ao mesmo tempo em que
ele tentava estabelecer um significado místico e esotérico a tabuinhas de
argila com inscrições da Babilônia, e tal coincidência de interesses foi a
causa da nossa aproximação. Comentários casuais converteram-se em
conversações diárias, e essas foram nos conduzindo a algo próximo da
amizade. Prometi a ele que na seguinte viagem que fizesse a Paris, iria
visitá-lo. Quando foi possível cumprir a promessa, eu estava morando
numa pequena casa em Fontainebleau, e como os trens noturnos eram
inconvenientes, ele me convidou a passar a noite em sua casa.
— Tenho somente aquela peça disponível – disse ele, apontando para
um largo sofá em sua ampla biblioteca. — Espero que possa ficar
confortável ali.
Era um singular quarto de dormir, com as altas paredes cobertas de
volumes encadernados de capa marrom, mas não haveria mobília mais
agradável para um rato de biblioteca da minha espécie, e minhas narinas
não sentiriam melhor perfume que o leve, sutil cheiro característico que
se exala de um velho livro. Disse a ele que não podia desejar aposento
mais encantador e ambiente mais apropriado.
— Se as armações não são nada convenientes nem convencionais,
são pelo menos valiosas – disse ele, olhando as estantes em torno. —
Investi cerca de um quarto de milhão em dinheiro nesses objetos que o
cercam. Livros, armas, jóias, esculturas, tapeçarias, imagens –
dificilmente haverá aqui algo que não tenha a sua história, geralmente
digna de ser contada.
Enquanto dizia essas coisas, ele estava sentado a um lado da
espaçosa lareira e eu do outro lado. A mesa de leitura ficava a sua direita
e o forte candeeiro acima dela lançava um vívido círculo de luz. No
centro da mesa, um palimpsesto semi-enrolado tinha ao redor vários e
estranhos artigos de antiquários. Um deles era um volumoso funil, como
aqueles usados para encher tonéis de vinho. Parecia ser feito de madeira
negra, com as bordas revestidas de latão descorado.
— Eis ali uma coisa curiosa – observei. — Qual é a sua história?
— Ah! – disse ele – é exatamente a pergunta que mais de uma vez
tive ocasião de fazer a mim mesmo.Gostaria muito de saber a resposta.
Vamos, pegue o funil, examine-o.
Foi o que fiz, descobrindo que aquilo que eu imaginara ser madeira
era na realidade couro, embora o tempo o tivesse endurecido ao
extremo. Era um enorme funil, e deveria conter pouco mais de um litro
quando cheio. O latão recobria as bordas do círculo maior, mas a ponta
do funil era também revestida de metal.
— O que você acha disso? – perguntou Dacre.
— Poderia imaginar que pertenceu a algum negociante de vinho ou
fabricante de malte da Idade Média – respondi. — Já vi na Inglaterra
jarros de couro do século dezessete, para servir bebidas – eram
chamados de black jacks. Tinham a mesma cor e solidez dessa peça.
— Arrisco afirmar que esse funil é mais ou menos da mesma data –
disse Dacre – e, sem dúvida, também era usado para encher recipientes
com líquidos. Se as minha suspeitas forem corretas, contudo, um
estranho vinhateiro foi quem o usou e o recipiente a ser enchido,
bastante singular. Você não observa nada fora do comum na
extremidade mais estreita?
Quando o levantei próximo da luz, pude verificar que numa estreita
faixa, cinco polegadas acima do bico de metal, o gargalo de couro do
funil estava todo esfolado e riscado, como se alguém tivesse feito cortes
ao redor com uma lâmina cega. Somente nessa faixa ocorria isso; a
parte restante da superfície negra e fosca não apresentava qualquer
aspereza.
— Alguém experimentou cortar o gargalo.
— Você chamaria a isso de corte?
