LINHAGEM
Autor: Renato Suttana
Minhas
primeiras aulas de vôo foram um momento de especial delícia em minha
vida. A imagem dos jovens alinhados sobre o precipício – suas asas
brancas a refletir intensamente a claridade festiva do dia –, o vozerio
e a alegre expectativa de nossas mentes inexpertas, tudo isso se grava
em minha lembrança como um selo que nem o tempo nem a melancolia dos
dias presentes foram capazes de apagar. Vínhamos dos mais longínquos
recantos da Terra, trazidos por nossos pais, e era ali que – sabíamos
– se preparava o fogo em que o nosso futuro arderia. Não importava
quem fôssemos ou qual fosse a expectativa que alimentássemos em relação
ao nosso destino: a idéia do vôo, unicamente, com seu poder de fascínio
e sedução, nos arrebatava – era o que nos havia conduzido à nossa
decisão e o que patenteava para nós o acerto com que a tínhamos tomado.
Nem nossos pais, talvez, nem nossos mestres provincianos teriam sido
capazes, por mais argumentos e razões que empregassem, de nos mover
a esse sentimento. Naquele momento, de pé à beira do precipício,
todas as nossas dúvidas, os nossos receios, as nossas hesitações
se convertiam numa certeza. Olhávamos para o azul e respirávamos o
ar das alturas. E no ar que respirávamos o passado e o futuro pareciam
condensar-se num único instante, mas esse instante era tão fluido
ou tão quebradiço que mal ousávamos concebê-lo em todo o seu esplendor,
por medo de que um excesso de realidade viesse destruí-lo, arrebatando-o
para longe de nós.
Dirão
que exagero e que meu entusiasmo – do qual nem todos participam –
é que me inspira tais palavras, as quais, com efeito, não exprimem
toda a realidade. Mas o que posso redargüir, senão que julgamentos
dessa ordem deveriam competir só a quem o experimentou realmente? E
quem o experimentou com um fervor e uma profundidade que se comparassem
aos nossos? Alegarão talvez que fervor e profundidade (aquilo que assim
denomino) nada mais são que reflexos, reverberações de um estado
de espírito que já não posso definir, que se perdeu na bruma do tempo
e que agora, quando falo a respeito disso, confundo com o meu próprio
estado de espírito atual – como se quisesse vestir o velho de hoje
com as roupas do jovem de outrora. Calo-me, somente, e escuto, e não
posso transcender eu mesmo esta melancolia. Outrora – palavra
escura, repleta de sombras e nebulosidade, mas eis que o presente também
se tornou incerto. Quando me volto para aqueles dias e os comparo à
solidão e ao desespero de agora, sou eu mesmo obrigado a admitir que
se mistura aí, nesse sentimento duplo, muito mais que a melancolia
de uma velhice solitária, mas também a apreensão quanto a um futuro
(que não experimentarei, devido à minha idade avançada – mas é
fato que os homens-pássaros vivem muitos anos) no qual as nossas tradições
e as nossas memórias se perderão. E não me refiro apenas às gerações
que se sucederão imediatamente à minha, mas a toda uma linhagem de
homens-pássaros fadados inexoravelmente a desaparecer.
Não
é que nada soubéssemos do vôo quando chegávamos de nossos rincões
àquela capital elevadíssima. No entanto ocorre que, para se aventurar
por sobre os precipícios ou mergulhar nas grandes distâncias, qualquer
jovem precisaria de um aprendizado especial, e nessas primeiras tentativas
nossa maneira desengonçada de posicionar as asas e nosso modo desajeitado
de tentar manter o equilíbrio no ar não se podiam comparar à arte
dos grandes voadores. Se é certo também que desde tempos imemoriais
nosso povo tem dependido do vôo para prover a sua sobrevivência –
e que o vôo é parte de nossa natureza –, é justo admitir que pertencer
à elite dos grandes voadores das alturas era o sonho de qualquer provinciano,
e esse fato simples aumentava o sabor daqueles dias. O que era eu senão
uma pequena máquina de voar ainda pouco experimentada – orgulhoso
por certo de meus dons e de minha audácia, mas ainda tímido e pouco
confiante de minhas habilidades, as quais, à medida que os dias foram
transcorrendo e os treinamentos se intensificando, me pareceram tão
menores e até mesmo ridículas, se comparadas à arte dos mestres?
