FVE

AUTOR: CLÁUDIO QUIRINO

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F.V.E.

(Cláudio Quirino) 
 

Isso é um fenômeno humano que precisa da energia corporal do vivo, perto, aqui e agora. Não age no futuro nem no passado. É uma energia realmente física.

                                                                        (Padre Quevedo)

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FATO: Em janeiro de 2002, alguns investigadores do Grupo de Pesquisas Paranormais visitou um hospício abandonado ao sul de Chicago, Illinois. O hospital tinha um passado sombrio. Antes de ter sido fechado, abrigava insanos que cometeram crimes. Ocasionalmente, funcionários do hospital executavam criminosos por eletrocussão. Ninguém sabe ao certo a causa do desaparecimento dos tais pesquisadores, mas a informação conhecida é de que apenas Richard Cambridge - o mais experiente -, esteja vivo em algum lugar nos Estados Unidos. 

                                           [ . . . ] 

Ainda pela manhã nublado de abril de 2003, Richard descia as escadas no momento mais crucial de sua vida. Segurando firme a lateral das escadas, parecia contar minimamente os degraus até chegar ao térreo, onde estaria mais seguro daquela tontura sublime. Toda sua visão ofuscava os espaços delimitados em sua volta como se fossem uma neblina interna na qual não definia objetos. Na noite anterior, sórdidos pesadelos atormentavam o seu sono incomum, raro. Não estava muito bem, pelo visto. 

Como rotina, caminhou cambaleando pelo vão da sala, quase tombando no cão siamês deitado próximo ao sofá de veludo. Minutos depois, limitou-se a observar sua aparência no enorme espelho à frente. O homem parecia o fantasma arrastando sua falta de sorte. Sem forças, sentou-se no sofá, abrindo os jornais deixados sobre a escrivaninha ao lado. Entretanto, tais letras apenas mudavam de lugar diante dos seus olhos cansados da noite mal dormida.

Como se pressentisse algo em volta, o cão rapidamente levantou-se com prontidão assustadora. Sem parar, latia em frente ao espelho, balançando a cauda num movimento incessante. Num último ato, grunhiu alto, caindo sobre o tapete persa. Depois, afastou-se da sala, sumindo de vista. 

Richard pôde sentir um frio inebriar o vão. Com o olho esquerdo temeroso, concentrou-se em analisar os recantos do jornal, tentando ver o espelho a sua frente, mas apenas uma imagem era refletida - todos raios solares em volta da cabeça formando um halo. Ele estranhou tal arrepio, ainda mais a atitude do animal. Conhecia auto de que eram suscetíveis ao contato com os seres do além, porém nunca pressentiu tais animosidades. 

Baixando seu jornal até as pernas, resolveu fazer um teste que aprendera quando ainda trabalhava no Grupo. Cautelosamente, levantou todo braço esquerdo até a altura do rosto. No reflexo, a imagem exibiu o direito. Em seguida, balançou a mão de um lado ao outro, riscando o espaço invisível. A imagem não acompanhou movimento, nem se locomoveu. O que passou a ocorrer no momento, Richard não esperava. Nas quatro extremidades do vidro, algumas rachaduras foram sendo prolongadas, avançando até todo centro, minando um líquido escuro através dos espaços formados. O chão logo recobriu. 

Levantou-se apavorado, pensando ser uma visão, porém quando abria os olhos, deparava-se com a pura realidade ao seu redor. No corredor direito, a porta apenas rangia lentamente. Pela brecha, conseguiu observar uma luz flamejar repetidamente. Tentou subir todos os degraus, mas o líquido escuro também já escorria do andar superior. 

Abriu a bíblia e começou a ler em voz alta alguns ditados de Cânticos. Na medida em que aumentava o tom, uma outra voz - mais aguda -, ecoava pela casa inteira e logo se sobrepôs a dele com facilidade. Num alvoroço psicológico, Richard Cambridge olhou todos os lados, tentando calcular de onde vinha aquele barulho insuportável, que tinia nos seus ouvidos frágeis. O som emitia do aparelho da TV desligada. Seus olhos, apenas arregalados denotando um pavor infernal. Aquela voz era de sua única filha: Lisa. 

Sem saber como reagir ao impulso alucinante, pegou o telefone e discou o número da esposa. Devia estar apenas sonhando uma realidade medonha, na qual não conseguia despertar na facilidade incondicional. A mulher logo atendeu. 

- Querida, onde você está? - A fala era inaudível. - Nossa filha está aqui!  