— Está lacerado e esfiapado. Foi preciso alguma força para deixar
essas marcas em material tão resistente, qualquer que tenha sido o
instrumento utilizado. Mas, e você, o que pensa disso? Acho que você
sabe mais do que está dizendo.
Dacre sorriu e seus olhinhos experientes piscaram.
— Você incluiu a psicologia dos sonhos entre os seus assuntos de
estudo? – indagou.
— Eu nem mesmo soube até agora da existência de tal psicologia.
— Meu caro senhor, aquela prateleira acima da vitrine de jóias está
repleta de livros, de Alberto Magno e outros autores. Tratam
exclusivamente desse assunto que, em si mesmo, é uma ciência.
— Uma ciência de charlatães.
— O charlatão é sempre o pioneiro. Do astrólogo surgiu o astrônomo,
do alquimista o químico, do mesmeriano o psicólogo experimental. O
impostor de ontem é o professor de amanhã. Mesmo coisas tão sutis e
impalpáveis como os sonhos serão, no devido tempo, submetidas a
sistema e ordem. Quando chegar esse tempo, as pesquisas de nossos amigos daquela prateleira de livros deixarão de ser divertimento dos
místicos para se tornarem os fundamentos de uma ciência.
— Supondo que isso seja verdadeiro, que relação pode existir entre a
ciência dos sonhos e um funil enorme, negro, com as bordas revestidas
de latão?
— Vou contar-lhe. Você sabe que tenho um agente que está sempre
atento em relação às raridades e curiosidades de interesse para a minha
coleção. Alguns dias atrás ele ouviu falar que um negociante do cais do
Sena havia adquirido algumas velhas quinquilharias encontradas num
armário de uma casa antiga, aos fundos da rua Mathurin, no Quartier
Latin. A sala de jantar dessa velha residência era decorada com um
escudo de armas, que continha insígnias, e listas vermelhas sobre um
fundo prateado, o que, após investigações, foi comprovado ser o escudo
de Nicolas de la Reynie, alto funcionário do rei Luís XIV. Não resta
nenhuma dúvida de que os demais artigos encontrados no armário
datavam-se de antes do início desse reinado. A inferência é que, por
conseguinte, todos os artigos eram propriedade desse Nicolas de la
Reynie, que foi, pelo que sei, o cavalheiro que se ocupou com a
manutenção e execução das draconianas leis da época.
— E daí?
— Eu pediria a você para segurar uma vez mais o funil e examinar a
borda superior, revestida de latão.
Havia por certo alguns arranhões sobre ela, quase apagados pelo
tempo. O efeito geral era o da existência de diversas letras gravadas; a
última delas mostrava certa semelhança com um B.
— Trata-se de um B, não é?
— Acho que sim.
— Penso também desse modo. Na verdade, não tenho dúvida alguma
de que se trata de um B.
— No entanto o nome do aristocrata que você mencionou tinha R por
inicial.
— Exatamente! Eis a beleza da coisa. Ele possuía este curioso objeto
e, entretanto, o objeto tinha as iniciais de outra pessoa gravadas nele.
Por que o guardava?
— Não posso imaginar. Você pode?
— Bem, talvez possa ter uma hipótese. Você consegue ver algum
desenho um pouco adiante, nessa mesma borda?
— Eu diria que é o desenho de uma coroa.
— É de fato uma coroa; mas se você examiná-la sob uma boa luz,
vai ficar convencido de que não é uma coroa qualquer. É uma coroa
heráldica – um emblema de distinção, e esse aí se compõe
alternadamente de quatro pérolas e quatro folhas de morangueiro, o
emblema representativo de um marquês. Podemos inferir, portando, que a pessoa cujas iniciais terminam com a letra B possuía o título que lhe
dava direito ao uso desse diadema.
— Então, esse vulgar funil de couro pertenceu a um marquês?
Dacre sorriu de modo peculiar.
— Ou a algum membro da família de um marquês – disse ele. — Isso
é tudo que podemos claramente reunir a propósito dessa borda gravada.
