A TRISTEZA DE JOAQUINA

AUTOR: Seigneur de la Nuit

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A TRISTEZA DE JOAQUINA

Seigneur de la Nuit

Joaquina era uma viúva de pouco mais de 65 anos, que vivia num pequeno apartamento em Copacabana, em meio aos seus gatos. Quem entrasse em seu apartamento tinha a sensação de haver viajado no tempo, nos tempos glamorosos do Copacaba Palace, à época em que, ainda em meados dos anos 50, a cidade ainda se beneficiava com um certo "glamour", uma sofisticação que se refletia na indumentária das damas e cavalheiros que caminhavam, muitos de mãos dadas, pelas calçadas que beiravam a praia do Leme ou do Arpoador. E de que forma Joaquina não se ressentia desse passado, do amor e romance que viveu no auge do "choro" ou da transição do "samba" para a bossa nova. "Meu marido Alberto e eu éramos grandes freqüentadores das festas organizadas pela alta sociedade carioca" repetia quase de forma incansável. Seu apartamento, herança de Alberto, reunia toda sorte de objetos desse período, sofás, velhos discos que repousavam sobre uma vitrola empoeirada, móveis trabalhados em madeira de carvalho, porém repleto de arranhões das unas afiadas dos seus nove gatos, cujo miado soavam como música aos seus ouvidos. Em seu quarto, uma penteadeira de prata de lei repousava em frente a uma janela já obscurecida e amarelada pelo tempo e a corrosão da maresia. Era o seu lugar predileto, onde penteava pacientemente as perucas alouradas que havia adquirido pelas falhas que a idade criara em seu couro cabeludo. Esses momentos eram regados a conhaque de alcatrão, licor que a ajudava a afogar as mágoas da solidão e de um amor não esquecido. Joaquina ainda amava excessivamente Alberto, e para reforçar as lembranças em sua memória tocava os tangos que ambos escutavam ao entardecer, ou que sussuravam à beira-mar, dançando vagarosamente como dois adolescentes apaixonados.

Quando a garrafa acabava, interfonava para o porteiro que, muito a contra-gosto, ia adquirir outra no botequim da frente, que ela freqüentava de quando em quando para testar seu poder sedutor junto aos bêbados e desamparados que se arrastavam pelas redondezas do bar. Numa dessas noites o charme de Joaquina vingou, pois conseguiu convencer um jovem rapaz, embriagado também pelo excesso de conhaque de de pinga, a subir em seu apartamento e escutar alguns boleros, que tornariam sua noite inesquecível, adiantou ela ao rapaz, que, por uma sinistra coincidência, também chamava-se Alberto. Foram subindo, ou melhor cambaleando, sob os olhares de reprovação dos vizinhos, os três lances de escada que conduziam ao apartamento 301 do prédio "Prudente de Moraes" da Rua Miguel Lemos. Ao chegarem pequena sala, o jovem Alberto sentiu-se incomodado pelo forte cheiro dos gatos assim como pelo mofo que haviam infiltrado todas as áreas da casa. Apesar de bêbada, Joaquina percebeu o constrangimento do rapaz e disse a ele que se sentisse em casa até que ela estivesse mais apresentável. O jovem voltou a encher seu copo de conhaque e aguardou, ao som de um tango abafado pela idade da vitrola, atônito com o aspecto sombrio e desarrumado do local, até a chegada de Joaquina.

Qual não foi sua surpresa quando, meia hora depois, ela se apresentou a ele, na entrada da sala, usando uma monumental peruca loura e um roupão branco semi-aberto, com o rimmel escorrendo dos olhos até o canto enrugado de sua boca, com uma garrafa de conhaque na mão. Assustado com a aparição, Alberto levantou-se para fugir rumo à porta de saída, mas já era tarde demais. Joaquina, com um movimento brusco, golpeou-lhe a cabeça com a garrafa, causando um sangramento ininterrupto que acabou por ocasionar a morte cerebral do jovem rapaz. Despindo-se do roupão e com a careca à mostra após haver retirado a peruca, Joaquina carregou Alberto até sua cama e, num sussurro abafado, porém repleto de convicção lhe disse: "Alberto meu amor, sempre soube que voltaríamos a nos amar ao longo desses 40 anos de separação".

Fim

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