Lágrimas
de Lorenzo
Por:
Márcio Renato Bordin
Lorenzo
abraça forte o corpo de seu filho contra o peito. Envolve-o em seus
braços. Acreditando ser capaz de transmitir todo o calor e vida do
seu, ao corpo daquele pequeno ser. Lágrimas vertem de seus olhos como
triste chuva torrencial. Vertem, nos lábios frios que outrora exibiu
largo e contagiante sorriso.
Ele
beija docemente a testa de seu filhote, sua prole, sua cria. Pedindo
a Deus que o devolvesse, que o tempo parasse, retrocedesse, que aqueles
lábios voltassem a sorrir. As lembranças surgem em sua memória: O
som daquele choro tão esperado, anunciando o nascimento; a primeira
palavra pronunciada, uma palavra simples, curta, mas pronunciada como
se por lábios de anjo: Pai; lembra-se dos primeiros passos, saltitantes,
trepidantes, desengonçados. Agora, apenas um corpo inerte com os olhos
cerrados, sorriso apagado, passos e saltos que nunca mais serão dados.
Uma voz silenciada com tanta coisa ainda a dizer.
É
alta madrugada. Um manto negro estrelado cobre todo o céu. A lua reina,
poderosa, triunfante, aterrorizante. Todos os moradores do vilarejo
andarilham pelas ruas escuras, de casa em casa, de galpão em galpão.
Não deixam nenhum local sem ser averiguado. Estão esfomeados. Caçadores
sanguinários em busca de sua presa, sua caça, a caça, se esconde
nesse momento dentro do celeiro em sua propriedade, segurando o filho
morto nos braços.
Lorenzo,
com as mãos trêmulas alisa os cabelos do garoto, penteando-os, queria
deixá-lo com boa aparência, fazê-lo parecer tão vivaz como outrora
fora. Com a mão esquerda ele ampara a cabeça do filho próxima a seu
rosto, enquanto com a outra mão, acaricia sua face pálida. Com as
pontas dos dedos toca-lhe os lábios procurando encontrar um último
sorriso, um último pedido, um último chamado: Pai!
Os
seres moribundos vagueiam próximos à propriedade de Lorenzo. Sentem
o cheiro que emana de sua caça. Sabem, sentem que ela está por perto,
e, não tardarão a encontrá-la. Invadem o velho casarão vasculhando
em todos os cômodos. Nada escapa aos olhos famintos destes nefastos
visitantes.
Lorenzo
continua a acariciar o rosto do filho com as pontas dos dedos. Ri, inusitadamente,
ao ver a pequena cicatriz no queixo do menino, fazendo-o memorar o primeiro
tombo de bicicleta, a primeira vez em que ele se sentiu impotente diante
de um perigo envolvendo o garoto. Mas ria ao lembrar do jeito todo atrapalhado
como ele caiu em cima das roseiras de sua esposa, e de como ela ficou
furiosa, nunca soube se ela ficou tão irritada pelas rosas, ou por
Lorenzo ter soltado o filho à deriva n’uma bicicleta bem maior que
o garoto. É uma das últimas lembranças que ele tem de sua companheira,
falecida há dois anos, vitima de atropelamento. Deixando Lorenzo viúvo
com um filho pequeno para criar. Ele sabe que foi graças ao garoto
que ele resistiu à imensurável dor de perder o grande amor de sua
vida. E, também por isso, ele vê na imagem de seu filho morto, um
retrato de sua incapacidade. Não impediu que o filho caísse em cima
das roseiras, não impediu o acidente da mulher ao deixá-la sair dirigindo
sozinha naquela maldita noite chuvosa, e, não impediu que essa noite,
seu filho fosse atacado por um assassino servo das trevas.
Lorenzo
levanta a cabeça, fitando o nicho com a imagem de São Zenão de Verona,
colocado ali a pedido da esposa, para que ela pudesse orar pelo filho
todos os entardecer ao encerrar os seus afazeres diários. Lorenzo olha
aquela imagem que observa atento o seu pesar, e de joelhos, com os olhos
em prantos, aperta forte a cabeça do menino contra o peito.