— Mas o que tudo isso tem a ver com sonhos?
Eu não sei se era algo na expressão do rosto de Dacre, ou qualquer
sutil sugestão advinda de seus gestos, mas um sentimento de repulsa,
de horror irracional tomou conta de mim, enquanto olhava aquele antigo
e rugoso volume de couro.
— Mais de uma vez tenho recebido informações importantes por
intermédio de meus sonhos – disse meu companheiro, com o didatismo
característico em sua maneira de falar. — Agora faço disso uma norma:
sempre que duvido das informações obtidas sobre qualquer objeto,
lembro de colocá-lo próximo a mim, quando vou dormir, e fico na
expectativa de algum esclarecimento a seu respeito. Tal procedimento
não me parece absurdo, embora não tenha ainda merecido as benções
da ciência ortodoxa. De acordo com minha teoria, um objeto associado
intimamente a qualquer paroxismo da emoção humana, seja de alegria
ou de sofrimento, conservará uma certa atmosfera ou ligação com esse
evento, capaz de ser comunicada a uma mente sensível. Quero significar,
por mente sensível, não uma sensibilidade fora do normal, mas uma
inteligência treinada e educada como a sua ou a minha.
—Você quer dizer que, por exemplo, se eu dormir junto daquela
velha espada, que está ali na parede, posso sonhar com algum episódio
sangrento do qual aquela mesma espada fez parte?
— É um excelente exemplo, pois, a bem da verdade, eu próprio usei
aquela espada com esse propósito, e vi no meu sonho a morte de seu
possuidor. Morreu durante uma movimentada escaramuça, que não fui
capaz de identificar, mas que ocorreu na época das guerras frondistas.
Se você pensar a respeito desse assunto, algumas de nossas lendas
populares mostram que esse fenômeno já era reconhecido por nossos
ancestrais, embora nós, com a nossa sabedoria, as tenhamos classificado
entre as superstições.
— Por exemplo?
— Bem, o costume de colocar gulodices de noiva debaixo do
travesseiro, de modo que, ao dormir, tenha ela sonhos agradáveis. Este
é um dos diversos exemplos que você poderá encontrar num folheto que
eu mesmo escrevi sobre o tema. Mas, voltando ao que interessa, dormi
certa noite com esse funil ao meu lado, e tive um sonho que sem dúvida
projetou uma curiosa luz sobre seu uso e sua origem.
— O que sonhou você?
— Eu sonhei... – Ele fez uma pausa e uma compenetrada expressão
de interesse surgiu em seu rosto imponente —.Por Júpiter, é uma ótima
idéia! – exclamou. — Realmente vai ser uma experiência muitíssimo
interessante. Você é um indivíduo dotado de psiquismo, com nervos que
respondem prontamente a qualquer impressão.
— Nunca fiz testes comigo mesmo nessa direção.
— Pois vai testar hoje à noite. Seria demasiado pedir-lhe, como um
grande favor, para colocar o velho funil ao lado de seu travesseiro,
quando você for deitar-se no sofá?
Tal solicitação pareceu-me grotesca; mas devo admitir que, na
complexidade da minha natureza, existe um fascínio para tudo que é
bizarro e fantástico. Não acreditava nem um pouco na teoria de Dacre,
nem esperava qualquer êxito nesse tipo de experiência; entretanto,
seduzia-me o fato de que ela pudesse ser realizada. Dacre, com muita
seriedade, levou uma banqueta à cabeceira do sofá e colocou o funil
sobre ela. Depois disso, após uma breve conversação, desejou-me boanoite
e saiu da sala.