Meu conhecimento de mim, de meu espírito e de minhas forças era mínimo,
dada não só a minha pouca idade, mas sobretudo à situação do provinciano
ambicioso; e isso também contribuiu para acrescentar luz àqueles dias.
Posso
dizer que desde então não vivi em outro lugar senão na capital, mesmo
que tenha me afastado inúmeras vezes para realizar as missões e as
viagens que faziam parte do meu trabalho. Mas sempre retornava, como
um homem retorna ao centro de seu espírito após alguma aventura emocional
que ao mesmo tempo o enriquece e o desgasta – ou como uma água retorna
ao ponto mais baixo de um terreno após ter sido carregada por alguma
força para o alto. Mesmo vivendo nas alturas, um homem-pássaro é
ainda assim um ser cuja necessidade de retornar a determinados pontos
ou de ter uma casa, não importa que seja entre as nuvens irrespiráveis,
molda e determina certas feições do seu espírito. E confesso que
muito cedo aprendi a amar aquelas torres e aqueles parapeitos cuja arquitetura
desafiadora parecia perfurar o azul da atmosfera. Construída ali, a
cidade oferecia ao visitante oportunidades ímpares de contemplação
e deleite, uma vez que, assentada sobre um dos picos mais elevados,
seus torreões dominavam extensões vastíssimas do silêncio e da solidão.
De uma de suas torres (refiro-me às mais altas), podia-se admirar em
volta uma miríade de píncaros azulados, diamantinos – e ninguém
passaria incólume, sem experimentar ao menos um arrepio de beleza.
De meus aposentos, cujas janelas se abriam, por cima de uma muralha,
para um flanco de montanha particularmente impressionador, quantas vezes
não contemplei o entardecer e, pleno ainda do meu fervor juvenil, não
sonhei com o futuro glorioso de nossa estirpe?
De
minha janela, contemplava-se um precipício de profundidade infinita.
Até para os mais habilidosos teria sido perigoso voar ali, devido aos
ventos que freqüentemente varriam aquela enorme garganta. Por esse
motivo, constituía-se em falta grave, mesmo para os mais experientes,
aventurar-se para fora das janelas ou por cima dos parapeitos, e quem
fosse surpreendido a fazer uma dessas coisas teria recebido punição
severa. Mas como resistir à tentação, se aquelas aberturas não eram
guarnecidas de grades ou de outro artifício que contivesse a nossa
sede de desafios? Havia apenas uma frágil rótula de madeira carcomida
(que apenas merecia o nosso desprezo) – e as aberturas pareciam ter
sido recortadas ali para colocar à prova a nossa audácia. Eis que
numa noite me aventurei também, a encoberto de meus superiores, como
tinham feito muitos antes de mim e como fariam muitos outros depois.
Lancei-me através da abertura, sentindo escavar-se por baixo a profundidade
do abismo, bem como alargar-se à minha frente o infinito da distância
– enorme acúmulo de ar silencioso e gelado que só os pulmões de
um homem-pássaro podiam suportar. Correntes de ar deslizaram pelo meu
corpo, tocando as asas como os dedos de um gigante tocariam as asas
de uma borboleta. Um calafrio me ocorreu, que era ao mesmo tempo de
medo e prazer misturados. Olhei para baixo e vi uma penumbra cinzenta
se insinuando por detrás das nuvens. Vi as janelas se distanciarem
e percorri um círculo completo no ar. Retornei em seguida, coberto
de suor e com o coração aos saltos, para ser recebido em silêncio
por meus colegas de aposento que também – os mais corajosos – aguardavam
a sua vez.