- O quê? - Estava confusa. - Lisa faleceu há dois anos, Rich. O que está acontecendo com você? Estou no trabalho, e sabe disso. 

- Querida, Lisa está aqui dentro! - Sua voz era rouca. - Ela... tentando se comunicar pela TV comigo!  

- Isso já está passando dos limites, Rich!  - Gritou alterada. - Hoje isso vai acabar. Vai ser melhor para você e para mim! Está ouvindo? - Não houve a resposta. - Rich? Está me ouvindo? 

Richard não teve nem tempo de oferecer resposta adequada, nem mesmo raciocinar. Com olhos esbugalhados, fitou o andar acima, trêmulo, e logo soltou o telefone sobre a mesa, afastando-se cada vez mais para a saída. Sem vistar, tocou a maçaneta e girou insistentemente, mas tal porta não abria. "Socorro! Alguém me ajuda... Me tira daqui!" 

Descendo as escadas, uma menininha levitava, trazendo o cão pendurado pelo pescoço numa forca de corda. Da barriga do animal, o risco vermelho deixava à mostra as entranhas do intestino delgado. O riso nos lábios da criança era notável - mais ainda horrível. Seu vestido azulado ondulava no ar, assim como os cabelos loiros. Noutra mão, trazia o coração do animal, banhado em sangue, e bombardeando. 

Richard gritou o mais alto que pôde, logo percebendo que apenas em sua mente podia realmente escutar seu suplício. "Onde você está, papai?" O eco naquela voz sedutora chegava a ser excomunal, enquanto descia as escadas quase saltando. 

Quando o homem sentiu a tontura, a consciência se esvaiu aos poucos. Caiu sobre as cadeiras, ferindo o rosto, com grande corte transversal na testa. Depois disso, não viu mais nada. 

                                          [ . . . ] 

Alguns minutos mais tarde, Norah entra na sala e contém o grito de horror. O marido estava sentado no chão, encostado na parede como se também estivesse conectado à ela. O rosto desaparecia por entre as pernas e os braços, envolviam os joelhos aranhados. Tentou fazê-lo reagir, mas não se moveu. "Querido!" Bruscamente, Richard levantou sua cabeça exibindo os olhos completamente escuros, fazendo Norah cair para trás assustada. Sem pronunciar uma única palavra, o homem só tremia demasiadamente, suando muito, sentindo um frio envolvê-lo numa imensidão invisível. Ainda com aqueles olhos escuros, fitava por cima do ombro da esposa, vendo os homens altos - vestidos de branco - já entrando com uma camisa elástica. Richard não se opôs a nada, pois estava em estado de choque. 

- Por que ele está com esses olhos tão esquisitos? - Perguntou sem tirar a vista da expressão fantasmagórica do marido. 

- Bem, é mais um dos sintomas da esquizofrenia aguda. Depois da morte da filha, o fator mental ficou alterado, fazendo com que as alucinações se tornassem mais constantes, Norah - advertiu. - Um tratamento especial na clínica interna, com observações do estado, seu marido vai ficar melhor  e conseguirá vencer esse trauma. 

- Desculpe, Rich - beijou-o na face trêmula, mas não retribuiu o gesto. - Não tive outra escolha melhor para tomar, amor. Por enquanto, tudo vai se melhorar em breve. Eu prometo! 

De longe, encostada na porta, apenas observou o marido ser atinado na maca e encaminhado para a traseira da ambulância móvel. Depois, ainda preocupada, decidiu tomar um banho morno para tirar estresses daquele dia cansativo, pois teria que visitá-lo mais tarde. Ensaboava-se ouvindo uma música leve. De repente, o som cessou e a estática retroativa do CD passou a chiar um pouco alto. Ela saiu da banheira, enrolanda numa toalha felpuda, para tentar regularizar a tal sintonia do rádio, mas os sinais ainda insistiam em mudar de freqüência. Quando aproximou os dedos do botão OFF do aparelho, a voz de Lisa se ouviu nos autofalantes. " Mamãe, pode descansar tranqüila agora? " 

Antes mesmo que atendesse a ligação no celular, já tinha uma noção da triste notícia do hospital. Richard Cambridge também estava morto.

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* Fenômeno da Voz Eletrônica (F.V.E.) é uma gravação de vozes do outro mundo em fitas cassete, gravadores de rolo e outros equipamentos. Uma expressão recente - transcomunicação instrumental (TCI) -, se refere à maneira pela qual vozes são gravadas usando tecnologia.

Fim

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