O GUARDIÃO DO FAROL
Pérsio Sandir D´Oliveira
Durante
algum tempo, trabalhei para a Revista Brasileira do Oculto; ela
trata de assuntos polêmicos: ovnis, monstros marinhos, alienígenas,
teorias da conspiração, o Mar do Diabo, no Pacífico, e os incidentes
no Triângulo das Bermudas no Atlântico. Já recebi críticas terríveis,
que me deixaram aborrecido; hoje, sou mais forte e tenho um trunfo para
revelar. Como repórter da revista, aprendi a ter a mente aberta; afinal
de contas, o ceticismo não vende. Talvez o leitor seja um cético,
e não posso culpá-lo – eu mesmo não acreditava em muitas coisas
que foram publicadas no meu tempo. Mas a revista ainda vende muito bem.
O
incidente que vou relatar aconteceu no litoral do Paraná; foi em agosto
de 2008, quando o Estado comemorou 155 anos de emancipação de São
Paulo. O ponto alto das comemorações foi o grande campeonato de balonismo,
que envolveu 60 equipes. A etapa final do evento foi a pequena cidade
de Águas Claras, a trinta quilômetros de Paranaguá. Contrariando
as previsões dos pessimistas e os comentários jocosos de comunidades
da internet, não houve nenhum acidente sério: tratava-se de equipes
experientes, em balões bem construídos, com sacos de lastro de areia
e queimadores de gás propano. Apenas um deles caiu no mar, a duzentos
metros da praia, e foi resgatado prontamente pelas embarcações de
apoio. A prova foi vencida pela equipe da ONG ambientalista Terraverde.
Mais
tarde, no restaurante, sentei-me perto da mesa da equipe Vorpal, que
teve de ser resgatada do mar. Eduardo, piloto do balão, convidou-me
para sentar junto com eles; entre uma cerveja e outra, elogiou a eficiência
do resgate. Ele comentou a rapidez da tripulação do barco e acrescentou:
-
Eu não sabia que eles tinham mergulhadores. Nós vimos dois ou três
deles, nadando pouco abaixo da superfície da água. Acho que foi excesso
de cuidado, mas fico agradecido. Nunca se sabe...
O
garçom, que servia a mesa, ouviu aquilo e teve um tremor súbito, quase
derrubando a bandeja. Eduardo mostrou as fotos dos mergulhadores, que
tirou com sua câmera digital, enquanto o balão caía lentamente. As
imagens não eram muito nítidas, mas parecia mesmo haver nadadores
submersos. Contudo, alguma coisa estava errada naquela fotografia; os
vultos não pareciam totalmente humanos; não eram tubarões
nem golfinhos. Eduardo usou o celular e, depois de alguns minutos de
conversa, confirmou que não havia mergulhadores.
O
assunto mudou para a tranqüilidade de Águas Claras: ninguém viu mendigos,
flanelinhas ou prostitutas pelas ruas da cidade. Os moradores mais velhos
não se lembravam da última vez que ocorreu assalto ou qualquer outro
crime violento; e os turistas se sentiam seguros. Paguei a conta e fui
caminhar. Coloquei músicas do U2 no MP3 e percorri a praia, quase deserta,
durante meia hora; a cidade parecia esconder alguma coisa, eu estava
certo disso. Algumas pessoas idosas eram horríveis de se ver: rostos
glabros e escamosos, com olhos esbugalhados, que pareciam nunca piscas,
e rugas no pescoço...
A
caminhada me levou ao farol de Águas Claras: uma torre de quarenta
metros, erguida antes da Segunda Guerra Mundial, quando a cidade ainda
tinha certa importância como porto marítimo. Então, vi um velho sentado
em um banco de madeira, ao lado do farol. Sua barba branca era comprida
e vestia um sobretudo cinza-escuro. Fumava cachimbo de barro, e parecia
muito satisfeito; ele me cumprimentou cordialmente e retribuí a saudação.
Foi assim que conheci Mário Pereira, o guardião do farol.
Ele
me convidou para sentar em outro banco; em seguida, pegou o cachimbo,
encheu-o novamente e logo tirava baforadas. Continuamos a conversa e
falei sobre meu trabalho como repórter; ele descreveu o seu trabalho.
Natural de Águas Claras, deixara a cidade aos dezoito anos, para trabalhar
na marinha mercante. Passou boa parte da vida no mar – estava com
setenta e cinco anos - e esteve em vários países, onde viu e ouviu
muita coisa. As tatuagens em seu antebraço esquerdo foram feitas em
Singapura, no início da Guerra do Vietnã. Com a idade, ele deixou
o mar e retornou à sua cidade natal em 1988. Conseguiu o emprego de
guardião do farol. O trabalho era leve e fazia muito tempo que um navio
de grande calado não passava por lá. Porém, mesmo os pequenos barcos
de pesca precisavam evitar as perigosas pedras submersas.