Fiquei algum tempo ali, sentado, fumando, ao calor da lareira,
enquanto revolvia mentalmente o incidente ocorrido e a estranha
experiência que parecia ainda me aguardar adiante. Cético que eu fosse,
havia alguma coisa impressiva no comportamento confiante de Dacre, e
aquele ambiente extraordinário que me cercava, o espaço enorme com
objetos incomuns, sinistros, espalhados ou suspensos em torno dele,
tudo isso criava uma aura de solenidade em meu espírito. Por fim,
desvesti-me e, apagando o candeeiro, deitei-me no sofá. Após revolverme
por longo tempo, adormeci. Vou tentar descrever do modo mais
exato possível o drama que surgiu em meus sonhos. Ele agora está
fixado na minha memória mais claramente do que tudo que eu tenha
visto com os olhos despertos. Havia um quarto que tinha a aparência de
uma abóbada. Quatro arcos de base triangular levantavam-se dos quatro
cantos na altura que seria do forro do quarto e reuniam-se num ponto
mais acima, criando um teto na forma de taça. A arquitetura era tosca,
mas visivelmente sólida. Com certeza, fazia parte de uma grande
construção.
Três homens de vestes negras, que usavam esquisitos chapéus de
veludo também negro, mais amplos no topo, sentavam-se numa linha
tapetada de vermelho de um estrado. Os rostos eram bastante solenes e
melancólicos.. À esquerda, de pé, viam-se dois homens, de longas togas,
segurando nas mãos porta-fólios que pareciam atulhados de papéis. No
lado direito, olhando na minha direção, estava uma mulher de baixa
estatura, cabelos louros e olhos azul-claros, expressivos – os olhos de
uma menina. Já ultrapassara a primeira juventude, mas não se podia
dizer que estivesse na meia-idade. Seu corpo tendia à gordura, mas o
porte era altivo e confiante. O rosto, pálido e sereno. Era um rosto interessante, gracioso e no entanto felino, com uma tênue sugestão de
crueldade em torno da pequena boca, reta, firme e do maxilar
rechonchudo. Vestia uma espécie de camisola branca e larga. De pé, ao
lado dela, um sacerdote magro, de expressão ansiosa, murmurava-lhe
algo ao ouvido e continuamente elevava um crucifixo diante de seus
olhos. Ela voltava a cabeça e olhava fixamente, para além do crucifixo,
os três homens de preto que eram, eu senti, os seus juízes.
Enquanto eu olhava, os três homens se levantaram e alguma coisa
foi dita, mas não consegui entender uma única palavra, embora
percebesse que, dos três, era o homem do centro quem estava falando.
Depois abandonaram a sala, seguidos pelos dois homens com portafólios.
No mesmo instante vários indivíduos de aparência rude, vestindo
sólidas jaquetas, entraram impetuosos e foram removendo, primeiro o
assento tapetado de vermelho, depois as armações do estrado, de modo
a deixarem aquele espaço inteiramente vazio. Quando a armação de
fundo do estrado foi removida, vi alguns objetos assustadores, peças de
mobília, que estavam por detrás dela. Uma dessas peças parecia uma
cama com cilindros de madeira nas duas extremidades e um sarilho
manual para regular o seu comprimento. Outro objeto era um potro de
madeira. E assim havia diversas outras coisas igualmente estranhas e
também um conjunto de cordas suspensas que passavam por roldanas.
Tudo aquilo não era diferente de uma moderna sala de ginástica.
Assim que o estrado foi retirado, apareceu em cena um novo
personagem. Era um homem alto, magro, de roupagem negra, tendo um
rosto descarnado e austero. O aspecto desse homem me fez estremecer.
Suas roupas brilhavam de tão engraxadas e estavam salpicadas de
manchas. Movia-se com lenta e impressionante dignidade, como quem
assumisse o comando de tudo desde o instante de sua entrada. A
despeito da aparência rude e das vestes sujas, aquela sala era agora sua
responsabilidade, estava sob seu controle. Viam-se cordas finas
enroladas e dependuradas em seu antebraço esquerdo. A mulher
examinou-o de alto a baixo com os olhos, mantendo a expressão
impassível. Sua expressão era confiante, até mesmo de desafio. Mas foi
muito diferente com o sacerdote. O rosto deste tornou-se horrivelmente
lívido e eu vi a umidade do suor brilhar e deslizar pela sua fronte ampla e
levemente inclinada. Ele ergueu as mãos em gesto de prece e curvava-se
continuamente para murmurar palavras frenéticas no ouvido da mulher.
