“Tu
me enganaste por quinze vezes (...) Lanço a ti a pior de minhas maldições;
Que a partir de hoje seus olhos apenas vejam dor e sofrimento, que os
demônios e almas do inferno o atormentem até sua derradeira morte
(...) E mesmo depois que sua alma abandone sua carne, nela ainda restarão
os resquícios de seu carma e ao olhar do primeiro infeliz sobre tua
carcaça morta, a ele corresponderá carregar consigo essa maldição
e a ele restara o mesmo fim derradeiro de ti, passando assim a maldição
a outro medíocre ser que ao seu corpo dirigir o olhar (...) Que isso
perdure não apenas as quinze vezes que tu me traíste, mas quinze vezes
quinze”
Pelo corredor branco,
iluminado por aquelas sinistras luzes frias, M. carregava aquele corpo
até as geladeiras do necrotério. O dia estava muito longo para seu
gosto e ele torcia, a cada passada por um relógio, que seu turno
acabasse.
Nem mesmo nos dias mais
parados parecia que o tempo passava tão lentamente, parecia até que
ele estava de plantão há dois dias seguidos (e a ultima passada pelo
relógio só lhe revelou que ainda faltavam três horas para o fim de
seu plantão).
- Cara, você parece
acabado! - Exclamou, sorrindo, seu companheiro na porta
- E estou. - Disse ele
sem muita empolgação
- Bem, mas o que temos
aqui?- Disse ele, abrindo a papeleta aos pés do corpo.
- Não faço a menor
idéia e no fundo nem estou a fim de saber nada hoje.
- Cara, você está
acabado mesmo.
- Bem, assine ai que
eu preciso voltar
- Espere. - Disse
ele, indo pegar uma caneta. - Pronto, aqui está
- Obrigado
- Por nada, meu
velho. E vê se descansa
- E vou. Amanhã é meu
dia de folga, acho que por isso o tempo está tão arrastado hoje.
-Pois é. Até, amigo
-Até.
M. deu um aceno e caminhou
até o fim do corredor como se tivesse caminhando ao corredor da morte,
enquanto H., seu amigo, ainda olhava a papeleta.
- Senhor K.L.M., cinqüenta
e cinco anos, casado, dois filhos... - Ele passava os olhos rápidos...-
Hum... veio de Portugal, tinha muito dinheiro e posses e se dizia
feliz no casamento. É, meu velho, para você vê aonde todos vamos
parar. Disse ele rindo ao morto. Causa mortis: Suicídio! Caramba!
Com esse vidão! Meu aonde esse mundo vai parar? Desculpe amigão, mas
tu é muito otário. - Disse ele cobrindo o morto e colocando a papeleta
de lado.
H. caminhou até a gaveta
correspondente e a abriu, indo até o corpo novamente.
- Amigão, agora
tu me deixou curioso. Como alguém, com a vida boa que tu levava,
se mata? - Ele olhava o lençol. - Será que sua papeleta não conta
mais? Peraí, deixe-me vê-la.
H. folheou a papeleta
toda até parar num pagina que contava um pouco do relato de mulher.
O relato dizia que sua mulher percebeu que nos últimos dois dias ele
vinha tendo estranhas alucinações; ele falava que via pessoas mortas,
ouvia gritos o tempo inteiro. Até que um dia, ela chegou em casa
e o encontrou no banheiro segurando, um barbeador
quase cego e com os pulsos retalhados.
- Caralho! Agora você
me deu medo. Cortar os pulsos com um barbeador?
H. olhou o lençol novamente,
agora com um olhar de espanto. Meio receoso descobriu novamente o corpo
e viu as marcas no pulsos; várias, de diversas profundidades, feitas
como que por alguém desesperado para morrer. H. então olhou nos olhos
do morto. Algo então o atraiu neles, algo inexplicável, algo inebriante,
hipnótico. Seus olhos foram chegando mais perto dos do cadáver, até
ele se debruçar sobre ele e ficar a um palmo do rosto do morto.
- EDUJAEMORROCOS! Um
grito alto e estridente, acompanhado de um flash, fez H. cair
no chão
- Droga! - Gritou ele
no chão, segurando o peito com uma das mãos. - Seu maldito,
o que foi isso? Disse ele, rindo de si mesmo. Caramba... Essa
foi boa!
H. soltou uma gargalhada.
Sentiu-se um idiota por se deixar envolver desse jeito com a história
daquele homem.