-
Porquê? Maldito! Porquê? Porquê não atendeu ao pedido feito tantas
vezes por ela? Porquê não o protegeu? Não é esta a tua missão?
Então, porquê não a cumpriu? Maldito seja! Eu também tinha que vir
aqui todas as noites suplicar para que o fizesse? Era isso? Será que
só ela lhe pedir tanto não foi suficiente? Maldito! Maldito! Maldito...
Arqueado,
Lorenzo aguarda por uma resposta, em vão. Ele paira por longos segundos
com os olhos fixos, suplicantes, naquela imagem que assiste, em silêncio,
a angústia de um pai. Desiste, praguejando contra Deus e todos os santos,
voltando a atenção para seu falecido filho. Suas lágrimas encharcaram
toda face de seu pequeno. Ele enxuga a singela testa com as mãos. Beijando-a
novamente dezenas de vezes. Inquirindo a si mesmo, em sofridos soluços,
o porquê de tamanha tragédia. Seus dedos descem tateando pouco a pouco,
cada milímetro da face do garoto, como se aquela delicada pele alva
fosse um manto sagrado recobrindo seu bem mais precioso, seu tesouro
mais valioso, seu único filho.
A
cada toque, uma dor, uma despedida, um adeus. Os dedos descem, acariciando
cada centímetro quadrado da face do garoto. Tocando novamente os lábios
gélidos, o queixo, a cicatriz, o pescoço frágil. Tateou com cuidado
a causa mortis, duas micro-feridas
d’onde vertiam tênues linhas de sangue .
De
ímpeto, o garoto abre os olhos vermelhos, escancarando os lábios ainda
gélidos exibindo agora enormes e pontiagudas presas. Lorenzo agarra
o garoto-vampiro pelos cabelos, evitando assim o bote em sua jugular.
Escorre, dos olhos desse pai, lágrimas vindas do intimo de seu ser.
Rapidamente, ele usa a mão que até então acariciava para empunhar
a estaca prontamente posta a seu lado. Com um golpe certeiro, e sem
titubear, Lorenzo atravessa a estaca no jovem coração do filho. Gritos
de dor ecoam uníssonos pela noite. O grito de um pai vendo-se obrigado
a tirar a vida de seu único filho. O grito de uma criança vampira,
tendo uma enorme estaca transpondo seu corpo, libertando-o da maldição
da vida eterna. Lorenzo sente como se o seu corpo estivesse sendo perfurado.
A cada grito, Lorenzo força mais e mais a estaca no coração do filho.
Implorava para que os gritos cessassem. Para que o garoto morresse,
pondo um fim na dor de ambos. Golfadas de sangue mancham a camisa de
um homem em prantos. A criança parecia resistir as estocadas, transformando
aquela lamuria, aquele tormento, em segundos perenes.
-
Meu filho...
Os
vampiros estavam dentro do casarão, no quarto do garoto, quando ouvem
os gritos vindos do celeiro. Os moribundos haviam acabado de descobrir
o corpo de um dos seus, morto ao lado da cama. Lorenzo o matou pelas
costas enquanto este atacava covardemente seu filho.
Enfim
os gritos cessam. Lorenzo vê seu único filho morrer pela segunda
e última vez. Ele sente naquele momento, o seu coração também morrer.
Seu coração não mais existe, assim como a sua vontade de viver.
Os
vampiros cercam o celeiro. O homem repousa a cabeça do filho lentamente
no solo, se levantando com a estaca manchada com o sangue de seu único
descendente, o seu sangue, em punho. Os mortos vivos invadem o celeiro
por todos os lados, dezenas deles. Em segundos, cercam um homem imerso
no âmago da dor. Lorenzo já está morto, e pronto para reencontrar
seus tão amados, filho e esposa. Agora é só questão de tempo...