O homem de vestes negras agora avançava e, tomando uma das
cordas em seu braço esquerdo, amarrou os pulsos da mulher, que ficou
com as mãos unidas. Ela estendia os braços sem resistência na direção
dele, enquanto era amarrada. Então ele segurou-a rudemente pelos
ombros, empurrando-a na direção do potro de madeira, cujo assento
ficava um pouco acima da cintura dela. Por isso ergueram-na e
colocaram-na sobre o assento, deitada de costas, com o rosto voltado para o teto, enquanto o sacerdote, horrorizado e trêmulo, fugia da sala.
A mulher movia rapidamente os lábios, e, ainda que eu não pudesse
ouvir nada, sabia que ela estava rezando. Seus pés pendiam suspensos
nos dois lados do potro e vi que alguns lacaios grosseiros, sob ordem,
haviam-lhe amarrado os tornozelos e prendido a outra extremidade das
cordas em anéis de ferro fixados sobre o chão de pedra.
Senti que meu coração afundava, enquanto eu via aqueles sinistros
preparativos e ao mesmo tempo me achava preso ao fascínio do horror e
não conseguia afastar os olhos daquele terrível espetáculo. Um homem
entrara na sala carregando um balde de água em cada mão Outro
homem o seguia, trazendo um terceiro balde. Foram deixados ao lado do
cavalo de madeira. O segundo homem segurava na outra mão uma
grande concha de madeira – espécie de tigela com uma asa reta.
Entregou-a ao homem de vestes negras. Nesse momento um dos lacaios
se aproximou da mulher com um objeto escuro nas mãos, o qual,
mesmo em sonho, apoderou-se de mim, originando um vago sentimento
de familiaridade. Era um funil de couro. Com um impulso enérgico e
horrível, o lacaio enfiou-o na... – mas não pude mais suportar. Meus
cabelos se arrepiaram de pavor. Eu me estorci e debati, conseguindo
romper os limites do sonho, soltando o grito mais forte de toda minha
vida e fui encontrar-me, trêmulo de horror, no sofá de uma ampla
biblioteca, com raios de luar fluindo da janela e atirando arabescos
sombreados e prateados na parede oposta. Ah, que alívio abençoado
sentir que estava de volta ao século dezenove, e não sob uma abóbada
medieval, que estava num mundo onde os homens tinham corações
humanos em seus peitos. Sentei-me no sofá, tendo os membros ainda
trêmulos, a mente dividida entre a gratidão e o horror. Pensar que coisas
tais foram um dia realizadas, que puderam ser realizadas sem que Deus
houvesse fulminado os vilões responsáveis. Foi tudo uma fantasia, ou foi
algo que realmente aconteceu nos dias negros, cruéis, da história do
mundo? Mergulhei a cabeça palpitante entre as mãos ainda trêmulas. E,
então, repentinamente, tive a impressão que cessavam as batidas de
meu coração, e eu nem mesmo consegui gritar, tão grande foi o meu
medo. Alguma coisa se movimentava na minha direção, na escuridão do
quarto.
É uma seqüência de horrores que abate o espírito humano. Eu não
conseguia raciocinar, nem podia rezar; podia somente ficar sentado
como uma imagem congelada, e olhar o sombrio espectro que
atravessava a ampla sala. Mas então ele se moveu sobre uma faixa
iluminada pelo luar e eu pude respirar aliviado uma vez mais. Era Dacre,
e seu rosto indicava que ele parecia tão assustado quanto eu.