Muitas
vezes repeti a façanha, sem nunca ter sido descoberto ou punido. Mais
tarde, com os treinos e as instruções dos professores, tornei-me um
voador exímio, incorporando-me sem entraves ao corpo da guarda da cidade.
Desde então minha vida se confundiu com a vida da capital: suas torres,
seus nichos, seus pináculos mais elevados, tudo se tornou para mim
de tal maneira familiar que era como se alguma coisa se tivesse impregnado
ao meu sangue. E certamente não estarei longe da verdade ao dizer isso.
Naquela capital que os homens-pássaros construíram sobre os alcantis
da mais alta montanha, tudo respirava o vôo e o desafio das alturas.
Inclusive, aprendíamos a sorver a atmosfera inóspita e fria que há
para além dos píncaros. E, depois disso, nos tornávamos de tal modo
confiantes na destreza de nossas asas que muitos chegaram ao desastre
por tentarem ultrapassar determinados limites. E não o digo para exaltar
a habilidade de tais voadores, mas para patentear o fato de que, para
onde quer que um dia venhamos a fugir, esses limites nos perseguirão,
ou nós os levaremos conosco, e pode ser então que os homens-pássaros
encontrem o seu destino.
Misturar-nos
à raça dos seres que caminham sobre a terra, como forma de retardar
o desfecho? Talvez esteja fora de cogitação. Somente nas ilusões
extravagantes do maior dos sonhadores se poderia realizar tal eventualidade
(conforme já ouvi uma vez, da boca de quem não conhece a verdade dos
fatos). É sabido que os homens-pássaros não se misturam com os seres
da terra. E isso acontece não porque os nossos mitos ou as nossas tradições
o proíbam ou porque o orgulho do povo se constitua num empecilho, mas
porque todas as vezes em que qualquer um de nós teve contato com os
homens da terra esse contato resultou em destruição para os de nossa
espécie. E por quê? Não há quem o saiba explicar. Desde tempos muito
antigos tem sido assim. Mas é verdade também que desde tempos imemoriais
o nosso povo tem aprendido a se recolher nas alturas, onde aprendeu
a construir as suas habitações e o seu mundo. E por muito tempo também,
já que nosso povo se tem mantido fiel à tradição das alturas, não
tinha havido grandes desastres, porquanto os homens da terra até então
não tinham conquistado as alturas. Não se sabe o que será no futuro,
se haverá espaço habitável para os homens alados, porém é fato
que, desde que os homens da terra se têm disseminado pelo mundo e desde
que o têm dominado completamente, todos os espaços habitáveis encolheram
drasticamente, forçando-nos cada vez mais a nos recolhermos nas alturas.
Que
sei eu? Em minha juventude, durante longo tempo, sequer tinha ouvido
falar dos homens da terra. Mas depois que novas leis – mais precisas
e mais severas – foram promulgadas, proibindo aos homens-pássaros
baixar das alturas e se aventurar pelos territórios onde vivem os homens
da terra, uma grande e talvez profana curiosidade cresceu em meu espírito
jovem. Por que a curiosidade? Não seria correto alimentá-la, bem sei.
Acontece, porém, que um espírito jovem não aceita a tutela do bom
senso nem da prudência. É claro: de maneira alguma lhe compete afrontar
as leis – ainda mais agora, quando os sábios recomendam que nos acautelemos
infinitamente –, e esse sempre foi o meu princípio. Mas uma vida
de viagens, que começou cedo, nos leva com freqüência de encontro
ao inesperado. Lembro-me com especial sobressalto de uma ocasião em
que fui incumbido de certa missão junto aos povos do Norte. É conhecido
entre nós que as populações daquela região diminuíram muito nos
últimos anos. Não se sabia até então a que motivo atribuir o fenômeno.