Nas horas de folga, ele fazia longas caminhadas pela areia da praia;
gostava de andar, sentindo a brisa do mar e ouvindo os gritos das aves
marinhas, e as ondas quebrando nas pedras. De vez em quando, alguns
destroços chegavam à praia. Foi numa manhã, no inverno de 1990, que
ele encontrou um cadáver: um homem, jovem, de grande estatura e musculoso.
O delegado Adriano reuniu todo mundo, mas não conseguiu identificar
o corpo, que foi enterrado como indigente, no pequeno cemitério e ninguém
falou mais no assunto. Mas ele nunca esqueceu as mutilações no corpo:
cheio de bolhas e feridas, como se feitas por arames em brasa.
Em
setembro de 1994, o Sr. Pereira viu algo estranho no mar; a noite estava
muito escura, e alguns barcos ainda não tinham voltado. Perto da meia
noite, o feixe de luz do farol incidiu sobre um barco, à deriva. E
a estibordo, havia um brilho na água. Ele levou um susto, quando pegou
sua luneta e apontou naquela direção: o objeto era uma roda luminosa,
a pouca profundidade. Na manhã seguinte, o barco estava encalhado na
areia da praia. Não havia ninguém a bordo, e o povo de Águas Claras
ficou alvoroçado. O delegado abriu um inquérito, e alguém lembrou
que o Ernesto, proprietário do barco, não dispensava uma boa pinga,
e já tinha encalhado algumas vezes. O delegado encerrou o inquérito
e o povo não tocou mais no assunto.
Então,
numa tarde de novembro de 1995, ele viu um grupo na praia, na linha
da arrebentação; meu anfitrião ficou surpreso, e se juntou aos curiosos.
As pessoas estavam em volta de uma criatura na areia, que merecia toda
a atenção: era uma enorme água-viva, que ninguém tinha visto antes.
A coisa devia ter mais de três metros, e estava morrendo. Ninguém
tocou na criatura, com medo dos tentáculos urticantes; até que o Sérgio
pegou um arpão e perfurou a coisa, para evitar que fosse arrastada
para o mar. No dia seguinte, o povo chamaria alguém que pudesse identificar
o animal.
Naquela
ocasião, a Dra. Maria Angélica Freitas, bióloga da universidade,
estava no litoral do Paraná, pesquisando os efeitos da poluição do
mar sobre os invertebrados. Ela ficou intrigada com a criatura, e confirmou
que era uma espécie de água-viva desconhecida pela ciência. Na sala
de dissecação da universidade, descobriu detalhes ainda mais estranhos,
como um cérebro rudimentar.
Eu
agradeci pela conversa, e prometi retornar mais vezes. Ele me pediu
que trouxesse fumo bem forte, pois em Águas Claras não havia nada
decente para seu cachimbo. Prometi que faria isso e retornei ao hotel.
Mais tarde, eu me lembrei daqueles “mergulhadores”, avistados pelo
balonista. Concluí que havia alguma coisa que o povo de Águas Claras
não queria revelar; talvez eles expulsassem os mendigos da cidade e
não quisessem que repórteres abelhudos investigassem o assunto. E
talvez a explicação fosse ainda mais sinistra. Também fiquei incomodado
com os livros que estavam sobre a mesa: a perturbadora Biografia
do Diabo, do argentino Alberto Cousté, radicado na Espanha; e o
legendário Criaturas do Mar, de Alexander Simonson.
Naquela
semana, tive que deixar o assunto de lado, pois estive muito ocupado,
acompanhando a partida das equipes de balonismo; foi somente na tarde
de quinta-feira pude visitar o farol. O sol estava escondido por nuvens
carregadas, o que prometia uma noite chuvosa; felizmente, o tempo permaneceu
firme durante a tarde, e encontrei o Sr. Pereira consertando um pequeno
bote. Assim que ele me viu, deixou o martelo de lado e veio na minha
direção. Entreguei o pacote de fumo, que ele recebeu muito calorosamente,
e me convidou para entrar no farol.
A
sala era simples e tinha poucos móveis: estante de livros, escrivaninha,
mesa e três cadeiras. Ele serviu um café forte, de uma garrafa térmica
azul-marinho, e começou a falar sobre a aposentadoria. Mais um ano,
disse, e deixaria o litoral, para morar com uma sobrinha, no interior
de São Paulo. Quando perguntei sobre o naufrágio do Nostromo,
ele fechou a cara; mas acabou contando a sua versão da história; na
noite de 17 de dezembro de 2007, chovia forte e ventava muito. Uma velha
árvore, logo na saída de Águas Claras, carcomida pelos cupins, caiu
com o vento forte e derrubou os fios de energia que chegavam ao farol...
o gerador de emergência vivia quebrado... o navio acabou batendo nas
rochas submersas, a meio quilômetro do porto; não havia nada para
fazer.
