A hora de temer já
se foi
Suelen Marinho
Samantha acordou sobressaltada. Era como se
tivesse sido ferida por algo pontiagudo, pois pulou da cama de imediato.
Ainda podia ouvir chamarem-na pelo nome, mas agora podia escutar claramente
o que antes era só um sussurro. Chamavam-na pelo nome, e aquele chamar
parecia mais uma ordem do que um pedido, e o fato de um estranho saber
seu nome e proferi-lo em plena madrugada a assustou ainda mais.
Lentamente ela dirigiu-se à janela do seu
quarto. Agora o homem gritava seu nome a plenos pulmões, como se estivesse
irritado. Ainda não conseguia vê-lo, e para isso teve que abrir a
janela e pôr a cabeça para fora. Lá estava ele, e Samantha pôde
se certificar de que aquele homem era realmente um desconhecido, nunca
em toda sua vida o vira antes, isso era um fato. Ele trajava um paletó
cinza feito sob medida, trazia uma rosa na lapela e uma chave na mão.
Ficaram nesta contemplação mútua durante alguns minutos, até que
ele quebrou o silêncio:
- É tempo de partir, Samantha.
Samantha fechou a janela imediatamente. Ficou
a imaginar quem seria aquele homem e o que ele queria, e quanto mais
pensava não conseguia chegar a uma conclusão. E nem conseguia conter
seu medo. Lembrou-se que sua irmã dormia no mesmo quarto na cama ao
lado e decidiu chamá-la. Tocou a irmã no braço, da forma como costumava
fazer. Sua irmã acordou nervosa, e perguntou:
-Quem está aqui?
-Sou eu, mana. Acorda.
-Samantha? O que faz aqui?
-Mana, tem um homem me chamando lá fora. Eu
não o conheço, não sei o que ele quer.
-Samantha, acenda a luz.
Samantha foi acender a luz, e quando se voltou
e olhou para o quarto, ele estava mudado. Não era mais o mesmo de ontem.
Seus quadros já não estavam mais pendurados na parede, seus livros
já não estavam mais na estante. E o mais estranho, o mais inacreditável:
Sua cama não estava mais lá. E uma sensação de angústia, medo e
insensatez começaram a nascer em Samantha:
-O que está acontecendo aqui? Cadê minha
cama? Eu acabei de me levantar dela. Meus quadros e livros, onde estão?
-Samantha, fique calma.
Samantha abriu o armário. Suas roupas haviam
sumido:
-Onde estão minhas roupas, mana?
-Vou chamar a mamãe.
Enquanto isso, Samantha se pôs a pensar na
situação em que se via metida. Tinha algo de onírico em tudo isso.
Tudo era muito escandaloso, absurdo, inexplicável, assim como os sonhos.
Pensou que, se fechasse os olhos, acordaria na sua cama, e seu quarto
estaria da mesma forma de sempre, com suas coisas em seus devidos lugares.
E tudo não passaria de um terrível pesadelo. Neste momento sua mãe
entrou:
-Samantha!
-Mamãe!
Sua mãe estava vestida de preto. Um vestido
que ela só usava em velórios. O mesmo que ela tinha usado no dia do
falecimento de seu pai. Seu rosto estampava luto. Mas era um luto resignado,
como alguém que depois de se debater em águas turbulentas decide deixar-se
levar pela correnteza, como alguém que depois de tanto bater à porta
desiste de querer entrar:
-Mamãe, o que está acontecendo aqui? Minhas
coisas sumiram, você vestida assim, acho que estou preste a perder
o juízo.
-Filha, você não se lembra?
-Lembrar-me do quê?
A senhora enlutada entregou-lhe um pedaço
de papel que trazia na mão. Enquanto lia as expressões no rosto de
Samantha eram um misto de perplexidade e desespero. Deu um pulo para
trás, como se tivesse sido agredida:
-O que significa isso?
-É o seu obituário. Você suicidou-se na
noite de ontem. Eu já tinha lhe dito que seus ideais românticos e
sua obsessão por estes poetas malditos a levariam a ruína.
-Eu não me lembro de nada disso, mamãe. Só
o que consigo lembrar é que jantamos juntas ontem, mais nada.
-Você
pediu licença, disse que estava cansada e ia dormir. Nós continuamos
na mesa, estávamos conversando sobre amenidades até que ouvimos um
estampido alto e forte vindo do seu quarto. Eu fui a primeira a subir,
pois, como já sabe, sua irmã não anda muito bem da circulação.
Quando entrei no quarto encontrei você caída do lado da cama. Sua
cabeça sangrava, faltava uma parte dela. Uma arma estava na sua mão,
e em cima da cama o livro “maldito”.
Como por um encanto, Samantha começou a se
lembrar do ocorrido. A noite passada estava em um péssimo estado de
humor. Sentia-se um fracasso por excelência, e seus fracassos estavam
pesando muito. A vida já não tinha mais aquele brilho tão comum de
se ver e de se sentir quando somos crianças. A morte pareceu-lhe então
uma ótima saída. Há muito tempo já se encantava por ela. Companheira
de longa data. Lembrou-se de ter lido o tal livro “maldito” naquela
noite:
-Como
pude ter me esquecido de tudo isso?
-Suicidas
tornam-se confusos. Não conseguem se lembrar de seus atos e suas conseqüências.
Continuam a serem fardos mesmo depois de mortos.
Nisso, ouviram o homem, que até então se
mantivera em silêncio, gritar o nome de Samantha:
-Quem
é ele, mamãe?
-Chama-se
Parímono, o chaveiro. Ele que conduz os condenados até os portais
da sua morada eterna. Só ele sabe o caminho. Um longo trajeto à espera,
Samantha. É hora de ir.
Um medo aterrador invadiu Samantha, um medo
tão terrível e incontrolável que ela se agarrou a sua mãe, assim
como fazia na sua infância, e soluçava?
-Eu
não quero ir, mamãe. Não deixe que ele me leve.
-Sempre
obcecastes a morte, nunca gostastes da vida e agora se desespera ante
a idéia de desaparecer para sempre? A hora de temer já se foi.
Saíram juntas. Foram ao encontro do chaveiro.
Lá estava ele, com seu terno impecável, sua postura decidida, o rosto
expressando o nada. Indiferença era a melhor forma de sintetizar todo
o ocorrido, indiferença de todos os lados. Samantha sentiu-se só,
mas o que está feito, feito está. Como sua mãe dissera, a hora de
temer já se foi.
-Vamos.
E começou a andar, com Samantha seguindo-
o logo atrás. Ainda olhou pela última vez para mãe e irmã, e ambas
pareciam resignadas e indiferentes.
Tinha um longo caminho pela frente, disso não
havia dúvidas. Se Samantha pudesse se olhar no espelho naquele momento
veria que resignação e indiferença estavam estampados em seu rosto.
A hora de temer já se foi.