-Bem, amigão,
vamos para sua gaveta. - Disse ele, empurrando o corpo até a gaveta
aberta.
A gaveta fechou macia,
enquanto H. encostava de leve nela e ria mais um pouco de si. Seus olhos
então correram a sala, parando no relógio, o que fez seu sorriso aumentar:
acabara seu plantão.
H. pegou suas coisas
em seu armário e correu pelos corredores como uma criança quando toca
o sinal estridente do recreio. Na saída, olhou as gotas
de água que respingavam forte no chão. Suas mãos correram sua bolsa
preta surrada, mas nem sinal de seu guarda-chuva.
-Que merda!- Gritou ele
ao vento.
(...odaçargsedarrom...)
(AQUI)
H. se virou bruscamente.
O dia realmente deve tê-lo abalado. E, para coroar, ainda aquele
homem, pensou H., com a mão na cabeça. Agora mesmo que ele sentiu
que precisava de sua cama urgentemente. Seus olhos espiavam atentos
o movimento e ao perceber a brecha perfeita correu até o ponto de ônibus
do outro lado da rua. Bem, agora era esperar o ônibus (coisa
que o deixava extremamente estressado, pois seu ônibus demorava quase
duas horas para passar).
Sentou-se nas cadeiras
cobertas recém-pintadas de um roxo gritante, que até cansava
os olhos de olhar, e ficou olhando a esquina, esperando
seu ônibus imbicar. Ao seu lado, uma menina lia um livro atentamente
e pelo que via ela estava ali sozinha, pois não via sinal de ninguém
ao seu lado.
-Menininha, cadê sua
mamãe? - Disse ele baixinho.
A menina nem sequer fez
sinal de ter ouvido. H. se aproximou e encostou no seu ombro.
-Hein, onde está sua...
-ODAÇARGSEDARROM!
O grito foi extremamente
alto, deixando H. atordoado por alguns segundos. Logo seus sentidos
voltaram e seus olhos não mais viram a menina ao seu lado. Aquilo começou
a deixar H. preocupado.
-Droga, que dia
maldito! Exclamou a si mesmo
-O que?
Era o motorista do ônibus
parado à sua frente. H. deu um leve sorriso e se desculpou com o homem,
contando um pouco do seu dia. O homem sorriu e disse que acontece.
H. se sentou no fundo
do ônibus ao lado de uma senhora que tricotava um cachecol. Ele pensou
em puxar assunto, mas o dia estava tão estranho que ele preferiu ficar
quieto e olhar para a janela.
(...amixorpaesetroma...)
-Droga! O que foi? -Exclamou
assustada a senhora
-Nossa, desculpe. -
Disse H., vendo o rosto assustado da velhinha.
-Meu filho você está
bem?
Estou, bem não. Acho
que é esse dia.
ODAÇARGSEDARROM!
H. caiu no chão. O grito
fora menos atordoante que o da menina mas ainda assim sua cabeça latejou.
-Que merda é essa?!
Gritou H., ainda olhando o chão.
H. se levantou correndo,
apertando o botão de descida desesperado. A porta então se abriu e
ele desceu com um pulo, caindo com o rosto no chão.
-Quer que eu ajude? Disse
uma voz calma e serena ao seu lado
- Não, obrigado.
Disse H. se levantando rapidamente. Eu só quero...
Novamente seu corpo foi
ao chão, ao olhar o que estava ao seu lado. Suas mãos contiveram
a ânsia instantânea que veio a sua boca.
-Deixe-me te ajudar.
Disse ela, enquanto cambaleava com suas pernas contorcidas e cheia de
rasgos fundos, muitos deles expondo lascas de ossos
-O que é isso?!
H. se arrastava pelo
chão molhado com os olhos cheios de horror. A confusão tomava conta
dele, e um medo incontrolável não o deixava pensar.
- Aonde você vai? -
Disse ela, ainda com aquele tom suave.
Ele só conseguiu se
levantar e correr como louco pela chuva. Suas pernas tentavam correr
cada vez mais rápido, mas a rua parecia não ter fim e, toda vez que
ele tentava olhar para o lado, ele apenas conseguia ver a mesma
casa amarela, seguida de um terreno baldio longo e uma árvore no meio
dele. O desespero tomava conta dele cada vez que ele se deparava com
a mesma casa, o mesmo terreno, a mesma árvore. Suas pernas corriam
mais e seus olhos corriam na mesma velocidade; CASA, TERRENO, ARVORE!