O
leitor deve se lembrar do naufrágio do cargueiro Nostromo, que
ocorreu em dezembro de 2007 - na greve dos estivadores, que trouxe tantos
problemas para os portos. O navio tinha má fama; corriam boatos sobre
contrabando e abalroamento de embarcações menores, como os botes infláveis
tripulados por militantes de ONGs ambientalistas. Em sua última viagem,
o navio transportava produtos químicos para o Brasil; as fábricas
de pesticidas precisavam atender os agricultores e importar uma parte
dos componentes era compensador. Mas com a greve dos estivadores, a
embarcação ficou impedida de descarregar em Paranaguá. O capitão
entrou em contato com Águas Claras e recebeu autorização de atracar
no porto. Como era um navio antigo, de calado menor, o porto era adequado;
e o prefeito garantiu que era possível descarregar, pois havia mão
de obra para furar a greve.
Percebi
que o assunto era tabu naquele lugar; mesmo a dona do restaurante, uma
italiana muito expansiva chamada Giovanna, desconversou quando perguntei
sobre o incidente com o Nostromo; ao mesmo tempo, ela fez sinal
para que o garçom atendesse uma família que tinha acabado de chegar.
Resolvi concentrar minha atenção nos deliciosos pratos à base de
frutos do mar, que garantiam a ocupação das mesas do pequeno restaurante.
Em
visitas posteriores, o Sr. Pereira atribuiu o naufrágio à vontade
de Deus; ele contou uma história estranha, sobre alianças blasfemas
com os “habitantes das profundezas”. A cidade estava em franca decadência
econômica, desde a década de 70 do século passado. Parece que alguns
moradores realizaram ritos estranhos, e invocaram as criaturas do mar.
O pacto sinistro garantiu pesca de qualidade e em abundância, além
de objetos de ouro que eram vendidos por intermediários a negociantes
em outros Estados brasileiros. Alguns acreditavam que o preço era justo;
mas, para ele, era alto demais.
Os
habitantes, disse, ofereciam os párias da sociedade em sacrifícios
humanos na Pedra do Sacrifício. A idéia foi do prefeito Luis Antônio,
neto de imigrantes norte-americanos que vieram da cidade de Innsmouth,
na costa leste dos Estados Unidos. Estava na hora de parar com aquilo;
foi uma bênção que a forte chuva tivesse provocado a interrupção
da energia e o naufrágio do Nostromo. As potentes toxinas nos
porões de carga do navio deviam ter exterminado todas as formas de
vida aberrante que assombravam a região. Era melhor deixar o assunto
de lado, e torcer para que não ocorresse novamente.
Saí
de lá ainda mais confuso do que quando entrei. Uma cidade inteira,
refém do medo? E, no entanto, era diabolicamente coerente: a ausência
de mendigos; a aparente prosperidade; a tranqüilidade dos turistas;
e a tensão no semblante dos habitantes. Para mim, a história estava
mal contada. Era possível que o velho Mário Pereira tivesse induzido
o naufrágio do cargueiro, por mais improvável que fosse o motivo;
mas a idéia de erradicar a raça subaquática por meio de produtos
químicos pareceu absurda. Além do mais, aquele farol tinha um gerador
a diesel, para fornecer energia numa emergência; seria muito improvável
que dois acidentes tivessem deixado o farol no escuro, justamente na
noite do afundamento do Nostromo. Não houve sobreviventes daquela
tragédia.
Na
noite de 20 de agosto, estacionei o carro a cem metros do farol e, com
binóculos de uso militar, vasculhei a praia. O local estava deserto,
a não ser pelo grupo de nadadores noturnos. Eu não gostei nenhum pouco
do andar bamboleante daqueles vultos, nem da forma como brilhavam à
luz do luar e das estrelas. Além disso, eu os vi mergulhar e se afastar
da praia, em potentes braçadas; mas não os vi retornar. Seria alguma
prova de resistência, alguma aposta maluca? Com os olhos pesados de
sono, retornei ao hotel; não tive sonhos tranqüilos naquela noite.
Na
manhã de sete de setembro, encontrei uma garota muito bonita à mesa
do café. Os cabelos castanhos emolduravam o rosto oval e delicado,
destacando os olhos verdes. Logo estávamos conversando animadamente;
ela se chamava Mariana e veio de Curitiba, depois de uma briga com o
namorado. A situação me pareceu muito mais interessante do que as
lendas do mar; deixei de lado todas as preocupações e me concentrei
na nobre tarefa de consolar aquele coraçãozinho magoado...