Ora, os homens do Norte sempre foram os mais ousados, e sua fama de
audaciosos tem corrido o mundo. Sempre se constituía, portanto, num
grande prazer visitá-los, desde que isso me proporcionava a possibilidade
de ter contato com suas lendas e suas histórias. Nessa viagem, visitei
um dos sábios da cidade – um homem idoso que vivia numa torre altíssima
da qual, segundo me informaram, já não saía mais, a não ser muito
raramente, devido à idade avançada.
Como
sabeis, a velhice é particularmente dura para com os homens-pássaros.
A privação do vôo é um dos primeiros males que nos afetam, e pode
ser por isso que muitos acabam morrendo prematuramente, embora nem as
doenças nem as depauperações que são próprias da idade possam ser
responsabilizadas por isso. Esse ancião, em particular, eu o visitei
por motivos diplomáticos. Então, conversando sobre assuntos relacionados
com o acentuado decréscimo populacional das comunidades, ele me disse
aquilo que eu apenas suspeitava, mas que nunca tivera coragem de admitir
abertamente. Contou-me que, com o progressivo aumento das populações
de homens da terra nas regiões que os homens-pássaros habitam, os
números populacionais destes últimos tendiam a decair irremediavelmente,
e que tal processo é irreversível. Entristeci-me. Como podia ser?
Não haveriam os nossos, simplesmente, de migrar para outras terras,
estabelecendo-se em regiões menos inóspitas, onde pudessem perpetuar
a linhagem? Ele sorriu, ao me ouvir falar, e apenas balançou a cabeça.
Disse que, aonde quer que fossem os homens-pássaros, eles encontrariam
sempre os homens da terra, os quais já estão em toda parte,
segundo afirmou. “Mas podemos fugir para as alturas”, aventei, com
ingenuidade, e ele sorriu novamente. “Não viste” – perguntou
ele – “que agora escalam as montanhas, que aprendem a viver nas
alturas e que, valendo-se de suas máquinas, em breve dominarão por
completo os segredos do vôo?”
Essa
tem sido a situação dos homens-pássaros, e talvez por isso o seu
destino esteja selado. Como sobreviveremos quando os homens da terra
alcançarem os píncaros e o que faremos quando, com os seus aparelhos
e a sua engenhosidade, invadirem os céus que sempre pertenceram às
aves e à nossa espécie? Muitos, talvez numa tentativa de aliviar as
próprias angústias, insistem em crer que isso nunca acontecerá, mas
o fato é que os números correm contra nós. Várias de nossas cidades
têm sido abandonadas aos poucos, e diversos píncaros onde outrora
habitaram os voadores estão hoje desertos, entregues às neves e ao
silêncio. Devemos crer num futuro, ou é impróprio acreditar
que algum futuro aguarda aqueles que um dia foram senhores dos ares
e das lendas? E, caso exista, não será um futuro mesquinho, confinado
à estreiteza dos cumes – por mais amados –, onde nossas cidades
se comprimirão e, tornadas precárias devido à escassez de recursos
e à dificuldade de obter materiais e víveres, um dia se verão forçadas
a desaparecer?
Olho
pela janela do pináculo onde conto passar meus últimos dias e contemplo
lá adiante um horizonte que a cada vez nos pertence menos. Tomado pela
ansiedade, não posso senão voltar-me para o passado, mas sei que não
encontrarei nenhuma resposta. Adiante, uma nesga de sol insiste em se
alongar no horizonte, incendiando o poente como os estertores de um
borralho e lançando um brilho amarelado sobre os precipícios que se
elevam à minha volta. Um pensamento brinca em meu cérebro, como um
pássaro que não se decidisse a pousar sobre o galho de uma árvore.
Revejo nele a imagem dos jovens parados à beira do abismo, a asas brancas
a se recortar intensamente contra o azul. Uma brisa ligeira desalinha
os seus cabelos, imprimindo suaves estremecimentos às suas asas. Olho
mais uma vez e já não os vejo lá. Uma sombra difícil se derrama
no céu a partir do oeste. Dentro em pouco, a noite descerá, e talvez
o sono traga o esquecimento.
Dourados,
17/20-4-2007
|