-Socorro! Ele gritou
ao vento desesperado. Alguém me diz o que está acont...
-ODAÇARGSEDARROM!
A voz da menina
-Para com isso! Me deixa
em...
-ODAÇARGSEDARROM!
A voz da velha
-Me deixem em paz, malditos!
Gritou ele, caindo de joelhos no chão e soltando seu pranto desesperado
-iuqadaritem!
Aquele grito o fez sair
de sua loucura e olhar a casa à sua frente. O grito era de uma voz
familiar e não era atordoante, mas sim desesperado.
-iuqadaritem!
Ele sabia que conhecia
aquela voz, mas não conseguia ligá-la a um nome.
O grito se repetiu por
mais umas vezes, cada vez mais fraco, até virar apenas um gemido e
logo depois um silencio longo.
-Quem...- H. engoliu
seco... - Quem está ai?- Disse ele em voz baixa.
Nada.
-Quem está ai?
-selesovsoneleutue...
H. pode ouvir o gemido incompreensível. Voz familiar...
-Eu te conheço?-
Disse ele baixo.- Você tem a ver com essa loucura?
-selesovsoneleutue...
selesovsoneleutue... selesovsoneleutue...
Aquilo agora deixava
H. irritado. Sua mente pensava em mil possibilidades para aquilo e nenhuma
delas fazia o menor sentido. Seu medo virava ódio.
-Alguém então pode
me dizer que porra está acontecendo?! - Gritou H., se levantando.
É algum tipo de brincadeira idiota?! Porque se for não tem porra de
graça nenhuma!
Um barulho estridente
baixo começou a vir da casa, ficando cada vez mais alto, até se tornar
insuportável a qualquer ouvido
-Droga! Pára com isso!
H. tapava seus ouvidos
com força, mas aquilo pareceu penetrar em sua mente. Sua cabeça latejava
cada vez mais forte, e mal conseguia manter seus olhos abertos.
-Para! Gritou H. quase
esmagando sua cabeça com as mãos.
O barulho então
cessou. H. lentamente soltou seus ouvidos e lentamente abriu seus olhos.
-Deixe-me te ajudar...
H. se voltou rapidamente
e novamente viu a mulher ensangüentada. Mas dessa vez não somente
ela, mas vários assim como ela, cada um coberto com mais machucados
e sangue que o outro. Eles o cercavam, centenas deles, todos o olhando
com um olhar doce que aos poucos se tornou um olhar de fúria.
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
Todos gritavam alto.
H. não conseguia se mexer, até o som se tornar insuportável e ele
cobrir os ouvido novamente.
Saiam daqui!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- Saiam! Me deixem em
paz!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- ODAÇARGSEDARROM!
- Socorro!
H. procurou uma brecha
entre as criaturas, até encontrar um vão que levava até aquela casa
amarela. Num acesso louco, ele correu até a casa se trancando dentro.
H. soltou um suspiro de alivio, mas ao abrir os olhos novamente viu
que ainda estava do lado de fora e os mortos ainda estavam lá.
-ODAÇARGSEDARROM!
-Não!
*****
-O que houve aqui? -Perguntou
o velho gordo ao adentrar na casa repleta de policiais.
-Pelo que contaram os
moradores da casa, o tal sujeito invadiu a casa gritando por socorro,
correndo sem parar por tudo, até parar na cozinha, apanhar uma faca
e se golpear várias vezes pelo corpo
-Se golpear?
-Sim, ao que parece ele
se matou se esfaqueando.
-Os peritos já viram
o corpo?
-Sim, parece até que
o motorista do carro do IML conhecia o homem; era um dos técnicos de
necropsia do instituto
-Meu Deus!
-É, foi algo impressionante.
A família ainda está muito abalada
-Bem... mas, e
o corpo?
-Está na cozinha.
O homem apontou à frente,
enquanto o delegado se dirigia lentamente até o cômodo. Lá os peritos
ainda tiravam fotos do morto. O delegado se aproximou lentamente. O
corpo estava estendido no chão ,numa poça de sangue, e coberto por
centenas de ferimentos. Em uma de suas mãos a faca ainda repousava.
-Uma faca de serra quase
cega... Exclamou um dos peritos
-Meu Deus... Disse o
delegado, cobrindo a boca com um lenço.
Seus olhos correram o
corpo até parar no rosto. A expressão do morto o impressionou e algo
lhe atraiu. O delegado foi chegando perto...
-EDUJAEMORROCOS!