Ao
entardecer, já estava fazendo planos para levar Mariana à ilha do
Mel; a mulher era fantástica e o editor-chefe da revista tinha me concedido
mais uma semana. Mas um telefonema mudou os meus planos: era o velho
Mário Pereira, que parecia à beira de um colapso nervoso:
-
Santo Deus! Eles sabem... estão rondando o farol! Querem me pegar!
Tenho que fugir daqui! Você tem que me tirar desse lugar!
Conversamos
por quase dez minutos, e das frases desencontradas deduzi o seguinte:
ele realmente foi responsável pelo afundamento do Nostromo,
e havia um grupo que queria matá-lo pelo feito. Isto me pareceu mais
razoável do que a teoria absurda sobre a raça de seres marinhos; ao
mesmo tempo, imaginei que, se eu pudesse convencer o velho a confessar
sua história, teria um furo de reportagem!
Tentei
acalmá-lo, e prometi voltar depois do jantar – Mariana em primeiro
lugar! Perguntei se tinha uma arma, e ele confirmou: uma pistola automática
calibre 45, comprada no Paraguai. Quando desliguei o telefone, ele parecia
mais calmo. Às sete e meia, encontrei Mariana no restaurante; o jantar
só não foi mais romântico porque eu tinha de pegar o Sr. Pereira
no farol. Meu plano era simples: eu deveria pegar o velho e, rapidamente,
levá-lo até Curitiba. Dali, ele poderia embarcar para qualquer cidade
do Brasil e continuar sua vida; eu só queria uma confissão escrita,
que poderia ser publicada mais tarde.
Caía
uma chuva fina quando saí do hotel e me dirigi para o farol. Quando
cheguei, vi que alguma coisa muito grave tinha ocorrido. A grande porta
de madeira fora arrombada, e os móveis estavam virados. Uma cadeira
estava quebrada, e havia uma poça horrível de um líquido pegajoso
e denso; havia muita areia molhada e algas no chão; e o cheiro de peixe
podre era intolerável. Gritei alto, para chamar a atenção do guardião
do farol, e ninguém respondeu. Minutos depois, ouvi gritos e tiros
na direção do mar. Peguei um machado da parede e corri na direção
dos sons perturbadores.
O
velho Pereira estava lá, e atirava contra seus atacantes; ele parecia
ferido, pois mancava de uma perna. Um oponente estava esticado no chão;
os outros avançavam contra ele. A brisa do mar levou o cheiro forte
de peixe podre para minhas narinas; então, percebi o que eram as criaturas.
Andavam eretas, como seres humanos, mas os corpos eram cobertos de escamas
verde-azuladas; os ventres eram branco-acinzentados, e as cabeças lembravam
um peixe enorme, com enormes olhos sem pálpebras; as patas eram membranosas
e dotadas de garras.
Não
havia tempo para o medo; gritei bem alto e avancei para a criatura mais
próxima. Atingi seu tronco com o machado e a coisa caiu; antes que
se levantasse, golpeei-a novamente, até que parou de se mexer. Ao mesmo
tempo, o guardião do farol esvaziou sua pistola automática no último
atacante. Ofegante, sinalizei para que ele me seguisse e caminhei na
direção do carro. A meio caminho, resolvi olhar para trás, e vi aquilo
que roubou minha paz de espírito. Santo Deus!
Uma
onda prodigiosa quebrou na areia da praia, e surgiu um vulto imenso,
esverdeado, com muitos tentáculos vibrando; um deles agarrou o Sr.
Pereira pela cintura e ele começou a gritar. A força daquela criatura
era enorme e ele foi rapidamente arrastado para a água; os outros tentáculos
varreram a praia, e apanharam os corpos das criaturas.
Para
mim, foi demais; corri para o carro com todas as forças, liguei o motor
e saí correndo até que um policial rodoviário me fez parar. Passei
a noite na delegacia, respondendo o interrogatório; no dia seguinte,
o editor pagou a fiança e fui liberado. Ele ficou entusiasmado com
a narrativa que fiz e, mais tarde, comprou as fotografias dos nadadores
submersos. A edição seguinte da Revista Brasileira do Oculto
vendeu bem, mas eu me demiti naquele mês.
Nos
meses seguintes, leituras e conversas com especialistas do oculto me
levaram a crer que a cidade de Águas Claras se erguia perto de uma
colônia dos Profundos, parte homem e parte peixe, que inspiraram a
lenda das sereias. A respeito do monstro tentaculado que veio do mar,
não me atrevo a especular; mas imagino que nem toda a progênie de
Cthulhu dorme nas tumbas submersas de R´lyeh. O veneno derramado pelo
naufrágio Nostromo poderia ter matado muitos daqueles seres,
mas alguns sobreviveram. Eles e suas criações devem estar escondidos
nas profundezas do mar, esperando e planejando...