A JUSTIÇA DA NOITE

AUTOR: VÍTOR ANCHIETA SALES

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A JUSTIÇA DA NOITE

Vitor Anchieta Sales

Ele veio até a mim com uma expressão cadavérica. Olhos vermelhos, corpo minguante, dorso caído, pele seca, hálito quente, expressão de espanto e conveniência. Não, não, eu disse. Ele queria alguma coisa. Eu repeti: não, não, eu não tenho nada! (Para a mim, somente ele é que não tinha nada que perder.) E ele ainda me encarava.

_ Por favor! Eu tenho sede... - a voz rouca, um espírito ruim aparentava-se e vinha dele sombras em mim.

_ Eu não tenho nada, senhor! Deixe-me passar! A rua é estreita. Não vê está na minha frente?

E com o aspecto mendicante, o estranho caiu sobre mim como se me abrasasse. Ele estava frio e pesado. Aliás, hoje o tempo está mais frio que o normal. E o corpo do homem eu amparei até puder depor ele no chão e deixá-lo começar a falar.

_ Por favor! Senhor? Meu Deus! Eu tenho sede... - pensei que ele era mais um desses tolos bêbados dessa cidade má.

_ Saia de mim, seu infeliz! - arrogantemente, o pressionei como se fosse o chutar pelas ruas, enquanto ele estava deitado.

Caminhei, rapidamente, só ouvindo o tilintar de meus sapatos pretos. Minha roupa era, totalmente, preta, com a beleza da noite, eu apenas facilitava a invasão da escuridão nas ruas, nas trevas e nas luzes vindas, como se eu deixasse a escuridão da noite mais plana.

Caminhei por um lugar que não mais eu reconhecia. Meus lábios foram ficando secos, meu rosto suando deixou-se seu salgado para uma estranha áspera insensibilidade. Tocante fraqueza em meus passos retos e constantes, eu não pararia nem para dar uma esmola! O caminho era tão cheio de curvas, mas eu estava confiante de que eu chegaria à Praça Germânica. Infeliz de minha determinação que não olhava onde pisava.

_ Saia de mim, seu infeliz! - ouvi soar ao vento, será um eco, será uma impressão minha, ou será outra voz que estou ouvindo?

_ Saia de mim, seu infeliz! - repetia a voz, comecei a sentir certo medo, não aquele que me fazia obediente, mudo ou sequaz, mas o medo que me fazia livre. O medo do estranho que me faz percorrer mais ruas. Sair como querendo correr. E mesmo que percebendo o íngreme do rumo a vir, eu ousava transpassá-lo...

A cada passo e nova entrada, uma cópia da sombra daquele mendigo surgia, efêmera, no caminho. Que será isso? Fruto de minha mente?

A torpe reflexão escura, escusa uma escultura do passado que me persegue. Encho-me de pressa. Eu me sinto desesperado...!!!

_ Não fui eu! Eu não matei! Eu não fiz nada! Eu sou inocente! - percebo que a escuridão está se tornando tão plana e ilusória, como se ela me perceguisse. Meu coração corre agitado. O caminho que vou não parece me responder até que ora ele se abre. E, de repente, eu revejo aquele homem mendicante em minha frente. Mas agora seu rosto está em fúria, seu corpo se desenvolve sombrio e sombreando-me, e ele cresce monstruoso, em sua boca salienta caninos com sangue... E ele vem agressivo, cortando minhas veias com sua sede, ao abraçar a minha garganta!

Fim

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