— Foi você? Pelo amor de Deus, o que houve? – perguntou ele com
uma voz áspera.
— Como me alegro em vê-lo, Dacre! Estive no inferno. Foi uma coisa
medonha.
— Então foi você quem gritou?
— Ouso dizer que sim.
— Seu grito ressoou por toda a casa. Os criados estão apavorados.
Dacre acendeu um fósforo e levou-o ao candeeiro.
— Vamos atiçar o fogo da lareira e aquecer de novo o ambiente –
acrescentou, atirando algumas achas de lenha sobre as brasas. — Por
Deus, meu caro, como você está pálido! Dá a impressão de ter visto um
fantasma!
— Você tem razão. Foram vários fantasmas.
— Quer dizer que o funil de couro funcionou, afinal?
— Eu não dormiria de novo ao lado dessa coisa infernal nem por todo
o dinheiro que você pudesse oferecer-me.
Dacre soltou uma risadinha reprimida.
— Eu esperava que você tivesse uma noite agitada – disse ele. —
Mas você me deu o troco, pois aquele grito não foi nada agradável, às
duas horas da madrugada. Suponho pelo que você está dizendo que você
viu todo o terrível negócio.
— Que terrível negócio?
— A tortura pela água, o “interrogatório extraordinário”, como era
chamado nos alegres dias de Le Roi Soleil. Você agüentou até o fim?
— Não, graças a Deus. Acordei antes que começasse de fato.
— Ah, você é um felizardo! Eu suportei até o terceiro balde. Bem, é
uma velha estória, e todos os que dela participaram estão agora em suas
tumbas, assim, de qualquer modo, que importância tem sabermos como
chegaram até ali? Suponho que você tenha alguma idéia a propósito
daquilo que viu?
— A tortura de alguma malfeitora. A mulher deve ter sido uma
terrivel malfeitora, na verdade, se os seus crimes foram cometidos na
proporção de sua penalidade.
— Bem, temos esse pequeno consolo – disse Dacre, arrepanhando o
roupão e acocorando-se mais próximo da lareira. — Eles foram
cometidos na proporção da penalidade. Quer dizer, se estou correto
sobre a identidade da mulher.
— Como pôde saber a provável identidade dela?
Por resposta, Dacre apanhou da prateleira próxima um antigo volume
com capa de velino.
— Apenas escute – disse ele. — Está escrito num
francês do século dezessete, mas farei uma tradução aproximada. Você
julgará por si mesmo se matei ou não a charada:
“A prisioneira foi conduzida à presença das Grand Chambers e
Tournelles do Parlamento, em sessões de corte de justiça, acusada do
assassinato do mestre Dreux d’Aubray, o pai dela, e de seus dois irmãos,os senhores d’Aubray, um deles tenente civil, e conselheiro do
Parlamento o outro. Em pessoa, parecia difícil de acreditar que ela
realmente tivesse cometido ações de tal perversidade, pois seu aspecto
era meigo, e de baixa estatura, com uma pele bonita e olhos azuis.
Entretanto, a Corte, tendo averiguado a sua culpa, condenou-a aos
interrogatórios usual e extraordinário, de modo a obrigá-la a confessar os
nomes de seus cúmplices, depois do que seria conduzida numa carreta
até a Place de Grève, onde seria decapitada, sendo seu corpo
posteriormente queimado e as cinzas jogadas aos ventos.
A data deste registro é de 16 julho de 1676.”
— É interessante – eu disse — mas não muito convincente Como
você prova serem a mesma essas duas mulheres?
— Já vou fazê-lo. A narrativa prossegue, descrevendo a conduta da
mulher ao ser interrogada: “Quando o carrasco se aproximou, ela o
reconheceu pelas cordas que ele trazia nas mãos, e ela em seguida
estendeu as próprias mãos para ele, olhando-o de alto a baixo sem
pronunciar uma palavra”. Que tal isso?
— Confere, de fato.
— “Ela olhou sem estremecer o potro de madeira e os anéis de ferro
que tinham retorcido tantos membros humanos e causado tantos gritos
de angústia. Quando seus olhos caíram sobre os três baldes com água,
que estavam já preparados para ela, disse com um sorriso, ‘toda essa
água deve ter sido trazida aqui com o propósito de afogar-me, monsieur.
O senhor decerto não tem, confio eu, a menor idéia de forçar uma
pessoa da minha estatura a beber tudo isso”. Deverei ler os detalhes da
tortura?
— Não, pelo amor de Deus, não!
— Eis um parágrafo da sentença que vai lhe mostrar que o que está
aqui registrado é uma cena que, por certo, você presenciou esta noite:
“O bom abade Pirot, incapaz de contemplar os tormentos a que ia ser
submetida a sua penitente, saiu correndo da sala” Isso convence você?
— Completamente.Não tenho mais dúvida de que se trata do mesmo
evento. Mas, quem era essa mulher de aparência tão atraente e cujo fim
foi tão horrível?
Sem responder, Dacre cruzou-me à frente e trouxe, aceso, um
pequeno lampião, colocando-o depois sobre a banqueta que estava ao
lado do sofá. Erguendo o funil agourento, iluminou em cheio a orla de
latão. Vistas assim, bem iluminadas, as gravações na orla pareciam mais
nítidas que na noite anterior.
— Já concordamos que se trata do emblema de um marquês ou
marquesa – disse ele. Também acertamos que a última letra é B.
— Sem dúvida.
— Vou sugerir agora a você que as outras letras, da direita para a
esquerda, são M, M; um d minúsculo, A, um d minúsculo e, então,
finalmente, o B.
— Sim, Você tem razão.Posso ver claramente os dois d minúsculos.
— O que eu li a você esta noite – disse Dacre – é a cópia do registro
oficial do processo de Marie Madeleine d’Aubray, marquesa de
Brinvilliers, uma das mais célebres envenenadoras e assassinas de todos
os tempos.
Fiquei sentado em silêncio, acabrunhado ante a natureza
extraordinária do acontecimento. e ante a inteireza das provas em
relação às quais Dacre expusera o real significado. De um modo vago,
recordei alguns detalhes da carreira da mulher, sua libertinagem
desenfreada, o sangue-frio e a prolongada tortura a seu pai doente, o
assassinato dos irmãos motivado por lucros mesquinhos. Lembrei
também que a bravura de seu fim havia reparado de algum modo o
horror de sua vida, e que Paris em peso havia simpatizado com seus
momentos finais, havendo-a abençoado como mártir poucos dias depois
de havê-la amaldiçoado como assassina. Uma objeção, e apenas uma,
passou-me pela mente.
— Como as iniciais de seu nome e o emblema de sua categoria
vieram a ser gravados no funil? Por certo a admiração medieval à
nobreza não chegava ao ponto de ornamentar os instrumentos de tortura
com os títulos de suas vítimas, não é verdade?
— Essa questão também me intrigou – disse Dacre –, mas ela admite
uma explicação simples. O processo provocou extraordinário interesse
na época, e nada poderia ser mais natural que La Reynie, o Chefe de
Polícia, tivesse retido esse funil como sinistro souvenir. Não era
acontecimento freqüente que uma marquesa de França fosse submetida
ao interrogatório extraordinário.Que ele tivesse mandado gravar as
iniciais dela sobre o funil, a título de informação para as demais pessoas,
era seguramente um procedimento comum em casos assim.
— E isto? - perguntei, apontando para as marcas sobre o gargalo de
couro do funil.
— Ela era uma tigresa cruel – disse Dacre, enquanto se afastava
dali. — Penso ser evidente que, a exemplo das outras tigresas, essa
também tivesse dentes fortes e afiados.
FIM
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